Arquivos do dia 27 de agosto de 2007

ARMA DE FOGO


segunda-feira, 27 de agosto de 2007 | 11:48 am

Sempre que podia lá ia eu e meu vizinho da casa da frente para sua chácara. Seu pai ia a serviço, coordenar e ver a quantas a empreitada do pessoal rendia. Já eu e o Zizinho ficávamos saracoteando pelas matas ao redor. Como bons desbravadores, no auge dos nossos onze anos, achamos uma espingarda de fogo, na sede da chácara. Não sei como se chama essa arma, mas eu a conhecia como Flobé calibre 22. E achamos uma caixinha de munição, uns cem projéteis.

Meia duzia de tiros certeiros em uma lata de óleo foi a deixa para uma saída de caça. Eufóricos como deveria, qualquer coisa que cruzasse nosso caminho levaria bala. Até galinha.

Achamos uma clareira no meio de um capão de embuias e pinheiros. Armamos tocaia. A flobé era nova, tinha um monte de firulas. Mas o melhor de tudo era uma mira telescópica herdada de algum rifle do quartel, uma vez que o pai do Zizinho era militar reformado. A mira era muito precisa e tinha um alcance de aumento gradual.

Eu estava com a espingarda em punho. Senti-me o próprio atirador de elite. Quinze minutos depois pousa em um pinheiro, à média distância, um casal de curucacas. Para quem não sabe, a curucaca é um pássaro de grande porte, bico fino e alongado, muito bonito. Lembro-me que fechei a mira, firmei a coronha, pisquei rapidamente umas duas vezes, prendi a respiração.

O primeiro disparo do dia, para valer.

Certeiro.

O estampido seco do projétil está marcado para sempre em minha memória. Primeiro disparo, último disparo. Corremos, como dois predadores irracionais para ver a caça. O petardo atingiu abaixo da cabeça e quebrou o pescoço do pássaro.

O medíocre e insensato ar de superioridade imediatamente cessou, ao ver o animal agonizando seus últimos suspiros. Peguei-o no colo, ainda quente, mexia-se vagarosamente. Morreu em menos de um minuto. Zizinho estava aterrorizado. Eu, atônito, não conseguia pensar em nada. Deixei a carcaça do animal ali, ao pé daquele pinheiro. Voltamos os dois, sem conversar.

Fiquei a semana inteira ruim. Não conseguia dormir à noite. Imaginava, ainda como uma criança, se aquele pássaro era fêmea, se tinha família para cuidar. Pensava na saudade do pássaro que o acompanhava, se eram casados.

Aquele maldito momento em que eu acabei com uma vida, fez-me raciocinar por longos anos. E percebi, infelizmente, que um bom naco de minha inocência havia se perdido, para sempre.

Como a vida da curucaca.

AGENOR’S BARBEARIA E SORVETERIA II


segunda-feira, 27 de agosto de 2007 | 11:27 am

Odeio cortar o cabelo. Quando ainda criança eu achava que doía. Tinha aquela impressão materialista de que, cortar partes do corpo, como o cabelo e a unha, era como cortar um pedaço da gente. Apesar de não totalmente errada a teoria, acabei me conformando com os constantes escalpes cabelísticos.

O que me fez mudar de idéia foi uma barbearia muito legal, onde ainda, até hoje, existem aquelas magníficas e cromadas cadeiras Ferrante, com regulagem em tudo quanto é lugar e forrada de um couro vermelho um tanto quanto artificial.

O mais interessante nesta barbearia era que toda a rapaziada da minha escola cortava o cabelo lá. E o seu Geno, malandro como era, sabia exatamente como manter a clientela jovem: tinha um armário negro, opaco, com uma coleção invejável de revistas pornôs. Eram Playboys inúmeras, creio que se eu falasse que era uma coleção completa, não estaria mentindo. Penthouses, Hustlers americanas originais. O arsenal proibido ali era muito complexo. Existia os gibis de Carlos Zéfiro, com seus nanquims, algumas revistas alemãs de sexo explícito.

Eu gostava realmente de ler as figuras de um livrão japonês, de umas seissentas páginas, completíssimo, com fotos coloridas e tudo mais, que explicava na totalidade sobre todas as áreas de prazer, ilustrava posições sexuais e, de lambuja, como xavecar e perceber se a mulher estava caindo ou não no seu papo-aranha.

Um manual completo de como funciona o relacionamento sexual e suas diretivas.

E assim eu aprendi que, com o martírio do corte do cabelo, a minha vida ia tomando ares de graça.

O SEMINARISTA


segunda-feira, 27 de agosto de 2007 | 10:14 am

Certa vez encenei uma peça de teatro. O Seminarista, de Bernado Guimarães. Atuei como Eugênio, o filho de um fazendeiro abastado. E foi nessa brevíssima época de teatro que conheci Janaína, uma linda e refinada senhorita que contracenaria comigo.

