O meu avô — pai da minha mãe — é uma das pessoas que mais admirei neste mundo. Um polacão sagaz e sentimental. Aprendi com ele a subir em ameixeiras, o que me rendeu uma das mais fantásticas fotos que tenho de minha infância. Ele adorava todos os netos, e todo mundo viva grudado no pescoço dele.
Ninguém ficava indiferente com suas traquinagens. Ele era poliglota, falava dialetos longíqüos, direto dos neologismos que perfeitamente assimilam-se com algum idioma que já se tenha falado em algum lugar da Terra. Assim mesmo, inventava palavras e dava uma risada gostosa, com cara de malandragem mesmo. Misturava seu polaquês puxado em italiano e com um pouquinho da engasgação alemã. Foi combatente da segunda guerra. Apesar do avião dele nunca ter saído do brasil para o front de batalha. Detalhes.
O homem daria inveja ao professor Pardal: sabia consertar rádio velho valvulado. Sabia consertar rádio novo transistorizado. Sabia consertar disc-man, guarda-chuva, televisão, radiola, aspirador, video-cassete, microondas, motor de carro velho e brinquedos.
Mas o mimo de suas peripécias era a fabricação de violinos. São verdadeiras obras de arte!
Ele era um luthier. Acho que nunca soube desse titulo, uma pena. Seria algo a mais para ele contar.
Esculpia cravilhas, afinava a madeira pela batida dos nós dos dedos. Trabalhava com paciência em cada peça. Dedicava toda sua arte aos instrumentos. E sabia tocar. Lançava sonoras valsinhas polonesas, clássicos de cordas. Tudo em um impecável instrumento.
Gosto muito dele. Ele sabia o que era ser companheiro. E seus amigos gostavam muito dele. Ele era muito amado.
O meu avô era maravilhoso.

Final de semana estive com meu avô materno. Como sempre foi um momento muito bom, apesar do problema de saúde que o acomedeu. A gente conversou pouco dessa vez. Hora que nos despedimos, pedi a bença, uma coisa que quase nunca fiz na vida, bem comum na vida dele.
“Deus te abençoe, meu filho.”
“Cuide-se, vô!”
“Pode deixar.”
Aí descobri, bem naquele momento em que saí pela porta do quarto do hospital, que nem todas as despedidas precisam ser tristes. Mesmo as definitivas.
Hoje meu avô faleceu.

Fiquei triste, é verdade. Mas sorri ao relembrar as peripécias que aprontávamos juntos. Ele era um homem bom, simpático e, apesar da imensa tristeza do momento, sorri ao lembrar dele. Chorar em um momento como esse seria injusto com o homem alegre que ele foi.
O mundo é uma bela escola que nos ensina muito. Eu já sabia que ele iria partir. Aquele quadro clínico dele, no hospital era desanimador. Mas, mesmo assim, ele vinha com as suas, para cima dos médicos: “Como está hoje, José?” “Bem melhor!”
Fica a belíssima lembrança e a sensação de felicidade por todos os anos que convivemos juntos e por ter sido um avô tão incrível para mim.




outubro 24th, 2007 at 9:05 pm
Meus sentimentos….
outubro 24th, 2007 at 10:00 pm
Do pouquinho que conheci desta figura fantástica, posso dizer que ele faz parte das doces lembranças de uma das melhores fases da minha vida!
Que o céu o receba com um baita sorriso. Do tamanho daquele coração gigante.
outubro 25th, 2007 at 9:06 pm
Cara, fico triste e fiquei arrepiado lendo o texto.
Me fez lembrar de meus avôs, também falecidos, um que me deixou o amor ao futebol(não ao mesmo time, mas enfim).
Fico admirado por saber que você têm lembranças, boas lembranças dele. É isso que nos faz sorrir ao lembrar da bela pessoa que nos ensinou a subir em ameixeiras e a gostar de futebol.
Os sinceros sentimentos de um grande admirador.
fique em paz e com o lindo sorriso dele gravado atrás de seus olhos.
outubro 25th, 2007 at 9:08 pm
minhas condolências ralph…
outubro 26th, 2007 at 9:37 am
Post emocionante cara… Não tenho mais a dizer.
outubro 27th, 2007 at 10:02 am
Putz, Ralph… meus sentimentos…
outubro 27th, 2007 at 10:16 am
Parabéns, Filhão. Este texto arrepia não só os leitores deste espaço. Arrepiou D.Itália, filhos, netos, demais parentes, os muitos amigos presentes à cerimônia de despedida, pela voz destemida e emocionada do Anania. O José Mariano está a nos contemplar com seus olhos azuis e seu sorriso aberto, amigo e franco. Obrigado!
novembro 3rd, 2007 at 9:08 pm
Grande menino, neto e amigo do nosso José! Lindo texto, sem comentários… Digno de um neto amado.
Causou grande emoção, choro e arrepios. Grandes comentários pelos presentes até hoje são feitos.
Obrigada pelo grande carinho.