MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos do ano de 2007

Ao descobrir a verdade

11 de setembro de 2007

Descobri duas coisas importantíssimas em minha vida: o conceito de ser-humano não é tão subjetivo quanto imaginamos aos 16 anos e a vida é muito mais êfemera e delicada do que confortavelmente presumimos.

Apesar de parecer, minha vida não foi repleta de desgraças. O que acontece é que alguns fatos intensos criaram em mim divisores e quebraram teorias imaturas que preservei com louvor.

Sábado de um sabado situado em um mês qualquer. Era festinha de dança de vassoura e encontrei o Thiago bem na hora em que ele iria embora: “Rudy, vou nessa! Se cuida!” Sempre se despedia com um aperto de mão cruzado, shake-hands inglês com toda sua firmeza. E era um “se cuida” tão desprovido de preocupações que o tomei como exemplo em minha vida. “Cuide-se, viu?” troquei posições por capricho, mas o viu coloquei como enfâse de uma preocupação qualquer.

Thiago morava na fazenda com seus pais, distante algumas dezenas de quilômetros da área urbana.

Ele foi embora e eu aproveitei a deixa, à pé, conversando com Ariadne, uma garota atraente e que adorava a facilidade de caminhar em nossa pequena e pacata cidade.

Telefone tocou dia seguinte. Dona Margareth, mãe de Thiago, queria saber se ele dormiu na minha casa. A gente tinha esse costume de dormir na casa dos amigos, dependendo do estado etílico de cada um. “Não Dona Margareth, ele falou que ia embora para casa ontem…”

E Thiago não estava em casa de amigo algum. A cidade era pequena, fácil de se situar. Inicio de tarde e nenhuma noticia. A polícia foi contactada, bombeiros, amigos.

Suspeitaram da rota de retorno do Thiago. O acesso para sua fazenda passava por uma pequenina serra cheia de curvas para lá e para cá. Observaram, atentamente as redondezas. Depois de três horas de procuras, a constatação: aquele carro novinho, capotado, mato abaixo, em uma das curvas.

Não tinha marcas de freiadas, não tinha resquícios de colisões nem que rodara na pista. Thiago estava sem cinto, arremessado cerca de trinta metros do veículo.

Morreu na hora.

A “perícia” local dos oficiais e bombeiros concluiu que Thiago tentava tirar o moletom na hora do acidente. Soltou o cinto de segurança e a blusa simplesmente enroscou nele. Tudo isso a mais de 150Km/h. O moletom obstruiu tudo. E ele morreu.

No velório, seu irmão mais velho, inconsolado, encontrou-nos em estado de choque. Ele, mais que a gente. Olhava como quem pedia, desesperadamente, um milagre ou alguma coisa impossível. Queria nossa ajuda para algo que não existia solução.

Doeu muito.

Álbum: 7 de setembro de 2007

9 de setembro de 2007

Algumas fotos do desfile de 7 de setembro de 2007 em Brasília, com a presença americana do bigodudo do programa American Chopper e sua moto branca.

Veja as fotos aqui »

Existencialismo pessimista

6 de setembro de 2007

intransponibilidade

O dia em que perderia a vida

6 de setembro de 2007

Minha vida – assim como a de qualquer adolescente — era cheia de problemas, dúvidas, medos e desilusões. Eu vivia cercado de indefinições e algumas vezes senti que tudo estava complicado demais para tentar arrumar.

Para piorar as coisas caí de bicicleta e consegui a nobre proeza de dar perda total na infeliz. Eu andava como ou doido, muito rápido e errei uma tomada de curva. A roda da frente encavalou dentro de uma boca-de-lobo, a bicicleta ficou parada e eu continuei a trajetória, voando. Pousei todo errado, com as mãos e a cara diretamente em um asfalto sujo, áspero e duro. Ralei meu corpo inteiro, da cabeça aos pés. Esfoliação completa. Bati a cabeça de uma forma que me nocauteou no chão.

Creio que fiquei cerca de uns cinco a dez minutos ali, sem me mexer, tonto e perdido. Foi a primeira e única vez que desmaiei. Levantei lentamente, senti meu corpo ardendo. Meu capacete quebrou ao meio. Os cadernos e tranqueiras de escola estavam espalhados pela rua. A dor era insuportável. Olhei para minhas mãos e só podia ver sangue e a falta de pele.

A roda da frente da bicicleta havia quebrado em 3. A suspensão dianteira entortou as bengalas e vazou todo o óleo. Quebrei o quadro ao meio e a sapatilha arrancou um pedal.

