MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos do dia 26 de julho de 2007

O piazinho dos dedos a mais

26 de julho de 2007

O Xiru era um ranhentinho órfão de pai e mãe, indigente na vida. Morava em uma cidadezinha do interior, chegou ali de carona de uma capital qualquer. O que chamava a atenção nele era o polidactilismo. Seis dedos em cada mão. Ele era muito sagaz. E agressivo.

A vida passou, Xiru cresceu. Virou aviãozinho. Tinha um canela-seca, escafote brilhava no olho. Carregava uma farinha para lá, uns boca-de-ferro pra cá. Deu brecha, rodou com os gambé. Já era conhecido, miliano. O deléga foi fichar, a folha só tinha 5 lugares para digitais de cada mão.

Cortou-lhe os sextos dedos, sem titubear. Xiru era um homem normal, “agora arrumado para a vida” o delegado falou. Não chorou, não gritou e nem fez cara feia. Apenas jurou, em pensamentos, arrancar-lhe os culhões e enfiar-lhe goéla abaixo.

Em um ponto qualquer

26 de julho de 2007

Aquele terraço de um prédio passado era infinitamente grande. Edifício majestoso, com um imenso e inútil terraço. Ali cabia, eu, meus amigos e nossas conversas regadas a um bom jazz. Blues outras vezes.

O prédio era quase que uma super-república de estudantes. Nossa missão no mundo naquela época era estudar muito, tomar todas, arrumar mulheres devassassas e principalmente burlar a lei.

E sempre que começava a escurecer, lá estava, contemplando o pôr-do-sol, de cadeira de praia, toda a rapaziada. Que programa! A gente podia sempre contar um com o outro, e isso só acontecia porque havia irmandade na ação. Éramos muito desmedidos, não calculávamos as ações e suas consequências.

E sempre tinha coisa diferente acontecendo. Era época do explosão de vendas de aparelhos telefônicos celulares. Com um papel alumínio, alguns códigos malucos digitados e um fio ligando o telefone ao aparelho de som, podíamos rastrear e escutar conversas telefônicas. E em sua maioria, homens conhecendo mulheres de programas.

Outras vezes, lunetas e voyeurismo para vizinhas incautas saindo do banho.

Ríamos muito, de tudo. E bastava apenas um gesto, um som. O humor, do nada passava por cima da gente, e ríamos como retardados. As estrelas eram mais brilhantes, os aviões gigantes passavam mais perto, ali no 25° andar, o nosso andar, nosso terraço.

Tinha vez que gastávamos as economias com fogos de artifício. E quando levávamos algumas amigas loucas para dançarem a noite inteira? Ficávamos vendo, observando seus movimentos, suas expressões. Problema é que ríamos mais do que flertávamos. E isso atrapalhava em muito.

E o terraço se perdeu, um dia. Um de nós passou em um vestibular em outra cidade. Foi embora. E ali a razão do tempo sobre nossas vidas estava se mostrando. A imortalidade, imoralidade e infinidade do terraço definhava em seus últimos risos.

E não houve uma última vez em que nos encontramos lá em cima. Simplesmente ao mesmo tempo, vivendo cada dia de terraço como se fosse o último, nunca mais apaercemos. E isso não foi combinado. Assim crescemos. A vida colocou responsabilidades, as amizades inconseqüentes dispersaram-se. E toda a risada ficou para trás, toda a cumplicidade, o prazer das coisas ilícitas, a fragilidade da intimidade de uma boa e verdadeira amizade, para trás, uma lembrança.

Não houve despedidas. Cada um rumou para seu destino, cada um arrumou sua namorada, seu tom sério. Um morreu, deixando somente bons momentos. Outro, sumiu para a europa. Ficou aquele terraço vazio. Cheio de histórias, verdades e segredos que ninguém contaria melhor do que aqueles sete desocupados do bloco B.

Poesia

26 de julho de 2007

A melhor e mais emocionante poesia que já escrevi na minha breve vida foi em um guardanapo. Caneta tinteira, curvas descendentes de cada letra feita propositadamente com traço mais lento. O sorver do papel fez com que as letras ficassem com um inconfundível estilo retrô, abauladas nas curvas, delgadas nas serifas.

O texto, de levantar a penugem da nuca.

A combinação de desejos, aspirações e devaneios em versos fez a moçoila sair da inércia de sua cômoda rodinha de amigas de um barzinho qualquer para olhar dentro dos meus olhos lascivos. E aquela noite foi extraordinária.

Olhares lascivos por palavras perfeitas ensinaram-me uma coisa vital: anote o telefone da mulher. Se você não for vê-la nunca mais, que pelo menos ela lhe dite o que foi escrito. É cretino isso, eu sei, mas pelo menos vocês saberiam o que me fez ganhar um beijo.

Falando em amor

26 de julho de 2007

Uma amiga pediu para eu falar para ela o que era o amor. Sei que devem existir milhares de textos sobre este assunto. Gente que amou e falou bem, gente que amou e se quebrou, gente que nem sequer teve uma amostra grátis do amor.

Resolvi mudar um pouco o conceito, só para ver a buia que ia dar.

Amor, antes de tudo, é a sobra da paixão. A paixão faz a gente ficar com cara de tongo.

Depois que a enxurrada da paixão passa, sobra a essência do amor. E o amor nada mais é do que agir com a emoção. E quando você ama, você ofusca a razão, distanciando-se da pureza de Platão.