Janaína, na vida real, era filha de um poderoso fazendeiro. Estava encenando Margarida, a filha de peões da fazenda.

Era peça de teatro do colégio. Quinta série. Na verdade fomos obrigados pela professora de literatura a encenar uma peça inspirada em algum clássico da literatura brasileira. Precisávamos de nota, a professora era uma freira e “O Seminarista” cairia como uma luva.

Roteiros, figurino, cenário, tudo elaborado por nós. E aquelas apresentações das turmas faziam muito sucesso! Todos os alunos adoravam assistir as interpretações, fosse para chacotar, fosse para dar risada das coisas inusitadas que apareciam. Escrevi o roteiro. Coloquei cenas fortes, falas potentes e diálogos pesados. Alguns palavrões em cenas críticas. A trilha sonora foi primorosa: desde Black Sabbath até Mozart.

Ensaios, releituras do roteiro original, tudo extremamente impecável e interessante.

No dia da apresentação, lembro que acordei muito cedo. Nossa peça era a primeira do dia, seguida de mais umas três ou quatro. Preparei minha batina, penteado com uma pitadinha de gel e muito nervosismo. A primeira cena começava com barulho de chuva, era o ínicio da música Black Sabbath, da banda homônima. E como tremiam minhas mãos! Entrei em cena, nunca olhe para o público, eu olhei. Casa lotada. Amigos surpresos com a batina.

O ápice da peça, para mim, seria nos primeiros cinco minutos de atuação, no momento em que eu conversaria com Margarida e explicar-lhe-ia a drasticidade do nosso futuro. E foi o que aconteceu. Usei de muita emoção. Foi coração e alma. E a cena termiraria com um abraço e Vivaldi Inverno Adaggio ao fundo. A cena foi tão forte e estarrecedora que o teatro sumira. Todos permaneceram em um completo e infinito silêncio matutino. Abracei Margarida. Ela me abraçou. Eu estava chorando de verdade, confesso. E não era para ser tão triste. Terminei com uma frase que não estava no roteiro, frase de amor, muito menos que eu pensava em dizer. Olhei para Margarida, olhar diferente que me acomedera de quaisquer escapes emocionais que pudesse viver em um mundo qualquer. Era um olhar direto e intenso.

Beijei-a.

Meu primeiro beijo. Um beijo vestido de batina.

E fôra um beijo diante de centenas de pessoas que sequer imaginavam que aquele beijo era muito mais que apenas um beijo técnico ou encenação. Um beijo real, demorado, lento e carregado de emoções.

Todo o teatro veio abaixo com aplausos e gritos dos meus amigos! A cena terminou, Margarida saiu de cena e perdi metade das minhas falas. Eu improvisava pedaços, remendava falas porque simplesmente estava em um estado letárgico de euforia e precisava demonstrar exatamente o contrário! Algumas cenas depois, o desfecho.

Era a primeira missa que Eugênio celebraria, depois de sua ordenação. O Rossi — polaquinho que estudara comigo e fazia papel de coroínha — entra correndo, esbaforido, “Eugênio, chegou um cadáver! Poderias tu encomendar-lhe as orações?”

“Claro, sem problemas”.

O cadáver era de Margarida. A sua segunda cena na peça. É claro que a peça teve novamente um tom pesado e até meio mórbido: Aproximei-me daquela mesa onde o magnifico corpo esticado pairava. Margarida, a reconheci na hora. Fitei-a por alguns instantes, passeei minhas mãos por aquele corpo (e isso não estava no roteiro, confesso) aproximei-me do seu peito e chorei. Novamente o teatro fechado em um silêncio absoluto. Levantei lentamente e a beijei. Novamente um beijo puro e intenso, meu segundo beijo na vida e no teatro. Um beijo onde ela apenas recebia meus lábios. Mais Vivaldi, melancólico, embriagando aquela cena de uma dor terrível.

Eugênio enlouquecera na primeira missa celebrada por ele. Rasgou a batina e se jogou no chão, contorcendo-se de dor e remorsos. A luz gradualmente apagou e a música sumira aos poucos. O público ovacionou toda aquela dramatização com aplausos em pé, urros dos colegas de classe e muitos gritos. Foi uma peça planejada para 30 minutos mas que em 15 conseguiu cortar as cenas mais importantes do celibato longíquo de Eugênio.

Minha primeira e única atuação teatral. Meu primeiro beijo. A única vez que chorei de verdade quando era para chorar de mentira.

A vez definitiva em que decidi não mais ser um seminarista. Havia me apaixonado por Janaína.

Primeira namorada, menina que eu conhecia desde a pré-escola. E o pequeno romance durou até o final de ano, quando ela mudou para alguma cidade interiorana de São Paulo.

Primeiro romance, mas não o primeiro amor, ainda.