MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos do ano de 2007

Cidade grande

25 de julho de 2007

Levou bem umas duas ou três semanas para que eu desse um bom dia para aquela mulher. E mais uns dias para que finalmente sentássemos juntos na mesma mesinha do pequeno café que ficava na entrada do prédio onde trabalhávamos. Conversamos sobre assuntos dispersos. Ela era mais velha. Contava histórias de sua infância no interior, das traquinagens que aprontara quando criança.

E aquelas idas matinais ao café estavam reamente alegrando minha labuta diária. Toda manhã conversávamos sobre alguma coisa do passado. Ríamos juntos, quando lhe contava dos desastrosos desafetos amorosos que minha adolescência me causou. Acabamos nos conhecendo de uma maneira perigosa e interessante: pelo passado. Não sabia o que aquela mulher era. Não sabia com o que trabalhava, se tinha família. Apenas desvendava aos poucos — assim ela também — o que se passou e o que estaria por vir.

Era um jogo interessante. O passado já estava acabando. Em suas histórias, ela já estava formada e construindo carreira. Eu, ainda terminava o colegial.

E o não tão distante passado acabara por se tornar mais sério. Não ríamos mais das histórias. Eram fatos que deixavam a gente a pensar e refletir.

Ela contou-me de quando conhecera seu marido, como teve uma filha. Eu contei como consegui um emprego em uma grande agência, dos países que visitei, das alegrias e tristezas com minhas namoradas — que ficaram no passado.

Mas houve uma manhã de segunda, chuvosa e fria, em que ela chorou. Seu pai havia falecido na sexta. E foi neste dia em que nos abraçamos. Pela primeira vez. O passado já acabara, já conhecia aquela mulher de uma maneira diferente e ideal. A conhecia no presente. Um abraço longo, fraterno, no manifesto do afeto que de nos completava.

Seguiram outros abraços. Quando comprei meu primeiro apartamento. Quando ela foi promovida. Quando voltei de férias, após quinze dias longe dali. Quando ela voltou da viagem de negócios.

Dia desses ela ligou-me à tarde. Queria conversar no café.

Encontramo-nos. Ela estava ansiosa. Contou-me que amava seu marido, amava seus filhos. E que iria mudar-se para a França. Seu marido iria trabalhar em uma multi-nacional por lá. Ela arranjou um emprego na filial da sua empresa naquele país. Deu-me um beijo sem precedentes. Abraçamo-nos com uma força e paixão tal que até hoje sinto arrepios em relembrar. Deixou uma caixinha embrulhada em papel fino, em cima da nossa mesinha: era para quando eu sentisse saudades dela.

Ontem estava eu sentado naquela mesa que testemunhou nosso passado. Não trocamos e-mails, telefones, nada. Não sei mais dela nem ela de mim. Pensei vê-la ao longe, senti saudades daquela mulher. Abri a caixinha. Tinham algumas dezenas de fotos. Eram fotos do sistema de segurança do café, fotos de nossa mesa, fotos em que sorríamos, conversávamos ao embalo de uma chícara de café. Fotos em preto e branco. Fotos da gente se abraçando. Datadas.

Olhei para o Alfredo, dono do café. Ele apenas sorriu. Cúmplice da mulher que verdadeiramente se apaixonou por mim. E eu, platonicamente, por ela.

Agnóstico fervoroso

25 de julho de 2007

A Catifunda insistiu muito para que seu pai fosse à missa. Era sua primeira comunhão, queria a presença do paizão por lá. O velho, por conveniência social se entregou ao desejo sem muita briga e aceitou o convite. Era agnóstico, acreditava em Deus, mas não engolia de jeito nenhum princípios religiosos.

Como combinado, Cacilda adentrou à igreja, com um belíssimo vestido branco rendado, escoltada de pai e mãe. Era cidade de interior, noite sem lua e igreja isolada na vastidão dos campos alhures. Seu sonho estava se realizando! Os três se acomodaram nos bancos. O pai colocou suas botinas no genuflexório. Catifunda o reprovou com severidade. Ele emburrou e cruzou os braços. A cerimônia estava por começar. A mocinha foi à frente junto aos outros catequizandos.

O bispo era peripatético, italiano e falador. Suas histórias intermináveis deixaram o pai da moça completamente entediado. O calor que estava dentro daquela igrejinha, no meio do nada também contribuiu, em partes, para que o velho dormisse em plena cerimônia.

E não é que acabou a luz na igreja? A escuridão com que tomou aquela cena foi de deixar todos em um completo e profundo silêncio. O bispo pediu a todos que cantassem, junto dele, a hosana nas alturas, enquanto a luz não voltasse.

E assim todos cantarolavam, baixinho, embalados pelo escuridão total. A cena era envolvente e harmoniosa. O coro reverberava pelas paredes, aquelas plavras eram enebriantes.

Acontece que o pai de Cacilda começou a roncar. Sua mulher, tentando acalmar a coisa, tascou-lhe um safanão na sua cabeça, que o fez acordar assustado.

Ele não percebera que a luz se apagara, estava completamente perdido: “Caramba! Morri” Pensou de imediato. Arregalou os olhos mas não conseguia ver nada. Só escutava o coro da hosana. “Isso deve ser o purgatório, não vejo nada mesmo com os olhos abertos!” Estava incerto de sua fé-cega.

