Arquivos do mês de agosto de 2007

SABER AMAR


sexta-feira, 31 de agosto de 2007 | 5:17 pm

Meu professor de geografia era completamente doido e isso prova uma das razões das quais adoro a geografia. O mais legal, porém, foi o dia em que ele decidiu levar as três turmas da sétima série para conhecer algumas formações geológicas de um parque espeológico qualquer.

Cheguei atrasado. A viagem estava marcada para 03h00 da madrugada e é óbvio que eu não consegui acordar antes. Droga, era uma viagem muito boa e cheguei no momento em que o primeiro e segundo ônibus partiam!

Consegui parar o último. E é óbvio que o último ônibus era o ônibus de uma das outras duas turmas. Senti-me deslocado de tudo e de todos. Andei pelo corredor, todo mundo conversava e ria e eu ali, isolado do meu habitat natural, da turma do fundão que sempre comandava a bagunça desmedida em viagens e afins.

“Oi Rena do Papai Noel, senta comigo!” Era Mariela, uma das garotas das bicicletadas abaixo. Salvou minha viagem naquele momento. Rena do Papai Noel, a do nariz vermelho, homônimo.

Mariela nascera na Alemanha. Seus pais viajaram à trabalho e a volta ao Brasil atrasou, o que fez daquela garota uma alemã nata. Ela era relativamente mais alta que as outras garotas, ombros de nadadora, corpo delineado e acima de tudo, muito bonita.

Conversamos a viagem inteira. Todos ali no ônibus adormeceram, o que nos deu privacidade para um longa e deliciosa conversa.

Abramos parêntese. Percebo hoje que em nossas bicicletadas eu sempre estava perto de Mariela. Compatilhamos minha barraca a maioria das vezes. E confesso que em algumas dessas vezes simplesmente eu fingia adormecer, apenas para observá-la dormir. A respiração dela era gostosa de ouvir, um ressonado leve, cos olhinhos que saltitavam rapidamente. Adorava aquilo. Fechemos o dito cujo.

E a escursão dos estudantes avoaçados chegou ao destino. Professor tagarelando, todo empolgado à frente e alguns estudantes que não davam a mínima atrás, saracoteando por estalactites e estalagmites. Alguns espeleólogos experientes nos acompanhavam, mostrando detalhes interessantes das formações. “Sigam-me, entraremos em um salão restrito”. E seguimos aquele guia. “Dentro deste salão existe um silêncio e uma escuridão absoluta” E era mesmo. Ele pediu para que todos apagassem as luzes e se mantivessem quietos para perceber a intensidade do momento.

Apagamos as luzes e ficamos quietos de verdade.

Mariela aproximou-se de mim, apagou a lanterna e me abraçou, meio de lado. As luzes se apagaram, como uma cidade que se prepara para dormir e o silêncio e a escuridão tomaram uma forma majestosa. Mariela moveu-se para minha frente, ainda abraçada. subiu sua mão por minhas costas e me apertou em um abraço novo e inusitado.

Senti sua respiração a milímetros do meu rosto. E ela me beijou.

Um beijo delicioso, inusitado e até esperado demais. Eu percebia claramente seus lábios tremulando. Percebia que ela me abraçava com uma força e intensidade assustadora. Revidei, é claro, e a abracei forte.

Problema é que naquela escuridão e silêncio e intensidade, Mariela descompassou na hora de respirar e deu um breve e delicioso gemido. Foi uma complexidade de ruídos muito interessante: um estalido de beijo com expiração sem fôlego e meu uh! no contra-ponto. Tudo bem baixinho e rápido, é lógico, mas suficiente para que o salão inteiro, que até então se concentrava no incrivel som do silêncio, começassem a desordem caótica de ruídos e luzes.

O professor foi o primeiro a ligar a lanterna para ver o que estava acontecendo. todos ligaram e começou um bafafá danado para descobrir quem estava beijando quem. A cena foi deliciosamente apimentada porque ninguém sequer desconfiou dos beijoqueiros.

Saímos e, entre risadas e suposições, eu entreolhava Mariela. Ela estava extasiada e surpresa com o que acabara de acontecer. Passeamos de teleférico, andamos por trilhas e no final do dia já estávamos todos exaustos dentro do ônibus, pronto para voltar.

Meus amigos me esperavam dentro do primeiro ônibus, mas misteriosamente voltei com o terceiro, deslocado e desconhecido, da turma da Mariela. Sentamos lá no fundão. Conversamos alguns minutos. O ônibus estava novamente em um silêncio embalado por sonhos de estudantes cansados. Mariela recostou em mim e fechou os olhos: dormira a viagem inteira abraçada engalfinhada em meus braços.

E naquela noite me senti a pessoa mais completa e feliz do mundo.

Tempos depois namoramos. Não lembro ao certo de um pedido formal de namoro, apenas nos encontrávamos enamorados.

Minha segunda namorada, enfim.

Ao final do ano Mariela decidiu que estudaria todo o ensino médio em um colégio-cursinho preparatório na capital. E novamente me vi perdido. Mariela sabia que estudar na capital nos traria o desamparo de um namoro firme e sólido. Nos veríamos poucas vezes na semama, uma ou duas vezes, quem sabe. Mas ela estava decidida. “É Direito o que eu quero e você sabe que é concorrido”. Sim eu sabia. O meu amor era concorrente desleal.

