Não, não era a vida imitando a arte ou a arte insinuando-se para sempre na minha infância. (E antes que você pergunte: minha infância durou até os 13 anos. Adolescência, dos 13 aos 14. Dos 14 em diante virei adulto.) E a vida, meu caro, simplesmente agiu como agiu, para lembrar de uma forma sazonal que eu perderia amigos de forma constante e ambígua. Para sempre.
Um que lembro: Playmobil era o nome dele. Guilherme, apelido. Coisa assim. Ruivinho sardento, nove anos de idade, olhos esbugalhados e azuis. Gostava de me seguir com uma monarque de placa de corrida. Daquela cabeça recoberta por uma peruca dos bonequinhos que o apelidara, saíam notas e pérolas verborrágicas que até hoje me arrancam um sorriso de canto de boca. Banana à muzzarela, por exemplo. O nanico gostava. Circo-circuito nos fuzílo. Biscleta. Mijão, o gato com incontinência urinária. Era dele.
Lembro-me claramente do dia em que ele estava confuso e inquieto. Iria mudar de cidade, para a capital. Perguntei se ele voltaria, ele deu certeza. Iriam de lotação qualquer para a rodoviária e de lá para longe. Pegaram as malas foram até o ponto da esquina. A lotação era a lenta da meia em meia hora, tempo necessário em que eu via nos olhos da mãe do pleimobiu algumas verdades incontestáveis: “A gente volta né mãe?” “Claro filho.” E o olhar estava mentindo! Que coisa!
A lotação chegou, embarcaram e o destino, assoviando, levou um amigo embora. Não foi o primeiro, muito menos será o último. Muitos amigos perdi e outros tantos irão para a cucuia.
Do Playmobil restou um expólio interessante: Mijão — o gato cinza escuro — de pelagem sedosa escura, olhos azuis e incontinente (que fugiu 4 dias depois atrás de gatas no cio); uma motinho branca com o tanque verde, dos playmobils; um cano velho e torto, de cobre, esverdeado nas pontas. Ele gostava do cano e nunca soube o real motivo. Talvez porque fossem verde as pontas.
E a lembrança de tudo isso que é a única coisa que sobrou.

