O Tatanha era o cara mais criativo daquela rua estreita e pacata. Sempre inventava alguma coisa diferente e original.
Era canhoto. Sua professora dava reguadas nas mãos quando ele usava a esquerda para escrever. No segundo grau aprendeu que o lado esquerdo do cerebro comandava o lado direito do corpo. Ele escrevia com a mão invertida, sabia escrever de cabeça para baixo e ainda por cima sabia falar o alfabeto de tras para frente.
Tatanha era um cara de trás para frente.
Um dia sentiu uma pontada no abdomen. Doía muito, foi ver o doutor Correia. Era apendicite. Correram para o hospital. Doutor Correia era experiente, não mais do que meia hora para lhe abstrair a dor.
Incisão pequenina na barriga, dedos lá para dentro vasculhando. Nada de achar o apêndice. Aumenta a incisão, vasculha mas pra lá, vasculha mais pra cá e nada. E dá-lhe aumento de corte. O rasgo já estava com quase um palmo. Doutor Correia olhou por um instante ali dentro e percebeu: Tatanha tinha o ventre virado.
É claro que esse papo de ventre virado era conversa que sua avó contava, o doutor nunca levou a sério. Mas Tatanha realmente tinha todos os órgãos invertidos: coração que apontava para a direita, figado para a esquerda, baço para a direita, apêndice na direita. Doutor Correia cortou-lhe o outro lado e lá estava o apêndice inchcado, pronto para ser extraído.
Dias depois, em uma consulta, Correia contou para Tatanha sobre a sua inexplicável inversão do ventre virado. Depois disso, Tatanha ficou louco, não queria ser errado na vida, não queria ser gauche, não queria ser o sinistro.
Suicidou-se. Desferiu um tiro nas ventas. Mas dessa vez usou a mão direita.