Nosso namoro durou dois ou três meses. Víamos pouquíssimas vezes.

E invariavelmente nos tornamos perfeitos amigos, novamente.

A ARANHA ARRANHA A JARRA RARA.


sexta-feira, 31 de agosto de 2007 | 4:41 pm

aranha

TREZENTOS METROS


quinta-feira, 30 de agosto de 2007 | 4:24 pm


Ondulações a 300m.

BICICLETADAS


quinta-feira, 30 de agosto de 2007 | 4:18 pm

Morei por muito tempo em uma cidade cercada por horizontes infinitos, lugares belíssimos e encantos inexplorados. Muitos rios e cachoeiras característicos de uma exuberante mata nativa. A natureza, logicamente, sempre me atraíu para aventuras e desaventuras. Tive a companhia de bons amigos dispostos a loucuras e riscos, simplesmente para quebrar a rotina de uma cidade interiorana.

Minha adolescência foi marcada pela novidade de abertura de mercado: as indestrutíveis mountain bikes. Todos da turma se esforçaram e adquiriram exemplares robustos, suficientes para submergir em qualquer banhado ou lama. Programávamos trilhas de finais de semana e não tinha um santo sábado e domingo que não fosse pedalado em estradas poeirentas ou descidas de carreiros intrincheirados pelo meio da mata.

Foi nesse periodo que conheci algumas das pessoas que mais marcaram minha vida de adolescente. Pessoas especiais que tinham muito em comum umas às outras: divertidas, loucas e, acima de tudo, verdadeiros irmãos.

Nossas aventuras ciclísticas ficaram mais complexas e envolventes: em vez de trilhas de algumas horas, nossos roteiros estavam orçados em pernoites. E quase todo final de semana era bicicletada até algum ponto remoto, acampamento e bicicletada de retorno. Eram acampamentos perfeitos: riachos, pôr-do-sol envolvido por barracas em volta da fogueira. Violão choradinho e Murilo cantando músicas que atravessavam a noite.

Nossa turma era basicamente composta por seis rapazes e por cinco garotas que eram adoravelmente loucas como nós. E essa cumplicidade toda que reuníamos era entendível ao ponto de podermos dormir juntos em barracas, sem reservas ou constrangimentos. Aquelas noites frias em volta de fogueiras de fagulhas que pirilampeavam os céus eram intensas e o silêncio que nos permeava era constantemente quebrado por risadas e pela alegria de simplesmente estarmos juntos.

Lembro-me claramente que Murilo mostrava em cada acampamento uma letra nova de suas composições. Eram músicas inspiradas em amores, amizades e a pureza de nossos seres. “A beleza das estrelas do céu…”, “Festejar a alegria de se estar vivo…”, “Só há amor em meu coração…” Letras que cantávamos juntos, com pequenas fotocópias que ele nos preparava. Lembro muito bem que cada um ali tinha uma carracterística fundamental. Eu tinha sempre histórias mirabolantes que cuidadosamente resgatava das aventuras dos meus avôs. Algumas meninas adoravam cozinhar iguarias mateiras naquele fogo nosso. O Roberto era especialista em nos iludir com truques baratos de mágicas. Ricardo não fazia nada, era tímido e quieto. E mesmo assim todos adoravam ele! Aquela roda à volta da fogueira era perfeita. Tinham vezes que atravessávamos a noite, víamos o sol se pondo e o sol nascendo sem dar conta do tempo.

Era fantástico!

Em uma das raras vezes que tivemos problemas com nossa loucura: o dia em que o Ricardo inventou de cair em um barranco pedregoso. Era a volta de uma cachoeira, ainda tínhamos mais de trinta quilômetros para rodar. Ele era sempre o abre-trilha e acho que nunca teve freios naquela bicicleta. Ralou-se inteiro, estava com pequenos cortes e com a mão dolorida. “Estou bem!”, gritou lá de baixo. Mas hora que foi levantar, a perna pegou e ele hurrou de dor: havia fraturado alguma coisa ali. Desci eu e o Murilo, talas de emergência e muito soco das dores em nosso capacete. Coloquei-o na garupa da minha bicicleta, alforjes e a bicicleta dele empilhada nos outros.

Outro pequenino acidente ocorreu quando um galho inventou de atravessar minha perna ao lado do joelho. Fiquei com aquela ferpa, de ponta a ponta na pele, sem pegar musculo nem nada, apenas uma flechada incômoda e sangrenta. Foi engraçado no final.

A minha vida ganhou forma e consistência nesses anos de bicicletadas divertidas. Foram aventuras que jamais esquecerei. A companhia, a leveza do momento e as peripécias inusitadas ainda hão de virar muitas histórias.

QUANDO CASEI, CHOVEU DINHEIRO.


quarta-feira, 29 de agosto de 2007 | 1:34 pm

Quando

DESATINOS E DESAMORES


quarta-feira, 29 de agosto de 2007 | 11:15 am

”Amor, preciso te contar uma coisa: Não podemos mais namorar…”

Assim conheci a realidade dos amores e desamores.

Era o final de ano do período mais recheado de descobertas em minha vida. E final de ano era certo ficar em alguma matéria em recuperação de notas. Sempre em história. Acontece que Janaína ficara em história também. Assistíamos a aula cedo e, no meio da manhã, já estávamos caminhando de mãos dadas pelas ruas da pacata cidade.

