Arquivos do dia 25 de julho de 2007

quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 1:18 pm
Rapaz de 22 anos.
Banho demorado, barba feita duas vezes. Desodorante leve, perfume importado, leves notas doces. Colocou seu habitual terno azul-marinho, gravata vermelha escura, camisa engoada, sobretudo por cima de tudo. Estava muito frio. Parou diante do espelho. Seu rosto estava muito triste, tentou esboçar um sorriso fajuto, ficou forçado demais. Entrou no carro e saiu.
Mulher de 26 anos.
Banho demorado. Mulher sempre toma banho demorado quando lava o cabelo. Xampú perfumado, imersão em sais de banho na banheira por quinze minutos. Secador de cabelo, maquiagem sóbria, perfume carregado e vestido preto, simples, básico. Decotes insinuantes para finalizar.
A trama
Ele chega com antecedência à casa dela. Sobe, tem a chave. Cumprimentam-se friamente. Ela ainda está jogando coisas dentro de sua bolsa. Procurando o celular perdido em algum canto. Ele percebe que aquele jantar vai ser longo e dolorido. No carro, silêncio. Chegam ao restaurante, sentam-se e começam a conversar. Ela começa a falar de uma maneira surpreendente. Coloca suas tristezas, explana toda a sua amargura, fala de seus desatinos, desilusões e frustrações. Ele tenta rebater, defende-se como pode, mas não adianta: é tudo verdade.
Ela não deu a atenção especial que ele queria. Ele era inocente demais para saber o momento certo de dizer palavras confortantes. Não sabia a diferença da tara dela e da tpm. Os dois não se bicavam. Tentaram, tentaram e tentaram.
— Nosso relacionamento acabou… — Ela balbucia, quase chorando.
Ele pede mais tempo para pensar. Ela não quer extender mais essa amargura de uma frustração no relacionamento. Ela levanta, com o guardanapo de linho branco, macio, entre as mãos. Enxuga uma lágrima e vai embora. Ele chama o garçon cancela o pedido.
Entrega uma gorjeta, pega o carro e sai, sem rumo. No rádio, banda pop nacional, música lenta, embalo suave. A letra desfere-lhe golpes em seu estado de tristeza que é inevitável o choro, seguido de um soluço leve e triste. Passeia a noite, devagar, não pensa em nada. A cena dela levantando-se foi forte e não sai de sua cabeça. Sua mente intercala momentos de euforia, tristeza, revolta por sua incapacidade, medo por sua confusão. Pára no sinal vermelho.
O desfecho trágico
Ele avista uma prostituta. Bonita e elegante. Perde-se na selva da sua existência e a convida para entrar. Ela está com um perfume forte. seu olhar é firme e intimidador. Seguem para um motel. Ele já não sabe mais nada, apenas escuta a música melncólica. Entram em uma suíte grande e confortável. ela senta na cama, como quem quer testar a maciez. Ele senta ao seu lado.
Encosta-se levemente na mulher. Acondiciona a cabeça no colo dela. Chora baixinho. Confunde, novamente o papel de macho. Troca o papel da mulher ao seu lado. Ela entende o que ele quer. Passa a mão suavemente em sua cabeça.
A conclusão
Levou quase uma década para entender as mulheres. Conheceu muitas diferentes, brigou com outras tantas. E chegou à conclusão óbvia da relação: descobriu que as mulheres são muito mais inteligentes, sagazes, dominadoras e manipuladoras do que se imaginava. E descobriu que uma mulher consegue dobrar um homem em questão de minutos.
Ele queria pedir desculpas pela inexperiência e falta de sensibilidade em perceber sentimentos femininos.
Mas sua experiência agora era o que o freiava.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 1:13 pm
Reza a lenda corporativa que em uma multinacional russa havia uma cara muito engraçado e carismático: o Fagundinho. Ele era diretor de arte e tinha costumes estranhos. Apesar das singelas características up2date e well-fashioned o cara era todo boa-pinta e por onde passava arrancava suspiros das mulheres da empresa.
