Arquivos do dia 26 de julho de 2007

O PIAZINHO DOS DEDOS A MAIS


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:52 pm

O Xiru era um ranhentinho órfão de pai e mãe, indigente na vida. Morava em uma cidadezinha do interior, chegou ali de carona de uma capital qualquer. O que chamava a atenção nele era o polidactilismo. Seis dedos em cada mão. Ele era muito sagaz. E agressivo.

A vida passou, Xiru cresceu. Virou aviãozinho. Tinha um canela-seca, escafote brilhava no olho. Carregava uma farinha para lá, uns boca-de-ferro pra cá. Deu brecha, rodou com os gambé. Já era conhecido, miliano. O deléga foi fichar, a folha só tinha 5 lugares para digitais de cada mão.

Cortou-lhe os sextos dedos, sem titubear. Xiru era um homem normal, “agora arrumado para a vida” o delegado falou. Não chorou, não gritou e nem fez cara feia. Apenas jurou, em pensamentos, arrancar-lhe os culhões e enfiar-lhe goéla abaixo.

EM UM PONTO QUALQUER


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:49 pm

Aquele terraço de um prédio passado era infinitamente grande. Edifício majestoso, com um imenso e inútil terraço. Ali cabia, eu, meus amigos e nossas conversas regadas a um bom jazz. Blues outras vezes.

O prédio era quase que uma super-república de estudantes. Nossa missão no mundo naquela época era estudar muito, tomar todas, arrumar mulheres devassassas e principalmente burlar a lei.

E sempre que começava a escurecer, lá estava, contemplando o pôr-do-sol, de cadeira de praia, toda a rapaziada. Que programa! A gente podia sempre contar um com o outro, e isso só acontecia porque havia irmandade na ação. Éramos muito desmedidos, não calculávamos as ações e suas consequências.

E sempre tinha coisa diferente acontecendo. Era época do explosão de vendas de aparelhos telefônicos celulares. Com um papel alumínio, alguns códigos malucos digitados e um fio ligando o telefone ao aparelho de som, podíamos rastrear e escutar conversas telefônicas. E em sua maioria, homens conhecendo mulheres de programas.

Outras vezes, lunetas e voyeurismo para vizinhas incautas saindo do banho.

Ríamos muito, de tudo. E bastava apenas um gesto, um som. O humor, do nada passava por cima da gente, e ríamos como retardados. As estrelas eram mais brilhantes, os aviões gigantes passavam mais perto, ali no 25° andar, o nosso andar, nosso terraço.

Tinha vez que gastávamos as economias com fogos de artifício. E quando levávamos algumas amigas loucas para dançarem a noite inteira? Ficávamos vendo, observando seus movimentos, suas expressões. Problema é que ríamos mais do que flertávamos. E isso atrapalhava em muito.

E o terraço se perdeu, um dia. Um de nós passou em um vestibular em outra cidade. Foi embora. E ali a razão do tempo sobre nossas vidas estava se mostrando. A imortalidade, imoralidade e infinidade do terraço definhava em seus últimos risos.

E não houve uma última vez em que nos encontramos lá em cima. Simplesmente ao mesmo tempo, vivendo cada dia de terraço como se fosse o último, nunca mais apaercemos. E isso não foi combinado. Assim crescemos. A vida colocou responsabilidades, as amizades inconseqüentes dispersaram-se. E toda a risada ficou para trás, toda a cumplicidade, o prazer das coisas ilícitas, a fragilidade da intimidade de uma boa e verdadeira amizade, para trás, uma lembrança.

Não houve despedidas. Cada um rumou para seu destino, cada um arrumou sua namorada, seu tom sério. Um morreu, deixando somente bons momentos. Outro, sumiu para a europa. Ficou aquele terraço vazio. Cheio de histórias, verdades e segredos que ninguém contaria melhor do que aqueles sete desocupados do bloco B.

POESIA


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:37 pm

A melhor e mais emocionante poesia que já escrevi na minha breve vida foi em um guardanapo. Caneta tinteira, curvas descendentes de cada letra feita propositadamente com traço mais lento. O sorver do papel fez com que as letras ficassem com um inconfundível estilo retrô, abauladas nas curvas, delgadas nas serifas.

O texto, de levantar a penugem da nuca.

