MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos do mês de julho de 2007

O infeliz

24 de julho de 2007

O infeliz era da época áurea da internet, onde pessoas boas de coração usavam o meio de comunicação para se conhecer em um modo simples e verdadeiro. Ele não conversava muito, é verdade. Tinha poucos amigos. Acabou a solidão dia em que conhecera as mensagens instantâneas.

O infeliz agora tinha amigos virtuais. Conversava com mulheres, pessoas do outro lado do mundo. Suas noites — e porque não falar algumas madrugadas — eram regadas por conversas variadas, inclusive em outros idiomas. Conhecia segredos de pessoas que viu sequer uma foto. Contava segredos tão escondidos que jamais falaria para algum vivente.

Mas o infeliz tinha uma rotina diária, onde encontrava pessoas reais. E estas pessoas não eram nada parecidas com seus amigos perfeitos virtuais. E isso o deixava infeliz.

O infeliz era uma pessoa comunicativa. Conversava alegremente no silêncio ínfimo do bater das teclas. Até se apaixonou uma vez, puramente por uma mulata do Suriname. Ninguém se importava mesmo.

Duas vidas completamente diferentes.

O homem acomodado

24 de julho de 2007

Suas faculdades mentais estavam abaladas e seu controle, esparso. Nada mais do que antes era poderia tornar-se realidade novamente. Não mais aquelas mulheres sofisticadas e perfeitas o queriam em suas vidas. Não mais galantear donzelas. Nem se ater a disparates provocantes.

Hoje a vida se tornou muito mais do que apenas vaidades mundanas. Queria saber porque raios ainda o provocavam. Era claro o desinteresse por complicações, era claro a acomodação da ignorância.

Queria apenas ler um bom livro.

Mas as idéias velhas e ressecadas ainda circulavam à sua volta, zombando baixinho e sorrindo, ironicamente como a vida o é.

Quarta-feira está bom. Aliás qualquer dia serve. Dizer que quarta-feira está bom é apenas conveniência. Nunca nada vai estar bem nessas condições. E ler um bom livro para que mesmo? Ficar mais culto? Suas palavras tornaram-se silêncio. E seu silêncio acabou por se tornar a mudez do longíquo infinito viver.

Aliás, quarta-feira não. Quarta tenho mais o que fazer.

Ao observar uma mulher

24 de julho de 2007

Ao observar uma mulher é necessário muito mais do que a simples subjetividade de um mero olhar quando deparar com uma diva. O olhar às vezes escapa aos sentimentos mais profundos. Não simplesmente a olhe, deleite-se com os sentimentos mais profundos. As mulheres fogem ao que se diz objeto. Observe-as sem as vê-las, pois desta forma sentirá uma coisa que o atraiçoa por dentro, um leve torpor, um frio na barriga.

Mulheres adoram observadores distintos.

Observe captando o que aquela mulher tem. Você pode desejar, isto é normal e biologicamente explicável. Desejar várias mulheres, é comum, mas para saber de verdade o que é uma mulher, escolha uma forma que o agrade particularmente. Ninguém é igual a ninguém.

Pouquíssimas mulheres conseguem abrir a guarda de um homem.

Já dizia Milan Kundera “O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito à uma só mulher)”.

Ao observar uma mulher, venere. Mulheres são mais quentes quando observadas (ou veneradas).

As primeiras coisas

24 de julho de 2007

O motivo foi a curiosidade. Algum momento significativo, uma desculpa sem nexo. O suficiente para aceitar aquele beijo. Incandescente beijo, acompanhado de uma deliciosa e trôpega respiração.

Era um primeiro beijo.

O deliciar dos carnudos lábios passeando e encontrando-se — ritimados em um allegro — mostravam-se decididos: Não seria beijo frenético, apenas passeio de lábios. Não adiantaria pedir, implorar, balbuciar palavras melosas, picantes. Naquele momento, naquela hora, apenas um passeio por lábios voluptuosos. Não beijarão, não estarão sedentos por uma mordida.

