Arquivos do mês de outubro de 2007

FORMALIDADE NO CERRADO


quarta-feira, 31 de outubro de 2007 | 11:37 am

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O CAMALEONTE DE TERNO HENRY NEEDLE & SONS


terça-feira, 30 de outubro de 2007 | 3:42 pm

O camaleao de terno Henry Needle & Sons
O camaleão (Chamaeleo chamaeleon), ao contrário do que todo mundo pensa, não é um ser mimético-dinâmico. Apesar do fotocromismo epitelial, não consegue se desenhar em um traje formal, o que o torna um cidadão como outro qualquer. Gosta do corte rigoroso tailor-inglés. Mimetiza com as gravatas: estampas, cores e texturas, ah, estas sim, ele imita com perfeição.

Fidalgo de ministro-desembargador-ajuizado do terceiro prédio espelhado do setor de altarquias sul, o camaleonte inequívoco mostra-se seguro na sagacidade parternal que o cerca. Aplica com êxito danoso a carteirada que o transforma em autoridade-de-caserna.

Tem no repertório as frases claustrofóbicas: “Sabe com quem está falando? / Sabe filho de quem sou eu?”. Exerce seu direito em paz. Até hoje não existiu calango que o peitasse. Fuma tranqüilo uma cigarrilha de filtro de carvão ativo em ambiente fechado. Lambe as costas de mulheres em boates, com sua rápida língua de 23 polegadas. Gosta do salzinho do suor sabor quelque parfum. A lei não é para ele, definitivamente.

A JOANINHA-MACHO CANIBALIS


segunda-feira, 29 de outubro de 2007 | 5:07 pm

A joaninha macho canibalis

O FERRET DO COSTUME HERMENEGILDO ZEGNA


sexta-feira, 26 de outubro de 2007 | 11:32 am

O furão do costume Hermenegildo Zegna
O Furão (Mustela Putorius Furo) tem pescoço fino e é infeliz com golas italianas. Prefere as gravatas pretas, das mais baratas possíveis. De um rosto arredondado e orelhas débeis, possui cabeleira rôta e grandes olheiras tórpes. Mexe o nariz de forma estranha e promíscua. Lembra uma ratazana admoestada.

Prefere carros com bancos anatómicos, pois tem lordose acentuada e cômica. Sente-se confortável com a capa de bolinhas de madeira no costado do assento.

O furão é rápido: de olhos furtivos, procura por brechas e espaços rápidos em vias de pista dupla e tripla. Não demonstra vergonha alguma ao utilizar vias de escape, desaceleração ou acostamento para lograr economia de tempo. Cria segunda e terceira fila, mas sente-se profundamente molestado ao perceber que outrem tomará seu lugar, acelerando como louco. Perde o dia, quando alguém o ultrapassa. Não usa as setilhas de pisca-pisca do carro para avisar qual pista decidiu trocar, aumentando assim as chances de sucesso em uma manobra ousada.

QUANDO AS COISAS FOGEM DO CONTROLE


quarta-feira, 24 de outubro de 2007 | 2:34 pm

O meu avô — pai da minha mãe — é uma das pessoas que mais admirei neste mundo. Um polacão sagaz e sentimental. Aprendi com ele a subir em ameixeiras, o que me rendeu uma das mais fantásticas fotos que tenho de minha infância. Ele adorava todos os netos, e todo mundo viva grudado no pescoço dele.

Ninguém ficava indiferente com suas traquinagens. Ele era poliglota, falava dialetos longíqüos, direto dos neologismos que perfeitamente assimilam-se com algum idioma que já se tenha falado em algum lugar da Terra. Assim mesmo, inventava palavras e dava uma risada gostosa, com cara de malandragem mesmo. Misturava seu polaquês puxado em italiano e com um pouquinho da engasgação alemã. Foi combatente da segunda guerra. Apesar do avião dele nunca ter saído do brasil para o front de batalha. Detalhes.

O homem daria inveja ao professor Pardal: sabia consertar rádio velho valvulado. Sabia consertar rádio novo transistorizado. Sabia consertar disc-man, guarda-chuva, televisão, radiola, aspirador, video-cassete, microondas, motor de carro velho e brinquedos.

Mas o mimo de suas peripécias era a fabricação de violinos. São verdadeiras obras de arte!

