MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos do ano de 2007

Como o velho Chianffredo fez

10 de julho de 2007

Chiaffredo Cippa Lippa Vacastelli era um italiano carcamano muito inteligente. Bonachão, adorava salchichas de todos os tamanhos, modelos e índoles. Sempre degustava rodelas de salaminhos chourizzos crus, os clássicos calibres 40, curtidos apenas em raízes diversas. Adorava as morcelhas gordurentas, apelidadas por ele de murxilhas. Lambusava-se de mostarda escura ao devorar wienerwurst. Abusava até da sobriedade galante ao mordiscar tirinhas de salsiccias napolitanas (escondidas no bolso do fraque) em valsas no baile dos veteranos.

E isso era uma coisa que incomodava Chiaffredo. Sempre que devorava tirinhas de salsiccias, seus dedos se engorduravam. E não havia outra escapatória senão limpar os dedos catinguentos e besuntados nas costas do vestido da dona Abbondanzia, uma coróla de costas largas e braçuda-polenteira que sempre valsaveava com o velho pelo salão.

É claro que ele se sentia culpado por ver a pobre Abbondanzia gastar suas minguadas liras em saponáceos desengraxantes. Decidiu fabricar uma versão de menor calibre das salsiccias que adorava trafegar em seus bolsos. Arquitetou toda a receita, remexendo proporções e testaviando a condimentação. Foram meses confinados na pequenina fiambreria de fundo de quintal, auxiliado pelo algoz magarefe do açougue do Gennaro.

Chiaffedo criara o Salameto Trançado Culebra. Uma obra-prima finamente inspirada nos exóticos e raros charutos cubanos culebra. Abriu uma fabriqueta muito movimentada: Salames, Salsiccias e Fiambreria Vacastela. E a fabriqueta tinha produção exclusiva e única dos trançados. Sem variações, sem produtos alternativos. E era sempre o mesmo sucesso.

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A sociedade local de Palermo mudou muito depois da “reinvenção do salami” como um jornaléco local noticiou. Chiaffredo não mais sujava as vestes de Abbondanzia; Abbondanzia não gastava mais em saponáceos desengraxantes; o magarefe do açougue do Gennaro tornou-se chefe de produção. O Próprio Gennaro contratou 4 carneadores a mais!

E os tablóides sensacionalistas engordaram os cofres ao descobrir os passos de fabricação da escandalizzacione salsichiatta!

Chiaffredo, o azzogueiro fatali — como ficou conhecido — utilizava-se de ingredientes e metodologias de fabricação dos salametos que deixaram a azzura nacionalista embasbacada: tripinhas de preás parmos, para ensacar de forma fina e precisa o conteúdo; carnes bovinas, caprinas, suínas, eqüinas (incluindo miolos desmiolados) maturadas em um misto de sangue de marreco com sangue de pequerruchos bambinos. O velho sangüinário trocava salametos por uma bombeadinha do sangue das crianças para vidrinhos numerados. Era pouquinha coisa, menos de 200ml, mas que já aditivava a receita sem escassez. E olha que os bambinos nem reclamavam mais das picadas venais! Outras escabrozidades menores nem repercuritam tanto quanto o uso do sangue infantil, mas que mereceram notinhas repudiantes: Asinhas de barejeiras verdes, falangetas amaciadas de galináceos, gotinhas de veneno de cobras víboras que retardavam a coagulação — e a fermentação dissecante — do sangue ensalamado; uma pitadinha minúscula de cianureto para amortecer a língua. Um tablóide sensacionalista até reportou a nano-dosagem de ácidos lisérgico, o que nunca fôra provado.

O velho Chiaffredo passou o resto da vida preso. Viveu na Penintenciaria Agrícola de Galleazzo, como chef de cuisine e mestre fiambreiro dos presídios regionais. E nunca mais se ouviu falar na fabriqueta Vacastela.

Engodo

10 de julho de 2007

trabalho_2.jpgA razão da fotografia é o engodo. A verdade fotográfica é a falácia da irrealidade composta em uma qualificação plana e destituída.

