MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos do dia 06 de setembro de 2007

Existencialismo pessimista

6 de setembro de 2007

intransponibilidade

O dia em que perderia a vida

6 de setembro de 2007

Minha vida – assim como a de qualquer adolescente — era cheia de problemas, dúvidas, medos e desilusões. Eu vivia cercado de indefinições e algumas vezes senti que tudo estava complicado demais para tentar arrumar.

Para piorar as coisas caí de bicicleta e consegui a nobre proeza de dar perda total na infeliz. Eu andava como ou doido, muito rápido e errei uma tomada de curva. A roda da frente encavalou dentro de uma boca-de-lobo, a bicicleta ficou parada e eu continuei a trajetória, voando. Pousei todo errado, com as mãos e a cara diretamente em um asfalto sujo, áspero e duro. Ralei meu corpo inteiro, da cabeça aos pés. Esfoliação completa. Bati a cabeça de uma forma que me nocauteou no chão.

Creio que fiquei cerca de uns cinco a dez minutos ali, sem me mexer, tonto e perdido. Foi a primeira e única vez que desmaiei. Levantei lentamente, senti meu corpo ardendo. Meu capacete quebrou ao meio. Os cadernos e tranqueiras de escola estavam espalhados pela rua. A dor era insuportável. Olhei para minhas mãos e só podia ver sangue e a falta de pele.

A roda da frente da bicicleta havia quebrado em 3. A suspensão dianteira entortou as bengalas e vazou todo o óleo. Quebrei o quadro ao meio e a sapatilha arrancou um pedal.

No final das contas Eu passei uma semana horrível, sem dormir, sem poder me mexer, com lençóis que grudavam nos esfolados (que nao eram poucos) e com febre generalizada.

divisor

Depois do incidente ciclístico, fiquei uns dois ou três meses sem bicicleta. Nosso grupo de bicicletadas compadeceu da situação e resolvemos mudar o foco de nossos acampamentos. Agora eram boas caminhadas por serras e montanhas. Pequenas andanças que foram se extendendo naturalmente.

Resolvemos nos aventurar pela região serrana da mata atlântica. Nessa aventura as garotas decidiram não ir, Murilo ficou receoso das cartas topográficas e só eu e Ricardo seguimos em frente. Lembro-me claramente do dia em que fomos à capital comprar equipamentos para montanhismo. Mochilas novas, sapatilhas e botas, costuras, cordas e outras tralhas. Organizamos cartas topográficas, bússolas e informações da cadeia serrana. Iriamos atacar um pico pela crista leste, de acesso íngreme e sem trilhas demarcadas.

Chegamos ao local depois de cinco horas de viagem em um ônibus completamente podre e velho. Era inverno e apesar do ar seco e gelado, a vegetação serrana estava verde e exuberante. Andamos uns 5 kilômetros até o início do mapeamento e montamos acampamento. A carta era extremamente precisa e em pouco mais de seis horas de caminhada chegamos ao cume. Acampamos lá em cima e ficamos dois dias acompanhando a paisagem e a condição do tempo.

No último dia Ricardo descera alguns metros para averiguar um paredão e as condições de ancorar uma corda para rapel. Eu estava em cima de uma das pedras do cume, a maior delas. Era um paredão muito bonito (um big wall) de uns 300 metros de altura. Sempre gostei de chegar muito perto de bordas de penhascos e desfiladeiros, e dessa vez não foi diferente.

Mas parar em frente daquele abismo deu uma sensação diferente. Senti naquele momento que inclinar alguns centímetros para frente seria solucionar alguns problemas e complicações em minha vida que estavam realmente me atormentando. Era uma solução corajosa e interessante do ponto de vista problemático. E quanto mais eu pensava naquela solução, mais eu inclinava para frente. Era quase que um transe. Aquela sensação de liberdade, vôo e queda de um mundo estava me abraçando como se nada mais tivesse importância. E lá fui eu, inclinando mais e mais em câmera lenta. Não tinha mais volta. Tudo estava em outra sintonia, sons, imagens, cores e velocidades.

Ricardo me segurou pelo boudrier. Sabia que algo estava errado comigo. “Rudy, achei uma via grampeada para descermos!” Desmontamos acampamento e descemos pelas pedras, pendurados em cordas.

Ele sabia que eu ia pular naquele momento. Ficamos sem conversar quase a descida inteira. Chegamos no acampamento base e ele não aguentou: “Porque pularia ali?”

Até hoje não sei a resposta.