No final das contas Eu passei uma semana horrível, sem dormir, sem poder me mexer, com lençóis que grudavam nos esfolados (que nao eram poucos) e com febre generalizada.

divisor

Depois do incidente ciclístico, fiquei uns dois ou três meses sem bicicleta. Nosso grupo de bicicletadas compadeceu da situação e resolvemos mudar o foco de nossos acampamentos. Agora eram boas caminhadas por serras e montanhas. Pequenas andanças que foram se extendendo naturalmente.

Resolvemos nos aventurar pela região serrana da mata atlântica. Nessa aventura as garotas decidiram não ir, Murilo ficou receoso das cartas topográficas e só eu e Ricardo seguimos em frente. Lembro-me claramente do dia em que fomos à capital comprar equipamentos para montanhismo. Mochilas novas, sapatilhas e botas, costuras, cordas e outras tralhas. Organizamos cartas topográficas, bússolas e informações da cadeia serrana. Iriamos atacar um pico pela crista leste, de acesso íngreme e sem trilhas demarcadas.

Chegamos ao local depois de cinco horas de viagem em um ônibus completamente podre e velho. Era inverno e apesar do ar seco e gelado, a vegetação serrana estava verde e exuberante. Andamos uns 5 kilômetros até o início do mapeamento e montamos acampamento. A carta era extremamente precisa e em pouco mais de seis horas de caminhada chegamos ao cume. Acampamos lá em cima e ficamos dois dias acompanhando a paisagem e a condição do tempo.

No último dia Ricardo descera alguns metros para averiguar um paredão e as condições de ancorar uma corda para rapel. Eu estava em cima de uma das pedras do cume, a maior delas. Era um paredão muito bonito (um big wall) de uns 300 metros de altura. Sempre gostei de chegar muito perto de bordas de penhascos e desfiladeiros, e dessa vez não foi diferente.

Mas parar em frente daquele abismo deu uma sensação diferente. Senti naquele momento que inclinar alguns centímetros para frente seria solucionar alguns problemas e complicações em minha vida que estavam realmente me atormentando. Era uma solução corajosa e interessante do ponto de vista problemático. E quanto mais eu pensava naquela solução, mais eu inclinava para frente. Era quase que um transe. Aquela sensação de liberdade, vôo e queda de um mundo estava me abraçando como se nada mais tivesse importância. E lá fui eu, inclinando mais e mais em câmera lenta. Não tinha mais volta. Tudo estava em outra sintonia, sons, imagens, cores e velocidades.

Ricardo me segurou pelo boudrier. Sabia que algo estava errado comigo. “Rudy, achei uma via grampeada para descermos!” Desmontamos acampamento e descemos pelas pedras, pendurados em cordas.

Ele sabia que eu ia pular naquele momento. Ficamos sem conversar quase a descida inteira. Chegamos no acampamento base e ele não aguentou: “Porque pularia ali?”

Até hoje não sei a resposta.

O anonimato literal

5 de setembro de 2007

Cheguei em casa para almoçar e em cima da minha cama uma carta pairava solícita. Letras redondas, bonitas e femininas. Não tinha remetente. Abri e o que encontrei escrito naquele papel cheiroso e de texturas leves mudou meu dia.

Era uma carta de amor.

E era anônima. De uma garota que dizia me conhecer muito bem, que adorava meu jeito e que eu não percebia esse amor que ela tinha por mim. Caramba, eu não percebia mesmo! Afinal eu nem idéia tinha de quem era! Estava me sentindo nas nuvens. Uma admiradora secreta, que tal!

Eram cartas diversas, uma ou duas por semana. Cores, nuances e novidades a cada nova leitura. Eu queria descobrir quem era a jovem. Ela escrevia coisas minhas que poucas pessoas conheciam. Sem dúvida ela me conhecia, ou alguém muito próximo dela me conhecia.

E assim eu reparava em todas as garotas à minha volta. Sempre esperando um sinal ou um pequenino blefe que a denunciasse. E me esforçava nisso. Até que em uma carta, o comentário: “Você olhou em meus olhos de uma maneira que não atirar em seus braços naquele momento foi ato extremo em minha vida.” E eu olhei todas as mulheres à minha volta. Foi como se eu não tivesso olhado para elas. Aquele anonimato estava me enlouquecendo.

Um mês depois e cartas e mais cartas. Estava começando a ficar bicudo com a indefinição da moça. Ela sabia tudo de mim e eu nada.

