Arquivos do mês de setembro de 2007

BREVE ENSAIO SOBRE O AMOR ESPERADO


quarta-feira, 26 de setembro de 2007 | 10:18 am

Pedi pouco da vida, não nego. Saúde, um tantinho de sucesso, amor. É a tríade suscetível ao mundo que apenas sonhei. Ganhei mais do que pedi, simples assim, almejei errado. De saúde e sucesso não há segredos: cuidar e executar tudo com uma excelência perfeita, é o que tenho em mente e não há simplicidade maior. Quem sabe honestidade, deveras pensativo o assunto.

Agora do amor, amor é vagalhão em pensamentos e devaneios. Imaginei sentimentos, situações mil. E nenhuma chegou ao que hoje é amor que ao longe me pertença e com louvor me entrego. Amores que me são respostas autômatas de um pedido nada preciso.

Mas quem encontra razão em amores, não é mesmo?

O HOMEM DO CABELO GRISALHO


segunda-feira, 24 de setembro de 2007 | 5:43 pm

“Você precisa ter conhecimento de uma coisa, nessa sua vida de merda que vive, meu caro.”

“Pois fale, homem!”

“Saiba que a velhice nunca é um processo individualista.”

“Entendi nada.”

“Quando você envelhece, o mundo te acompanha como um cão sarnento. E é nessa convivência de mendigo que você se dá conta — tardiamente — da formação cíclica que a sociedade toma.”

“Boa.”

“Quando jovem — como você é, agora — Tua idéia de mundo é bela demais. Tudo o que é novo para você passa a impressão de que é uma novidade para todos. E uma novidade como essa acaba por se tornar uma jóia rara em seus dedos, um bem valioso que vale a pena portar como uma insígne dos tempos. Problema é quando você está em um período da vida em que sua próle ou os amigos dos seus bambinos reviram e remexem o entulho poeirento e prendem nos paletózinhos de escola uma insígnia amassada e sem brilho, de um metal nodoso e oxidado. É nesse momento em que você, velhaco que é, olha para a felicidade deles e percebe, tardio e doloroso, que os invisíveis oxidados outrora eram, erroneamente, o ouro mais brilhoso que você tinha visto.”

“Prolixo demais.”

“Veja, meu caro: nada me surpreende, sendo eu, coerente. Nem aquelas luzinhas piscapiscantes dos efeitos dos filmes incríveis de Hollywood. Por mais ignóbil que eu possa ser, já reconheci toda essa rebuscada previsão da previsível evolução técnica que abundaria ali; Os efeitos especiais da minha infância fizeram meu queixo bater no chão, tamanha surpresa que me acomedeu. E por ter batido no chão, não tem como descer mais. E a cada mentira bem-feita e contada, sabendo eu que era toda embuste, meu queixo sobe um degrau.”

“Uma constante incredulidade, presumo?”

“Sim. A remota e solitária possibilidade para deslumbrar o velho aqui bate justamente com a decadência física, que mostrando um mundo estranho à minha rotina adulta, plena e capaz, ainda assim não há do que se maravilhar. Ainda mais se o velho aqui gozar dessa boa memória que ainda me há de pregar peças. Ela vai me avisar, tenho certeza, de que já enfrentei essa mesma seqüência idiotizada na minha juventude deslumbrada, porém em um sentido inverso e que me mostrará, ó céus, um final desconhecido já conhecido da vivência esmiuçada, e é por isso que velho algum, como eu, é feliz. ”

“Por que?”

“O meu mundo, um mundo velho de um velho qualquer já deixou de existir faz tempo. Sinto-me exilado em um território aquém. Um lugar sem anistia qualquer que me perdoe. Minha dispnéia dizimou meu passeio pela carreiro do campo; minha miopia embaralhou as luzinhas de vitrines que piscam como vagalumes despreocupados; aquela marchinha que eu cantava, hoje nem assovio mais: minha mente pregou uma peça e não tenho idéia do que era. Nada do meu rosto se inturgescer de suor da minha amante vespertina: agora, só espreito a brisa, que encaixota minhas rugas pelo bafo de um vento alísio.”

“Uma vida morta, acredito então.”

“Há! Longe disso, meu caro. Eu ainda regozijo por minhas fendas mentais, em um abismo secreto — como jamais poderia deixar de ser. Não quero assustar jovem algum com os horrores antecipados. Mas a certeza de que minhas memórias se deleitarão em trocar meu insígne estandarte de vilipendiosas vivências por um casaquilho rígido e impossível de desafiar. Um guardião de lembranças eternas e monótonas. Frias, como qualquer silêncio tem de ser.”