Ele era um luthier. Acho que nunca soube desse titulo, uma pena. Seria algo a mais para ele contar.

Esculpia cravilhas, afinava a madeira pela batida dos nós dos dedos. Trabalhava com paciência em cada peça. Dedicava toda sua arte aos instrumentos. E sabia tocar. Lançava sonoras valsinhas polonesas, clássicos de cordas. Tudo em um impecável instrumento.

Gosto muito dele. Ele sabia o que era ser companheiro. E seus amigos gostavam muito dele. Ele era muito amado.

O meu avô era maravilhoso.
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Final de semana estive com meu avô materno. Como sempre foi um momento muito bom, apesar do problema de saúde que o acomedeu. A gente conversou pouco dessa vez. Hora que nos despedimos, pedi a bença, uma coisa que quase nunca fiz na vida, bem comum na vida dele.

“Deus te abençoe, meu filho.”

“Cuide-se, vô!”

“Pode deixar.”

Aí descobri, bem naquele momento em que saí pela porta do quarto do hospital, que nem todas as despedidas precisam ser tristes. Mesmo as definitivas.

Hoje meu avô faleceu.
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Fiquei triste, é verdade. Mas sorri ao relembrar as peripécias que aprontávamos juntos. Ele era um homem bom, simpático e, apesar da imensa tristeza do momento, sorri ao lembrar dele. Chorar em um momento como esse seria injusto com o homem alegre que ele foi.

O mundo é uma bela escola que nos ensina muito. Eu já sabia que ele iria partir. Aquele quadro clínico dele, no hospital era desanimador. Mas, mesmo assim, ele vinha com as suas, para cima dos médicos: “Como está hoje, José?” “Bem melhor!”

Fica a belíssima lembrança e a sensação de felicidade por todos os anos que convivemos juntos e por ter sido um avô tão incrível para mim.
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Até mais, velho.

O MACACO-BIGODEIRO DO TUXEDO GIOIA PUPETTA


quarta-feira, 24 de outubro de 2007 | 12:04 pm

o macaco-bigodeiro do tuxedo Gioia Pupetta
O Macaco-bigodeiro” (Saguinus imperator — Goeldi, 1907) é um miquinho fedorento e mal-agradecido. Famoso meio-quilo, pequenino, de corpo esguio e rápido, pelagem espessa, seu maior atrativo visual é o imenso bigodão-de-arame que ostenta como um baronete vivaz.

Seu cacoete irritante é alisar — em uma frenesi tremética — seu bigode com as mãozinhas pretas, tal e qual uma mulher que recém chapeou seus cachos cabelosos.

Migratório para a grande capital federal, o macaco-bigodeiro sente-se atraído pelo “eldorado salarial”, ignorando quaisquer choques culturais, climáticos e organizacionais. Chegam no oba-oba. Reclamam. E como reclamam! É o valor fora-da-realidade das moradias, da seca, do calor, da lonjura, da falta de nomes nas ruas, da falta das esquinas, de gente feia.

Mostram os dentinhos serrilhados na menor presença de ameaça à terra natal. Tentam gentileza e percebem sutileza. Descobrem que não existem empregos decentes que não rocem a barriga na servidão pública.

O GUAXIMIM DA CASACA SCHIMIDT NOLLEN


terça-feira, 23 de outubro de 2007 | 12:47 pm

o guaxinim de casaca inglesa
O guaxinim (Procyon cancryvorus) ou mão-pelada tem corpo brevilíneo e cônico, com a extremidade de cima mais fina que o resto. Tem umas mãos bem pequenas e uns dedinhos nojentos com umas unhas roídas. Olheiras entristecidas compõem a retórica pessimista. Fuma excessivamente, segundo seu Orkut.

Tentou diversas vezes passar no Instituto Rio Branco, mas reprovou nas seletivas.

Boquinha-livre da embaixada germânica, no Setor de Embaixadas Sul: Diz-se um “Diplomaten” ao entrar apressado; fica em um canto obscuro segurando as guloseimas com as duas mãos. Morde sem tirar os olhos do ambiente. Come rápido e desconfiado, esgalamido que é. A cabeça não pára.

Permanece num estado de excitação constante, dançando nuns pulinhos rápidos ao som da banda, mas sem largar a comida. Não fala com ninguém e vai de instantes em instantes à mesa de acepipes, sem parar de dançar. Ri sozinho, como um pateta.



