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A rua, deserta.

26 de julho de 2007

A rua estava deserta.

De paralelepípedos desgastados e polidos, dividindo a cena com majestosos prédios residenciais, uma iluminação amarelada e algumas árvores pingadas. Aquela rua era monótona e simples.

Noite escura, nevoeiro fino, quase garoa. O silêncio fôra quebrado por um melodioso som, esparso, delicado como uma flauta. Toda a atenção de todos os prédios estava voltada para aquela música. Um homem alto, cabelos grisalhos, bigode e costeletonas, passeava despreocupadamente pelo meio da rua. Sua melodia era perfeitamente assoviada. O timbre e a potência de seu assovio era impressionante: ecoava pelas paredes de concreto, despertando a atenção de todos!

E vinham pessoas às janelas. Aquele homem não sabia, mas havia quebrado a velha e cansada rotina daquela rua. Passos despreocupados. A expressão surpreendente no rosto de cada um que prostrava-se para ver o homem passar era a prova definitiva de que aquele gesto havia transcendido a frígida barreira da morosidade.

Ele caminhou até o final da rua. Entrou na padaria. Todos esperavam nas janelas, ansiosos.

O homem saiu em silêncio. Aquele vácuo infinito torturava a todos.

Ele não assoviou nada. Simplesmente começou a cantarolar uma opereta em italiano. Era passos lentos, despreocupados. Sua voz era enebriante. A potência daquele som ecoava pelas paredes de concreto. Ao chegar perto da esquina, alguém começou a aplaudir. Segundos depois, todos que estavam às janelas batiam palmas. O momento era de arrepiar. O homem, parado na esquina estava assustado com o inusitado fato.

Ele não sabia, mas tinha transformado aquele mágico momento em uma das mais singelas lembranças de uma noite extática daquelas pessoas.

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