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O homem de cabelos grisalhos levantou da bancadinha de concreto. O rapaz, que até então não conseguiu achar um desfecho cético para o embate filosofal, ajudou-o com um puxão ríspido e seco.

“Deslumbrante sua força. Quase arrancou meu braço, brutamontes.”

“Velho ingrato.”

“Vislumbrado.”

“Nefasto.”

“Alienado.”

“Cético.”

“Cagão.”

E assim foram, por uma descida irregular de paralelepípedos, os dois novos-amigos-odiosos. O velho, bravio e estregueta, por saber justamente que estava… velho. O jovem, apavorado e ansioso, por saber que, fazendo tudo ou não fazendo nada, no fim, estaria a abotoar o paletó rígido e amadeirado do esquecimento.

“A vida é uma merda, catzo.”

“Deveras.”

DOS OUTONOS QUE SE FINDAM.


terça-feira, 18 de setembro de 2007 | 1:12 pm

Dos outonos que se findam.

ALBUM: RANDOMIC ISSUE #2


segunda-feira, 17 de setembro de 2007 | 5:23 pm

Segundo álbum da série que coleciona váríos fotogramas aleatórios e sem temas definidos, reunidos em uma balaiada disconexa e elegante.

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CASAMENTO EM CINCO ATOS


segunda-feira, 17 de setembro de 2007 | 5:20 pm

Uma viagem qualquer para um casamento a mais. No convite, estampado o nome dos noivos. Cidade de interior, cidade natal, casamento de movimentar paróquia. Sabia que não seria uma viagem a mais. A sensação de que encontraria surpresas e novidades era grande.

Fazia tempo que eu não circulava sozinho por aquelas ruas estreitas e de pavimentação precária. Sozinho mesmo, relembrando em cada lugar a aventura e desaventura de viver sem pretensões.

Encontrei meu passado vivo na festa do casamento. Amigos de quase todas as minhas fases. Pessoas hoje maduras, sérias, casadas. Filho no colo! O que era o Lenhador! Uma das últimas personalidades da minha infância que esperaria casar. Casou! Uma namorada do longíquo ensino médio. “Oi Rudy! Como você cresceu!” Sim, o que mais escutei foi isso. “Como você está diferente!” Outra amiga com uma criança no colo, contava-me as suas histórias “Este é o Pedro, meu filho de um ano!” Ah, como aquela sensação me era estranha e nova! Meus amigos agora com a seriedade de uma adultez estampada nas faces! Alianças douradas nos dedos, praticamente todos à minha volta com uma consciência demasiadamente boa.

“E aí Lenhador, e aquelas trilhas doidas? ainda existem?” Era o que nos restava de um passado. “Não mais, Rudy. Depois que o Thiago morreu todo mundo acalmou…” Era verdade mesmo. Até eu parei nas minhas desaventuras. “E o pessoal hein, quem diria, todos casados!” A frase pareceu óbvia demais para o Lenhador. E era verdade para mim. Não esperava tudo isso.

O que mais escutei nesta festa foram perguntas sobre minha vida. Longe de tudo e todos, velhos conhecidos, outrora amigos meus, explicitos em uma curiosidade genial, queriam conhecer minhas aventuras. A vida em uma capital, empregos, amizades novas e amores. Ah, como as mulheres queriam conhecer meus sabores e dissabores amoristicos! Contei das vezes que fui assaltado, só para deixar todos felizes com a segurança da pacata cidadezinha de interior. As mulheres que apaixonei, as desilusões da solidão de uma metrópole. A chateação de um terno em uma segunda-feira chuvosa. O dinheiro fácil que deturpava meus sonhos. Drogas e amigos drogados! Esse ponto que atiçou a todos! “Você conhece pessoas drogadas é?” Sim, pacata cidade. Eu parecia um missionário encontrando as pessoas de um vilarejo isolado.

Foi uma festa deliciosa. Contei que iria casar e, breveta que sou, inventei uma noiva. E quando revelei isso, uma sensação de alivio tomou a todos ali. Era o que faltava para que eu integrasse novamente à uma rede social srtificial à qual não pertenço mais.

Achei que eu era o único da minha geração que almejava um casamento. E descobri que estava, na verdade, apenas seguindo o óbvio ululante. Atrasado.

É a vida.

AH! INTERNET SAFADA…


segunda-feira, 17 de setembro de 2007 | 2:50 pm

Depois de muito refletir, estava de mãos dadas com o destino que acabara de gargalhar, ao me ver perdido em desatinos: “É Rudy, seu destino é a solidão.”

