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Arquivos do ano de 2007
Uma nota mental.
3 de setembro de 2007
Ao relembrar as experiências transcritas aqui, acredito que algumas pessoas simplesmente não acreditarão que uma criança de onze, doze, treze ou quatorze anos possa ter sentimentos dessa maneira. Possa ter vivido intensamente como descrevo em palavras.
Não é para essas pessoas que este weblog existe.
Este weblog existe para as pessoas que compreendem que os sentimentos de uma adolescência podem — e muito — mudar um caráter. Os sentimentos de um jovem moldam a espiritualidade e a vivência de todo um adulto.
E eu acredito que muitas dessas experiências vividas foram, sem sombras de dúvidas, muito intensas e marcaram para sempre a vida de um certo Rodolfo qualquer coisa.
KOMBI
2 de setembro de 2007
Lembram da Kombi do Zé, aquela que só levava muié? Pois bem, hoje mais uma pérola da internet me surpreendeu: a Kombi 69, que era um adorno gráfico do meu antigo blog, apareceu na capa do UOL (mirror no link ao lado, na imagem). Ualah! Ipsis literis, não apagaram nem a placa. O site que a divulga é o Icarros.

O ápice, até então, aconteceu tempos atrás no site da agência de publicidade Fischer América (arraste o dial até contato, ou clique aqui para ver um shot): como na animação do Citröen C4, a kombi virou um robô pernalto com asinhas e difusoras, asas e faróis pispiscantes.
Bléh.
Saber amar
31 de agosto de 2007
Meu professor de geografia era completamente doido e isso prova uma das razões das quais adoro a geografia. O mais legal, porém, foi o dia em que ele decidiu levar as três turmas da sétima série para conhecer algumas formações geológicas de um parque espeológico qualquer.
Cheguei atrasado. A viagem estava marcada para 03h00 da madrugada e é óbvio que eu não consegui acordar antes. Droga, era uma viagem muito boa e cheguei no momento em que o primeiro e segundo ônibus partiam!
Consegui parar o último. E é óbvio que o último ônibus era o ônibus de uma das outras duas turmas. Senti-me deslocado de tudo e de todos. Andei pelo corredor, todo mundo conversava e ria e eu ali, isolado do meu habitat natural, da turma do fundão que sempre comandava a bagunça desmedida em viagens e afins.
“Oi Rena do Papai Noel, senta comigo!” Era Mariela, uma das garotas das bicicletadas abaixo. Salvou minha viagem naquele momento. Rena do Papai Noel, a do nariz vermelho, homônimo.
Mariela nascera na Alemanha. Seus pais viajaram à trabalho e a volta ao Brasil atrasou, o que fez daquela garota uma alemã nata. Ela era relativamente mais alta que as outras garotas, ombros de nadadora, corpo delineado e acima de tudo, muito bonita.
Conversamos a viagem inteira. Todos ali no ônibus adormeceram, o que nos deu privacidade para um longa e deliciosa conversa.
Abramos parêntese. Percebo hoje que em nossas bicicletadas eu sempre estava perto de Mariela. Compatilhamos minha barraca a maioria das vezes. E confesso que em algumas dessas vezes simplesmente eu fingia adormecer, apenas para observá-la dormir. A respiração dela era gostosa de ouvir, um ressonado leve, cos olhinhos que saltitavam rapidamente. Adorava aquilo. Fechemos o dito cujo.
E a escursão dos estudantes avoaçados chegou ao destino. Professor tagarelando, todo empolgado à frente e alguns estudantes que não davam a mínima atrás, saracoteando por estalactites e estalagmites. Alguns espeleólogos experientes nos acompanhavam, mostrando detalhes interessantes das formações. “Sigam-me, entraremos em um salão restrito”. E seguimos aquele guia. “Dentro deste salão existe um silêncio e uma escuridão absoluta” E era mesmo. Ele pediu para que todos apagassem as luzes e se mantivessem quietos para perceber a intensidade do momento.
Apagamos as luzes e ficamos quietos de verdade.
Mariela aproximou-se de mim, apagou a lanterna e me abraçou, meio de lado. As luzes se apagaram, como uma cidade que se prepara para dormir e o silêncio e a escuridão tomaram uma forma majestosa. Mariela moveu-se para minha frente, ainda abraçada. subiu sua mão por minhas costas e me apertou em um abraço novo e inusitado.
Senti sua respiração a milímetros do meu rosto. E ela me beijou.
Um beijo delicioso, inusitado e até esperado demais. Eu percebia claramente seus lábios tremulando. Percebia que ela me abraçava com uma força e intensidade assustadora. Revidei, é claro, e a abracei forte.
Problema é que naquela escuridão e silêncio e intensidade, Mariela descompassou na hora de respirar e deu um breve e delicioso gemido. Foi uma complexidade de ruídos muito interessante: um estalido de beijo com expiração sem fôlego e meu uh! no contra-ponto. Tudo bem baixinho e rápido, é lógico, mas suficiente para que o salão inteiro, que até então se concentrava no incrivel som do silêncio, começassem a desordem caótica de ruídos e luzes.
O professor foi o primeiro a ligar a lanterna para ver o que estava acontecendo. todos ligaram e começou um bafafá danado para descobrir quem estava beijando quem. A cena foi deliciosamente apimentada porque ninguém sequer desconfiou dos beijoqueiros.
Saímos e, entre risadas e suposições, eu entreolhava Mariela. Ela estava extasiada e surpresa com o que acabara de acontecer. Passeamos de teleférico, andamos por trilhas e no final do dia já estávamos todos exaustos dentro do ônibus, pronto para voltar.