A combinação de desejos, aspirações e devaneios em versos fez a moçoila sair da inércia de sua cômoda rodinha de amigas de um barzinho qualquer para olhar dentro dos meus olhos lascivos. E aquela noite foi extraordinária.

Olhares lascivos por palavras perfeitas ensinaram-me uma coisa vital: anote o telefone da mulher. Se você não for vê-la nunca mais, que pelo menos ela lhe dite o que foi escrito. É cretino isso, eu sei, mas pelo menos vocês saberiam o que me fez ganhar um beijo.

FALANDO DE AMOR (VAI SE FODER!)


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:33 pm

Uma amiga pediu para eu falar para ela o que era o amor. Sei que devem existir milhares de textos sobre este assunto. Gente que amou e falou bem, gente que amou e se quebrou, gente que nem sequer teve uma amostra grátis do amor.

Resolvi mudar um pouco o conceito, só para ver a buia que ia dar.

Amor, antes de tudo, é a sobra da paixão. A paixão faz a gente ficar com cara de tongo.

Depois que a enxurrada da paixão passa, sobra a essência do amor. E o amor nada mais é do que agir com a emoção. E quando você ama, você ofusca a razão, distanciando-se da pureza de Platão.

O amor entorpece a alma.

E o amor tem validade. Não é eterno, e o que sobra é amizade, respeito e intimidade. E quanto mais você conhece a sua pessoa amada, mais o seu amor - que antes era paixão - transforma-se em amizade. E amizade é um sentimento que transcende qualquer outra forma de relacionamento entre duas pessoas. Alguns cientistas até dataram a validade do amor - 7 anos. É a deadline dos coraçõezinhos e das ações e reações químicas em seu corpo.

Acredito que o amor esgota. Meu primeiro amor deixou marcas que nunca irão sarar. Meu segundo, mais marcas, só que amenas. O terceiro, marquinhas. E isso não tem nada a ver com intensidade do relacionamento. Ambos foram relativamente extasiantes.

Um amor, para ser eterno, só precisa de duas coisinhas: ser platônico, para sempre viver a paixão no imáginário perfeito e ser cultuado. Fora disso, a razão vai imperar, cedo ou tarde.

TATETO, O ATENTADO


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:32 pm

O Tateto não tinha nada para fazer. Resolveu visitar o Cabeção, que tinha Odissey e cartucho do Didi na serra pelada.

Apertou a campainha, ninguém atendeu. Pulou o muro e bateu na porta. Ninguém atendeu. Fez meia-volta, ia na casa de outro amigo. Ao pular o muro para fora, achou a chave da casa que o Cabeção sempre escondia embaixo de um tijolo.

Não deu outra: pegou a chave, entrou na casa e começou. Virou todos os quadros de cabeça para baixo, colocou todas as cúpulas de abajures de trás pra frente. Deixou as estatuetas de enfeite de cara para a parede. Ligou o rádio em uma AM de igreja sensacionalista.

Fechou a porta, devolveu a chave embaixo do tijolo e foi embora.

A mãe do Cabeção chegou em casa e surtou. Encontrara abóboras em cima das camas, padres exorcisando capetas no rádio, quadros de cabeça para baixo. Até a estatueta do São Jorge, imponente, olhando para a parede. Chamou Dona Filandrinha, a benzedeira. E benzedeira boa que era, assustou a mãe do Cabeção: disse que era obra de alguma entidade.

E o Tateto, atentado que era, nunca contou para ninguém.

MOROSIDADE E POESIA


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:27 pm

Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer comentários e imagens as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha idéia de os achar belos.

Só não lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos, o não ser doido para que pudesse afastar da alma de todos os que me cercam.

Eu nao me queixo pelo mundo. Não sou pessimista. Sou apenas triste.

MUSICALIDADE


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:26 pm

Uma das pessoas que mais admiro neste mundo é o Nhô Guépe, José ou simplesmente Seu Zé. Um polacão vivido, sagaz e sentimental.

Desde que me lembro, já conhecia aquele sujeito. Ele ficara amigo de meu pai nos áureos tempos de juventude. Acho até que foi minha mãe quem o apresentou. E aprendi com ele a subir em ameixeiras, o que rendeu-me umas das mais fantásticas fotos que tenho de minha infância.