A razão da fotografia é a obliteração inversa da simplicidade momentãnea: quanto mais beleza incontida no retrato, maior a distorção vivencial de carga.

Fotografia é um monumento velhaco: uma estagnação de sonhos que lambreca com uma doçura quase difamatória o eterno tactear dos monumentais mesóginos que permeiam o bom entendimento.

Fotografia é arte desprezível, é sorte. Fotografia é a degradação do memento mori, é a banalização do momento tal.

Nada mais, nada menos.

O segredo da felicidade

10 de julho de 2007

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Contos do ICQ

9 de julho de 2007

Dia desses avisaram: aquele cara que você doou sangue, morreu. “Doei duas vezes!” pensei com meus borbotões. Eu tinha um pinguinho de responsabilidade sobre ele. Um pouco de nada, mas ao mesmo tempo uma escusa de tudo.

ICQ véio de guerra

Tudo começou quando apareceu uma mulher desconhecida no ICQ, ainda no século passado. (Lembra que os desconhecidos eram apenas um número milionário, que apareciam piscando na mini-tela do icq? Pois então.) Ela era brasileira mas morava no Japão com o marido.

Aqui eram duas da tarde, lá duas da madrugada de amanhã.

Ela se apresentou, conversamos bastante sobre muitas coisas. Ela procurava um velho amigo que, segundo ela, morava na mesma cidade que eu. Ela me adicionou por um refinamento de pesquisas por cidades que o próprio programa permitia acessar. Ajudei-a: achei o nome do rapaz na lista telefônica impressa e passei para ela.

No outro dia ela apareceu no mesmo horário, dia aqui noite acolá. Feliz da vida, tinha conversado com um cara que havia dois ou três anos perdido contato.

Ela mostrou-me fotos do Japão, contou-me aventuras e desaventuras, falou com empolgação de quando conseguiu comprar uma picape lá na terra do sol. Ela era muito inteligente. Rápida, culta e encantadora.

Lobo em pele de cordeiro

Contou-me o porquê de reavivar a amizade antiga: eram amantes virtuais. Amantes virtuais das finadas redes BBS, o que os tornariam os primeiros amantes virtuais de que se tem notícia.

A cada dia que se passava, mais eu descobria segredos dela. Aquela janelinha do icq operava um desbunde de verdades-vivenciais que até eu me assustava. ela relatava desejos, falava das conversas com o rapaz da minha cidade, o descaso do marido, os yenes gastos em cartões para celulares 3g que eu nem tinha ideia do que era.

Uma mulher dinâmica demais. Passional, doidinha.

Problema que eu era gentil demais com ela na internet. Ela acabou se apaixonando por mim, o que me assustou de um jeito que eu parecia ter visto um esprito. Morava com o marido no Japão, reatara a comunicação com o amante virtual que ela sequer tinha visto uma foto dele (e vice-versa) e apaixonada por mim.

Ela contou-me que o carinha da minha cidade estava desempregado. Ele tinha conhecimentos específicos justamente da nova área que a empresa que eu trabalhava precisava.

Então uam sucessão de fatos doidos aconteceram: Consegui empregar ele em um tempo recorde de 3 dias. Ele me conheceu, eu o conheci. Ele era muito aquém daquele herói grego que ela me descrevia. (E ela descrevia sem sequer saber se ele era loiro ou moreno) Ele passou uma ficha minha, sei lá porquê, muito além do que eu era. Isso fez com que a doidinha achasse que eu era um gigante de proporções heróicas e matador de dragões formidável.

Aí ela mudou um pouco o foco. Ligava para mim. lá do outro lado do mundo. Ele ficou de lado, sem entender nada.

Ela falava de separar-se do marido e regressar para o Brasil. Queria porque queria trazer a picape nova em um conteiner. Queria me conhecer, queria vir para minha cidade, passar uns dias na minha casa, casar comigo.

Nesse ínterim todo, conheceu um rapaz árabe, aqui no Brasil também, via ICQ. Ela, na verdade procurava uma prima na internet.

