O BARITONO DA CATEDRAL MENOR


quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 12:47 pm

Quando criança, sua educação religiosa era extremamente severa: todas as quartas, catequese, todos os sábados, ensaio no coral e domingo, missa. Aquele menino raquítico ao contrário de seus amigos, gostava dessa vida espiritual e religiosa. Sempre se esforçava ao máximo para afinar sua voz com o coral.

E sua vida era graciosamente bela. Certa vez o ministro que cuidava das leituras bíblicas requisitou alguns jovens do coral para a leitura na missa dominical. Seria a consagração do menino! Ele prostrou-se diante do microfone, encheu os pulmões de ar e recitou todo o parágrafo. Seu discurso foi certeiro. Não gaguejou, não comeu acentuações nem pontuações.

— Tua voz é muito feia, moleque. Volte para seu lugar.

Aquelas palavras do ministro rasgaram-lhe a alma! Como alguém poderia falar assim? Como alguém, dentro de uma igreja, poderia fazer algo assim?

Ninguém percebeu, mas aquilo mudou o menino para sempre. O tempo passou, ele continuou se dedicando a música. Seu corpo magricela acabou por virar um grande homem. Morou na Itália, aprendeu latim, conheceu o canto gregoriano. Tornou-se barítono. Acompanhou por alguns anos a Orquestra de Berlim, sagrou-se primoroso.

Gozando férias em sua cidade natal, descobriu que o ministro que lhe feriu a alma estava em vias de bater as botas. Sem pestanejar, conversou com o pároco e encomendou-lhe uma missa especial, com trechos cantados por ele, em latim. No dia da missa, casa lotada, o ministro em sua cadeira de rodas na primeira fila. O barítono iniciou a Missa Benedicta. Era cantada em latim. E naquele momento, somente ele e o ministro entendiam a língua.

O que ninguém percebeu foi que a letra havia sido trocada. O barítono reescrevera tudo: o Kyrie, a Gloria, o Credo, o Sanctus & Benedictus, o Agnus Dei. Nem o padre, italiano, percebera a troca. O povo delirava com sua voz forte e envolvente. A cada verso maldito, uma punhalada na alma do velho ministro. Eram agressões verbais que estavam encrustradas no âmago da alma daquele vociferador.

Ao final da missa o público extasiado aplaudia em pé, enquando o ministro, atônito, surtava em um ataque cardíaco.


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