Hoje, como d´outras amargas vezes, recordei do passado perdido que escapou das minhas mãos.
Uma bela época que agora fita-me por um belo espelho d´água vertical, por olhos de um outro que fui e que agora há de me escarnecer.
Chacoalha a cabeça em tom de repreensão enquanto me olha da cabeça aos pés. São as roupas que uso agora, não é? É o corpo cansado e a melancolia que me escapa pelos movimentos e olhos, reações e consentimentos. E isso é uma bela de uma intimidação perante um ragazzo altivo e forte — lobo de seu destino.
Vitoria e derrota da própria essência, pelos céus e infernos terrestres. Simples competição vivencial, por assim dizer. Diluo inveja com tristeza e percebo os limites exactos do seu desapontamento primordial. Tento me desculpar, polido, mas ambos sabemos que é desnecessário por ser em vão. Sinto um profundo mal-estar de um banzo por uma terra que não existe mais, pois ele sabe de todos os meus pensamentos obscuros e de tudo pelo que passei e cedi para estar aqui, apenas existindo, sobrevivendo em um ritmo cada vez mais difícil, porém compulsório. Minhas loucuras são hoje medíocres e meu élan transformou-se em conformismo denso, moroso e sufocante.
E aí a me pergunto onde estou e o que realmente preciso fazer para respirar. Encontro-me no meio de um caminho que desmorona atrás de mim, e então sou obrigado a correr para não ceder junto, meu Eu amigo.
Sei que a tua alegria definhou em mim, mas vaga nos limites demarcados pelo que fiz, pelo que fui. E é essa a beleza da reconstrução de um passado perfeito: fica intacto e cristalino como a memória que me trai reiteradamente; não pela falha, mas pela clareza e precisão em me mostrar um claustro que eu mesmo ergui à minha volta.
Não tenho uma fração da minha coragem de outrora: tenho medos multiplicados, receios infindáveis.
Assusto-me até com o que sou, dentro da minha pele de um animal domesticado e à caminho da imolação. O que tenho pela frente, senão uma longínqua esperança de guinar minha marcha e sair pelo prado da liberdade?
Aprendi que lonjuras são vencidas até com a fraqueza do ânimo, e a minha distância para a mudança tem agora o tempero da minha vontade. Ouço ao longe os tambores de um novo combate que se anuncia. O combate entre a inércia e a vida. Vida, vida, prepare casa que estou de volta! Com todos os sons e com toda a energia que agora mostra faíscas dentro dos meus olhos e centelhas que esbaforam ao meu ofegar.
Do velho espelho de água que me refletiu, nada me importará o passado, do reflexo que fez dobrar meu medo sobre si mesmo.