Apenas passeio de lábios, um convescote rotineiro em uma deliciosa boca trêmula.

Lábios vividos (apesar de nunca terem beijado), de boca que já mantém a compostura. Apenas beijar. Ou tentar desfazer um fogo em forma de batom.

Afinal, era um primeiro beijo.

Relembrando-me

24 de julho de 2007

Sinto a orgia de fatos, dos mundos novos e suas novas portas que se abrem sem cessar. Algumas novas desilusões, é óbvio. Novos sentimentos que martirizam nossas novas pessoas.

Sobriamente, trago-ante-trago, delicio-me com fúteis lembranças de palavras doces e salgadas, que dançam alegres sob a melodia de minh’alma.

As vezes é interessante relembrar fatos e embeber em alegria movimentos antigos. As vezes é necessário enterrar amarguras, sentir que sua música já não tem partituras, amar pessoas mesmo que inseguras, beijar bocas, mesmo perdendo a compostura. Viver, calar-se, deixar transpirar o sentimento de derrota para aflorar alguma vitória.

Quase derrota-após-vitória-após-derrota.

Extremo

22 de julho de 2007

Do amor, fez-se uma saudade causticante. Quisera alguém que apenas uma amizade os unisse. Mas o desejo tornou-se presente em todos os momentos.

E amizade não quer desejar nada.

Do silêncio, apenas a delícia de entender e perceber a plenitude do gesto.

A vida sabe (e ignora) que amores espontâneos têm a tristeza inacabada em sentimentos. Aquele seu amar era perfeito, não tenha dúvida. Mas a solidão acompanha, ainda que em uma pequena valsa descompassada, a cumplicidade verossímil.

Disfarçar seria apenas postergar e postergar a perfeita dor, balanceada e magnífica, por extremos infinitos.

O telefonema da madrugada

22 de julho de 2007

Sou psicólogo, conselheiro e amigo do peito nas madrugadas. Só nas madrugadas. Abro meu escritório remoto sem fio toda meia-noite, quando as camas estão começando a esquentar e o pior, estão somente com uma pessoa solitária e amargurada.

E não muito raramente toca o celular. É uma amiga triste, que não acha razão de estar naquele estado. Outrora, amiga que brigou com namorado. E o escritório, digo telefone, não pára.

Madrugadas atrás a realidade plagiou a ficção Verrissimoniana. Telefone tocou, atendi. A voz aveludada, macia e suave, inconfundível. Conversamos sobre como a vida era injusta, como os homens são canalhas, como as mulheres são facilmente ludibriáveis. Papo dor-de-cotovelo mesmo. Ela queixava-se, eu dava razão. Massagem no ego para um bom resto de sono na madrugada da moça.

Este é o meu lado canalha, diga-se de passagem.

O interessante da história foi quando ela perguntou-me o que faria hoje. Rally, respondi. Alguns segundos de silêncio, outra pergunta: “Quem está falando?”

A voz dela era perfeitamente passável pela voz de uma amissícima. Por suposto a minha também. Problema que ela não era ela, se é que você me entende.

Toda a tranquilidade que moldei e remoldei no ego da moçoila foi ralo abaixo. Desligamos polidamente.

Madrugada passada ela ligou de novo. Disse que, apesar do engano, até que a conversa foi tenra e lisongeira. E conversamos mais.

Enganos do destino. Engamos acertados, diga-se de passagem.

A arte de amar

22 de julho de 2007

O redator de telemensagens era muito bom no seu ofício. Sabia escrever com maestria recados personalizados para as mais fantásticas e diferentes situações: amor, ódio, aniversário, desencontros, desculpas. Tinha sempre uma boa idéia, fato que o consagrou como “Rei das Telemensagens”.

Dia desses o Rei das Telemensagens estava triste e desolado: tinha encontro com a namorada nova — a qual estava perdidamente apaixonado — e não conseguia expressar suas sentimentalidades de jeto nenhum.

Percebeu que o amor o cegou.

Pior, o amor tomara seu reinado. Deixara-o irremediavelmente bobão.