SURICATA DO TERNO HUMPHREY HOLTZ


segunda-feira, 22 de outubro de 2007 | 3:37 pm

O suricata de Humphrey Holtz
O Suricata (Suricata suricatta) é esguio demais para o Costume de Cambraia Oxford. A gola fica frouxa mesmo com o Windsor na gravata apertada. A barba é mal-feita e serronada. Tem um cabelo pouco e desgrenhado em cima da cabeça que é frouxa e quadrangular. Usa uns óculos de aros finos do mesmo formato do esfenóide.

Olha rapidamente pros dois lados e atravessa a esplanada ligeiro, com os passinhos apertados e segurando a gravata com a mão. A gáspea do sapato empoeirece no primeiro quarto de passadas, avermelhando todo o conjunto, com um talco de terra que não vê chuva.

O corpo é frágil: se um carro pegasse, partiria ao meio. Entra na repartição surgindo e desaparecendo constantemente, nunca pára. Fala pouco mas gesticula muito. É medroso. Almoça marmitas de três pilas, vendida na porta do anexo.



EMBAIXO DO ALTAR, PRESUMO EU.


quinta-feira, 18 de outubro de 2007 | 4:11 pm

yeap!

ALBUM: FOTOGRAMACRO


quinta-feira, 18 de outubro de 2007 | 1:24 pm

A vida em uma florada de butiás, uma pequenina palmeira (Butia Capitata) de frutos amarelados.

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O DIA EM QUE R.VALENTINO LEVOU UM TIRO NA BUNDA


quarta-feira, 17 de outubro de 2007 | 3:27 pm

Conheci Eliza Mildred-Eclair Françoise Rumbauldt em 1998. Era uma mulher exuberante, tinha 34 anos de idade e já havia morado em Timbuktu, Maputo, Comores, Salerno e Tegucigalpa. Nunca desperdiçou sua bela vida em bancos frívolos acadêmicos, tampouco em escritórios; apenas lecionava francês para universitários, de forma empírica e instintiva, conhecimento e experiência.

Tinha naquela época uma rotina pacata após muitos anos dessas viagens, pagas devidamente na moeda universal dos favores sexuais. Sim, rodara o mundo, mas teve uma freqüência sexual similar ao de qualquer demi-mondaine de uma grande cidade litorânea. Aliás, Eliza lembrava algumas conhecidas raparigas praieiras: cheiro de mar, pele acobreada, cabelos queimados pelo sol, roupas esvoaçantes, a ausência permanente de soutiens ou similares e, é claro, a extensa quilometragem venérea.

Eliza, então, tocava sua vida guiando um velho hatchback´92 azul marinho e falando “Bonjour” das oito às dezoito, com duas horas de intervalo para o almoço. À noite, tinha como opções tomar um aperitivo entre os amigos desocupados do Meio Artístico & Decadente S.A. ou fumar um pouco de maconha na beira-mar norte. Ganhava o suficiente para pagar esse lazer diário, a gasolina do automóvel, o aluguel do muquifinho e a alimentação macrobiótica.

Considerava-se uma mulher feliz e realizável (note que realizada e realizável são antônimos desconexos em tacanha funestra).

Mas faltava algo na vida de Eliza: ela fingia não ligar por não ter um companheiro, afinal vivia entre amantes vorazes, nenhum que realmente a completasse. Até que, um dia, nesses de início letivo, Eliza teve naquela sala-de-aula de sempre uma sensação que não tinha há muito. R. Valentino iria mudar a sua vida e ela pressentiu isso desde o primeiro instante que o viu.

Passaram-se três semanas do início das aulas. Eliza e Valentino já haviam trocados vários olhares, principalmente quando todos estavam de cabeça baixa resolvendo alguns exercícios ou então no pátio, nos intervalos entre as aulas. Eliza também já se arriscava a brincar com o ele durante a aula: chamava-o Rudolfn Valèntin, em um belo sotaque franco-prussiano; solicitando sempre que ele iniciasse a leitura ou elogiando sua voz.

Nascia uma paixão de rumos inesperados e furtivos.

