Arquivos do dia 11 de setembro de 2007

O DIA EM QUE EU CONHECI UMA PSICOPATA


terça-feira, 11 de setembro de 2007 | 11:23 am

Ariadne era o que eu podia chamar de namorada ideal: bonita, morena, olhos azuis claros, voz deliciosa e uma personalidade perfeita. Conheci aquela mulher em uma festa de dia das bruxas da escola de inglês. Fui fantasiado de alguma coisa malvada: capa preta, dentadura de vampiro — dessas que a gente ganha em maria-moles de boteco — botas de motocross e um taco de basebol. Ariadne estava vestida de anjo, com asinhas brancas de algodão, camisola de cetim, batom vermelho vivo e uma auréola verde brilhante com luz própria, dessas que a gente encontra em shows e eventos.

“Olá, o que é sua fantasia?” Aquela voz ecoou dentro de mim como uma bruma enevoada que se dissipa lentamente com o sol de uma manhã de verão. “Ceifador de mesóclises.” Ué, eu tinha um taco de basebol! Ela sorriu e o batom vermelho contrastou com os dentes branquíssimos de um sorriso estonteante. Sempre encontrávamos em festas ou na saída do colégio. E não havia de ser diferente.

Nem preciso dizer que conversei a noite inteira e que, em tempo recorde, estava namorando novamente.

Adorava quando ela caía em contradições existencialistas e discutíamos filosofias diversas. Suas ideologias eram de linhagem estreita e conservadora. Ela se considerava agnóstica e foi a primeira vez que conheci o termo. Contou-me a diferença básica entre um ateu e um agnóstico. Disse-me desconhecer alguém que negasse Deus com veemência. E foi nessa época que descobri que uma pessoa não basta querer ser ateu: tem que poder.

divisor

Nosso namoro foi muito bom. Época de descobertas, limites, causas e suas quebras intrínsecas. Tínhamos muitas semelhanças deliciosas e isso realmente nos interessava. O relacionamento foi muito bem.

Até o final do ano.

Era minha oportunidade de terminar o ensino médio em uma instituição focada em vestibulares. Precisava realmente disso. E uma boa instituição, só na capital.

Mas Ariadne não entendeu. Como eu não entendi antes.

Lembro-me muito bem da data fatídica. Estávamos sozinhos em casa. Novamente fiquei para final no colégio, em história. E novamente perdi a oportunidade de viajar. Bom para mim, ruim para meus pais. Convidei Ariadne para jantar em casa. Música suave, um bom vinho e duas velas em cima da mesa. Jantar tenso para mim. Lavei a louça, Ariadne secava, dançando no ritmo da música que o phono arranhava.

“Preciso te contar uma coisa: vou para a capital ano que vem, estudar”

E isso a estagnou. Paramos o que estávamos fazendo. Ela sabia do meu carma de antigas namoradas e essas quebras de namoro pela capital maldita. Começou a engrossar o diálogo. Palavras fortes e por vezes agressivas surgiam como punhaladas em nossas almas. Virou discussão séria, as vozes levantaram. E eu nunca brigava com as minhas namoradas! Era o fim. Ariadne ficou descompassou e ficou histérica. Na mão esquerda um pano de prato, na direita, pasmem, uma grande faca pontiaguda, afiadíssima, de cortar as sottiles fettas de carpaccio. Italiana espaventada, falava e agitava aquela faca que nem percebia.

É de ficar preocupado, claro. Olhei fixamente para aquela lâmina inox e brilhante. E ela percebeu o que fazia. Fiquei encurralado entre a pia e os armários e ela se valorizou da condição. Levantou a faca e hora que disse que poderia terminar aquela discussão de uma maneira muito fácil e sutil, não tive dúvidas: agarrei seu braço com a mão direita e com a esquerda arranquei-lhe a faca das guampas. Cortei-me de leve, não teve jeito.

É claro que ela não ia me matar. Acho eu. Mas não arrisquei. Nosso tórrido e caloroso relacionamento acabou naquela cozinha, naquele chão.

Selado por um beijo pós batalha.

AO DESCOBRIR A VERDADE


terça-feira, 11 de setembro de 2007 | 9:25 am

Descobri duas coisas importantíssimas em minha vida: o conceito de ser-humano não é tão subjetivo quanto imaginamos aos 16 anos e a vida é muito mais êfemera e delicada do que confortavelmente presumimos.

Apesar de parecer, minha vida não foi repleta de desgraças. O que acontece é que alguns fatos intensos criaram em mim divisores e quebraram teorias imaturas que preservei com louvor.

Sábado de um sabado situado em um mês qualquer. Era festinha de dança de vassoura e encontrei o Thiago bem na hora em que ele iria embora: “Rudy, vou nessa! Se cuida!” Sempre se despedia com um aperto de mão cruzado, shake-hands inglês com toda sua firmeza. E era um “se cuida” tão desprovido de preocupações que o tomei como exemplo em minha vida. “Cuide-se, viu?” troquei posições por capricho, mas o viu coloquei como enfâse de uma preocupação qualquer.

Thiago morava na fazenda com seus pais, distante algumas dezenas de quilômetros da área urbana.

Ele foi embora e eu aproveitei a deixa, à pé, conversando com Ariadne, uma garota atraente e que adorava a facilidade de caminhar em nossa pequena e pacata cidade.

Telefone tocou dia seguinte. Dona Margareth, mãe de Thiago, queria saber se ele dormiu na minha casa. A gente tinha esse costume de dormir na casa dos amigos, dependendo do estado etílico de cada um. “Não Dona Margareth, ele falou que ia embora para casa ontem…”

E Thiago não estava em casa de amigo algum. A cidade era pequena, fácil de se situar. Inicio de tarde e nenhuma noticia. A polícia foi contactada, bombeiros, amigos.

Suspeitaram da rota de retorno do Thiago. O acesso para sua fazenda passava por uma pequenina serra cheia de curvas para lá e para cá. Observaram, atentamente as redondezas. Depois de três horas de procuras, a constatação: aquele carro novinho, capotado, mato abaixo, em uma das curvas.

Não tinha marcas de freiadas, não tinha resquícios de colisões nem que rodara na pista. Thiago estava sem cinto, arremessado cerca de trinta metros do veículo.

Morreu na hora.

A “perícia” local dos oficiais e bombeiros concluiu que Thiago tentava tirar o moletom na hora do acidente. Soltou o cinto de segurança e a blusa simplesmente enroscou nele. Tudo isso a mais de 150Km/h. O moletom obstruiu tudo. E ele morreu.

No velório, seu irmão mais velho, inconsolado, encontrou-nos em estado de choque. Ele, mais que a gente. Olhava como quem pedia, desesperadamente, um milagre ou alguma coisa impossível. Queria nossa ajuda para algo que não existia solução.

Doeu muito.