E sabe que o Nhô Guépe é uma daquelas pessoas carismáticas? Ri quando está feliz, chora quando está triste. Nem que seja escondido.

E você não consegue ficar indiferente com suas traquinagens. Ele é poliglota, fala dialetos longíquos, direto dos neologismos que perfeitamente assimilam-se com algum idioma que já se tenha falado em algum lugar da Terra. Assim mesmo, inventa palavras e dá uma risada gostosa, com cara de malandragem mesmo. Mistura seu polaquês puxado em italiano e com um pouquinho da engasgação alemã.

O homem dá inveja ao professor pardal: sabe consertar rádio velho valvulado. Sabe consertar rádio novo transistorizado. Sabe consertar disc-man, guarda-chuva, televisão, radiola, aspirador, video-cassete, microondas, motor de carro velho e brinquedos.

Mas o mimo de suas peripécias é a fabricação de violinos. São verdadeiras obras de arte!

Esculpe cravilhas, afina a madeira pela batida dos nós dos dedos. Trabalha com paciência em cada peça. Dedica toda sua arte aos instrumentos. E sabe tocar. Lança sonoras valsinhas polonesas, clássicos de cordas. Tudo em um impecável instrumento. Ele vende cada um por um salário mínimo. Foi a forma de sempre acompanhar a inflação e não preocupar a cachóla com variações cambiais, desvaloriações do dolar et al. E o que é UM salário? Unzinho. Já vendeu para freiras, italianos turistas, músicos da sinfônica do Paraná. Decoradores que nunca tirarão um acorde da peça.

Gosto muito dele. Ele sabe o que é ser companheiro. E seus amigos gostam muito dele.

Ah, o Zé é meu avô materno.

AMOR CONFUSO


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:15 pm

O amor e paixão não se confundem. O amor possui uma temporalidade mais longa, enquanto que a paixão é imediata. A paixão diz respeito a objetos parciais, como um jeito, um cheiro, um par de pernas. O sujeito apaixonado se expande, e com isso invade o terreno daquele que é objeto de sua paixão. O sentido de alteridade se vê comprometido com a experiência, já que o “eu” e o “outro” se confundem. Nós não temos ciúmes; é ele, este sentimento, que nos tem.

A RUA, DESERTA.


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:01 pm

A rua estava deserta.

De paralelepípedos desgastados e polidos, dividindo a cena com majestosos prédios residenciais, uma iluminação amarelada e algumas árvores pingadas. Aquela rua era monótona e simples.

Noite escura, nevoeiro fino, quase garoa. O silêncio fôra quebrado por um melodioso som, esparso, delicado como uma flauta. Toda a atenção de todos os prédios estava voltada para aquela música. Um homem alto, cabelos grisalhos, bigode e costeletonas, passeava despreocupadamente pelo meio da rua. Sua melodia era perfeitamente assoviada. O timbre e a potência de seu assovio era impressionante: ecoava pelas paredes de concreto, despertando a atenção de todos!

E vinham pessoas às janelas. Aquele homem não sabia, mas havia quebrado a velha e cansada rotina daquela rua. Passos despreocupados. A expressão surpreendente no rosto de cada um que prostrava-se para ver o homem passar era a prova definitiva de que aquele gesto havia transcendido a frígida barreira da morosidade.

Ele caminhou até o final da rua. Entrou na padaria. Todos esperavam nas janelas, ansiosos.

O homem saiu em silêncio. Aquele vácuo infinito torturava a todos.

Ele não assoviou nada. Simplesmente começou a cantarolar uma opereta em italiano. Era passos lentos, despreocupados. Sua voz era enebriante. A potência daquele som ecoava pelas paredes de concreto. Ao chegar perto da esquina, alguém começou a aplaudir. Segundos depois, todos que estavam às janelas batiam palmas. O momento era de arrepiar. O homem, parado na esquina estava assustado com o inusitado fato.

Ele não sabia, mas tinha transformado aquele mágico momento em uma das mais singelas lembranças de uma noite extática daquelas pessoas.

ESTAR ALI


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 1:51 pm

A tarde estava quente. O vento, lento e preguiçoso. Sua mente voava livre, acompanhava o suave balançar das paineiras de ilusões e alusões.