Parei de imediato quando ela exclamou aquelas palavras aterrorizantes. “Como assim não podemos mais namorar? Você brigou em casa?”

Fiquei perdido.

Janaína ia mudar para o interior de São Paulo com a família. Seu pai comunicou duas semanas antes. Era o prazo que achou necessário para ela terminar o pequeno e ralo relacionamento comigo. Na época achei uma canalhice. Mas hoje percebo o quanto nos foi bom não prolongar muito aquela dor.

Foram duas semanas intensas e dolorosas. Era uma situação imposta e maluca. Tínhamos até planos de fuga para vivermos nosso amor. Bem na verdade não sabíamos o que fazer. Cada dia que nos restava era planejado com delicadeza. Acredito que ficamos mais tempo juntos nessas duas semanas que se passaram do que em todo o resto de nosso namoro em tempo normal. Foi doloroso. Foi triste. Amargo e desesperador. Não consegui dormir naquele período. Meus sentimentos purulavam dor pelo corpo. Eu chorava compulsivamente à noite.

E chegou aquele sábado do último dia de nossas vidas.

Encontrei com Janaína no portão de sua casa. Ela estava com os olhos tristes, nariz com a pontinha avermelhada. A cena me desarmou de todo o resto de coragem que consegui reunir para o momento. Minhas pernas enfraqueceram, caí de joelhos em sua frente. Ela ajoelhou-se de imediato e me abraçou. Choramos. Aquele abraço repelia qualquer sentimento ou pensamento que passasse na minha cabeça. Era dor e pavor.

Dei à ela um perfume que ela tanto pedira: Spirit Of Flowers. Ficamos algumas horas juntos. Precisava ir embora. Estava noite. O pai de Janaína achou melhor dar uma carona para mim. Lembro muito bem que aquele senhor grande e forte tinha um magnífico carro importado. Vermelho, vidros escuros originais. Motor de ronco forte. E o único Pontiac da região.

Ele se despediu de mim com um caloroso e forte abraço. Apertamos as mãos, ele foi embora. Uma cena inesquecível.
divisor

Troquei cartas com Janaína por uns cinco ou seis meses. Nossas cartas foram nos distanciando. Ela mudou mais algumas vezes, foi se aventurar por Londres, tempos depois.

A saudade e a dor de uma paixão interrompida ficaram.

Mostraram-me que, feridas de paixão, mesmo que doloridas, cicatrizam com o tempo.

HANA MATSURI


terça-feira, 28 de agosto de 2007 | 4:29 pm

Hana Matsuri Drum'n'bass

BRIGA


terça-feira, 28 de agosto de 2007 | 4:25 pm

Uma coisa que sempre assegurou minha integridade física nos tempos de colégio foi a avantajada estatura de italiano carcamano. Eu era o maior da turma e isso deixava espaço para pensar em outras coisas, nunca em brigas ou desentendimentos com outros colegas.

Namorar, por exemplo.

Enquanto aquele bando de moleques — uns vinte de cada lado — corriam atrás de uma bola ovalada e encardida na quadra poliesportiva eu estava com minha namoradinha recém conquistada em uma peça de teatro nada fiel ao roteiro. E é claro que em alguns momentos eu estava correndo atrás da bola e ela jogando um volei. Ma a maioria do tempo, cumpríamos nossos papéis conjugais.

Eu adorava beijar a Janaína. Era uma experiência difente, descobri que o primeiro beijo da menina fôra meu primeiro beijo. E o segundo e o terceiro.

Os intervalos de aula no colégio definitivamente era onde o estado social de cada aluno era construído. Amigos, namoradas, poder, liderança. Lembro-me claramente dos que conquistavam tudo isso com carisma, com humor, com a força.

E lembro claramente do dia em que eu tive que usar a força para assegurar minha posição e não perder a “hombridade” perante uma namorada.

Eu brincava de dar soco com o Ricardo, um colega que praticamente conheci na maternidade. E como dois chimpanzés na puberdade, vivíamos pegando o outro desprevinido com essas brincadeiras. Ricardo estudava em outra classe. E naquele ano, um cara meio estranho ingressou na classe de Ricardo. Eles conversaram algumas vezes, mas nada que afetasse a distância entre ser amigo e ser apenas conhecido.

Ricardo passou perto de mim, desprevinido. É claro que levou uma bifa no braço. Ele parou para conversar, a gente estava tramando uma descida de bicicleta por umas trilhas no meio do mato. Acontece que esse cara que era novo no colégio presumiu que eu tinha batido de verdade no Ricardo. Parou na minha frente, interrompendo nossa conversa. Ele era menor que eu. Bem menor. Magrinho, franzino e feio. Pegou pela gola da minha jaqueta e perguntou se eu não percebia a idiotice que acabara de fazer.

E é claro que nesses 5 segundos da ação do magrélo o colégio inteiro juntou-se à nossa volta. Não se pode brigar nas dependências de colégio, então algum doido da multidão exclamou: “Briga na saída moçada!” Todos hurraram como medievais. Ele se afastou, mas sem antes selar aquilo com um “Espero na esquina de baixo.”