Eliza se tornava cada vez mais obcecada com aquele rapaz e esperava aflita o horário de sua aula no cair da noite. Seu coração palpitava quando o via chegar e a sua ansiedade — quando este se atrasava — só era dirimida quando o via girar a maçaneta e sentar-se nas fileiras posteriores. Só aí a aula tomava um rumo tranqüilo. Quando Rudlfñ se abstinha da aula, Eliza se enervava a tal ponto de finalizar a lição mais cedo, alegando um passamento ou outro mal-estar momentâneo. Um sentimento amoroso foi crescendo dentro de Eliza até que ela tomou coragem em uma obscena sexta-feira, quando o chamou para um festival de música naquela noite. Não aceitaria recusas, pois tinha já comprado as duas entradas e foi o que convenceu Valentino a acompanhar a professora de francês.

Foram ao evento e, já na primeira noite, Eliza conheceu o amor carnal como nunca imaginara. Vários amantes prévios não a tinham feito feliz como naquela noite e ela pensou ter, finalmente encontrado a sua alma-gêmea. Aquela noite se repetiu por várias e várias vezes até que Eliza começou a desconfiar da fidelidade de seu novo amor. No início tinha-o visto conversando com outras alunas do curso, nada de mais. Depois foram as desculpas, cada vez mais amiúde, do rapaz em não comparecer à sua casa ou mesmo não sair juntos. Eliza se enervava e começava a dar mostras de perder o próprio controle, discutindo primeiro em casa, depois em público e até na escola de línguas. Nas últimas vêzes, berrava em voz alta, repetindo frases agressivas e xingamentos leves.

E Rudolfner não dava a mínima, mostrou ser um sujeito insensível aos apelos de Eliza, chegando a rir dela dando-lhe as costas e chamando-a de “vetusta maluca”. Ela engolia as ofensas entre soluços guturais e lágrimas quentes e amargas. Mas não pensava na hipótese de perder sua paixão e, logo que possível, reatava seu relacionamento com presentes e promessas.

“Ah, o amor e suas vicissitudes…”

Por último foi um flagrante no qual presenciou seu namorado em um amoroso beijo com outra mocinha na edícula do pequenino jardim central da instituição na qual trabalhava. Aquilo para Eliza foi o cúmulo da traição. Mais do que desesprerada, gritou de forma bruta e destonada. Largou em cada lado de seu corpo a bolsa hippie e os livros. Partiu com as frágeis mãos erguidas para agredir o seu querido menino, que havia suspenso a carícia com a outra colega após o grito de Eliza e agora estava furioso com aquela cena de acinte.

Eliza foi recebida com um desvio de corpo pelo aluno — o que a fez passar de solsaio pelo assunto — e em seguida sentiu seu rabo de cavalo agarrado virilmente de modo que lhe doeu o escalpe. Dominada, foi, a seguir, arremessada de encontro à grama, impacto que lhe tirou a energia e a coragem de levante. Interrompeu o choro alto com a pancada de um soco que lhe atingiu as costelas à direita, liberando um som oco pulmonar, trocando as imprecações que soltava ao vento contra a masculinidade de seu agora ex-quer-o-que-seja por um gemido contínuo. Quem passava pelo jardim naquela hora de maior movimento, via o corpo de uma professora a se contorcer e rolar entre papéis e capim, gritando: “Rudulgrunfz Valèntnstz vas te faire enculer! Pédé! Tarlouze! Toi, baclêur bon à rien!” Ele apenas retroucou um “Je m’en foutre!” quando já ia longe, pensando em como uma mulher enciumada e maluca podia atrapalhar a sua vida.
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É claro que R.Valentino jamais contaria aqui sobre este micro=relacionamento tórpe. Ainda mais quando ele se deparou com Eliza no dia seguinte, sentada no banquilho de pedra-sabão da esquerda da edícula, pitando um cigarro de folha de parreira em uma cigarrilha a tremilicar.

“Bonjour, gros cochon.”

“Bonjour, grosse poubelle.”

“Corra, puto.”

Ele fingiu que não entendeu. Fez um “pff!” com a mão e deu-lhe as costas. Ela puxou sua bolsa hiponga e pegou uma pistolinha American Derringer de uma bala só.

Ela engatilhou, fez mira e atirou.

O projéctil embolou o popinho da nádega esquerda. A bolotinha de Flobér.22 o pinicou de maneira tão aguda que Valentino pulou de supetão e disparou em uma corrida como jamais o fizera. Eram passos esvoaçantes e zigue-zagueados onde quase que as pernas deixavam o corpo cambalear para trás, tamanho ritmo frenético que o impulsionava.