Aquele jovem solitário gostaria de estar ali com um alguém que deixasse seu coração em paz. Viver em paz e principalmente viver aquele momento para todo o sempre, sem a volatilidade e medo de perdê-lo no dia seguinte. Só assim a efemeridade do tempo passaria mais devagar, como aquela tarde insossa.

E um alguém naquele momento poderia ser um compartilhamento pleno de silêncio. Dividir a delícia do calmo vento. E o melhor de tudo era não estar nem um pouco preocupado com assuntos sérios, palavras condizentes, decisões arrepiantes.

Um alguém que o deixasse à vontade.

Um alguém que o cuidasse.

Uma namorada, quem sabe.

VOYEURISMO


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 1:47 pm

Moro em um apartamento onde as janelas dos banheiros são grandes e envidraçadas. Gosto de tomar banho de luz apagada, por dois motivos: um é que relaxa muito e outro é que eu posso deixar as janelas completamente abertas, o que permite contemplar toda a vizinhança e as ruas em volta.

Na frente da janela do banheiro tem um prédio. Deve ficar a uns 30 metros de distância, o que já limita meu campo focal. E uns 5 andares abaixo, tem uma vizinha muito bonitinha. Todo dia eu a observo, enquanto a água gelada salpica na minha cabeça. Mora com os pais, tem um irmão, veste-se impecável, tem pijamas feitos de camisetas velhas. E tem um computador em seu quarto.

Aquele prédio tem muitos outros vizinhos, mas todos muito comuns. Só aquela janela, daquele quarto, com aquela moça, interessa minha observação diária. Diria que sua idade beira os 20 anos, estuda à noite.

Hoje achei um binóculo velho, caído em um canto qualquer. Relembrei o porquê dele estar esquecido: era vesgo. Limpei a lente, mirei em cheio com o instumento em posição “monóculo”, naquela única janela que me interessava. Invadi sua privacidade. Li as palavras que estavam escritas em seu mousepad. Naveguei lentamente pelo seu quarto, cama, estantes. Fiquei observando-a, enquanto ela digitava constantemente. Devia ser algum chat ou instant messenger. Ela esboçava um olhar sério, triste. Raros momentos em que sorria de canto de boca para a tela. Algumas vezes inclinava-se para frente. Outras, ficava imóvel, deixando apenas seu indicador rolar a rodinha do mouse.

Ela conversava com alguém que não a via, mas sabia o que ela estava dizendo. Talvez esta pessoa nunca a tivesse visto antes, apenas desenhava em pensamentos seu semblante imaginário perfeito.

Eu a via, mas não sabia o que ela estava pensando ou escrevendo. Não sabia sequer o seu nome, mas já estive passeando pelo seu quarto, por sua intimidade.

Uma invasão inocente. Incoerente. Imagino quantas pessoas estão agora empoleiradas, observando-me enquanto escrevo. Deixei a janela aberta, o outro prédio vizinho pode ter alguém me visitando neste instante.

Alguém pode estar te vigiando agora

Voyeurismo hoje em dia é moda. Reality Shows estão aí para provar. O mundo tornou-se voyeur porque as pessoas vivem cada vez mais isoladas.

A nossa sociedade é muito curiosa. O ser humano é curioso. Isola-se, mas tem a necessidade de conviver. Então trava um telecontato, só do olhar. Só que o isolamento leva ao empobrecimento afetivo, é um convívio egoísta. A pessoa se sente segura porque acha que pode se desligar daquele contato a hora que quiser, mas continua isolada.

E essa curiosidade extende-se mais ainda: fico imaginando você aí, lendo este blog: quem são essas 5 pessoas online no site? De que parte do mundo estão acessando? O que estão comendo, o que estão escutando?

A curiosidade cria situações fantásticas, como sempre. E nunca vamos saber, ao certo, o que se passa ao nosso redor.

O AMOR ACABA?


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 1:41 pm

Uma paixão muda para amor a partir do momento em que a vontade irresistível de se ver a cada minuto da sua vida torna-se apenas uma saudade suportável. Não que isso seja ruim, pelo contrário!