Acontece que Fagundinho tinha uma mania muito peculiar e constrangedora. Aliás, alguns achavam que aquilo era doença. Toda vez que o infeliz ia ao banheiro evacuar, executava uma sessão “mania pessoal”: desabotoava o paletó, tirava a gravata, arrancava a camisa, despia-se da calça e cueca, tirava as meias. Até o relógio. Ficava completamente nu. Deixava todas as roupas e acessórios alinhados na parede que contornava a sanita. Roupas dobradas nos vincos para não amassar. Relógio equilibrado para não cair. A mochila cheia de parafernálias no canto. Meias ao lado esquerdo, sapatos na porta, metade fora, metade dentro.
Ele dizia que aquilo o deixava livre para pensar enquanto prostrava-se ao trono oco para soltar o rabão de macaco.
E todo mundo que entrava naquele imenso banheiro já estava acostumado com a cena surreal. Mas ninguém se importava com aquelas doidivanices.
Até que o pessoal da logística resolveu sacanear.
Entraram sorrateiramente no banheiro. Cada um apontou para a peça de roupa que iria pegar. Contagem regressiva nos dedos e pimba! Cataram todas as roupas e se escafederam! Não deu nem chance do Fagundinho terminar o palavreado chulo que emanava com voz gutural.
A empresa era grande e era final de expediente. Muita gente zanzando pelos corredores do prédio, muita gente indo embora e ele precisava voltar ao trabalho, pelo menos para enviar um relatório atrasado e procurar suas roupas. Contabilizou o estrago: ficou com uma meia, o relógio, a gravata e os dois sapatos. E sua mochila.
Não restou-lhe dúvidas: vestiu a gravata, deu um nó duplo, colocou a única meia, os dois sapatos e viu que tinha que agir. Sacou da mochila umas folhas sulfites, um grampeador e uma fita adesiva. Dobrava as folhas, grampeava as emendas, fita adesiva nas partes críticas e de dobras corporais. Cinco minhutinhos e já tinha uma camiseta. Mais uns dez minutos, para ajustes de barra e comprimento do vinco e sua calça-sulfite estava pronta.
E não é que o Fagundinho sai do banheiro socialmente vestido? O desgraçado tinha feito até gola para assentar a gravata!
Chegou no seu setor. No promeiro momento, ninguém prestou muita atenção, mesmo porque ele sempre tinha umas roupas meio doidas mesmo. Até gravata de crochê o indecente usava.
Sentou-se lentamente, para assegurar-se de que os fundilhos não cederiam. Digitou umas coisas, enviou o relatório e esperou pacientemente.
Não deu outra: o boy apareceu meia hora depois, com um caixote lacrado. Era da logística. O bilhete em anexo admitia que Fagundinho 1 x Logística 0.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 1:02 pm
O reinado francês antigo tinha uma peculiaridade muito grande: um mini-auditório de seis, no máximo oito cadeiras nos aposentos do rei. Basicamente era para a plebeuzada assistir ao magnífico “despertar real”, facto este que consistia em chegar cedo, antes da alvorada solar, sentar-se nas cadeirinhas e ficar ali em silêncio meditativo até que o grotão acordasse. Aí era simplesmente aplaudir e debandar.
E isso era uma consagração para a sociedade plebéia!
Esse espetáculo do despertar cessou-se para sempre na fatídica Noite de São Bartolomeu, um fato histórico que se sucedeu no dia 24 de agosto de 1572. Essa noite foi conhecida por marcar as sangrentas lutas religiosas que atrasaram a consolidação do absolutismo francês.
E sabe como tudo isso aconteceu?