Pronto. Minha honra posta em cheque. Praticamente todos já sabiam da picuínha, inclusive Janaína. Ela veio conversar comigo, estava preocupada. Sabia que eu não teria desvio de caráter e sabia que eu nunca brigaria por nada. Meus irmãos mais velhos, maiores e mais fortes que eu martelavam táticas de guerrilha para eu acabar com o desafiante. Fecharam a conversa antes das duas ultimas aulas com um “Se você apanhar, a gente bate nele.”

As duas aulas que se passaram foram aterrorizantes. Não era medo da briga, não era saber se apanharia ou não. Era questão da agressão e da quebra de algumas premissas que sempre tive.

Meio-dia. Cena de faroeste na rua. Centenas de estudantes exaltados, a esquina lotada. Ele estava lá, esperando. Meus irmãos em pontos estratégicos. Parei diante do rapaz. Aquela cara fechada fez eu sentir a raiva dele nos olhos. Uma coisa imcompreensível, e até hoje não entendi toda a revolta.

“O que acha de apertarmos as mãos? Assim não teremos problemas mais.” E falei isso de todo o coração. O rapaz jogou a mochila no chão, tirou sua jaqueta. Pronto. Jogar a mochila no chão é um insulto ao desafiado. Coloquei minha malinha subaqueira no chão. Ele não queria conversa mesmo. E tanto que não queria conversa que deu-me um chute na bunda. Um chutinho fraco, provocador. Eu ainda não brigaria. Mas aquele chute encheu os olhos do público e aí já viu… o cara ficou todo cheio de si! Montou posição de guarda com as mãos. Desviei meu olhar para Janaína, gesticulei com as mãos em sinal de interrogação, ela não sabia o que responder. Era uma cena estranha. Aí não deu outra, o rapazinho avançou para cima de mim. Eu iria levar um soco se não fizesse nada. Juntei os dedos da mão esquerda. Apertei-os com toda a força e esperei. Ele era ansioso demais. E isso que o derrubou.

Na verdade o que derrubou aquele saco de ossos foi um soco no meio da fuça. Um soco com tanta força que ele cambaleou uns cinco ou seis passos para trás antes de cair atordoado. Foi nocaute propriamente dito. Sangrou-lhe o nariz, um olho começou a inchar.

Na hora parti para cima dele, queria saber se estava tudo bem. Aquele nariz não parava de sangrar, ele não conseguia ficar em pé. Foi horrivel. Horrível e engraçado, pois me preocupei mais com ele do que com meu dedo médio que havia trincado. Ajudei-o a ficar em pé e recostar-se no muro. Todos ali estavam estasiados com a potência da bifa. Janaína veio ao meu lado. Ela sabia que não teve outro jeito. “Podia ter batido com menos força, né!” Ela deu o lenço de bolso para o rapaz estancar o vazamento. E foi aí que tudo voltou ao normal: ele olhou para mim e mandou um “Ei cara, foi mal viu!”

Apertamos as mãos. Final de briga. Segui embora de mãos dadas com Janaína, escoltado pelos meus irmãos. Giancarlo resmungava da brevidade da situação. Gianlucca dizia que o magrélo ainda iria revidar aquilo. Ela só me olhava de canto de olho.

Eu sabia que ela não esperava nada daquilo.

No final das contas levei uma advertência escrita por briga nas cercanias do colégio, uma radiografia da mão e talinha de alumínio por 45 dias para cicatrizar a fissura na falange media do terceiro distal da mão esquerda.

Algumas coisas que ficaram: Nunca mais briguei no colégio. A fama daquele único soco ficou. Aquele moleque nunca mais chegou perto de mim. O Ricardo continua meu amigo até hoje. E não me orgulho desse episódio. Não acrescentou em nada.

AGRIPINO, O CALCETEIRO


terça-feira, 28 de agosto de 2007 | 1:23 pm

Agripino, o calceteiro

ARMA DE FOGO


segunda-feira, 27 de agosto de 2007 | 11:48 am

Sempre que podia lá ia eu e meu vizinho da casa da frente para sua chácara. Seu pai ia a serviço, coordenar e ver a quantas a empreitada do pessoal rendia. Já eu e o Zizinho ficávamos saracoteando pelas matas ao redor. Como bons desbravadores, no auge dos nossos onze anos, achamos uma espingarda de fogo, na sede da chácara. Não sei como se chama essa arma, mas eu a conhecia como Flobé calibre 22. E achamos uma caixinha de munição, uns cem projéteis.

Meia duzia de tiros certeiros em uma lata de óleo foi a deixa para uma saída de caça. Eufóricos como deveria, qualquer coisa que cruzasse nosso caminho levaria bala. Até galinha.

Achamos uma clareira no meio de um capão de embuias e pinheiros. Armamos tocaia. A flobé era nova, tinha um monte de firulas. Mas o melhor de tudo era uma mira telescópica herdada de algum rifle do quartel, uma vez que o pai do Zizinho era militar reformado. A mira era muito precisa e tinha um alcance de aumento gradual.

Eu estava com a espingarda em punho. Senti-me o próprio atirador de elite. Quinze minutos depois pousa em um pinheiro, à média distância, um casal de curucacas. Para quem não sabe, a curucaca é um pássaro de grande porte, bico fino e alongado, muito bonito. Lembro-me que fechei a mira, firmei a coronha, pisquei rapidamente umas duas vezes, prendi a respiração.