Uma voz ao longe, vociferou:

— Você pecador, reflita nesta escuridão sobre seus pecados. Abra seu coração à Deus.

Óbvio que era o bispo que falara aquilo no intuito de distrair o povo naquela escuridão. Mas como o pai da menina estava completamente perdido e percebendo-se sozinho no purgatório, começou a falar de seus pecados. Eram intrigas passadas, galinhas roubadas, mulheres profanas, brigas de bar. E quanto mais falava, mais lembrava. Quando terminara de contar o despudorado fato de cobiçar e bulir com a mulher do vizinho, a luz voltou a incandescer as lâmpadas da igreja. Todos estavam rubrorizados com as palavras.

Depois disso o pai da Catifunda deixou de ser agnóstico. Ficou com raiva da igreja e virou ateu.

Ainda a morte

25 de julho de 2007

A vida é efêmera. A morte é fácil. Complicado é o tudo que fica para trás.

Morrer é acabar por sermos outros, totalmente.

E é por isso que o suicídio é uma atitude biltre e covarde; é entregarmo-nos totalmente à vida.

A morte que te espreita

25 de julho de 2007

Ele não sabe bem o porquê de estar de joelhos naquela travessa estreita. O chão úmido reflete algumas luzes difusas das vitrines de roupas cafonas. Uma atraente garota caminha em direção oposta. Não desvia o olhar em nenhum momento. Ela tem um sorriso gostoso, seus dentes são alinhados, não têm pontas os seus caninos.

Os olhos pesam, a respiração dificulta. Pensamentos claustrofobicos e presos. Não sabe que tem de morrer agora. Não sabe nem se isso é morte ou fraqueza.

As luzes das vitrines apagam-se, uma a uma. Uma pesada e negra nuvem encobre a lua. Os poucos e fracos postes apagam-se. Silêncio. Inércia. Estabilidade. Escuridão.

Morrera de joelhos, e nunca soube ao certo se sucumbira ao chão úmido e gelado da noite de ópio por um desatino daquela mulher de negro.

Chateaubriand

25 de julho de 2007

Uma vez li Chateaubriand, que enganara não só eu como muitos, pelo simples fato de não se situar emocionalmente na citação. Dizia o Chatô, inspirado explicitamente em René:

Amarem-o cansava-o — on le fatigait en l’aimant.

E assim, perigosamente, podemos morrer se apenas amarmos.

Bingueiro

24 de julho de 2007

O homem de gravata que cantava as pedras do bingo era famoso naquela paróquia. Famoso em termos: ninguém o conhecia na sociedade, apenas no evento mensal.

As velhas beatas armavam a quermesse com gosto. Toda a comunidade vinha prestigiar. A programação nunca mudava: missa, torneio de futebol com um leitão para primeiro lugar, almoço e bingo. Os prêmios do sorteio eram sempre um fusca ano 71, uma moto velha e móveis do Albino, o marceneiro da região.

E o cantador de pedras de bingo tinha sempre uma tirada engraçada na hora do sorteio: pedra número 6 — Meia Dúzia! Pedra número 13 — Essa vai dar sorte! — Pedra 22 — dois patinhos na lagoa! Pedra 24 — Com essa o Arcebíades dança! Pedra 38 — o calibre do revórve do padre! Pedra 44 — o sapato da Dona Marica! Pedra 51 — Uma boa idéia! Pedra 33 — A idade de Cristo! Pedra 69 — Ai, ai, ai, não vou falar nada, né padre?

E a velharada se partia de rir. Lá pelas tantas algum batia cartela e acabava a brincadeira.

O que ninguém sabia era que aquela gravata do cantador de pedras de bingo era seda inglesa, o terno francês, sapatos de cromo alemão. Até o relógio, que brilhava como ouro, era de ouro. O cantador de pedras de bingo era um executivo muito rico. E que morava bem longe dali.

Mas desde a infância sonhava com o dia em que satirizaria os números das bolinhas sorteadas.

Confinante

24 de julho de 2007

Ele detestava a vizinhança; sabia que o escarneciam, que o imitavam, que lhe chamavam o contador de sonhos! — Pois também dele não haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade!

Vinham de carrinho! Boa!

Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar guardadinho, lá dentro. — Para uma ocasião! — pensava com humor, sacudindo o mouse velho e encardido. Mas também os amava. Detestava e amava, amor e ódio, vida e morte. Virtualidades e realidades difusas, ali, naquela página estranha e maldita que viciara muita gente incauta.

Chamavam-lhe auspicioso — mas era celerado mesmo.

A difusora do interior

24 de julho de 2007

A rádio era pequenina, mas a audiência, enorme. E isso porque o radialista era muito carismático. Dia desses, preparou-se para a previsão do tempo. Como sempre fazia, olhou o “galinho do tempo” que mudava de cor de acordo com a umidade, aferiu o termômetro de mercúrio vermelho que nunca se mexia e deu uma espiadinha pela janela:

— E você que vai sair de casa hoje, prepare o guarda-chuva e as galochas: dezoito graus, muita umidade no ar e chove torrencialmente na cidade! — Falava puxando os dois érres do “torrencialmente”, parecendo carro velho enroscando a marcha.

Deixou tocar uma música, preparou o café e o telefone tocou insistentemente.

Terminou a música, o radialista entrou:

— Ratificando minha gente: calorzinho lá fora, sol de rachar. A chuva era a Zulmira, lavando a janela.