Os dois meninos sardentos de cabelos polaquinhos de uma etnia lá-de-não-sei-onde eram filhos de pescadores de uma praia outrora desabitada por pândegos aristocratas da barriga cervejenta.
A praia era bela, e isso por si só a condenara. Casas filméricas de ricos turistas a tomaram. O iate clube roubou um náco da faixa de areia e, o que eram bóias de isopor com lona preta vagabunda, agora gabavam-se sinetes florescentes com sensor de presença. Ah, aquelas poucas baleeiras, saveiros e a escuna do Zé Lelé… Deram lugar aos 210, 290, 320.
Enfim, a praínha da comunidade de “Nossa Senhora do Rocio Pesto” virou “Resort Iatch Club Rocco & Summer Village”.
A vida teve a sua sorte-revés
Os dois meninos sardentos de cabelos sarará de uma etnia de-lá-sei-onde vendiam trançados de peixes de folhas de coqueiros amarrados em bambuzinhos. Coisa simples, garantiam patacas poucas e boas para doces na banca do Tino.
Mas o barangandan deles não eram os doces do Tino. Nem peixinhos. O ó era o lambrusco-lusco-fusco. Sabia que os dois montaram uma jangadinha de garrafa pet para visitar lanchas que ancoradas pairavam as noites solitas?
Era batata: escurecia e lá estavam os dois futricando porões, gabinas e cozinhas completas dos barcões chiques de panças importadas.
A incursão era tão inusitada e atrevida que rolava até fornadas de pão de queijo e vitaminas de frutas de fruteira nas noites dos dois serelepes. E não teve um oceânico qualquer que não fôra visitado pelos dois sorrateiros.
E veio o tempo que pula
Aí acabou que os dois cresceram, um virou cozinheiro de bistrô petit-gatô, outro piloteiro de avoadeira para pescadores menos abonados.
Não teve final feliz a estória. Talvez porque era real demais a oportunidade prevista. Talvez porque viver de mascates não enriquecesse ninguém ali. Apenas valeu alimentar-se de passados cada vez maiores e mais distantes. Heróicos, talvez, vai saber o que cada um contará para seus filhotes.


