Fotos em preto-e-branco na parede. Um garçom despreocupado com a vida. O dono do bar, fiel ao futebol no rádio de ondas médias, alheio à tudo.
Na pequenina mesa de madeira, bamba e gasta, um diálogo caloroso e intenso. ali a luz apoucada deixara uma penumbra esfarelenta de escuridão suja. Gente ociosa vagando pela calçada úmida. Pouca gente. Mais vento gelado de inverno mesmo, assoviando tristonho.
Entreolharam-se o casal da mesa bamba e gasta. O desespero de não saber interpretar olhares intensos deixou aqueles dois pares de olhos, assustados.
Uma leve brisa derruba um guardanapo. Abaixaram-se juntos. Mãos entrelaçadas sem querer. Olhares, agora na altura dos joelhos. O beijo era a única certeza aparente.
E beijaram-se oras! Embaixo de uma mesinha bamba de bar deserto, pode?
A noite era de domingo moroso: olhares, um beijo furtivo. Madrugada gelada. E tudo isso enquanto o mundo adormecia.
Ou fazia amor.