Três dias depois veio a confissão: arrasada, apaixonara-se pelo árabe.

E você não imagina o quanto isso aliviou minha cabeça. E a dela também. A gente parou de conversar por uns tempos, até que recebo um bombástico email com um convite de casamento: Ela separou-se do marido no Japão, juntou as escovas de dentes com o árabe, engravidou, desmanchou o caso-amante com o cara aqui da empresa, comprou um apartamento no Itaim-bibi e planejava estudar informática. Ou psicologia.

Sobraram eu, o ex-marido e o carinha. Eu levei um bom tempo para mensurar o grau de loucura descompassada e multi-tarefa da doidinha.

O marido dela ficou lá pelo Japão mesmo.

O carinha? Conquistou o emprego na empresa. Ele não tinha família, pouquíssimos amigos. Reavivou um mundaréu de conceitos e sempre achou que eu o colocara na empresa. Ele confessou-me uma vez que o caso com a doidinha era uma coisa que ele não sabia como tinha acontecido, terminado, acontecido e terminado de novo. Sabia pouquíssimo da mulher, para ser sincero. Acreditava piamente que ela masturbava-se nas tele-conversas.

Tempos atrás ele adoeceu, fui lá doar sangue para ele. Duas vezes. Eram dessas doenças estranhas que pegam um ou outro de vez em quando. Viveu uma sucessão de fatos irreais e talvez nem tenha percebido.

Faleceu sem nunca ter visto uma foto da amante.

Segredos plenos

9 de julho de 2007

Eu era amigo de um radialista muito frustrado. Ele trabalhava em uma rádio católica e interiorana. Imagina você o perrengue que o infeliz passava: seis da manhã e seis da noite, ave-maria cantada. Inserção de músicas do padre Zequinha nos picos de audiência? Deu brecha, pimba! Disk-sucesso com pelo menos uma participação fake pedindo uma música religiosa: o sotaque italiano de padre importado era infalível, fazer o quê. Tinha também censura pesada em músicas de roqueiros encapetados, mas isso era coisa de praxe.

E por aí seguia-se, dia-a-dia, a peleia radiotransmitida.

O playback da rádio ainda era baseado nos rolões e nos clássicos LP´s. Nada de mp3 e programas automáticos, subentenda-se. Isso significava uma coisa bem interessante: a editoração era em tempo real, com um disk jockey ativo o tempo todo.

E esse meu amigo infeliz era o cara que pegava muitos turnos infelizes da madrugada solitária e friorenta. E pelo fato de ser solitária, sempre que ele podia, convidava um ou outro amigo para tomar uma cerveja lá no estúdio (“Venha aqui, mas passa ali no Popi´s e cata umas béras!”). Era uma forma de quebrar o nosso tédio.

O interessante da rádio é que a discoteca continha álbuns muito bizarros para uma rádio católica: Desde Danzig, Manoar e Gwar, até os clássicos Black Sabbath e velharias encapetadas.

“Quer ver um segredo mortal dos profissionais de radiodifusão jamais revelado?” Perguntou-me com um olhar amedrontador e lunático?

Não esperou minha resposta: “Siga-me.” Ele andava como um lider de alguma seita misteriosa e encafifada nos cafundós daquele estoicismo magistral. Adentramos na discoteca. Ele pegou o primeiro disco da primeira coluna da primeira prateleira. Legião Urbana. Estava fora da ordem alfabética. Fora da ordem de importância, Fora da ordem das ++ (mais-mais). Sobrepujava até a redenção dos discos religiosos. Acima de tudo e de todos, para resumir bem.

Retornamos ao estúdio, ele paciente, esperava o outro disco terminar. Rodou o rolão de reclames, posicionou o LP na picape, Entrou ao vivo: ” Madalena, da vila Pequena pediu, cá tocamos: Faroeste Caboclo. Com vocês Legião!”

