MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos do ano de 2007

Quando as coisas fogem do controle

24 de outubro de 2007

O meu avô — pai da minha mãe — é uma das pessoas que mais admirei neste mundo. Um polacão sagaz e sentimental. Aprendi com ele a subir em ameixeiras, o que me rendeu uma das mais fantásticas fotos que tenho de minha infância. Ele adorava todos os netos, e todo mundo viva grudado no pescoço dele.

Ninguém ficava indiferente com suas traquinagens. Ele era poliglota, falava dialetos longíqüos, direto dos neologismos que perfeitamente assimilam-se com algum idioma que já se tenha falado em algum lugar da Terra. Assim mesmo, inventava palavras e dava uma risada gostosa, com cara de malandragem mesmo. Misturava seu polaquês puxado em italiano e com um pouquinho da engasgação alemã. Foi combatente da segunda guerra. Apesar do avião dele nunca ter saído do brasil para o front de batalha. Detalhes.

O homem daria inveja ao professor Pardal: sabia consertar rádio velho valvulado. Sabia consertar rádio novo transistorizado. Sabia consertar disc-man, guarda-chuva, televisão, radiola, aspirador, video-cassete, microondas, motor de carro velho e brinquedos.

Mas o mimo de suas peripécias era a fabricação de violinos. São verdadeiras obras de arte!

Ele era um luthier. Acho que nunca soube desse titulo, uma pena. Seria algo a mais para ele contar.

Esculpia cravilhas, afinava a madeira pela batida dos nós dos dedos. Trabalhava com paciência em cada peça. Dedicava toda sua arte aos instrumentos. E sabia tocar. Lançava sonoras valsinhas polonesas, clássicos de cordas. Tudo em um impecável instrumento.

Gosto muito dele. Ele sabia o que era ser companheiro. E seus amigos gostavam muito dele. Ele era muito amado.

O meu avô era maravilhoso.

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Final de semana estive com meu avô materno. Como sempre foi um momento muito bom, apesar do problema de saúde que o acomedeu. A gente conversou pouco dessa vez. Hora que nos despedimos, pedi a bença, uma coisa que quase nunca fiz na vida, bem comum na vida dele.

“Deus te abençoe, meu filho.”

“Cuide-se, vô!”

“Pode deixar.”

Aí descobri, bem naquele momento em que saí pela porta do quarto do hospital, que nem todas as despedidas precisam ser tristes. Mesmo as definitivas.

Hoje meu avô faleceu.

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Fiquei triste, é verdade. Mas sorri ao relembrar as peripécias que aprontávamos juntos. Ele era um homem bom, simpático e, apesar da imensa tristeza do momento, sorri ao lembrar dele. Chorar em um momento como esse seria injusto com o homem alegre que ele foi.

O mundo é uma bela escola que nos ensina muito. Eu já sabia que ele iria partir. Aquele quadro clínico dele, no hospital era desanimador. Mas, mesmo assim, ele vinha com as suas, para cima dos médicos: “Como está hoje, José?” “Bem melhor!”

Fica a belíssima lembrança e a sensação de felicidade por todos os anos que convivemos juntos e por ter sido um avô tão incrível para mim.

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Até mais, velho.

O macaco-bigodeiro do terno tuxedo Gióia Puppeta

24 de outubro de 2007

o macaco-bigodeiro do tuxedo Gioia Pupetta
O Macaco-bigodeiro” (Saguinus imperator — Goeldi, 1907) é um miquinho fedorento e mal-agradecido. Famoso meio-quilo, pequenino, de corpo esguio e rápido, pelagem espessa, seu maior atrativo visual é o imenso bigodão-de-arame que ostenta como um baronete vivaz.

Seu cacoete irritante é alisar — em uma frenesi tremética — seu bigode com as mãozinhas pretas, tal e qual uma mulher que recém chapeou seus cachos cabelosos.

Migratório para a grande capital federal, o macaco-bigodeiro sente-se atraído pelo “eldorado salarial”, ignorando quaisquer choques culturais, climáticos e organizacionais. Chegam no oba-oba. Reclamam. E como reclamam! É o valor fora-da-realidade das moradias, da seca, do calor, da lonjura, da falta de nomes nas ruas, da falta das esquinas, de gente feia.