Meus amigos me esperavam dentro do primeiro ônibus, mas misteriosamente voltei com o terceiro, deslocado e desconhecido, da turma da Mariela. Sentamos lá no fundão. Conversamos alguns minutos. O ônibus estava novamente em um silêncio embalado por sonhos de estudantes cansados. Mariela recostou em mim e fechou os olhos: dormira a viagem inteira abraçada engalfinhada em meus braços.
E naquela noite me senti a pessoa mais completa e feliz do mundo.
Tempos depois namoramos. Não lembro ao certo de um pedido formal de namoro, apenas nos encontrávamos enamorados.
Minha segunda namorada, enfim.
Ao final do ano Mariela decidiu que estudaria todo o ensino médio em um colégio-cursinho preparatório na capital. E novamente me vi perdido. Mariela sabia que estudar na capital nos traria o desamparo de um namoro firme e sólido. Nos veríamos poucas vezes na semama, uma ou duas vezes, quem sabe. Mas ela estava decidida. “É Direito o que eu quero e você sabe que é concorrido”. Sim eu sabia. O meu amor era concorrente desleal.
Nosso namoro durou dois ou três meses. Víamos pouquíssimas vezes.
E invariavelmente nos tornamos perfeitos amigos, novamente.
Bicicletadas
30 de agosto de 2007
Morei por muito tempo em uma cidade cercada por horizontes infinitos, lugares belíssimos e encantos inexplorados. Muitos rios e cachoeiras característicos de uma exuberante mata nativa. A natureza, logicamente, sempre me atraíu para aventuras e desaventuras. Tive a companhia de bons amigos dispostos a loucuras e riscos, simplesmente para quebrar a rotina de uma cidade interiorana.
Minha adolescência foi marcada pela novidade de abertura de mercado: as indestrutíveis mountain bikes. Todos da turma se esforçaram e adquiriram exemplares robustos, suficientes para submergir em qualquer banhado ou lama. Programávamos trilhas de finais de semana e não tinha um santo sábado e domingo que não fosse pedalado em estradas poeirentas ou descidas de carreiros intrincheirados pelo meio da mata.
Foi nesse periodo que conheci algumas das pessoas que mais marcaram minha vida de adolescente. Pessoas especiais que tinham muito em comum umas às outras: divertidas, loucas e, acima de tudo, verdadeiros irmãos.
Nossas aventuras ciclísticas ficaram mais complexas e envolventes: em vez de trilhas de algumas horas, nossos roteiros estavam orçados em pernoites. E quase todo final de semana era bicicletada até algum ponto remoto, acampamento e bicicletada de retorno. Eram acampamentos perfeitos: riachos, pôr-do-sol envolvido por barracas em volta da fogueira. Violão choradinho e Murilo cantando músicas que atravessavam a noite.
Nossa turma era basicamente composta por seis rapazes e por cinco garotas que eram adoravelmente loucas como nós. E essa cumplicidade toda que reuníamos era entendível ao ponto de podermos dormir juntos em barracas, sem reservas ou constrangimentos. Aquelas noites frias em volta de fogueiras de fagulhas que pirilampeavam os céus eram intensas e o silêncio que nos permeava era constantemente quebrado por risadas e pela alegria de simplesmente estarmos juntos.
Lembro-me claramente que Murilo mostrava em cada acampamento uma letra nova de suas composições. Eram músicas inspiradas em amores, amizades e a pureza de nossos seres. “A beleza das estrelas do céu…”, “Festejar a alegria de se estar vivo…”, “Só há amor em meu coração…” Letras que cantávamos juntos, com pequenas fotocópias que ele nos preparava. Lembro muito bem que cada um ali tinha uma carracterística fundamental. Eu tinha sempre histórias mirabolantes que cuidadosamente resgatava das aventuras dos meus avôs. Algumas meninas adoravam cozinhar iguarias mateiras naquele fogo nosso. O Roberto era especialista em nos iludir com truques baratos de mágicas. Ricardo não fazia nada, era tímido e quieto. E mesmo assim todos adoravam ele! Aquela roda à volta da fogueira era perfeita. Tinham vezes que atravessávamos a noite, víamos o sol se pondo e o sol nascendo sem dar conta do tempo.
Era fantástico!
Em uma das raras vezes que tivemos problemas com nossa loucura: o dia em que o Ricardo inventou de cair em um barranco pedregoso. Era a volta de uma cachoeira, ainda tínhamos mais de trinta quilômetros para rodar. Ele era sempre o abre-trilha e acho que nunca teve freios naquela bicicleta. Ralou-se inteiro, estava com pequenos cortes e com a mão dolorida. “Estou bem!”, gritou lá de baixo. Mas hora que foi levantar, a perna pegou e ele hurrou de dor: havia fraturado alguma coisa ali. Desci eu e o Murilo, talas de emergência e muito soco das dores em nosso capacete. Coloquei-o na garupa da minha bicicleta, alforjes e a bicicleta dele empilhada nos outros.
Outro pequenino acidente ocorreu quando um galho inventou de atravessar minha perna ao lado do joelho. Fiquei com aquela ferpa, de ponta a ponta na pele, sem pegar musculo nem nada, apenas uma flechada incômoda e sangrenta. Foi engraçado no final.
A minha vida ganhou forma e consistência nesses anos de bicicletadas divertidas. Foram aventuras que jamais esquecerei. A companhia, a leveza do momento e as peripécias inusitadas ainda hão de virar muitas histórias.