Eliza apenas sorriu.

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Nota do autor: Conheci Eliza em 88 justamente por não acreditar nas histórias que me contaram sobre o petardo em pleno campus e por Valentino bater o pé em não assumir que foi baleado na bunda pela professora histérica. O incidente realmente se consumou — e Eliza confirma (”Mas não conta para ninguém, pega mal!”) — apesar de jamais constar nos autos da instituição. Como era de se prever, vive apenas na memória informal das lendas universitárias.

RAFTING EM TIBAGI - 2003


quarta-feira, 10 de outubro de 2007 | 1:41 pm

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A TELEFUNKEN DOS OLHOS AMENDOADOS


quarta-feira, 10 de outubro de 2007 | 1:30 pm

Eu preciso de um pouquinho de paciência. Da sua paciência, para ser bem exato. Preciso que você se acomode, relaxe e se acostume. Sossegue sua alma, sua busca frenética por algo que nem você sabe direito o que é.

Aliene-se.

Quero que você aceite essa bela reprentação de época, bem em seu focinho.

Com a prática tudo fica mais fácil: aceitar a não-ficção da realidade bestial? Pôxa vida, que tranquilidade! Seus pais jamais reclamaram quando o cinzento dos antigos televisores imperava; estavam maravilhados demais com o que tinham, jamais julgavam possível um arco-íris eletrônico.

Agora as caixetas plásmicas teimam em capturar as paisagens, pintam com pincéizinhos colorizantes e embrulham em diversificadas estações para um belo motivo: acalmar você, que, por obséquio, deveria estar acomodado lá na poltrona do papai, semi-babante.

Acalme-se. Acabe por se iludir e considere que essa atual sofisticação de revolução visual como sua própria realidade fielmente transportada.

Ao menos esta convicção fará com que você interrompa este intrépido viver e deixe intacto um bom pedaço de mundo para os que colhem a realidade com retinas de carne. Leve as plásticas flores artificiais achando que colheu genuínos jasmins do campo, perfumados, perfeitos.

Mesmo porque cada flor real colhida do nosso jardim secreto, cheiroso e verdadeiro é um televisor a mais no mundo.

Desligado, é claro.

PICCOLA APUGLIA


segunda-feira, 8 de outubro de 2007 | 3:25 pm

Piccola Apuglia

CUIDADO AO CRIAR ALTER-EGOS


sábado, 6 de outubro de 2007 | 7:36 pm

Etelvino criou um alter-ego louco. O personagem é metade do que já foi — seja lá o que tenha sido — e que, no final das contas, não era muita coisa. O novo-alter se intitula franzino e se projeta como um homúnculo, com um coração do tamanho de uma semente de pau-mulato e dois rins de feijão carioquinha. Esse alter-homenzinho veste um terno Allain Brenauldt todo abrancalhado e com um vistoso lenço vermelho no bolso. Gravata de um grená de flandres e ornado de flores-de-liz em fio de penteado dissonante. O personagem-ego atribui sua miséria e desgraça existencial ao estranho fato de ter nascido num dia primo de um mês ímpar em um longíquo ano bissexto secular.

O avatar tem umas duas ou três músicas que repete obsessivamente na memória, e mesmo assim, só alguns trechos. Ele também tem pensamentos paranóides mas não os assume nem fodendo. Está na fina linha entre F:2.8 e F:22. O personagem-aquém anda se misturando com gente má. E Etelvino nem se dá conta.

Esse alter-dominante acorda pela manhã já pensando na noite, em duas hipotéticas verves: um, na hora em que vai voltar pra casa e dormir ou, dois, nas vagabundas do bar, que insistem em rejeitar suas propostas de sexo porco.

A infelicidade tragicômica é que Etelvino pensa que sabe o que está acontecendo, ou melhor, tem certeza.

E todos os outros-egos alter-rejeitados outrora se dão conta de uma infeliz coincidência: a cada alter-criado, um perfeito-ego mais forte e preciso domina o oco Etelvino.

