Chiaffredo Cippa Lippa Vacastelli era um italiano carcamano muito inteligente. Bonachão, adorava salchichas de todos os tamanhos, modelos e índoles. Sempre degustava rodelas de salaminhos chourizzos crus, os clássicos calibres 40, curtidos apenas em raízes diversas. Adorava as morcelhas gordurentas, apelidadas por ele de murxilhas. Lambusava-se de mostarda escura ao devorar wienerwurst. Abusava até da sobriedade galante ao mordiscar tirinhas de salsiccias napolitanas (escondidas no bolso do fraque) em valsas no baile dos veteranos.
E isso era uma coisa que incomodava Chiaffredo. Sempre que devorava tirinhas de salsiccias, seus dedos se engorduravam. E não havia outra escapatória senão limpar os dedos catinguentos e besuntados nas costas do vestido da dona Abbondanzia, uma coróla de costas largas e braçuda-polenteira que sempre valsaveava com o velho pelo salão.
É claro que ele se sentia culpado por ver a pobre Abbondanzia gastar suas minguadas liras em saponáceos desengraxantes. Decidiu fabricar uma versão de menor calibre das salsiccias que adorava trafegar em seus bolsos. Arquitetou toda a receita, remexendo proporções e testaviando a condimentação. Foram meses confinados na pequenina fiambreria de fundo de quintal, auxiliado pelo algoz magarefe do açougue do Gennaro.
Chiaffedo criara o Salameto Trançado Culebra. Uma obra-prima finamente inspirada nos exóticos e raros charutos cubanos culebra. Abriu uma fabriqueta muito movimentada: Salames, Salsiccias e Fiambreria Vacastela. E a fabriqueta tinha produção exclusiva e única dos trançados. Sem variações, sem produtos alternativos. E era sempre o mesmo sucesso.

A sociedade local de Palermo mudou muito depois da “reinvenção do salami” como um jornaléco local noticiou. Chiaffredo não mais sujava as vestes de Abbondanzia; Abbondanzia não gastava mais em saponáceos desengraxantes; o magarefe do açougue do Gennaro tornou-se chefe de produção. O Próprio Gennaro contratou 4 carneadores a mais!
E os tablóides sensacionalistas engordaram os cofres ao descobrir os passos de fabricação da escandalizzacione salsichiatta!
Chiaffredo, o azzogueiro fatali — como ficou conhecido — utilizava-se de ingredientes e metodologias de fabricação dos salametos que deixaram a azzura nacionalista embasbacada: tripinhas de preás parmos, para ensacar de forma fina e precisa o conteúdo; carnes bovinas, caprinas, suínas, eqüinas (incluindo miolos desmiolados) maturadas em um misto de sangue de marreco com sangue de pequerruchos bambinos. O velho sangüinário trocava salametos por uma bombeadinha do sangue das crianças para vidrinhos numerados. Era pouquinha coisa, menos de 200ml, mas que já aditivava a receita sem escassez. E olha que os bambinos nem reclamavam mais das picadas venais! Outras escabrozidades menores nem repercuritam tanto quanto o uso do sangue infantil, mas que mereceram notinhas repudiantes: Asinhas de barejeiras verdes, falangetas amaciadas de galináceos, gotinhas de veneno de cobras víboras que retardavam a coagulação — e a fermentação dissecante — do sangue ensalamado; uma pitadinha minúscula de cianureto para amortecer a língua. Um tablóide sensacionalista até reportou a nano-dosagem de ácidos lisérgico, o que nunca fôra provado.
O velho Chiaffredo passou o resto da vida preso. Viveu na Penintenciaria Agrícola de Galleazzo, como chef de cuisine e mestre fiambreiro dos presídios regionais. E nunca mais se ouviu falar na fabriqueta Vacastela.




