A CAPITAL DO ANONIMATO


quarta-feira, 12 de setembro de 2007 | 4:12 pm

Sair de uma pacata cidade com pouco mais de quinze mil habitantes para uma capital de sete milhões definitivamente foi uma aventura de vida. Giancarlo retornara para o interior, com estudos completos e exercendo uma profissão liberal. Gianlucca estava no último ano de direito e morava com um colega.

Lembro-me claramente do domingo à noite, dia em que meus pais retornariam para o interior. Levei-os até a garagem, dei um beijo de despedida em cada um. Entraram no carro e foram embora. Pronto, estava sozinho. Sozinho em uma capital, com uma vida para cuidar.

E morar só em um apartamento era perturbador. O silêncio e a liberdade muitas vezes me sufocavam.

Foi assim que conheci as artimanhas da vida de solteiro. E cuidar de todas as tarefas da casa, suprimentos, dispensa, limpeza e contas realmente ainda não estava em meus planos. Descobri os segredos de culinária unitária, a pastilha setzer para limpeza de sanitas, roupas penduradas em cabides no banheiro para o vapor desamassá-las.

O melhor era a facilidade de andar pelado pela casa sem preocupações.

Conheci muitos amigos no prédio. Alguns estudavam no mesmo cursinho, outros já estavam em universidades e faculdades. Com esses amigos aprendi muita coisa importante e alguns fundamentos que espero nunca usar.

Foi um ano intenso. Consegui, pela primeira vez, navegar ilicitamente na Internet pela RNP da universidade federal. Conheci o anonimato de andar por semanas e semanas nas ruas e não avistar um conhecido sequer. Vivi a adrenalina de ser assaltado por um moleque de doze anos e constatar que o revólver dele tinha todas as balas no tambor. Achei dinheiro no chão e fiz festa de aniversário regada a uisque importado. Fui à shows de rock gigantescos, levei geral da polícia, entrei em arrastão de torcida organizada em saída de estádio, conheci mulheres descartáveis e levianas.

Morar em uma capital abriu meus olhos para a outra extremidade social, até então monótona e simples de vida interiorana. E percebi, tardiamente, que minha vida era pequenina para um mundo demasiado real.

Senti falta do meu mundo pela primeira vez.


Um comentário para “ A CAPITAL DO ANONIMATO


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teus textos me fazem sentir tão absolutamente humana…
apesar de ter sido totalmente fissurada pelo ópio, a ausência daquela base verde-excreta deixa tudo mais, ãhn… vivo :D
e como apreciadora da arte de fotografar, devo elogiar teus ensaios, também :)
o menino que não existe existe sim, é só procurar por ele dentro de nós.

esse blog me faz muito bem, graaatz :B
por: Giulia
em: 12/09/2007 | 18h34



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