O primeiro disparo do dia, para valer.

Certeiro.

O estampido seco do projétil está marcado para sempre em minha memória. Primeiro disparo, último disparo. Corremos, como dois predadores irracionais para ver a caça. O petardo atingiu abaixo da cabeça e quebrou o pescoço do pássaro.

O medíocre e insensato ar de superioridade imediatamente cessou, ao ver o animal agonizando seus últimos suspiros. Peguei-o no colo, ainda quente, mexia-se vagarosamente. Morreu em menos de um minuto. Zizinho estava aterrorizado. Eu, atônito, não conseguia pensar em nada. Deixei a carcaça do animal ali, ao pé daquele pinheiro. Voltamos os dois, sem conversar.

Fiquei a semana inteira ruim. Não conseguia dormir à noite. Imaginava, ainda como uma criança, se aquele pássaro era fêmea, se tinha família para cuidar. Pensava na saudade do pássaro que o acompanhava, se eram casados.

Aquele maldito momento em que eu acabei com uma vida, fez-me raciocinar por longos anos. E percebi, infelizmente, que um bom naco de minha inocência havia se perdido, para sempre.

Como a vida da curucaca.

AGENOR’S BARBEARIA E SORVETERIA II


segunda-feira, 27 de agosto de 2007 | 11:27 am

Odeio cortar o cabelo. Quando ainda criança eu achava que doía. Tinha aquela impressão materialista de que, cortar partes do corpo, como o cabelo e a unha, era como cortar um pedaço da gente. Apesar de não totalmente errada a teoria, acabei me conformando com os constantes escalpes cabelísticos.

O que me fez mudar de idéia foi uma barbearia muito legal, onde ainda, até hoje, existem aquelas magníficas e cromadas cadeiras Ferrante, com regulagem em tudo quanto é lugar e forrada de um couro vermelho um tanto quanto artificial.

O mais interessante nesta barbearia era que toda a rapaziada da minha escola cortava o cabelo lá. E o seu Geno, malandro como era, sabia exatamente como manter a clientela jovem: tinha um armário negro, opaco, com uma coleção invejável de revistas pornôs. Eram Playboys inúmeras, creio que se eu falasse que era uma coleção completa, não estaria mentindo. Penthouses, Hustlers americanas originais. O arsenal proibido ali era muito complexo. Existia os gibis de Carlos Zéfiro, com seus nanquims, algumas revistas alemãs de sexo explícito.

Eu gostava realmente de ler as figuras de um livrão japonês, de umas seissentas páginas, completíssimo, com fotos coloridas e tudo mais, que explicava na totalidade sobre todas as áreas de prazer, ilustrava posições sexuais e, de lambuja, como xavecar e perceber se a mulher estava caindo ou não no seu papo-aranha.

Um manual completo de como funciona o relacionamento sexual e suas diretivas.

E assim eu aprendi que, com o martírio do corte do cabelo, a minha vida ia tomando ares de graça.

O SEMINARISTA


segunda-feira, 27 de agosto de 2007 | 10:14 am

Certa vez encenei uma peça de teatro. O Seminarista, de Bernado Guimarães. Atuei como Eugênio, o filho de um fazendeiro abastado. E foi nessa brevíssima época de teatro que conheci Janaína, uma linda e refinada senhorita que contracenaria comigo.

Janaína, na vida real, era filha de um poderoso fazendeiro. Estava encenando Margarida, a filha de peões da fazenda.

Era peça de teatro do colégio. Quinta série. Na verdade fomos obrigados pela professora de literatura a encenar uma peça inspirada em algum clássico da literatura brasileira. Precisávamos de nota, a professora era uma freira e “O Seminarista” cairia como uma luva.

Roteiros, figurino, cenário, tudo elaborado por nós. E aquelas apresentações das turmas faziam muito sucesso! Todos os alunos adoravam assistir as interpretações, fosse para chacotar, fosse para dar risada das coisas inusitadas que apareciam. Escrevi o roteiro. Coloquei cenas fortes, falas potentes e diálogos pesados. Alguns palavrões em cenas críticas. A trilha sonora foi primorosa: desde Black Sabbath até Mozart.

Ensaios, releituras do roteiro original, tudo extremamente impecável e interessante.

No dia da apresentação, lembro que acordei muito cedo. Nossa peça era a primeira do dia, seguida de mais umas três ou quatro. Preparei minha batina, penteado com uma pitadinha de gel e muito nervosismo. A primeira cena começava com barulho de chuva, era o ínicio da música Black Sabbath, da banda homônima. E como tremiam minhas mãos! Entrei em cena, nunca olhe para o público, eu olhei. Casa lotada. Amigos surpresos com a batina.

O ápice da peça, para mim, seria nos primeiros cinco minutos de atuação, no momento em que eu conversaria com Margarida e explicar-lhe-ia a drasticidade do nosso futuro. E foi o que aconteceu. Usei de muita emoção. Foi coração e alma. E a cena termiraria com um abraço e Vivaldi Inverno Adaggio ao fundo. A cena foi tão forte e estarrecedora que o teatro sumira. Todos permaneceram em um completo e infinito silêncio matutino. Abracei Margarida. Ela me abraçou. Eu estava chorando de verdade, confesso. E não era para ser tão triste. Terminei com uma frase que não estava no roteiro, frase de amor, muito menos que eu pensava em dizer. Olhei para Margarida, olhar diferente que me acomedera de quaisquer escapes emocionais que pudesse viver em um mundo qualquer. Era um olhar direto e intenso.