Mostram os dentinhos serrilhados na menor presença de ameaça à terra natal. Tentam gentileza e percebem sutileza. Descobrem que não existem empregos decentes que não rocem a barriga na servidão pública.

O Guaximim da casaca Schimidt Nöllen

23 de outubro de 2007

o guaxinim de casaca inglesa
O guaxinim (Procyon cancryvorus) ou mão-pelada tem corpo brevilíneo e cônico, com a extremidade de cima mais fina que o resto. Tem umas mãos bem pequenas e uns dedinhos nojentos com umas unhas roídas. Olheiras entristecidas compõem a retórica pessimista. Fuma excessivamente, segundo seu Orkut.

Tentou diversas vezes passar no Instituto Rio Branco, mas reprovou nas seletivas.

Boquinha-livre da embaixada germânica, no Setor de Embaixadas Sul: Diz-se um “Diplomaten” ao entrar apressado; fica em um canto obscuro segurando as guloseimas com as duas mãos. Morde sem tirar os olhos do ambiente. Come rápido e desconfiado, esgalamido que é. A cabeça não pára.

Permanece num estado de excitação constante, dançando nuns pulinhos rápidos ao som da banda, mas sem largar a comida. Não fala com ninguém e vai de instantes em instantes à mesa de acepipes, sem parar de dançar. Ri sozinho, como um pateta.

Suricata do terno Humphrey Holtz

22 de outubro de 2007

O suricata de Humphrey Holtz
O Suricata (Suricata suricatta) é esguio demais para o Costume de Cambraia Oxford. A gola fica frouxa mesmo com o Windsor na gravata apertada. A barba é mal-feita e serronada. Tem um cabelo pouco e desgrenhado em cima da cabeça que é frouxa e quadrangular. Usa uns óculos de aros finos do mesmo formato do esfenóide.

Olha rapidamente pros dois lados e atravessa a esplanada ligeiro, com os passinhos apertados e segurando a gravata com a mão. A gáspea do sapato empoeirece no primeiro quarto de passadas, avermelhando todo o conjunto, com um talco de terra que não vê chuva.

O corpo é frágil: se um carro pegasse, partiria ao meio. Entra na repartição surgindo e desaparecendo constantemente, nunca pára. Fala pouco mas gesticula muito. É medroso. Almoça marmitas de três pilas, vendida na porta do anexo.

Embaixo do altar, presumo eu.

18 de outubro de 2007

yeap!

Álbum: fotogramacro

18 de outubro de 2007

A vida em uma florada de butiás, uma pequenina palmeira (Butia Capitata) de frutos amarelados.

Veja as fotos aqui »

Rafting em Tibagi – 2003

10 de outubro de 2007

rafting-tibagi.jpg

A Telefunken dos olhos amendoados

10 de outubro de 2007

Eu preciso de um pouquinho de paciência. Da sua paciência, para ser bem exato. Preciso que você se acomode, relaxe e se acostume. Sossegue sua alma, sua busca frenética por algo que nem você sabe direito o que é.

Aliene-se.

Quero que você aceite essa bela reprentação de época, bem em seu focinho.

Com a prática tudo fica mais fácil: aceitar a não-ficção da realidade bestial? Pôxa vida, que tranquilidade! Seus pais jamais reclamaram quando o cinzento dos antigos televisores imperava; estavam maravilhados demais com o que tinham, jamais julgavam possível um arco-íris eletrônico.

Agora as caixetas plásmicas teimam em capturar as paisagens, pintam com pincéizinhos colorizantes e embrulham em diversificadas estações para um belo motivo: acalmar você, que, por obséquio, deveria estar acomodado lá na poltrona do papai, semi-babante.

Acalme-se. Acabe por se iludir e considere que essa atual sofisticação de revolução visual como sua própria realidade fielmente transportada.

Ao menos esta convicção fará com que você interrompa este intrépido viver e deixe intacto um bom pedaço de mundo para os que colhem a realidade com retinas de carne. Leve as plásticas flores artificiais achando que colheu genuínos jasmins do campo, perfumados, perfeitos.

Mesmo porque cada flor real colhida do nosso jardim secreto, cheiroso e verdadeiro é um televisor a mais no mundo.

Desligado, é claro.