A paixão nos entorpece. O amor apenas nos faz raciocinar novamente. E como tudo nesta vida é finito, a amor se desgasta. Muita gente não admite este final de relação com facilidade. Outros negam até o fim, para tentar ludibriar o coração — ou pior — proteger-se da inevitável dor da perda de uma companhia, da cumplicidade de uma vida em comum.

Muitas vezes existe uma afinidade e harmonia tão grande que fica até difícil de saber o que realmente está acontecendo. A realidade de um momento em que a vida surge só, no singular da convivência faz com que um vácuo crepuscular domine nossa alma. A vida fica amarga por um tempo, pela ausência inevitável do gostinho de saber que, de fato, existia a sua outra metade.

E não adianta querer simplesmente apagar os resquícios da lembrança, porque estas marcas viram profundas cicatrizes. E cicatrizes são marcas visíveis que servem para alertar, lembrar dos acertos e erros que a ocasionaram.

Os finais de relacionamentos não precisam ser tristes. Podem acabar em amizades duradouras. Podem acabar em esquecimento refletido constantemente em um escudo de dor e medo. Ou simplesmente pode acabar para um, mas continuar vivo por muito tempo para o outro. E esse sim, vai trucidar o pobre coraçãozinho.

CONTAR ESTRELAS


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 1:33 pm

O menino morava em uma casa afastada da cidade. E como toda vida simples daquele tempo, ninguém na sua casa comprava lâmpada de mais de 40 velas. Aquela casinha ficava com uma iluminação murcha, engolida pelo silêncio. Perfeita para ele.

Já conhecia bem ciências, tinha até livro de astronomia. Adorava ver estrelas. Toda noite pesquisava no almanaque o nome de uma constelação. É claro que era preciso ter muita imaginação para descobrir, no meio de todos aqueles astros, quem era quem. E ele achava, apesar do livro americano ter somente o hemisfério norte em suas páginas.

Seu ritual era prático: contava calmamente as estrelas, esquadrinhando em imaginação lotes de astros para facilitar. Outras vezes apenas olhava para a lua, e imaginava o dia em que poderia passear por aqueles terrenos com uma luneta.

Seu sonho era ter uma luneta.

Sua contagem diária era de seis mil e poucas estrelas com lua cheia, às vezes sete mil em dia de lua nova.

Uma noite ele atrasou-se para jantar. A sua mãe, impaciente foi chamá-lo. Escutou ele falar um pouco as balelas de sempre sobre corpos celestes. Apontou convicto para um punhado de estrelas e disse que era o cruzeiro do sul. Sua mãe deu um tapa ardido em sua mão, disse que apontar para estrelas fazia brotar berrugas nos dedos.

Aquilo marcou o menino para sempre. Tacou fogo em seu livro de astronomia. Ficou com ódio daquelas estrelas traidoras, das estrelas que fizeram nascer uma pequenina verruga em seu dedo. Agora entendera como aquela protuberância aparecera em sua mão. Ódio da lua, dos cometas, da noite. Ódio da Prima Estela. Raiva dos brinquedos de mesmo nome.

Tempo passou, enriqueceu, esqueceu a raiva. Até fez poesias para estrelas e namoradas:

Contando imagens
olho para o céu,
desenho nas estrelas
contorno expressões
aponto e aponto.
pronto, mais uma verruga no dedo.

Comprou a luneta mais avançada. Tinha gps, rastreador automático de estrelas e planetas. Magnitude óptica perfeita.

Mas o belíssimo encanto de sua infância fôra extirpado na micro-cirurgia dermatológica, tempos atrás, quando deu adeus à verruga inconveniente.

MENTIRAS


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 12:26 pm

Mentiras e curruptelas são apaziguadores sociais e sem elas a vida seria um verdadeiro inferno social. Estamos cercados de mentiras. Estamos cercados de mentirosos. A mentira é a nossa harmonia relacional. A mentira construiu a base social da civilização, criou conceitos abstratos. Igrejas criaram a fé em situações improváveis, criaram mitos e heróis invencíveis.

A mentira é o equilíbrio em uma sociedade íntima.

Animais irracionais mentem. Animais irracionais fingem.

O homem não existiria racionalmente se todos os sorrisos esboçados fossem de felicidade, nem se todas as lágrimas fossem de tristezas. Conformismo e expressionismo são equilíbrios que nos estabilizam e confortam.