19 de julho de 2007
“E por que você escreve tanto no seu weblog? Quer virar escritor?” Foi assim a pergunta. “Escrever para não morrer” a resposta.
Não quero virar escritor, jamais. Escritor não “se vira”, escritor nasce com as palavras. Também não quero ser fotógrafo profissional, não quero ganhar dinheiro com esculturas, assim como não quero ser um desenhista de sites. Minha profissão é outra.
Agora muito me surpreende a maneira como todos vêem blogueiros como futuros escritores lançados no cruel mercado literário.
Apenas conto lorotas.
Escrevo para não morrer.
Não morrer esse pingo de mundo criado na minha cabeça cheia de minhocas abiloladas.
E se eu não quero ser escritor, apenas escrevo para viver para escrever. Rilke disse: “Se você acredita que é capaz de viver sem escrever, não escreva.” E isso tinha que aparecer na página inicial de qualquer sistemas de blogs.
19 de julho de 2007

Viver é conseguir mudar dia-a-dia os sentimentos que apenas postergam a existência de qualquer minh’alma. É ser um outro e este mudar como queira. Sentimentos de um passado ontem, de uma realidade agórica e de um futuro pertinente e insensato.
Não viver é destruir o passado em patacoadas e desatinos. É iniciar invariavelmente todo dia o desejo de não se ausentar. Apenas estar aqui é ter a complacência de uma virilidade marginal, uma toque no âmago do que realmente somos.
Nesta noite, tempo qualquer, a vida incendeia-se como um nada. É na escuridão de um sono incontido e agonia insone que aparece a necessidade da sua luz. E essa sua luz quem sabe nunca existiu, essa noite nunca aconteceu, a agonia sufocada em tormentas apenas arraigou-se de tédio compulsivo. Quem sabe eu não tenha existido, sou apenas consciência vã, sua apenas lembrança.
Amanhã, ah o amanhã! Será qualquer outra coisa sem sentido. A intocada vida amanhã encarregar-se-á de recompor a estafada mente em novos torpes desvarios.

18 de julho de 2007
Hoje, como em todos os outros hojes e quaisquer ontens, nada mais de desatinos para me refugiar a alma.
Um dia mareado como os olhos que insistem em molhar um rosto ainda virgem e trôpego de palavras amarelecidas. Sentimentos meus ou mais meus, e a vã tentativa de apenas apagar o quadro em uma revirginidade de olhos recompostos.
Dia após dia.
Perfeito de uma nova visão, creio aqui. E creio ainda que esta luz e essa hora e este momento e todas as vidas que em perpétuos ufanismos pairam estejam neste meu ser.
Hoje estou sentimentando suas escolhas em azuis olhares que pousam assim, na face que a casaria com o homem onde sempre sonhara morar.
Hoje.
E a perfeição atônita as vezes confunde a realidade mais que perfeita com uma onda de sonhos. Sonhos que encaram de olhos vidrados o amanhã que, seja o que for, será outra coisa. Sempre outra coisa, sempre outros sonhos.
Olhos vidrados e sonhos recompostos.
18 de julho de 2007
Vez ou outra, por alguns raros e apoucados momentos, começamos a exercer uma simplicidade vã e nos tornamos celebridade incondicional. Sim, monumentos homéricos de perfeita convicção.
E é nesse momento estranho aos olhos alheios que se percebe o quão dificil é ser o que nos resta sempre em outros dias: nós mesmos.
Ah, mas hoje nublou o céu, esfriou a alma e corrompeu-se a alegria. Sim, dia de martírio. Chôva então!
Quer o que? Tem gente que sequer esboça alegria ao ter sonhado qualquer coisa.
18 de julho de 2007
Fotos em preto-e-branco na parede. Um garçom despreocupado com a vida. O dono do bar, fiel ao futebol no rádio de ondas médias, alheio à tudo.
Na pequenina mesa de madeira, bamba e gasta, um diálogo caloroso e intenso. ali a luz apoucada deixara uma penumbra esfarelenta de escuridão suja. Gente ociosa vagando pela calçada úmida. Pouca gente. Mais vento gelado de inverno mesmo, assoviando tristonho.
Entreolharam-se o casal da mesa bamba e gasta. O desespero de não saber interpretar olhares intensos deixou aqueles dois pares de olhos, assustados.
Uma leve brisa derruba um guardanapo. Abaixaram-se juntos. Mãos entrelaçadas sem querer. Olhares, agora na altura dos joelhos. O beijo era a única certeza aparente.
E beijaram-se oras! Embaixo de uma mesinha bamba de bar deserto, pode?
A noite era de domingo moroso: olhares, um beijo furtivo. Madrugada gelada. E tudo isso enquanto o mundo adormecia.
Ou fazia amor.
18 de julho de 2007
Esse descaso me faz abandonar muitos dias bons no cais da melancolia.
Aquelas pessoas rôtas não me conhecem mais. Não conseguem mais distinguir qual o meu real significado de vivência. Existi em um mundo ignorado que apenas me mostrou que o ignorado era eu no mundo. Lentos e lentos mundos desconexos em pensamentos que ainda assim não me deixaram despedir do caixeiro ou daquela rica donzela do café das quatro.
Era tudo falso. Não existiu a tal moça. O café era mentira. E a minha vida ignorada nem sequer estava ali.
E isso não foi criado à toa. As letras não vagam sozinhas.
Calderon de la Barca diz:
“que farão pelo que ignoro
se pelo que sei me enterram”.
18 de julho de 2007

