DEVANEIOS — BILAC


segunda-feira, 16 de julho de 2007 | 1:51 pm

Aos doze anos recebi a agoniante missão da belíssima professora de literatura: fazer um trabalho sobre o Parnasianismo.

É claro que como todo bom aluno apaixonado pelos belíssimos olhos amendoados daquela esvoaçante russa erradicada, o trabalho deveria ser perfeito. Aprofundei-me aos devaneios poéticos-literários, conheci Parnaso, o deus mitológico. Soube de relance que a poesia parnasiana devia pintar objetivamente as coisas, sem demonstrar a emoção, o que era feito caracteristico do romantismo.

Dificil era a leitura de Olavo Bilac. Desvendar as complicadas expressões de Raimundo Correia então! E noites afora biografias, poemas, enciclopédias de literatura caiam em minhas leituras. Emprestei de uma tia o livreto de normas para apresentação de trabalhos técnicos e científicos. Aprendi com a ABNT a defender uma tese e como seguir uma linha de pensamento lógico.

Ao final de duas semanas, a obra estava pronta: Serigrafia com o auxilio do pai gráfico de um colega uma caricatura colorida de Bilac na capa do trabalho. Redigi cuidadosamente as 14 páginas introdutórias burocráticas, dentro das normas.

E o dia tão esperado chegou. Vi colegas que apresentariam trabalhos sobre barroco, romantismo e arcadismo com míseras páginas grampeadas porcamente. Assisti pacientemente a apresentação dos tolos que sequer sabiam o que falavam. Apenas liam textos insossos e decorados.

A vez de apresentar encheu-me de ansiendade. Deixei a proposição do teorema ao colo da belíssima professora. O volume era de se impressionar: mais de cem páginas compunham a obra que apresentava uma chamativa e bem elaborada capa semi-transparente, caricaturada.

Quinze minutos destinados ao parnasianismo. A professora, incrédula, folheava o trabalho, sem prestar atenção ao descurso sólido. Interrompera, queria saber o que significava aquela frase estranha na dedicatoria do livro:

“Aos beócios humanos que não entendem a imane arte mordaz.”

Sorri, é claro! Disse-lhe que era referencial aos colegas de classe que passariam a vida rindo, sem nunca entender o que se passara.

A professora sorriu. Sabia o que significava. E o meu escarnecedor sorriso fez perceber que naquele ambiente o conhecimento havia sobrepujado toda a horda de colegas infinitamente inferiores ao conhecimento adquirido. E de lá para cá cada vez mais alguns textos meus vêm supridos de um trágico - mas glorioso vício - de enxertar doces devaneios tolos por tudo que se escreve.


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