A CRUVIANA

sábado, 14 de julho de 2007 | 1:24 pm


O caixeiro catinguento do eslaque listra de giz atardeceu na comunidade sem ter para onde ir. Da sua vemaguete três-tempos não conseguiria viajar sem antes comprar alguns galães de gasolina no recôncavo do coronel. Mas fecha cedo e cadê os culhões para importuná-lo essa hora da noite?
Resolveu pedir arrego a um tal João Cacheado, cabroche pernóstico e contador de histórias antigas, da Vila Desperado. Vendeu a João revórve, espuleta e radinho caboclo, não o daria pouso? João era sagaz e matrecolejante, tinha salinha de estudo com numerosas estantes tortas da meia-cana, abarrotadas de livros certamente preciosos, com admiráveis encardenações de lombada em relevo americano. E falava pelos catovelos astúcias de contos letrados que de vida os formavam.
É claro que dessa conversaiada toda o tempo comeu dois quintos da noite adentro. O catinguento caixeiro assoprou o fio de luz do candeeiro com o boa-noite de João. Cresceu a noite, e a vigília dos olhos do caixeiro cada vez mais acesa; sem dormir, sonhou as letradas palavras viventes do homem que o contara.
Vento dali, cruviana que assobia em riba das telhas, catucou o caixeiro de fianco pelas tramas da rede balangandã. E cruviana não se vê, se sente. Era já a terceira ou quarta cantata de galos e o ventil o beliscou as bochechas.
Amanheceu, o caixeiro acordou com as juntas ardidas de frio, tremelequento que só ele. João Cacheado, que levantou cedo para o café coar, encontrou o caixeiro picando fumo na mão: “Cedo, caixero?” “Nada, cruviana me atacou.” “Cruviana tava é presa!” “Nada! no solsaio da baticum lá veio ela e crau nas minhas ventas!” “Machucou?” “Nem, só gelou minha espinhéla.” “Vou descer de pau essa vagabunda!”
Para o caixeiro, a cruviana era só um soprão frio — desses que vem do sul — que o catou de supetão. Para João Cacheado, apenas uma cadela desdentada e descaderada de briga de cio.
Tanto fez, tanto faz, desta desencontrura de informações, nem caixeiro, nem Cacheado fizeram-se entender.