Ele desceu a agulha, cortou o áudio do mic, levantou-se, acendeu um cigarro, enrolou uma revista embaixo do braço e declarou, na maior naturalidade e com uma cara de superioridade monumental que só um momento tal e qual permitiria: “A melhor música para uma radialista cagar sem ser incomodado. Oito minutos de paz no trono.”

Listras emagrecem

9 de julho de 2007

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Josias, o propedeuta amoroso

9 de julho de 2007

Era assim que eu assinava uma coluna de relacionamentos amorosos no jornal O Plausível, da cidade de Itaiacóca, em 1968. O anonimato causado pelo pseudônimo imponente era deveras significativo, uma vez que eu sempre recebia e-mails, telex, mimeografias e cantadas calorentas por cartinhas.

As mulheres me achavam charmoso. Elas exacerbavam o tipico complexo do radialista de voz de barítono galeão. E olha que nunca ninguém descobriu minha real identidade ou viu minha foto. Talvez fosse uma forma de proteger a carência afetiva delas, sei lá.

O bom de tudo isso era que eu, na ingenuidade da leiguisse psicológica, conseguia solidificar (ou destruir por completo) relacionamentos amorosos cheios de dúvidas e precipitações vivenciais. Escrevia opiniões solidárias, citava dicas românticas para ogros pézudos e demonstrava a complexidade do amor em traições desmedidas.

Sim, eu desafiava os apaixonados!

Mostrava que a paixão cegava, que o amor sufocava. Salvo raras situações onde o casalzinho era realmente feito um para o outro, todos os relacionamentos descambavam para a baixaria.

Muita gente escrevia para mim, dizendo que apostara tudo em um amor fatídico, com alguns detalhezinhos que ignoravam e achavam que não implicaria em nada, mas que crescera como um tumor maligno e cancerizava a base real do relacionamento.

Pequeninos detalhes, ínfimas pelotinhas vítreas que de tão pequerruchas e desapercebidas, nem coçavam a ostra. E acabaram por virar pérolas carrancudas.

Aí descobri a medonha síndrome do desespero de gente que tentava moldar a personalidade para uma relação que não daria certo de jeito maneira.

E essa síndrome fez Josias — o propedeuta amoroso — especializar-se em saber se um relacionamento que estava começando teria — ou não – a durabilidade necessária para se tornar amor propriamente dito.

Tudo primoroso e direto. Faca-na-bóta mesmo.

Dia 13 de junho de 1969, segunda-feira, a Junta Comercial de Itaiacóca pressionou o editor-chefe para desmascarar, demitir e escarnecer Josias, um maldito propedeuta que arruinou a venda de presentes, flores e contraceptivos da comarca Itaiacoquiense.

Desde então migrei minha carteira de conhecimentos para este site, unica instituição que aceitou-me de bom grado. Um site mecenas por assim dizer. E sempre que posso, exercito o vai-não-vai dos relacionamentos.

Agora sem o brilhantismo vil de outrora.

Escritores mentirosos e malditos

9 de julho de 2007

Sabe qual é o problema de todo bom escritor? Eles são mentirosos. Fabricam mundinhos tórpes e egocêntricos, moram em lugares que não existem e conversam com pessoas imaginárias.

(Como a internet, por assim pensar.)

O mais estranho de tudo é que esses mentirosos profissionais (escritores malditos) têm a mais perfeita e idônea noção da verdade que escondem. Conhecem-a como mais ninguém a poderia conhecer!

Destrincham toda a realidade vivencial e a remontam como bem entendem. Criam uma meia-verdade. Ocultam o que não interessa. Enaltecem o que realmente não aconteceu e, pior de tudo, jogam pimentas e cores no que nunca existiu — ou deveria existir — de facto

Criam utopias que se contradizem!

E nesse momento a verdade acaba se tornando a a coisa mais importante do mundo naquele texto. Mesmo que não apareça. A melhor coisa na alma encravada do assunto, o segredo bestial, a ferida que unge e atormenta o escritor.

Eles enterram-se com uma verdade miudinha, só deles.

E é essa verdade que pinica as ancas deles, até o fim.