Beijei-a.

Meu primeiro beijo. Um beijo vestido de batina.

E fôra um beijo diante de centenas de pessoas que sequer imaginavam que aquele beijo era muito mais que apenas um beijo técnico ou encenação. Um beijo real, demorado, lento e carregado de emoções.

Todo o teatro veio abaixo com aplausos e gritos dos meus amigos! A cena terminou, Margarida saiu de cena e perdi metade das minhas falas. Eu improvisava pedaços, remendava falas porque simplesmente estava em um estado letárgico de euforia e precisava demonstrar exatamente o contrário! Algumas cenas depois, o desfecho.

Era a primeira missa que Eugênio celebraria, depois de sua ordenação. O Rossi — polaquinho que estudara comigo e fazia papel de coroínha — entra correndo, esbaforido, “Eugênio, chegou um cadáver! Poderias tu encomendar-lhe as orações?”

“Claro, sem problemas”.

O cadáver era de Margarida. A sua segunda cena na peça. É claro que a peça teve novamente um tom pesado e até meio mórbido: Aproximei-me daquela mesa onde o magnifico corpo esticado pairava. Margarida, a reconheci na hora. Fitei-a por alguns instantes, passeei minhas mãos por aquele corpo (e isso não estava no roteiro, confesso) aproximei-me do seu peito e chorei. Novamente o teatro fechado em um silêncio absoluto. Levantei lentamente e a beijei. Novamente um beijo puro e intenso, meu segundo beijo na vida e no teatro. Um beijo onde ela apenas recebia meus lábios. Mais Vivaldi, melancólico, embriagando aquela cena de uma dor terrível.

Eugênio enlouquecera na primeira missa celebrada por ele. Rasgou a batina e se jogou no chão, contorcendo-se de dor e remorsos. A luz gradualmente apagou e a música sumira aos poucos. O público ovacionou toda aquela dramatização com aplausos em pé, urros dos colegas de classe e muitos gritos. Foi uma peça planejada para 30 minutos mas que em 15 conseguiu cortar as cenas mais importantes do celibato longíquo de Eugênio.

Minha primeira e única atuação teatral. Meu primeiro beijo. A única vez que chorei de verdade quando era para chorar de mentira.

A vez definitiva em que decidi não mais ser um seminarista. Havia me apaixonado por Janaína.

Primeira namorada, menina que eu conhecia desde a pré-escola. E o pequeno romance durou até o final de ano, quando ela mudou para alguma cidade interiorana de São Paulo.

Primeiro romance, mas não o primeiro amor, ainda.

O PLAGIADOR BARATO


sábado, 25 de agosto de 2007 | 6:30 pm

Lembram do ladrão de posts, ladrão de ilustrações, ladrão de vida alheia do post abaixo, o Raphael PH Porto, esqueitista mariquinhas?

Pois bem, o infeliz tem Orkut. Ele não é homem suficiente de conversar comigo. Bloqueou-me de forma arbitrária. O problema é que ele usa um about-me na descrição do “quem sou eu” que é uma compilação de muitos posts “meus”.

Engraçado é que o otário, mesmo depois de eu externar a minha raiva para cima do cara-de-cu, continua a roubar coisas. Que vida de merda essa sua, caro bostinha.

Então, como forma de afugentar os vermes para o canto da lixeira escura de onde o sujeito veio, peço para você que tem Orkut e tempo sobrando, que entre no perfil dele e o reprima.

Simples assim.

Use palavrões educados, nada ofensivo nem racista. Sejamos competidores baixos, como ele, mas não desagradáveis.

Os cães da justiça já o espreitam, meus caros. A lei #9.610 e a lei #10.695 e a jaula devem o intimidar, com certeza.

ROBOTOMIZER


sexta-feira, 24 de agosto de 2007 | 5:39 pm

robot

PRAZER, RODOLFO.


sexta-feira, 24 de agosto de 2007 | 5:16 pm

rodolfo.jpgEsse aí da foto sou eu. Feio pra burro. Mais esperto que inteligente. Apresento minha vida aos sete anos de idade. Antes disso quase não lembro de nada interessante na minha vida. Aliás, duas coisas idiotas: Um soco que levei na cara e a minha primeira namoradinha.


O soco foi uma briga na pré-escola. Era contra o Diogo, um ogro grandão e e inchado de tanto comer salgadinhos. A gente se desentendeu, a situação ficou insuportável e eu o empurrei. Ele me deu um direto no nariz. Eu nunca entendi como ele aprendeu a socar uma pessoa com 6 anos de idade.

O bom de tudo é que a gente retomou a amizade dias depois e nunca mais o vi.

Até semana passada, quando ele apareceu nos jornais como traficante preso pela polinter.


O caso da minha primeira namoradinha foi muito pior que o soco. Eu disputei com o Vinicius, um colega de classe, a mão de uma bela donzela. A disputa era simples: quem corresse mais que o outro e a pegasse, também na correria, seria o dono da mocinha.

Eu ganhei, ele ficou bicudo e foi embora. Ela olhou para mim, eu olhei para ela. Ambos com cara de ué. Não sabíamos o que fazer. E meu namorico acabou com o recorde de 12 segundos de duração.


