Então ela não escreve.
Talvez por motivos de tempo ou subserviência, vá saber. O fato é que os outros falam diariamente das palavras. Da falta que fazem as palavras. Da maneira que as palavras tagarelam na tela e da boataria toda que se faz desnecessária e alheia. Um ato amargurado de publicação para que os outros leiam, engulam a sopa de letrinhas e pulem para outro diário ao lado.
Ela sente-se entranha. E quem não se sentiria? Acredita que não tem idéias fabulosas ou pior: acredita no furto da liberdade ponderada. Quiçá um assalto de inspiração. A idéia é faminta de inspiração. Andam juntas, fagocitam-se cantarolando qualquer modinha. Parece estranho, mas é saudável.
Sempre foi assim.
Quando os outros pressionam, a idéia encabula e a inspiração assopra-se para qualquer canto escuro. Nem olha para trás, nem percebe a lacuna que se formou entre o ato de criar e a esperança do concreto. Como a poesia não escrita que está na cabeça d´ela. O espaço entre o que poderia ter sido e o que nunca mais será.
Sobrou só a idéia.
Pequenina e tristonha, insiste em choramingar a solidão que a inspiração causa.
Ela a sufoca e diz que nao existe o vazio. Mentindo, é claro. Sorri, faz cara de descontraída e feliz.
Então ela não escreve, não fala e nem notícias dá.
Não é a falta de tempo, nem o trabalho. Não é a faculdade, não é a viagem de negócios. Tempo ela tem. Todo o tempo do mundo.
A verdade óbvia? De vazios ela não sabe viver. Escrever o nada? Não. É que do nada, nada há para ser dito.
Entende como?