A POESIA DO CLIQUE


quinta-feira, 4 de outubro de 2007 | 10:43 am

Dr. R. Valentino, M.S.C., emérito surrupião alvino, em artigo publicado na edição de Setembro de 2007 do periódico científico cibernético Divergentes Fronteiras Virtuais foi bem elucidativo ao enumerar as estratégias dos blogs legíveis em duas belíssimas categorias:


  • Os blogs com posts muito curtos, que não entediem o leitor, ávido por percorrer várias outras páginas, adepto da leitura frenética, acólito do culto à barra de rolagem, compulsivo da rodinha scroller-mouseana, investigando tópicos e os tomando como síntese da informação completa. Entregue-os o que melhor apetece à suas pressas: a velocidade da absorção visual é a síncope do escorreito saber.


  • Os Blogs com posts enormes, épicos em que, após um minuto de cronómetro analógico, não se consegue chegar ao final do post esfregando o mouse no paninho. Tal grupo de leitores não é adepto da compreensão absoluta, mas sim fragmentada, assim mesmo não pulando, lendo o texto por completo, sintetizando palavras, sorvendo conceitos, elucidando abnegações e disparidades, em um lúgubre exercício de desconcetração até o exato ponto em que as palavras lidas tanto-fez-como-tanto-faz e ele se joga num devaneio ébrio absorto. Ás vezes se cansam — é verdade — e saltam para uma outra página qualquer. Alguns clicam no “Continue lendo” e varam de onde pararam, para cima ou para baixo, não importa a ordem.


ALBUM: RANDOMIC ISSUE #3


quarta-feira, 3 de outubro de 2007 | 5:16 pm

Terceiro (Norte, norte, norte! senhorita Teschmacher) álbum da série que coleciona váríos fotogramas aleatórios e sem temas definidos, reunidos em uma balaiada disconexa e elegante.

Veja todas as fotos do album »

COSTIERA AMALFITANA


terça-feira, 2 de outubro de 2007 | 11:36 am

Costiera Amalfitana

BEAUCOUP


segunda-feira, 1 de outubro de 2007 | 3:03 pm

Na pequena mesa do barzinho legal, os seis amigos degustam chopp lavado e torresmo com fiapinhos de pêlos. A loira — com o braço peludo do Amaral atravessado em seu ombro — tem uma pinta no rosto que mais parece um bezourinho: “Katrielly, dois éle e ípsolan.” tá.

O Bezerra, ruivão metido do carro importado, leva um papo com uma indiazinha que achou na mesa 3: “Comprar carro novo? Pff. Bom mesmo é essa bê-eme antigona. Luxo e sofisticação por preço de popular.”

A loira da pinta-bezourinha sorri para Bezerra. O clima esquenta, os ânimos avançam 3 pontos na bolsa.

Ruivão pigarreia e se pôe a declamar um sonetinho da sua nova safra desapegada:

O que sôis então a carne em si mesma, encimesmada?
Poder-nos-emos regozijá-la e sorver alhures desgostos
Ou vê-la-emos ébria tropegada num corrégo
Ou desfalecida-nuda jaz
O mundo retém o mundaréu carnal
Tal e qual a vitrina do fetil abatedouro
Brilho de velas em tardio inverno
Da mais rôta que carregada em casa
Acesa a brilhar
Dela podemos nos confortar em prazer.

Katrielly faz rom-rom de gatinha. O braço do Amaral pressiona com imponência. Estalos de dedos. Alargamento da fensa labial em bons 3 centímetros.

O gordinho pandu da cadeira mais afastada, qual o nome dele… Emoeb! Egípcio, adendum. Emoeb bebe um bom gole de chopp quente e sem espuma, suspira, tremilica a boca:

“Não é seu.”

“Como!?”

“Tá no filme do Godard, aquele que Sarney fudeu. Je Vous Suis Marie. Quer dizer, nem sei se é esse o nome mesmo, e nem sei se a poesia é do Godard. Mas tá la no filme. É que de francês só sei falar beaucoup e ô, que significa agosto. ”

Amaral despassa o braço por volta da mocinha e tamborila um quaisquarigudum na mesa. Um fusca canta pneu na esquina, todos se assustam. A loira passeia dois dedinhos pela borda da tulipa. Silêncio.

“O certo é Je Vous Salue Marie.” Seco. Bezerra tenta resguardar um reconhecimento. Cenho franzido do Emoeb. Novamente um longo silêncio.

Bezerra lambe os lábios e olha para o amarelo lavado do chopp. Merda de dia. Desça logo, ingrato.