Isso aí foi a minha vida até os 7 anos. Nada de mais.

Agora com 7 anos a coisa mudou de vento: conheci o inferno, por uma das empregadas domésticas que fazia às vezes de babá-copeira. Sim o inferno. Até então eu era um menino corajoso, destemido e invencível. Aquela empregada tinha nome Jurema, morava em um pequenino sítio e contava diariamente peripécias e aventuras de seus irmãos.

Eu adorava aquelas histórias. Eram carregadas de um ufanismo perfeito. Moravam em rancho de chão batido, foto de casamento colorizada na parede velha e escura. Mas tudo ali era empolgante. A panela de ferro carregada de dobrões e réis velhos. Herança devastada de um avô descuidado.

E Jurema apresentou-me o inferno.

Contou a história de um pobre homem da comunidade. Foi roubar milho à noite, entrincheirou-se na plantação, começou a quebrar as espigas. Bom homem não era, tinha lá suas maracutaias e desatinos que o condenavam, E o capeta apareceu em sua frente, oras! O Homem correu, mas o diabo é forte e sagaz. Pegou-o pelos gargumilhos e o abanou, como se fosse uma marioneta. Pobre homem aquele! Jurema ficava aflita, “Olha, ate arrepia meus pelos do braço!”.

Jantar e Jurema foi embora. Meu quarto ficou escuro demais aquela noite. A cama tinha um espaço vazio ensurdecedor embaixo. O armário, lugar que sequer admiti existir qualquer monstro (monstros, há, valha-me, nunca acreditei mesmo!) Agora era um lugar de trevas. Trevas cercando-me. Aquele homem fazia coisas que não deviam. O diabo apareceu-lhe. Eu fazia muitas coisas erradas. Qual moleque não faz coisas erradas! Eu andava com uma corja de bandoleiros naquela pequenina vila!

Droga, perdi minha invencibilidade espiritual aos sete anos de idade. Conheci o demônio, por tabela. Sabia que ele poderia estar na espreita, fitando cada merda que eu fizesse. Mas o demônio ali era furtivo e cauteloso. Porque qualquer demônio sabe que um imprestável menino de sete anos possui muito mais anjos da guarda que qualquer outro.

Jurema… Ah, Jurema, como às vezes tenho vontade de te esganar. Ou te agradecer. Não sei ao certo.

O NOVO PERSONAGEM ELEMENTAR


quinta-feira, 23 de agosto de 2007 | 2:51 pm

Criei um camaradinha que vai ser uma espécie de fantoche virtual do MadCap. Um menino chato e idealista, com uma pitada de inocência e descompromisso vivencial.

O nome dele é Rodolfo, e terá residência na categoria “O menino que não existe“.

Qualquer semelhança com personagens, nomes, locais, objetos ou marcas será mera coincidência.

RIDI PAGLIACCIO, SUL TUO AMORE INFRANTO!


terça-feira, 21 de agosto de 2007 | 2:49 pm

RIDI PAGLIACCIO, SUL TUO AMORE INFRANTO!

DICA DE BLOG


terça-feira, 21 de agosto de 2007 | 9:49 am

Acessa aí: http://vidainvitro.wordpress.com/

O blog é muito bom. Identifiquei-me com ele de cara.

São textos envolventes, perfeitos, lindos. Como se eu os tivesse escrito.

Opa! Mas fui eu quem escreveu!

Ah, então trata-se de mais um plagiador barato. PH (ou Raphael, ou Raphael Porto) o nome do féla. Ex-blogspot, reincidente das cópias deste autor que vos fala.

Um hermano já não o tolerou e disse: Aquí, el blog del COPION DE MIERDA. Dios castiga, pero nunca a palos…

Horda, ataquem-o, sivuplé. Morte ao mentecaptalicismo.

(Juro que eu já esperava urubus cercando a carniça do meu finado blog verde-musgo. Nem o deixaram morrer: pousaram e arrancaram-lhe as vísceras com bicadas vorazes.)

O PESSIMISMO DESCONCERTANTE


sexta-feira, 17 de agosto de 2007 | 12:24 pm

Tem um monte de gente que acha que sou um babaca egocentrista ou um pessimista inveterado, um sujeito baixo e descriterioso que não gosta dos humanos só por não gostar mesmo. Birrento.

Então vou contar porque sou o cinismo em pessoa.

A verdade? Eu não me importoe estou sendo o mais sincero possível com o mundo cotidiano. O dólar subiu ou desceu? Não sei. O presidente conseguiu a reeleição? Parabéns para ele. Não quero saber se o governo boliviano roubou a Petrobras. Ela não é minha, não tenho ações dela. Não me interessa se o terror está deixando os americanos mais neuróticos. Pouco me importa se morrem 80 ou 120 pessoas em Bagdad, por dia, porque explodiu dois carros-bomba. A amazônia está sumindo em uma proporção incrível. Meus pêsames para ela. Fico apenas com dó dos orangotangos, elefantes e girafas que por lá moram.