Sim, meia dúzia de relacionamentos, finais bruscos e terríveis. Com certeza eu era o problema, e disso não tive dúvidas. Resolvi ficar triste e escrever poesias. Poeta triste é sensacional, já dizia meu avô: “Entristeça, mesmo que de mentirinha. Aí você vai ver o que é escrever uma poesia com a alma e o sofrimento digno de um amor ingrato!”

Estava em uma época de poucos amigos. Trabalho estável e lucrativo. Mercado novo, reuniões e comprometimentos. Universidade finalmente engrenada em um curso delicioso e fluente. Mas poucos amigos. Conhecidos e convenientes muitos, isso não tem como escapar. Porque de trabalho, estudos e vizinhanças convivi de aparências, sempre.

Decidi escrever. Escrever valendo, colocar em palavras as minhas angústias, solidões, medos e passados. Escrevia para meu computador. Depois de um tempo, para meu site pessoal, que acabou virando blog. Ah, era uma delícia escrever naquele espaço! Somente alguns amigos o liam, coisa bem íntima e pessoal. Contei muito da minha vida. Eram contos tristes, perdidos em pensamentos.

Apenas minha vida pedindo socorro.

A cada dia, lá eu me perdia em controvérsias e desatinos da minha imcompatibilidade vivencial. E assim me arrastei por longos meses. Problema que o site começou a ter audiência inesperada. Pessoal da universidade, amigos que há tempos não via, familiares. Todos meus familiares! Conheceram muito de mim por ali. E isso minou minha intimidade com o blog.

Mas uma coisa eu digo: aquele blog me salvou. Ao quinto dia do ano de dois mil e três. Mas isso também é história para outra tarde chuvosa.

ALBUM: RANDOMIC ISSUE #01


sexta-feira, 14 de setembro de 2007 | 5:25 pm

Primeiro álbum da série que coleciona váríos fotogramas aleatórios e sem temas definidos, reunidos em uma balaiada disconexa e elegante.

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GANHANDO UM POR FORA


quinta-feira, 13 de setembro de 2007 | 5:34 pm

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A CAPITAL DO ANONIMATO


quarta-feira, 12 de setembro de 2007 | 4:12 pm

Sair de uma pacata cidade com pouco mais de quinze mil habitantes para uma capital de sete milhões definitivamente foi uma aventura de vida. Giancarlo retornara para o interior, com estudos completos e exercendo uma profissão liberal. Gianlucca estava no último ano de direito e morava com um colega.

Lembro-me claramente do domingo à noite, dia em que meus pais retornariam para o interior. Levei-os até a garagem, dei um beijo de despedida em cada um. Entraram no carro e foram embora. Pronto, estava sozinho. Sozinho em uma capital, com uma vida para cuidar.

E morar só em um apartamento era perturbador. O silêncio e a liberdade muitas vezes me sufocavam.

Foi assim que conheci as artimanhas da vida de solteiro. E cuidar de todas as tarefas da casa, suprimentos, dispensa, limpeza e contas realmente ainda não estava em meus planos. Descobri os segredos de culinária unitária, a pastilha setzer para limpeza de sanitas, roupas penduradas em cabides no banheiro para o vapor desamassá-las.

O melhor era a facilidade de andar pelado pela casa sem preocupações.

Conheci muitos amigos no prédio. Alguns estudavam no mesmo cursinho, outros já estavam em universidades e faculdades. Com esses amigos aprendi muita coisa importante e alguns fundamentos que espero nunca usar.

Foi um ano intenso. Consegui, pela primeira vez, navegar ilicitamente na Internet pela RNP da universidade federal. Conheci o anonimato de andar por semanas e semanas nas ruas e não avistar um conhecido sequer. Vivi a adrenalina de ser assaltado por um moleque de doze anos e constatar que o revólver dele tinha todas as balas no tambor. Achei dinheiro no chão e fiz festa de aniversário regada a uisque importado. Fui à shows de rock gigantescos, levei geral da polícia, entrei em arrastão de torcida organizada em saída de estádio, conheci mulheres descartáveis e levianas.

Morar em uma capital abriu meus olhos para a outra extremidade social, até então monótona e simples de vida interiorana. E percebi, tardiamente, que minha vida era pequenina para um mundo demasiado real.

Senti falta do meu mundo pela primeira vez.

