EM ALGUM PONTO ENTRE FERREIROS, GALIZA E PAMPLONA

sábado, 24 de novembro de 2007 | 10:42 pm

Encontrei uma carta das bordas ibéricas listradas dentro de um velho livro de cabotagem basca.
A letra forte, carrancuda e cheia de tensão nas ascendentes era de Florita Nuñes Cabezapretta, uma jovem dama compostela canhota. Adressava à Giancarlo V. Sólo e lacrada à sinete. Bem na infeliz época em que ele resolveu percorrer a malograda trilha de Santiago, e que voltou em uma desacerbada carreira, não querendo comentar nada.
O que aconteceu na época não foi nada agradável, pelo que li na missiva. A história é bem lógica e calculada e, se eu não conhecece meu irmão, diria se tratar de uma cena tragicômica perfeitamente inventada.
É claro que peguei Giancarlo pelos gargumilhos e ele se rendeu de bom grado “Já se passaram quase 20 anos, camarada. Pois vou te contar o que se sucedeu”.
Era uma noite qualquer de esbórnia em uma dessas pequeninas cidades de rota peregrina, Giancarlo acabou se engraçando com uma catalã muito inquieta. Tudo começou na taberna da pequena albergaria da qual seus pais eram donos. Ela era uma espécie de relações-públicas do estabelecimento, o que focou a atenção imediata de Giancarlo. Embalados por uma sangria pra lá de enebriante, os dois caíram em desejos carnais na sala particular da charutaria do pai da moçoila, ali mesmo, em cima do carpete floral em frente da lareira flamejante.
A fogosa libertina era escandalosa demais e, apesar da despreocupação do casalzinho, o patriarca desconfiado veio conferir a fuzarca no recinto, encontrando a filha descabelada das bochechas rubras e Giancarlo, polaco queimado, que de súbito prostou-se em guarda-defesa como um jaguar que salta assustado.
O velho colerizou na hora: puxou da chapeleira um florete desembanhado e pôs a honra perdida da guria na ponta da esgrima. Mesmo em tensão absorta, Giancarlo de nada reagiu. Pelado em frente a lareira, e apenas segurando a calçolona da moça em frente de suas vergonhas, não achava alternativa viável para o entendimento. O homem não demorou nem meio segundo e fez zunir aquela lâmina brilhosa pela guarda do flertista. Giancarlo deu mais um pulo, agora para trás do sofá e saiu em disparada para a adega. Foi o tempo de encontrar algumas garrafas de prosseccos e chapagnes. Não titubeou, agarrou una bottela de Taittinger-Millésime’63, chacoalhou ao extremo, arrancou-lhe os anilhos metálicos de rolha, fez mira de assalto e espocou o projétil. O petardo foi tão bem feito que o rolhame pegou de cheio o olho direito do velho, prostrando-o de joelhos, com o florete caído, as duas mãos nos olhos e urros de dor.
A peleja cessou em um quarto de minuto, tempo de Giancarlo calçar as botas, pegar sua mochileta de peregrino, seu cajado de raíz de nogueira, de roubar um beijo lascivo da donzela que chorava pranto lavado.
Sumiu na escuridão em trote de fuga, pelado, de botas e mochila.
A tal carta alcança-o em Viscarret. Nota-se que à Giancarlo fôra atribuída a má índole dos mouros cruzadistas, aqui descrita como franjs - do persa, “cruzado” ou “levantino”.
Apesar de toda a ira história postulada na carta, Florita desnuda seu coração por segundos, finalizando a redação com uma ponta de esperanças.
E assim descubro que não sou o único abilolado na família.
A letra forte, carrancuda e cheia de tensão nas ascendentes era de Florita Nuñes Cabezapretta, uma jovem dama compostela canhota. Adressava à Giancarlo V. Sólo e lacrada à sinete. Bem na infeliz época em que ele resolveu percorrer a malograda trilha de Santiago, e que voltou em uma desacerbada carreira, não querendo comentar nada.
O que aconteceu na época não foi nada agradável, pelo que li na missiva. A história é bem lógica e calculada e, se eu não conhecece meu irmão, diria se tratar de uma cena tragicômica perfeitamente inventada.
É claro que peguei Giancarlo pelos gargumilhos e ele se rendeu de bom grado “Já se passaram quase 20 anos, camarada. Pois vou te contar o que se sucedeu”.
Era uma noite qualquer de esbórnia em uma dessas pequeninas cidades de rota peregrina, Giancarlo acabou se engraçando com uma catalã muito inquieta. Tudo começou na taberna da pequena albergaria da qual seus pais eram donos. Ela era uma espécie de relações-públicas do estabelecimento, o que focou a atenção imediata de Giancarlo. Embalados por uma sangria pra lá de enebriante, os dois caíram em desejos carnais na sala particular da charutaria do pai da moçoila, ali mesmo, em cima do carpete floral em frente da lareira flamejante.
A fogosa libertina era escandalosa demais e, apesar da despreocupação do casalzinho, o patriarca desconfiado veio conferir a fuzarca no recinto, encontrando a filha descabelada das bochechas rubras e Giancarlo, polaco queimado, que de súbito prostou-se em guarda-defesa como um jaguar que salta assustado.
O velho colerizou na hora: puxou da chapeleira um florete desembanhado e pôs a honra perdida da guria na ponta da esgrima. Mesmo em tensão absorta, Giancarlo de nada reagiu. Pelado em frente a lareira, e apenas segurando a calçolona da moça em frente de suas vergonhas, não achava alternativa viável para o entendimento. O homem não demorou nem meio segundo e fez zunir aquela lâmina brilhosa pela guarda do flertista. Giancarlo deu mais um pulo, agora para trás do sofá e saiu em disparada para a adega. Foi o tempo de encontrar algumas garrafas de prosseccos e chapagnes. Não titubeou, agarrou una bottela de Taittinger-Millésime’63, chacoalhou ao extremo, arrancou-lhe os anilhos metálicos de rolha, fez mira de assalto e espocou o projétil. O petardo foi tão bem feito que o rolhame pegou de cheio o olho direito do velho, prostrando-o de joelhos, com o florete caído, as duas mãos nos olhos e urros de dor.
A peleja cessou em um quarto de minuto, tempo de Giancarlo calçar as botas, pegar sua mochileta de peregrino, seu cajado de raíz de nogueira, de roubar um beijo lascivo da donzela que chorava pranto lavado.
Sumiu na escuridão em trote de fuga, pelado, de botas e mochila.
A tal carta alcança-o em Viscarret. Nota-se que à Giancarlo fôra atribuída a má índole dos mouros cruzadistas, aqui descrita como franjs - do persa, “cruzado” ou “levantino”.
(…) E te odio porque és como los franjies, incógnito impúdico y lascivo, que cohabita con las mujeres, sin distinción de estado ni edad, efectuando el coito, o concúbito, con ellas sin importarles que sean viejas repelentes o jóvenes bellisimas, y sin conceder ningún valor al hecho de que sean solteras, casadas o viudas; (…)
Apesar de toda a ira história postulada na carta, Florita desnuda seu coração por segundos, finalizando a redação com uma ponta de esperanças.
(…) Un día, todavía espero para encontrarle, ojos en los ojos. Ver otra vez la cara del hombre que deflorated me con una energía persuasiva genuina y con un ecstasy de la pasión que hasta hoy nunca percibí en otrorem.
Regards de Florita.
E assim descubro que não sou o único abilolado na família.