Tentei, por dez anos, mudar o mundo. Juro! Fiz de tudo. Fui bonzinho, caridoso, atencioso, protestante, ativista, grevista, petista, comunista, vanguardista, causista, greenpeacisista, filantropo e atônito. E de nada resolveu. O mundo continuou cruel! Os muçulmanos continuaram a guerra santa. A fome aumentou. A AIDS matou mais do que deveria. Ajudei, bem ajudado, umas 30 pessoas, uns 5 cachorros, 12 árvores que nasceram dentro de um saco e invariavelmente morreriam sem minha intervenção. E quer saber? De nada adiantou.

O Brasil está uma merda. O povo brasileiro é a raça mais desgraçada que poderia existir. Odeiam a terra em que vivem. Mijam nos monumentos, apodrecem a pátria. Pasmem: alguns sabem cantar o “Star Spangled Banner” mas não sabem o que é o lábaro que ostentas estrelado. São americanos em pele de latinos. Veneram RBD, JayZ, J.Lo, 50Cent e desconhecem o maracatu atômico ou o cordel do fogo encantado.

É a placa ali no semáforo, mais cínica do que eu, que diz: “Esmola não dá futuro!” mais abaixo, em letrinhas miudas: “Não alimente o narcotráfico, o comércio ilegal de armas, o tráfico de escravos” “Não alimente os animais indigentes”

É o mendigo que não sabe seu próprio nome, data de nascimento, o que é, realmente.

É a mulher nojenta que ostenta a soberba incrível ao xingar o vendedor de panos alvejados na janela do seu carro blindado.

Hoje não tolero muita coisa, mas dou R$10 para um mendigo no sinal. Aliás, dei meu guarda-chuva bonitão, escocês, que me acompanhava há 10 anos, para um menino que estava na chuva. A cara de felicidade dele valeu muito mais do que qualquer sorriso humanitário que já existiu.

O mundo é marginal, meu filho.

Está caótico. Os bandidos são muito mais malvados do que você imagina. Não acreditam mais em Deus. Acreditam em um canela-seca enferrujado que botam na cintura. Os ladrões abrem seu carro em 3 segundos. Os larápios da internet secam sua conta bancária em 12 segundos. Os seqüestradores-relâmpagos passeiam a noite inteira contigo dentro do seu próprio carro e você não vai saber, ao certo, se sairá vivo ou queimado dessa merda toda.

Orkut para ver a desgraça que a vida das pessoas que conheci em um passado remoto se tornou. Aliás, como tem gente que não evoluiu patavina nenhuma!

Aliás, o Orkut tem uma comunidade que coleciona perfis de pessoas que morrerram. E quanta gente está lá, como urubus, esperando o próximo morto para desejar um “descanse em paz”!

As pessoas gostam de ver tragédias. Gostam de ver carros batendo. Gostam de ver gente morta. Curtem jornais-carnificina.

Pornografia. Putaria desenfreada. Sexo, drogas e rock no sentido mais lascivo e promíscuo. Mulheres-objeto, fotografias amadoras com as câmeras digitais em motéis furrépas de R$5 a hora.

Quanto mais, melhor.

Maconha e pinga para ficar doidão. E perder a realidade que pinica as ventas.

Essa é a humanidade de hoje.

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Não escrevo mais como deveria. Talvez porque fiquei velho. Todas minhas histórias eram reais demais, e eu não sei mentir. Nunca menti. Sempre vivi da realidade crucial que beirava a verdade. E isso me matou justamente porque acabou minha experiência de vida. Apenas alguns pequeninos trechos cotidianos sobreviveram.

Meu videogame é mais expressivo. Minha coleção de DVD´s é mais expressiva. Meus desenhos morreram, minha criatividade espreita melhores dias. E espera com paciência.

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Bah, esqueça. Eu minto, e minto muito. A base da literatura é a mentira. A falácia, o desencontro real da vida presencial.

Eu escrevo muito. Adoro escrever, e isso é um processo bem desencadeado.

O problema é a realidade.

É a falta de discernimento entre o certo e o errado. Entre avançar e esperar a hora.

É a teimosia de tentar escrever ou desenhar coisa belas e inteligentes, enquanto a massa anda na contra-mão disso tudo, à sotavento, enquanto eu teimo barlavento.

Meu mundo é muito grande. Conheço toda a escuridão podre e fétida. conheço o feio, o subversivo, a morte que ronda todos, a corrupção, o suborno, os sete pecados capitais, os maconheiros, os traficantes. E conheço a luz, a seda, a alvura, o brilho do cabelo sedoso, a paz, o cheiro de banho tomado, a música compassada, a inteligencia, os bons costumes, o respeito e a ternura.

Ainda assim, gosto mais da bela vida justa e sincera.

Tenho esperanças, tenho fé, o que são, no fim das contas, coisas boas.

FERIETAS


sexta-feira, 17 de agosto de 2007 | 11:35 am

Como sempre, nada do que planejo dá muito certo. É claro que outras coisas inusitadas e surpreendentes acontecem e acabam suprindo as frustrações.

Era para eu visitar um amigo no interior, jantar com clientes, happyhour com o povo do antigo trabalho. Mas essa sensação de que sou anti-social enaltece as minhas manias velhacas.

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Ir à praia no inverno é surpreendente: você encontra mais pingüins, focas, baleias e siris mortos do que humanos.

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O manezão abaixo achou que o labrador seria tongo de buscar, pela segunda vez, um pedaço de telha de barro. Deu no que deu.

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Voltemos aos posts pseudo-filosóficos.