Conheci Eliza Mildred-Eclair Françoise Rumbauldt em 1998. Era uma mulher exuberante, tinha 34 anos de idade e já havia morado em Timbuktu, Maputo, Comores, Salerno e Tegucigalpa. Nunca desperdiçou sua bela vida em bancos frívolos acadêmicos, tampouco em escritórios; apenas lecionava francês para universitários, de forma empírica e instintiva, conhecimento e experiência.
Tinha naquela época uma rotina pacata após muitos anos dessas viagens, pagas devidamente na moeda universal dos favores sexuais. Sim, rodara o mundo, mas teve uma freqüência sexual similar ao de qualquer demi-mondaine de uma grande cidade litorânea. Aliás, Eliza lembrava algumas conhecidas raparigas praieiras: cheiro de mar, pele acobreada, cabelos queimados pelo sol, roupas esvoaçantes, a ausência permanente de soutiens ou similares e, é claro, a extensa quilometragem venérea.
Eliza, então, tocava sua vida guiando um velho hatchback´92 azul marinho e falando “Bonjour” das oito às dezoito, com duas horas de intervalo para o almoço. À noite, tinha como opções tomar um aperitivo entre os amigos desocupados do Meio Artístico & Decadente S.A. ou fumar um pouco de maconha na beira-mar norte. Ganhava o suficiente para pagar esse lazer diário, a gasolina do automóvel, o aluguel do muquifinho e a alimentação macrobiótica.
Considerava-se uma mulher feliz e realizável (note que realizada e realizável são antônimos desconexos em tacanha funestra).
Mas faltava algo na vida de Eliza: ela fingia não ligar por não ter um companheiro, afinal vivia entre amantes vorazes, nenhum que realmente a completasse. Até que, um dia, nesses de início letivo, Eliza teve naquela sala-de-aula de sempre uma sensação que não tinha há muito. R. Valentino iria mudar a sua vida e ela pressentiu isso desde o primeiro instante que o viu.
Passaram-se três semanas do início das aulas. Eliza e Valentino já haviam trocados vários olhares, principalmente quando todos estavam de cabeça baixa resolvendo alguns exercícios ou então no pátio, nos intervalos entre as aulas. Eliza também já se arriscava a brincar com o ele durante a aula: chamava-o Rudolfn Valèntin, em um belo sotaque franco-prussiano; solicitando sempre que ele iniciasse a leitura ou elogiando sua voz.
Nascia uma paixão de rumos inesperados e furtivos.
Eliza se tornava cada vez mais obcecada com aquele rapaz e esperava aflita o horário de sua aula no cair da noite. Seu coração palpitava quando o via chegar e a sua ansiedade — quando este se atrasava — só era dirimida quando o via girar a maçaneta e sentar-se nas fileiras posteriores. Só aí a aula tomava um rumo tranqüilo. Quando Rudlfñ se abstinha da aula, Eliza se enervava a tal ponto de finalizar a lição mais cedo, alegando um passamento ou outro mal-estar momentâneo. Um sentimento amoroso foi crescendo dentro de Eliza até que ela tomou coragem em uma obscena sexta-feira, quando o chamou para um festival de música naquela noite. Não aceitaria recusas, pois tinha já comprado as duas entradas e foi o que convenceu Valentino a acompanhar a professora de francês.
Foram ao evento e, já na primeira noite, Eliza conheceu o amor carnal como nunca imaginara. Vários amantes prévios não a tinham feito feliz como naquela noite e ela pensou ter, finalmente encontrado a sua alma-gêmea. Aquela noite se repetiu por várias e várias vezes até que Eliza começou a desconfiar da fidelidade de seu novo amor. No início tinha-o visto conversando com outras alunas do curso, nada de mais. Depois foram as desculpas, cada vez mais amiúde, do rapaz em não comparecer à sua casa ou mesmo não sair juntos. Eliza se enervava e começava a dar mostras de perder o próprio controle, discutindo primeiro em casa, depois em público e até na escola de línguas. Nas últimas vêzes, berrava em voz alta, repetindo frases agressivas e xingamentos leves.
E Rudolfner não dava a mínima, mostrou ser um sujeito insensível aos apelos de Eliza, chegando a rir dela dando-lhe as costas e chamando-a de “vetusta maluca”. Ela engolia as ofensas entre soluços guturais e lágrimas quentes e amargas. Mas não pensava na hipótese de perder sua paixão e, logo que possível, reatava seu relacionamento com presentes e promessas.
“Ah, o amor e suas vicissitudes…”
Por último foi um flagrante no qual presenciou seu namorado em um amoroso beijo com outra mocinha na edícula do pequenino jardim central da instituição na qual trabalhava. Aquilo para Eliza foi o cúmulo da traição. Mais do que desesprerada, gritou de forma bruta e destonada. Largou em cada lado de seu corpo a bolsa hippie e os livros. Partiu com as frágeis mãos erguidas para agredir o seu querido menino, que havia suspenso a carícia com a outra colega após o grito de Eliza e agora estava furioso com aquela cena de acinte.
Eliza foi recebida com um desvio de corpo pelo aluno — o que a fez passar de solsaio pelo assunto — e em seguida sentiu seu rabo de cavalo agarrado virilmente de modo que lhe doeu o escalpe. Dominada, foi, a seguir, arremessada de encontro à grama, impacto que lhe tirou a energia e a coragem de levante. Interrompeu o choro alto com a pancada de um soco que lhe atingiu as costelas à direita, liberando um som oco pulmonar, trocando as imprecações que soltava ao vento contra a masculinidade de seu agora ex-quer-o-que-seja por um gemido contínuo. Quem passava pelo jardim naquela hora de maior movimento, via o corpo de uma professora a se contorcer e rolar entre papéis e capim, gritando:
“Rudulgrunfz Valèntnstz vas te faire enculer! Pédé! Tarlouze! Toi, baclêur bon à rien!” Ele apenas retroucou um
“Je m’en foutre!” quando já ia longe, pensando em como uma mulher enciumada e maluca podia atrapalhar a sua vida.

É claro que R.Valentino jamais contaria aqui sobre este micro=relacionamento tórpe. Ainda mais quando ele se deparou com Eliza no dia seguinte, sentada no banquilho de pedra-sabão da esquerda da edícula, pitando um cigarro de folha de parreira em uma cigarrilha a tremilicar.
“Bonjour, gros cochon.”
“Bonjour, grosse poubelle.”
“Corra, puto.”
Ele fingiu que não entendeu. Fez um “pff!” com a mão e deu-lhe as costas. Ela puxou sua bolsa hiponga e pegou uma pistolinha American Derringer de uma bala só.
Ela engatilhou, fez mira e atirou.
O projéctil embolou o popinho da nádega esquerda. A bolotinha de Flobér.22 o pinicou de maneira tão aguda que Valentino pulou de supetão e disparou em uma corrida como jamais o fizera. Eram passos esvoaçantes e zigue-zagueados onde quase que as pernas deixavam o corpo cambalear para trás, tamanho ritmo frenético que o impulsionava.
Eliza apenas sorriu.
Nota do autor: Conheci Eliza em 88 justamente por não acreditar nas histórias que me contaram sobre o petardo em pleno campus e por Valentino bater o pé em não assumir que foi baleado na bunda pela professora histérica. O incidente realmente se consumou — e Eliza confirma (”Mas não conta para ninguém, pega mal!”) — apesar de jamais constar nos autos da instituição. Como era de se prever, vive apenas na memória informal das lendas universitárias.