A RODA DE 16 TONELADAS


quarta-feira, 12 de setembro de 2007 | 2:35 pm

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O DIA EM QUE EU CONHECI UMA PSICOPATA


terça-feira, 11 de setembro de 2007 | 11:23 am

Ariadne era o que eu podia chamar de namorada ideal: bonita, morena, olhos azuis claros, voz deliciosa e uma personalidade perfeita. Conheci aquela mulher em uma festa de dia das bruxas da escola de inglês. Fui fantasiado de alguma coisa malvada: capa preta, dentadura de vampiro — dessas que a gente ganha em maria-moles de boteco — botas de motocross e um taco de basebol. Ariadne estava vestida de anjo, com asinhas brancas de algodão, camisola de cetim, batom vermelho vivo e uma auréola verde brilhante com luz própria, dessas que a gente encontra em shows e eventos.

“Olá, o que é sua fantasia?” Aquela voz ecoou dentro de mim como uma bruma enevoada que se dissipa lentamente com o sol de uma manhã de verão. “Ceifador de mesóclises.” Ué, eu tinha um taco de basebol! Ela sorriu e o batom vermelho contrastou com os dentes branquíssimos de um sorriso estonteante. Sempre encontrávamos em festas ou na saída do colégio. E não havia de ser diferente.

Nem preciso dizer que conversei a noite inteira e que, em tempo recorde, estava namorando novamente.

Adorava quando ela caía em contradições existencialistas e discutíamos filosofias diversas. Suas ideologias eram de linhagem estreita e conservadora. Ela se considerava agnóstica e foi a primeira vez que conheci o termo. Contou-me a diferença básica entre um ateu e um agnóstico. Disse-me desconhecer alguém que negasse Deus com veemência. E foi nessa época que descobri que uma pessoa não basta querer ser ateu: tem que poder.

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Nosso namoro foi muito bom. Época de descobertas, limites, causas e suas quebras intrínsecas. Tínhamos muitas semelhanças deliciosas e isso realmente nos interessava. O relacionamento foi muito bem.

Até o final do ano.

Era minha oportunidade de terminar o ensino médio em uma instituição focada em vestibulares. Precisava realmente disso. E uma boa instituição, só na capital.

Mas Ariadne não entendeu. Como eu não entendi antes.

Lembro-me muito bem da data fatídica. Estávamos sozinhos em casa. Novamente fiquei para final no colégio, em história. E novamente perdi a oportunidade de viajar. Bom para mim, ruim para meus pais. Convidei Ariadne para jantar em casa. Música suave, um bom vinho e duas velas em cima da mesa. Jantar tenso para mim. Lavei a louça, Ariadne secava, dançando no ritmo da música que o phono arranhava.

“Preciso te contar uma coisa: vou para a capital ano que vem, estudar”

E isso a estagnou. Paramos o que estávamos fazendo. Ela sabia do meu carma de antigas namoradas e essas quebras de namoro pela capital maldita. Começou a engrossar o diálogo. Palavras fortes e por vezes agressivas surgiam como punhaladas em nossas almas. Virou discussão séria, as vozes levantaram. E eu nunca brigava com as minhas namoradas! Era o fim. Ariadne ficou descompassou e ficou histérica. Na mão esquerda um pano de prato, na direita, pasmem, uma grande faca pontiaguda, afiadíssima, de cortar as sottiles fettas de carpaccio. Italiana espaventada, falava e agitava aquela faca que nem percebia.

É de ficar preocupado, claro. Olhei fixamente para aquela lâmina inox e brilhante. E ela percebeu o que fazia. Fiquei encurralado entre a pia e os armários e ela se valorizou da condição. Levantou a faca e hora que disse que poderia terminar aquela discussão de uma maneira muito fácil e sutil, não tive dúvidas: agarrei seu braço com a mão direita e com a esquerda arranquei-lhe a faca das guampas. Cortei-me de leve, não teve jeito.

É claro que ela não ia me matar. Acho eu. Mas não arrisquei. Nosso tórrido e caloroso relacionamento acabou naquela cozinha, naquele chão.

Selado por um beijo pós batalha.

AO DESCOBRIR A VERDADE


terça-feira, 11 de setembro de 2007 | 9:25 am

Descobri duas coisas importantíssimas em minha vida: o conceito de ser-humano não é tão subjetivo quanto imaginamos aos 16 anos e a vida é muito mais êfemera e delicada do que confortavelmente presumimos.

Apesar de parecer, minha vida não foi repleta de desgraças. O que acontece é que alguns fatos intensos criaram em mim divisores e quebraram teorias imaturas que preservei com louvor.

