MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

O dia em que eu conheci uma psicopata

11 de setembro de 2007

Ariadne era o que eu podia chamar de namorada ideal: bonita, morena, olhos azuis claros, voz deliciosa e uma personalidade perfeita. Conheci aquela mulher em uma festa de dia das bruxas da escola de inglês. Fui fantasiado de alguma coisa malvada: capa preta, dentadura de vampiro — dessas que a gente ganha em maria-moles de boteco — botas de motocross e um taco de basebol. Ariadne estava vestida de anjo, com asinhas brancas de algodão, camisola de cetim, batom vermelho vivo e uma auréola verde brilhante com luz própria, dessas que a gente encontra em shows e eventos.

“Olá, o que é sua fantasia?” Aquela voz ecoou dentro de mim como uma bruma enevoada que se dissipa lentamente com o sol de uma manhã de verão. “Ceifador de mesóclises.” Ué, eu tinha um taco de basebol! Ela sorriu e o batom vermelho contrastou com os dentes branquíssimos de um sorriso estonteante. Sempre encontrávamos em festas ou na saída do colégio. E não havia de ser diferente.

Nem preciso dizer que conversei a noite inteira e que, em tempo recorde, estava namorando novamente.

Adorava quando ela caía em contradições existencialistas e discutíamos filosofias diversas. Suas ideologias eram de linhagem estreita e conservadora. Ela se considerava agnóstica e foi a primeira vez que conheci o termo. Contou-me a diferença básica entre um ateu e um agnóstico. Disse-me desconhecer alguém que negasse Deus com veemência. E foi nessa época que descobri que uma pessoa não basta querer ser ateu: tem que poder.

divisor

Nosso namoro foi muito bom. Época de descobertas, limites, causas e suas quebras intrínsecas. Tínhamos muitas semelhanças deliciosas e isso realmente nos interessava. O relacionamento foi muito bem.

Até o final do ano.

Era minha oportunidade de terminar o ensino médio em uma instituição focada em vestibulares. Precisava realmente disso. E uma boa instituição, só na capital.

Mas Ariadne não entendeu. Como eu não entendi antes.

Lembro-me muito bem da data fatídica. Estávamos sozinhos em casa. Novamente fiquei para final no colégio, em história. E novamente perdi a oportunidade de viajar. Bom para mim, ruim para meus pais. Convidei Ariadne para jantar em casa. Música suave, um bom vinho e duas velas em cima da mesa. Jantar tenso para mim. Lavei a louça, Ariadne secava, dançando no ritmo da música que o phono arranhava.

“Preciso te contar uma coisa: vou para a capital ano que vem, estudar”

E isso a estagnou. Paramos o que estávamos fazendo. Ela sabia do meu carma de antigas namoradas e essas quebras de namoro pela capital maldita. Começou a engrossar o diálogo. Palavras fortes e por vezes agressivas surgiam como punhaladas em nossas almas. Virou discussão séria, as vozes levantaram. E eu nunca brigava com as minhas namoradas! Era o fim. Ariadne ficou descompassou e ficou histérica. Na mão esquerda um pano de prato, na direita, pasmem, uma grande faca pontiaguda, afiadíssima, de cortar as sottiles fettas de carpaccio. Italiana espaventada, falava e agitava aquela faca que nem percebia.

É de ficar preocupado, claro. Olhei fixamente para aquela lâmina inox e brilhante. E ela percebeu o que fazia. Fiquei encurralado entre a pia e os armários e ela se valorizou da condição. Levantou a faca e hora que disse que poderia terminar aquela discussão de uma maneira muito fácil e sutil, não tive dúvidas: agarrei seu braço com a mão direita e com a esquerda arranquei-lhe a faca das guampas. Cortei-me de leve, não teve jeito.

É claro que ela não ia me matar. Acho eu. Mas não arrisquei. Nosso tórrido e caloroso relacionamento acabou naquela cozinha, naquele chão.

Selado por um beijo pós batalha.

Você pode acompanhar os comentários deste post através do RSS 2.0 feed. Você pode deixar um comentário ou um trackback do seu próprio site. Os conceitos e opiniões aqui expressos — com exceção do que for postado por terceiros no sistema de comentários — refletem ponto de vista pessoal e não têm o objetivo de atingir ou macular a honra ou a imagem de quem quer que seja, nem de infringir direitos autorais. Caso algum material aqui publicado possa ser considerado em desacordo com este propósito, pede-se a gentileza de informar através do e-mail. Os links para sites externos são meras referências, sem qualquer responsabilidade do titular da página.

2 comentários para “O dia em que eu conheci uma psicopata”
  1. Dom

    setembro 12th, 2007 at 11:41 am

    Ora, ora… Quem encontro por aqui? Sem dizer, de fininho, o velho Ralph (re)aparece. O Ópio já todo consumido, agora resta os efeitos psicodélicos da droga. Eis que surge o MadCap.

    Prazer em revê-lo.

  2. McPhysto

    setembro 16th, 2007 at 11:31 pm

    Também conheci algumas psicopatas… hoje, restam apenas as lembranças e cicatrizes…

    Beeeeeem cicatrizadas!