O amor entorpece a alma.

E o amor tem validade. Não é eterno, e o que sobra é amizade, respeito e intimidade. E quanto mais você conhece a sua pessoa amada, mais o seu amor – que antes era paixão – transforma-se em amizade. E amizade é um sentimento que transcende qualquer outra forma de relacionamento entre duas pessoas. Alguns cientistas até dataram a validade do amor – 7 anos. É a deadline dos coraçõezinhos e das ações e reações químicas em seu corpo.

Acredito que o amor esgota. Meu primeiro amor deixou marcas que nunca irão sarar. Meu segundo, mais marcas, só que amenas. O terceiro, marquinhas. E isso não tem nada a ver com intensidade do relacionamento. Ambos foram relativamente extasiantes.

Um amor, para ser eterno, só precisa de duas coisinhas: ser platônico, para sempre viver a paixão no imáginário perfeito e ser cultuado. Fora disso, a razão vai imperar, cedo ou tarde.

Tateto, o atentado

26 de julho de 2007

O Tateto não tinha nada para fazer. Resolveu visitar o Cabeção, que tinha Odissey e cartucho do Didi na serra pelada.

Apertou a campainha, ninguém atendeu. Pulou o muro e bateu na porta. Ninguém atendeu. Fez meia-volta, ia na casa de outro amigo. Ao pular o muro para fora, achou a chave da casa que o Cabeção sempre escondia embaixo de um tijolo.

Não deu outra: pegou a chave, entrou na casa e começou. Virou todos os quadros de cabeça para baixo, colocou todas as cúpulas de abajures de trás pra frente. Deixou as estatuetas de enfeite de cara para a parede. Ligou o rádio em uma AM de igreja sensacionalista.

Fechou a porta, devolveu a chave embaixo do tijolo e foi embora.

A mãe do Cabeção chegou em casa e surtou. Encontrara abóboras em cima das camas, padres exorcisando capetas no rádio, quadros de cabeça para baixo. Até a estatueta do São Jorge, imponente, olhando para a parede. Chamou Dona Filandrinha, a benzedeira. E benzedeira boa que era, assustou a mãe do Cabeção: disse que era obra de alguma entidade.

E o Tateto, atentado que era, nunca contou para ninguém.

Morosidade e poesia

26 de julho de 2007

Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer comentários e imagens as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha idéia de os achar belos.

Só não lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos, o não ser doido para que pudesse afastar da alma de todos os que me cercam.

Eu nao me queixo pelo mundo. Não sou pessimista. Sou apenas triste.

Musicalidade

26 de julho de 2007

Uma das pessoas que mais admiro neste mundo é o Nhô Guépe, José ou simplesmente Seu Zé. Um polacão vivido, sagaz e sentimental.

Desde que me lembro, já conhecia aquele sujeito. Ele ficara amigo de meu pai nos áureos tempos de juventude. Acho até que foi minha mãe quem o apresentou. E aprendi com ele a subir em ameixeiras, o que rendeu-me umas das mais fantásticas fotos que tenho de minha infância.

E sabe que o Nhô Guépe é uma daquelas pessoas carismáticas? Ri quando está feliz, chora quando está triste. Nem que seja escondido.

E você não consegue ficar indiferente com suas traquinagens. Ele é poliglota, fala dialetos longíquos, direto dos neologismos que perfeitamente assimilam-se com algum idioma que já se tenha falado em algum lugar da Terra. Assim mesmo, inventa palavras e dá uma risada gostosa, com cara de malandragem mesmo. Mistura seu polaquês puxado em italiano e com um pouquinho da engasgação alemã.

O homem dá inveja ao professor pardal: sabe consertar rádio velho valvulado. Sabe consertar rádio novo transistorizado. Sabe consertar disc-man, guarda-chuva, televisão, radiola, aspirador, video-cassete, microondas, motor de carro velho e brinquedos.

Mas o mimo de suas peripécias é a fabricação de violinos. São verdadeiras obras de arte!

Esculpe cravilhas, afina a madeira pela batida dos nós dos dedos. Trabalha com paciência em cada peça. Dedica toda sua arte aos instrumentos. E sabe tocar. Lança sonoras valsinhas polonesas, clássicos de cordas. Tudo em um impecável instrumento. Ele vende cada um por um salário mínimo. Foi a forma de sempre acompanhar a inflação e não preocupar a cachóla com variações cambiais, desvaloriações do dolar et al. E o que é UM salário? Unzinho. Já vendeu para freiras, italianos turistas, músicos da sinfônica do Paraná. Decoradores que nunca tirarão um acorde da peça.

Gosto muito dele. Ele sabe o que é ser companheiro. E seus amigos gostam muito dele.

Ah, o Zé é meu avô materno.

Amor confuso

26 de julho de 2007

O amor e paixão não se confundem. O amor possui uma temporalidade mais longa, enquanto que a paixão é imediata. A paixão diz respeito a objetos parciais, como um jeito, um cheiro, um par de pernas. O sujeito apaixonado se expande, e com isso invade o terreno daquele que é objeto de sua paixão. O sentido de alteridade se vê comprometido com a experiência, já que o “eu” e o “outro” se confundem. Nós não temos ciúmes; é ele, este sentimento, que nos tem.