MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos do ano de 2007

Lá quando ela perceber

24 de julho de 2007

Quisera eu que ela soubesse o tanto que apetece aquele jeito desgraçado de ser. Ela nem deve desconfiar que é desejada. Não percebe que está sempre alimentando algo bom, algo maquiavélico e algo infeliz dentro de outrem. Miserável pessoa simplória que não percebe sentimento alheio. Ou sagaz quem sabe: consegue escarnir sentimento absorto em impessoalidades.

E nem sequer demonstra!

E lá quando ela perceber, restará fingir a indiferença, como retribuição.

Sentimentalidades

24 de julho de 2007

As vezes gostar não é suficiente. Gostar e gostar muito o é. E quem gosta e gosta muito na verdade apenas ama.

Quem apenas ama, sofre. O amor irremediavemente é a dor.

E quem sofre, gosta de amar. E ama a dor de gostar e gostar muito.

Simples, como amar.

Ou sofrer.

Domingo de chuva

24 de julho de 2007

Era domingo, pé-de-cachimbo. Chuva mansa, gotinhas leves, espalhadas e inconstantes. Almoço de familia, na casa do patriarca. Só para situar, a casa ficava em uma pacata rua onde acabava em descida um pequenino parque de brinquedos.

A criançada faz bagunça, corre-corre pelos corredores, o avô sorri da alegria de todos. A campainha toca. Alguém vai lá fora ver.

Era um menino, provavelmente da rua de baixo, ou umas duas ruas para lá. Pequenino, estava com um guarda-chuva. Trazia junto de si um cachorro à guia. Ambos estavam visivelmente tristes.

Ele contou, entre um soluço e outro, que aquele cachorro o acompanhara a vida toda. Era seu melhor amigo. Mas estava velho e doente. Seus pais não o querem, não têm como gastar com aquele pobre pestilento. O cachorro estava muito abatido, percebia-se claramente em seus olhos. Estavam indo de casa em casa pedir ajuda para o pequenino animal.

Aquilo cortou o coração de todos na casa. O tio mais velho conhecia um veterinário. A tia balzaca e solteira, encarregou-se de arrecadar dinheiro. O menino agradeceu, iria esperar lá no parquinho do final da rua.

Todos reuniram-se à mesa. Era uma bagunça só. Muito barulho, felicidade. Após a refeição, foram ver a quantas estavam o menino e o cachorro.

O guarda-chuva estava fechado. O pequeno animal, deitado no banco, imóvel. O menino, com as mãos na cara, escondido entre os joelhos recolhidos, em prantos.

O cachorro, provavelmente sem raça, sem credo e sem estirpe alguma, havia morrido. Podia ter sido velhice. Podia ter sido alguma doença. Mas o fato de ter sido melhor amigo daquele franzino moleque que chorava sua perda, simplesmente emocionou aquela rua inteira. Não era só o tio mais velho, não era só a tia balzaquiana. Era cada casa ali, cada morador daquela rua em que ele pediu alguma coisa, que compadecera com aquela tenra situação. Todos almoçaram bem, todos queriam ajudar.

Encontrar aquela criança, naquele banco, naquela situação em um dia de chuva realmente não foi nada fácil para os moradores da pacata rua.

Blogs

24 de julho de 2007

Tenho medo dos blogs. Antes eram serezinhos inofensivos, cativantes pela sua beleza estampada. Hoje, anos de fama transformaram o que dantes eram coisas belas em monstros dilacerantes sedentos de comentários.

Esmoleiros virtuais viciados em contadores girantes.

Enfim, perderam-se na selva da existência.

Resultados virtuais

24 de julho de 2007

Agora interessante mesmo são as peculiares situações que inexistiam antes do advento da internet. Saudades, amizades, amores, relacionamentos e cumplicidades com pessoas onde o único mínimo contato que os unem são os binários online / offline.

Virtualidades, assim dizendo.

E em algumas vezes, estas amizades, saudades, amores e relacionamentos são tão mais fortes, vivos e singelos, que acabam valendo-se muito mais do que alguns laços reais, físicos e próximos.

