O infeliz era da época áurea da internet, onde pessoas boas de coração usavam o meio de comunicação para se conhecer em um modo simples e verdadeiro. Ele não conversava muito, é verdade. Tinha poucos amigos. Acabou a solidão dia em que conhecera as mensagens instantâneas.
O infeliz agora tinha amigos virtuais. Conversava com mulheres, pessoas do outro lado do mundo. Suas noites — e porque não falar algumas madrugadas — eram regadas por conversas variadas, inclusive em outros idiomas. Conhecia segredos de pessoas que viu sequer uma foto. Contava segredos tão escondidos que jamais falaria para algum vivente.
Mas o infeliz tinha uma rotina diária, onde encontrava pessoas reais. E estas pessoas não eram nada parecidas com seus amigos perfeitos virtuais. E isso o deixava infeliz.
O infeliz era uma pessoa comunicativa. Conversava alegremente no silêncio ínfimo do bater das teclas. Até se apaixonou uma vez, puramente por uma mulata do Suriname. Ninguém se importava mesmo.
Duas vidas completamente diferentes.

