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O diretor de arte

25 de julho de 2007

Reza a lenda corporativa que em uma multinacional russa havia uma cara muito engraçado e carismático: o Fagundinho. Ele era diretor de arte e tinha costumes estranhos. Apesar das singelas características up2date e well-fashioned o cara era todo boa-pinta e por onde passava arrancava suspiros das mulheres da empresa.

Acontece que Fagundinho tinha uma mania muito peculiar e constrangedora. Aliás, alguns achavam que aquilo era doença. Toda vez que o infeliz ia ao banheiro evacuar, executava uma sessão “mania pessoal”: desabotoava o paletó, tirava a gravata, arrancava a camisa, despia-se da calça e cueca, tirava as meias. Até o relógio. Ficava completamente nu. Deixava todas as roupas e acessórios alinhados na parede que contornava a sanita. Roupas dobradas nos vincos para não amassar. Relógio equilibrado para não cair. A mochila cheia de parafernálias no canto. Meias ao lado esquerdo, sapatos na porta, metade fora, metade dentro.

Ele dizia que aquilo o deixava livre para pensar enquanto prostrava-se ao trono oco para soltar o rabão de macaco.

E todo mundo que entrava naquele imenso banheiro já estava acostumado com a cena surreal. Mas ninguém se importava com aquelas doidivanices.

Até que o pessoal da logística resolveu sacanear.

Entraram sorrateiramente no banheiro. Cada um apontou para a peça de roupa que iria pegar. Contagem regressiva nos dedos e pimba! Cataram todas as roupas e se escafederam! Não deu nem chance do Fagundinho terminar o palavreado chulo que emanava com voz gutural.

A empresa era grande e era final de expediente. Muita gente zanzando pelos corredores do prédio, muita gente indo embora e ele precisava voltar ao trabalho, pelo menos para enviar um relatório atrasado e procurar suas roupas. Contabilizou o estrago: ficou com uma meia, o relógio, a gravata e os dois sapatos. E sua mochila.

Não restou-lhe dúvidas: vestiu a gravata, deu um nó duplo, colocou a única meia, os dois sapatos e viu que tinha que agir. Sacou da mochila umas folhas sulfites, um grampeador e uma fita adesiva. Dobrava as folhas, grampeava as emendas, fita adesiva nas partes críticas e de dobras corporais. Cinco minhutinhos e já tinha uma camiseta. Mais uns dez minutos, para ajustes de barra e comprimento do vinco e sua calça-sulfite estava pronta.

E não é que o Fagundinho sai do banheiro socialmente vestido? O desgraçado tinha feito até gola para assentar a gravata!

Chegou no seu setor. No promeiro momento, ninguém prestou muita atenção, mesmo porque ele sempre tinha umas roupas meio doidas mesmo. Até gravata de crochê o indecente usava.

Sentou-se lentamente, para assegurar-se de que os fundilhos não cederiam. Digitou umas coisas, enviou o relatório e esperou pacientemente.

Não deu outra: o boy apareceu meia hora depois, com um caixote lacrado. Era da logística. O bilhete em anexo admitia que Fagundinho 1 x Logística 0.

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Um comentário para “O diretor de arte”
  1. bah

    julho 25th, 2007 at 3:25 pm

    Tinha lido no Opio… boa essa historia