Sábado de um sabado situado em um mês qualquer. Era festinha de dança de vassoura e encontrei o Thiago bem na hora em que ele iria embora: “Rudy, vou nessa! Se cuida!” Sempre se despedia com um aperto de mão cruzado, shake-hands inglês com toda sua firmeza. E era um “se cuida” tão desprovido de preocupações que o tomei como exemplo em minha vida. “Cuide-se, viu?” troquei posições por capricho, mas o viu coloquei como enfâse de uma preocupação qualquer.

Thiago morava na fazenda com seus pais, distante algumas dezenas de quilômetros da área urbana.

Ele foi embora e eu aproveitei a deixa, à pé, conversando com Ariadne, uma garota atraente e que adorava a facilidade de caminhar em nossa pequena e pacata cidade.

Telefone tocou dia seguinte. Dona Margareth, mãe de Thiago, queria saber se ele dormiu na minha casa. A gente tinha esse costume de dormir na casa dos amigos, dependendo do estado etílico de cada um. “Não Dona Margareth, ele falou que ia embora para casa ontem…”

E Thiago não estava em casa de amigo algum. A cidade era pequena, fácil de se situar. Inicio de tarde e nenhuma noticia. A polícia foi contactada, bombeiros, amigos.

Suspeitaram da rota de retorno do Thiago. O acesso para sua fazenda passava por uma pequenina serra cheia de curvas para lá e para cá. Observaram, atentamente as redondezas. Depois de três horas de procuras, a constatação: aquele carro novinho, capotado, mato abaixo, em uma das curvas.

Não tinha marcas de freiadas, não tinha resquícios de colisões nem que rodara na pista. Thiago estava sem cinto, arremessado cerca de trinta metros do veículo.

Morreu na hora.

A “perícia” local dos oficiais e bombeiros concluiu que Thiago tentava tirar o moletom na hora do acidente. Soltou o cinto de segurança e a blusa simplesmente enroscou nele. Tudo isso a mais de 150Km/h. O moletom obstruiu tudo. E ele morreu.

No velório, seu irmão mais velho, inconsolado, encontrou-nos em estado de choque. Ele, mais que a gente. Olhava como quem pedia, desesperadamente, um milagre ou alguma coisa impossível. Queria nossa ajuda para algo que não existia solução.

Doeu muito.

ALBUM: 7 DE SETEMBRO DE 2007


domingo, 9 de setembro de 2007 | 12:11 pm

Algumas fotos do desfile de 7 de setembro de 2007 em Brasília, com a presença americana do bigodudo do programa American Chopper e sua moto branca.

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EXISTENCIALISMO PESSIMISTA


quinta-feira, 6 de setembro de 2007 | 4:12 pm

intransponibilidade

O DIA EM QUE PERDERIA A VIDA


quinta-feira, 6 de setembro de 2007 | 4:06 pm

Minha vida – assim como a de qualquer adolescente — era cheia de problemas, dúvidas, medos e desilusões. Eu vivia cercado de indefinições e algumas vezes senti que tudo estava complicado demais para tentar arrumar.

Para piorar as coisas caí de bicicleta e consegui a nobre proeza de dar perda total na infeliz. Eu andava como ou doido, muito rápido e errei uma tomada de curva. A roda da frente encavalou dentro de uma boca-de-lobo, a bicicleta ficou parada e eu continuei a trajetória, voando. Pousei todo errado, com as mãos e a cara diretamente em um asfalto sujo, áspero e duro. Ralei meu corpo inteiro, da cabeça aos pés. Esfoliação completa. Bati a cabeça de uma forma que me nocauteou no chão.

Creio que fiquei cerca de uns cinco a dez minutos ali, sem me mexer, tonto e perdido. Foi a primeira e única vez que desmaiei. Levantei lentamente, senti meu corpo ardendo. Meu capacete quebrou ao meio. Os cadernos e tranqueiras de escola estavam espalhados pela rua. A dor era insuportável. Olhei para minhas mãos e só podia ver sangue e a falta de pele.

A roda da frente da bicicleta havia quebrado em 3. A suspensão dianteira entortou as bengalas e vazou todo o óleo. Quebrei o quadro ao meio e a sapatilha arrancou um pedal.

No final das contas Eu passei uma semana horrível, sem dormir, sem poder me mexer, com lençóis que grudavam nos esfolados (que nao eram poucos) e com febre generalizada.