Quando a gente terminou
E não é que teve um dia em que chegou uma carta de envelope preto em minha casa? Era uma carta de texto frio e incisivo. Havíamos terminado. Olha só! Levei um fora de uma mulher que não sabia quem era. Terminei um relacionamento anônimo, por carta. Já havia terminado antes por telefone, por antecedência, cara-a-cara. Mas por carta?

Tudo bem, achava aquela mulher estranha demais para mim.

Luthierism

5 de setembro de 2007

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Ted Boy Marino

4 de setembro de 2007

Não é qualquer um que tem um autógrafo original:

ted boy marino
Habilidoso performer argentino, iniciou sua carreira lutando Telecatch. Com uma beleza estonteante para os padrões da época, tornou popular a figura do lutador boa-praça / mocinho. No fim da década de 70 passa a trabalhar no programa dos Trapalhões como dublê e figurante. Seu sotaque portenho e seu tapa de mão aberta eram inconfundíveis.

Mulheres, carros e desamores.

4 de setembro de 2007

Definitivamente deixei de ser adolescente quando ainda tinha meus quinze anos de idade. A cidade onde morei era pequena e tranquila. Isso nos dava uma liberdade de ação muito grande. Meus pais eram influentes e eu estudava com alguns filhos de militares e policiais locais, o que imunizava em muito nossas ações.

E uma dessas liberdades era dirigir.

Lembro-me claramente das tardes penosas lavando os automóveis do meu pai e da minha mãe, com direito à cera, polimento e outros mimos, apenas para dar uma ínfima volta na quadra, dirigindo sozinho. Aos treze anos Gianlucca ensinou-me a dirigir. Ele era mais velho, tinha 16 anos e dirigia tranquilamente pelas pacatas ruas locais. Aprendi rápido. E aprendi a guiar automóveis com possantes motores 3.1 litros. Trocas de marchas, arrancadas suaves e giro do motor oscilando perfeitamente. Meu pai sempre deixou eu passear de carro pelas redondezas e minhas andanças iam cada vez mais longe. Lembro-me o dia em que acompanhei meus pais até a concessionária local. Era a compra de um carro alemão, fruto da abertura do comércio exterior nacional. Sedã de luxo, injeção eletrônica e o mais interessante: microchipado com requintes de automóvel esportivo.

Tinha em minhas mãos um carro perfeito, cheio de segredos e traquitanas diversas. Eu passeava de carro todos os dias, e isso virou uma coisa banal e corriqueira para a minha familia. Giancarlo já tinha o próprio carro, Gianlucca usava o carro de minha mãe. Eu compartinhava o do meu pai.

O melhor de tudo era que meu pai trabalhava à algumas quadras de casa. E em um perfeito dia chuvoso, frio e muito cedo, acordei-o para me levar ao colégio. “Ah, filho, pega a chave e vai sozinho.” Não acreditava naquilo! E não pensei duas vezes: lá fui de carro para a aula. Alguns alunos do ensino médio já faziam isso, mas era o pessoal do segundo, terceiro ano. E a minha ida motorizada para a escola virou uma bela rotina: fizesse chuva, fizesse sol, lá ia eu de carro.

Essa mordomia rara e que até hoje não entendo, rendeu-me algumas regalias interessantes: Eu dava carona para quatro amigas, três delas garotas da nossa turma bicicleteira. Note que nenhuma morava perto da minha casa, eu apenas dava carona porque era belas companhias.

É claro que de vez em quando rolava algumas infantilidades: rachas, velocidades mortais e até derrapagens controladas. E hoje percebo que passei por alguns momentos tão idiotas que não sei como não morri. Eram mais de 150 cavalos de potência em minhas mãos. Aceleração estúpida “zero-a-cem” em apenas nove segundos. Duzentos por hora em pouco mais de 25 segundos. Do conforto à ignorância quase que instantaneamente.

Eu sempre dava carona à Patrícia e Priscila, duas irmãs. Patricia estudava comigo e era da turma. Priscila, a irmã mais velha, estudava com Gianlucca, meu irmão do meio, e tinha uma leve queda por ele. “Ei Rudy! Festa la em casa, o que acha de ir com seu irmão? Ele não está muito afim…” Há! Priscila o convidara, mas ele não fez muita questão de comparecer. “Claro Priscila, eu vou e levo ele junto.”