Tinha eu a facilidade e o talento congénito de reunir amizades sórdidas. Isso cansou. E nunca mais tive amigos, não que me faltassem esses extraordiários reis e rainhas da adulação babarosa.
É que os parcos padrões de amizade que eu originara aqui fôra mesmo um lapso de meus sonhos e utopias.
E os resquícios disso não são mais amigos. Não os tenho mais.
A minha falha constante e o gozo da voluptuosidade mostra-me algumas vezes a consideração que de tudo serei grato: o que dantes eram decididamente poucos e bons amigos, hoje considero irmãos.
Posso enclausurar-me com essa descrição, mas irmãos é o que são.

Não veio de graça. A vida que aqui vivi e essas pequeninas esculpturas de detalhes e relacionamentos passageiros caem-me como rotos afrescos memorais.
Foram momentos vis que me fizeram esquecer alguns propósitos interessantes da vida, a perda de algumas direções, o gozo da plenitude de emergir (ou afundar) em emoções descompassadas. Um gozo de não perceber que apenas meus reais desejos indeléveis povoassem sentimentos.
Sonolência desanimada de uma vida nova. Sonolência desanimada de querer viver a espiritualidade de uma bonança superior, não apenas se entregar, assim vagamente à libertinagem implícita naquele meu olhar de cachorro louco.
Não sei ainda se fôra uma soberania enclausurada de viver. Quem sabe? Quem sabe apenas minha alma esbatida em cores amenas de um amor não sentido.

18 de julho de 2007
Ainda está impregnado a sonolência implícita do meu olhar moribundo, não?
Inconsistente por uma brumosa e triste realidade de espirito é a cidade que te carcome em um tédio prazeiroso e inquieto, sofrível, consciente. Uma rotina quotidiana esplendorosa e hipersensível que te desatina dia-a-dia.
É o descompasso ínfimo que margeia tua vida.
Trágico isso. Trágico atentar à tua sensação de perfeição marginal. Trágico não te atentar. Quem sabe?
Vejo que algumas pequenas coisas nítidas te confortam. Sensações que te orgulham. E te orgulhar dessas palavras tempestuosas é o mesmo que respirar essa grandeza própria e furtiva. E você ainda treme! Não sabe se esse orgulho é resquício de timidez audaciosa. Porque te conheço, e sei que tuas pequeninas gafes amorísticas são rescaldos de um fogo insandecido que te acomedeu. Queimada em vão. apenas essas sardas te provam. E povoam.