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Depois do incidente ciclístico, fiquei uns dois ou três meses sem bicicleta. Nosso grupo de bicicletadas compadeceu da situação e resolvemos mudar o foco de nossos acampamentos. Agora eram boas caminhadas por serras e montanhas. Pequenas andanças que foram se extendendo naturalmente.

Resolvemos nos aventurar pela região serrana da mata atlântica. Nessa aventura as garotas decidiram não ir, Murilo ficou receoso das cartas topográficas e só eu e Ricardo seguimos em frente. Lembro-me claramente do dia em que fomos à capital comprar equipamentos para montanhismo. Mochilas novas, sapatilhas e botas, costuras, cordas e outras tralhas. Organizamos cartas topográficas, bússolas e informações da cadeia serrana. Iriamos atacar um pico pela crista leste, de acesso íngreme e sem trilhas demarcadas.

Chegamos ao local depois de cinco horas de viagem em um ônibus completamente podre e velho. Era inverno e apesar do ar seco e gelado, a vegetação serrana estava verde e exuberante. Andamos uns 5 kilômetros até o início do mapeamento e montamos acampamento. A carta era extremamente precisa e em pouco mais de seis horas de caminhada chegamos ao cume. Acampamos lá em cima e ficamos dois dias acompanhando a paisagem e a condição do tempo.

No último dia Ricardo descera alguns metros para averiguar um paredão e as condições de ancorar uma corda para rapel. Eu estava em cima de uma das pedras do cume, a maior delas. Era um paredão muito bonito (um big wall) de uns 300 metros de altura. Sempre gostei de chegar muito perto de bordas de penhascos e desfiladeiros, e dessa vez não foi diferente.

Mas parar em frente daquele abismo deu uma sensação diferente. Senti naquele momento que inclinar alguns centímetros para frente seria solucionar alguns problemas e complicações em minha vida que estavam realmente me atormentando. Era uma solução corajosa e interessante do ponto de vista problemático. E quanto mais eu pensava naquela solução, mais eu inclinava para frente. Era quase que um transe. Aquela sensação de liberdade, vôo e queda de um mundo estava me abraçando como se nada mais tivesse importância. E lá fui eu, inclinando mais e mais em câmera lenta. Não tinha mais volta. Tudo estava em outra sintonia, sons, imagens, cores e velocidades.

Ricardo me segurou pelo boudrier. Sabia que algo estava errado comigo. “Rudy, achei uma via grampeada para descermos!” Desmontamos acampamento e descemos pelas pedras, pendurados em cordas.

Ele sabia que eu ia pular naquele momento. Ficamos sem conversar quase a descida inteira. Chegamos no acampamento base e ele não aguentou: “Porque pularia ali?”

Até hoje não sei a resposta.

O ANONIMATO LITERAL


quarta-feira, 5 de setembro de 2007 | 1:09 pm

Cheguei em casa para almoçar e em cima da minha cama uma carta pairava solícita. Letras redondas, bonitas e femininas. Não tinha remetente. Abri e o que encontrei escrito naquele papel cheiroso e de texturas leves mudou meu dia.

Era uma carta de amor.

E era anônima. De uma garota que dizia me conhecer muito bem, que adorava meu jeito e que eu não percebia esse amor que ela tinha por mim. Caramba, eu não percebia mesmo! Afinal eu nem idéia tinha de quem era! Estava me sentindo nas nuvens. Uma admiradora secreta, que tal!

Eram cartas diversas, uma ou duas por semana. Cores, nuances e novidades a cada nova leitura. Eu queria descobrir quem era a jovem. Ela escrevia coisas minhas que poucas pessoas conheciam. Sem dúvida ela me conhecia, ou alguém muito próximo dela me conhecia.

E assim eu reparava em todas as garotas à minha volta. Sempre esperando um sinal ou um pequenino blefe que a denunciasse. E me esforçava nisso. Até que em uma carta, o comentário: “Você olhou em meus olhos de uma maneira que não atirar em seus braços naquele momento foi ato extremo em minha vida.” E eu olhei todas as mulheres à minha volta. Foi como se eu não tivesso olhado para elas. Aquele anonimato estava me enlouquecendo.

Um mês depois e cartas e mais cartas. Estava começando a ficar bicudo com a indefinição da moça. Ela sabia tudo de mim e eu nada.

Quando a gente terminou
E não é que teve um dia em que chegou uma carta de envelope preto em minha casa? Era uma carta de texto frio e incisivo. Havíamos terminado. Olha só! Levei um fora de uma mulher que não sabia quem era. Terminei um relacionamento anônimo, por carta. Já havia terminado antes por telefone, por antecedência, cara-a-cara. Mas por carta?