Consegui convencer Gianlucca. Festinha americana clássica: meninos levam refrigerantes (álcool, por supuesto) e as meninas, comidas gerais (bolos e salgados). Cheguei com um refrigerante barato e colorido, Gianlucca com uma garrafa de uísque. Só tinha gente da turma dele, pessoas que eu me dava bem mas que tinham uma filosofia muito liberal. Fiquei perambulando pela festa. “Ei Priscila, onde está a Patrícia?” Patrícia era a única mulher que eu conhecia ali. E ela não estava. Meninos de um lado se embebedando, meninas fofocando do outro. Decidi ir embora da festa quando as luzes baixaram, o som aumentou e Bonnye Tyler lançou o tenebroso e melancólico “Turn Around…”

Pronto, era a deixa. Aquela música me deixaria deprimido o resto da semana. Priscila gostava do meu irmão. Gianlucca era apaixonado por ela. Mas tanto ele quanto ela não sabiam disso! Na hora da música ele estava inacessível. Era uma rodinha de shots de uísque. Pareciam hunos gritando e cantando, alheios ao que estava acontecendo à volta. Alguns casais começaram a dançar. Priscila pegou-me na saída. “Dança essa música comigo?”

É claro que não recusaria. Priscila era bonita, magra, alta e tinha uma voz estonteante. Dançamos ao clássico estilo música-lenta: mulher com os braços em volta do pescoço do homem. Homem com os braços na cintura da mulher. Rostos perigosamente próximos e passo lento um-prá-cá-um-pra-lá. Não deu outra: ela me fuzilou com um olhar estonteante. Não consegui desviar daqueles olhos verdes por um segundo. Nossos corpos encostaram-se, Não sei se por magnetismo ou vontade própria. Senti meus lábios à milímetros dos lábios dela.

E nos beijamos.

Um beijo lento e carregado de paixão e vontade. Acabou Bonnye Tyler, tocou outra música lenta. E outra, e outra. Nos beijamos por quase uma hora! Saímos do ambiente e fomos passear nas redondezas. Problema que o carro não estava mais ali na frente de casa. Surtei, pensei em tudo, menos no óbvio ululante: Gianlucca viu eu e Priscila.

Perguntei para um dos amigos dele, confirmaram que ele saíra muito nervoso e bravo.

Conversei quase a noite inteira com Priscila, ela tinha um sorriso delicioso quando eu contava histórias doidas, surpreendia-se a cada verdade que eu abria ali. Beijamo-nos por algum tempo. Tudo estava deliciosamente estranho, e estranho a tal ponto de Priscila me pedir em namoro naquele momento. Muito rápido, muito eficaz.

Voltei à pé da casa de Priscila, sozinho. Pensei em inúmeras desculpas para Gianlucca. Afinal de contas eu o traíra. Mas não tinha desculpa o que fiz. Acabava de roubar a garota que ele falava em namorar há tempos. Eu estava muito feliz e muito triste. Extremos, novamente. Remorso e paixão me corroíam por dentro.

Cheguei em casa, ele já estava dormindo. Fiquei com receio de acordá-lo para conversar e fui dormir.

Levantei muito cedo, era sábado, santo dia para mais um passeio de bicicleta com meus amigos. Voltei domingo à noite, ele saíra jogar basquete. Encontramo-nos apenas no intervalo de aula de segunda-feira. Confesso que eu estava com medo do que poderia acontecer. Gianlucca pegou-me pelo braço. Estava visivelmente alterado: “Porra cara, você está namorando a minha namorada!” e empurrou-me com as mãos. Não reagi, não respondi nada. Apenas fiz um sinal afirmativo com a cabeça e a sombrancelha esquerda. Ele entendeu. virou-se e foi embora. Priscila estava longe, veio correndo saber o que aconteceu.

Naquela manhã meu relacionamento com Gianlucca morreu. Ele não conversou comigo por longos meses. Namorei Priscila, uma garota mais velha e muito interessante. Ela tinha ideais definidos e uma mente brilhante. conversávamos muito, beijávamos muito. Era um relacionamento ideal e sem problemas.

No final do ano minha sina desgracenta se repetiu: Priscila iria para a capital estudar o terceiro ano, preparar-se para o vestibular. Eu não acreditei naquilo! Minha terceira namorada, meu terceiro namoro terminado de uma forma violenta e exata do mesmo jeito dos outros!

Obviamente que não deu certo o namoro daquele ponto em diante. Priscila dedicou sua vida aos estudos aquele ano. Terminamos o relacionamento de uma maneira fria e sem sentimentos. Por telefone. Cretino e por telefone.

Voltei a conversar com Gianlucca, mas percebi que aquela ferida no coração do meu irmão ainda doía ao me ver.