A internet é, sem dúvida alguma, um desinibidor social.

Recado

24 de julho de 2007

Quando amei — e amei de verdade — aquela mulher, toda a plenitude de minh’alma transbordava em córregos de êxtase e paixão.

Mas ela nunca percebeu.

Agora, anos mais tarde, a seda de sua voz me faz tremer o que estava à deriva do passado. Mostra-me um amor incontido e uma angústia dantesca em busca de um atrasado amor não correspondido. Não correspondido não. Correspondido deveras. Correspondido de uma maneira tão trôpega e carente que talvez a cegou drasticamente.

Agora é tarde.

Nossas vidas mudaram, minha cara. Seu destino aflorou, sua alma cresceu.

E almas crescidas não carregam paixões adolescentes à tiracolo.

Jamais.

Relacionamento

24 de julho de 2007

A paixão se segue e o amor — o bichinho-surpresa — toma conta de tudo. Enxota o que antes escaldava a vivência, solidificando a razão e equiparando sua emoção. E depois?

Depois as afinidades se encontram, a realidade aflora instintivamente, destruindo a beleza da perfeição. E é aqui justamente que entra a arte de se pôr fim à um relacionamento. Não que isso possa ser considerado arte, dado a dor e solidão que a singularidade possa provocar. Mas há um tempo certo para acabar, assim como existe o tempo exato de se começar. E errar o momento certo de se terminar é muito ruim. Pior, muito pior do que errar o tempo para se encontrar e amar. Adiar um relacionamento é relembrar de ruínas desgastadas e fatigadas pelo tempo. Não fica, infelizmente, a construção harmoniosa que se criara. Apenas rescaldos.

E o medo faz adiar, muitas vezes o que se vai tornando lufadas de esperanças esgarçadas. Há ocasiões em que o impulso do rompimento é imanemente contido por uma estranha (ou seria segura?) inércia que não nos mostra a razão de se adiar. E o fim torna-se explícito, mas mascara-se de maneira indolente. Sentimentos confortáveis e bons cedem seus comprometimentos com o rigor de gestos degenerativos e por muitas vezes enfastiantes. E o egoísmo mescla-se com a incapacidade da visão conjunta. E os fatos gritam.

E gritam.

Existe sim, o momento certo para um fim de relacionamento. E, como se é de esperar, na maior parte das vezes este tempo passou há tempos. Podem ser horas, dias, meses, até anos. Mas passou. O amor desvencilha-se, a lânguida sensação de rompimento instaura-se. Para sempre. E não tem palavras, gestos, carinhos. E mesmo assim se segue em frente.

Errar o tempo é comum. E o último momento de se escapar da derrota lamuriosa é no momento certo. Depois o desbarato nos faz carregar os restos de um relacionamento que não soube nunca, acabar.

O infeliz

24 de julho de 2007

O infeliz era da época áurea da internet, onde pessoas boas de coração usavam o meio de comunicação para se conhecer em um modo simples e verdadeiro. Ele não conversava muito, é verdade. Tinha poucos amigos. Acabou a solidão dia em que conhecera as mensagens instantâneas.

O infeliz agora tinha amigos virtuais. Conversava com mulheres, pessoas do outro lado do mundo. Suas noites — e porque não falar algumas madrugadas — eram regadas por conversas variadas, inclusive em outros idiomas. Conhecia segredos de pessoas que viu sequer uma foto. Contava segredos tão escondidos que jamais falaria para algum vivente.

Mas o infeliz tinha uma rotina diária, onde encontrava pessoas reais. E estas pessoas não eram nada parecidas com seus amigos perfeitos virtuais. E isso o deixava infeliz.

O infeliz era uma pessoa comunicativa. Conversava alegremente no silêncio ínfimo do bater das teclas. Até se apaixonou uma vez, puramente por uma mulata do Suriname. Ninguém se importava mesmo.

Duas vidas completamente diferentes.