Tudo bem, achava aquela mulher estranha demais para mim.

LUTHIERISM


quarta-feira, 5 de setembro de 2007 | 12:37 pm

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TED BOY MARINO


terça-feira, 4 de setembro de 2007 | 5:38 pm

Não é qualquer um que tem um autógrafo original:

ted boy marino
Habilidoso performer argentino, iniciou sua carreira lutando Telecatch. Com uma beleza estonteante para os padrões da época, tornou popular a figura do lutador boa-praça / mocinho. No fim da década de 70 passa a trabalhar no programa dos Trapalhões como dublê e figurante. Seu sotaque portenho e seu tapa de mão aberta eram inconfundíveis.

MULHERES, CARROS E DESAMORES.


terça-feira, 4 de setembro de 2007 | 12:50 pm

Definitivamente deixei de ser adolescente quando ainda tinha meus quinze anos de idade. A cidade onde morei era pequena e tranquila. Isso nos dava uma liberdade de ação muito grande. Meus pais eram influentes e eu estudava com alguns filhos de militares e policiais locais, o que imunizava em muito nossas ações.

E uma dessas liberdades era dirigir.

Lembro-me claramente das tardes penosas lavando os automóveis do meu pai e da minha mãe, com direito à cera, polimento e outros mimos, apenas para dar uma ínfima volta na quadra, dirigindo sozinho. Aos treze anos Gianlucca ensinou-me a dirigir. Ele era mais velho, tinha 16 anos e dirigia tranquilamente pelas pacatas ruas locais. Aprendi rápido. E aprendi a guiar automóveis com possantes motores 3.1 litros. Trocas de marchas, arrancadas suaves e giro do motor oscilando perfeitamente. Meu pai sempre deixou eu passear de carro pelas redondezas e minhas andanças iam cada vez mais longe. Lembro-me o dia em que acompanhei meus pais até a concessionária local. Era a compra de um carro alemão, fruto da abertura do comércio exterior nacional. Sedã de luxo, injeção eletrônica e o mais interessante: microchipado com requintes de automóvel esportivo.

Tinha em minhas mãos um carro perfeito, cheio de segredos e traquitanas diversas. Eu passeava de carro todos os dias, e isso virou uma coisa banal e corriqueira para a minha familia. Giancarlo já tinha o próprio carro, Gianlucca usava o carro de minha mãe. Eu compartinhava o do meu pai.

O melhor de tudo era que meu pai trabalhava à algumas quadras de casa. E em um perfeito dia chuvoso, frio e muito cedo, acordei-o para me levar ao colégio. “Ah, filho, pega a chave e vai sozinho.” Não acreditava naquilo! E não pensei duas vezes: lá fui de carro para a aula. Alguns alunos do ensino médio já faziam isso, mas era o pessoal do segundo, terceiro ano. E a minha ida motorizada para a escola virou uma bela rotina: fizesse chuva, fizesse sol, lá ia eu de carro.

Essa mordomia rara e que até hoje não entendo, rendeu-me algumas regalias interessantes: Eu dava carona para quatro amigas, três delas garotas da nossa turma bicicleteira. Note que nenhuma morava perto da minha casa, eu apenas dava carona porque era belas companhias.

É claro que de vez em quando rolava algumas infantilidades: rachas, velocidades mortais e até derrapagens controladas. E hoje percebo que passei por alguns momentos tão idiotas que não sei como não morri. Eram mais de 150 cavalos de potência em minhas mãos. Aceleração estúpida “zero-a-cem” em apenas nove segundos. Duzentos por hora em pouco mais de 25 segundos. Do conforto à ignorância quase que instantaneamente.

Eu sempre dava carona à Patrícia e Priscila, duas irmãs. Patricia estudava comigo e era da turma. Priscila, a irmã mais velha, estudava com Gianlucca, meu irmão do meio, e tinha uma leve queda por ele. “Ei Rudy! Festa la em casa, o que acha de ir com seu irmão? Ele não está muito afim…” Há! Priscila o convidara, mas ele não fez muita questão de comparecer. “Claro Priscila, eu vou e levo ele junto.”

Consegui convencer Gianlucca. Festinha americana clássica: meninos levam refrigerantes (álcool, por supuesto) e as meninas, comidas gerais (bolos e salgados). Cheguei com um refrigerante barato e colorido, Gianlucca com uma garrafa de uísque. Só tinha gente da turma dele, pessoas que eu me dava bem mas que tinham uma filosofia muito liberal. Fiquei perambulando pela festa. “Ei Priscila, onde está a Patrícia?” Patrícia era a única mulher que eu conhecia ali. E ela não estava. Meninos de um lado se embebedando, meninas fofocando do outro. Decidi ir embora da festa quando as luzes baixaram, o som aumentou e Bonnye Tyler lançou o tenebroso e melancólico “Turn Around…”

Pronto, era a deixa. Aquela música me deixaria deprimido o resto da semana. Priscila gostava do meu irmão. Gianlucca era apaixonado por ela. Mas tanto ele quanto ela não sabiam disso! Na hora da música ele estava inacessível. Era uma rodinha de shots de uísque. Pareciam hunos gritando e cantando, alheios ao que estava acontecendo à volta. Alguns casais começaram a dançar. Priscila pegou-me na saída. “Dança essa música comigo?”

É claro que não recusaria. Priscila era bonita, magra, alta e tinha uma voz estonteante. Dançamos ao clássico estilo música-lenta: mulher com os braços em volta do pescoço do homem. Homem com os braços na cintura da mulher. Rostos perigosamente próximos e passo lento um-prá-cá-um-pra-lá. Não deu outra: ela me fuzilou com um olhar estonteante. Não consegui desviar daqueles olhos verdes por um segundo. Nossos corpos encostaram-se, Não sei se por magnetismo ou vontade própria. Senti meus lábios à milímetros dos lábios dela.

E nos beijamos.

Um beijo lento e carregado de paixão e vontade. Acabou Bonnye Tyler, tocou outra música lenta. E outra, e outra. Nos beijamos por quase uma hora! Saímos do ambiente e fomos passear nas redondezas. Problema que o carro não estava mais ali na frente de casa. Surtei, pensei em tudo, menos no óbvio ululante: Gianlucca viu eu e Priscila.

Perguntei para um dos amigos dele, confirmaram que ele saíra muito nervoso e bravo.

Conversei quase a noite inteira com Priscila, ela tinha um sorriso delicioso quando eu contava histórias doidas, surpreendia-se a cada verdade que eu abria ali. Beijamo-nos por algum tempo. Tudo estava deliciosamente estranho, e estranho a tal ponto de Priscila me pedir em namoro naquele momento. Muito rápido, muito eficaz.

Voltei à pé da casa de Priscila, sozinho. Pensei em inúmeras desculpas para Gianlucca. Afinal de contas eu o traíra. Mas não tinha desculpa o que fiz. Acabava de roubar a garota que ele falava em namorar há tempos. Eu estava muito feliz e muito triste. Extremos, novamente. Remorso e paixão me corroíam por dentro.

Cheguei em casa, ele já estava dormindo. Fiquei com receio de acordá-lo para conversar e fui dormir.

Levantei muito cedo, era sábado, santo dia para mais um passeio de bicicleta com meus amigos. Voltei domingo à noite, ele saíra jogar basquete. Encontramo-nos apenas no intervalo de aula de segunda-feira. Confesso que eu estava com medo do que poderia acontecer. Gianlucca pegou-me pelo braço. Estava visivelmente alterado: “Porra cara, você está namorando a minha namorada!” e empurrou-me com as mãos. Não reagi, não respondi nada. Apenas fiz um sinal afirmativo com a cabeça e a sombrancelha esquerda. Ele entendeu. virou-se e foi embora. Priscila estava longe, veio correndo saber o que aconteceu.

Naquela manhã meu relacionamento com Gianlucca morreu. Ele não conversou comigo por longos meses. Namorei Priscila, uma garota mais velha e muito interessante. Ela tinha ideais definidos e uma mente brilhante. conversávamos muito, beijávamos muito. Era um relacionamento ideal e sem problemas.

No final do ano minha sina desgracenta se repetiu: Priscila iria para a capital estudar o terceiro ano, preparar-se para o vestibular. Eu não acreditei naquilo! Minha terceira namorada, meu terceiro namoro terminado de uma forma violenta e exata do mesmo jeito dos outros!

Obviamente que não deu certo o namoro daquele ponto em diante. Priscila dedicou sua vida aos estudos aquele ano. Terminamos o relacionamento de uma maneira fria e sem sentimentos. Por telefone. Cretino e por telefone.

Voltei a conversar com Gianlucca, mas percebi que aquela ferida no coração do meu irmão ainda doía ao me ver.

JAZZ IS COLD.


terça-feira, 4 de setembro de 2007 | 11:17 am