Pois bem, um protestante chamado Henrique de Navarra fora assistir este magnífico “despertar real”, a convite de sua senhora a futura rainha Margot. Sentou-se ao lado de alguns plebeus xexelentos e ficou a observar a cena do todo-poderoso dormindo. Carlos IX, rapagão vigoroso e saudável, havia se esbaldado de tanto comer no jantar. Devorara javali, batata-doce, mandioquinha, repolho-roxo, rollmops, escabeche e até sagú na sobremesa. Tomou caipirinha, cervejinha e tubaína.
E isso o deixou um tanto quanto flatulento.
Quando os suditos, Henrique de Navarra e sua esposa Margot entraram no quarto, aquele ar ácido e causticante corroeu-lhes os narizes. Henrique estava indignado! ficou reclamando baixinho o tempo inteiro. Não entrava em sua cabeça que um ânus real como o de Carlos IX pudesse desferir tamanhos venenos pestilentos!
E o rei rolava para cá e… Bufa! Rolava para lá e outro traque lhe escapava. Como os castelos naquela época eram nada ventilados, alguns súditos desmaiaram. Quando Carlos IX acordou, os remanescentes que apresentavam consciência aplaudiram. Cínico como sempre foi, reclamou e esbravejou, insinuando que aqueles súditos podres e insossos peidaram em seu aposento real.
É claro que Henrique de Navarra ficou ensandecido com a agressão. Retrucou na hora. E retrucar um rei cínico, mal-humorado e recém-despertado era assinar o obtuário. O embate que se desencadeou depois disso gerou tamanho conflito e ódio que não deu outra: mais de três mil protestantes foram dizimados naquela noite infeliz. O rei pegara ódio daqueles pagãos reclamões.
Alguns conselheiros franceses — com o consentimento real do rei — proíbiram desde aquela data fatídica os infelizes alvoresceres reais assistidos.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 12:47 pm
Quando criança, sua educação religiosa era extremamente severa: todas as quartas, catequese, todos os sábados, ensaio no coral e domingo, missa. Aquele menino raquítico ao contrário de seus amigos, gostava dessa vida espiritual e religiosa. Sempre se esforçava ao máximo para afinar sua voz com o coral.
E sua vida era graciosamente bela. Certa vez o ministro que cuidava das leituras bíblicas requisitou alguns jovens do coral para a leitura na missa dominical. Seria a consagração do menino! Ele prostrou-se diante do microfone, encheu os pulmões de ar e recitou todo o parágrafo. Seu discurso foi certeiro. Não gaguejou, não comeu acentuações nem pontuações.
— Tua voz é muito feia, moleque. Volte para seu lugar.
Aquelas palavras do ministro rasgaram-lhe a alma! Como alguém poderia falar assim? Como alguém, dentro de uma igreja, poderia fazer algo assim?
Ninguém percebeu, mas aquilo mudou o menino para sempre. O tempo passou, ele continuou se dedicando a música. Seu corpo magricela acabou por virar um grande homem. Morou na Itália, aprendeu latim, conheceu o canto gregoriano. Tornou-se barítono. Acompanhou por alguns anos a Orquestra de Berlim, sagrou-se primoroso.
Gozando férias em sua cidade natal, descobriu que o ministro que lhe feriu a alma estava em vias de bater as botas. Sem pestanejar, conversou com o pároco e encomendou-lhe uma missa especial, com trechos cantados por ele, em latim. No dia da missa, casa lotada, o ministro em sua cadeira de rodas na primeira fila. O barítono iniciou a Missa Benedicta. Era cantada em latim. E naquele momento, somente ele e o ministro entendiam a língua.
O que ninguém percebeu foi que a letra havia sido trocada. O barítono reescrevera tudo: o Kyrie, a Gloria, o Credo, o Sanctus & Benedictus, o Agnus Dei. Nem o padre, italiano, percebera a troca. O povo delirava com sua voz forte e envolvente. A cada verso maldito, uma punhalada na alma do velho ministro. Eram agressões verbais que estavam encrustradas no âmago da alma daquele vociferador.
Ao final da missa o público extasiado aplaudia em pé, enquando o ministro, atônito, surtava em um ataque cardíaco.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 12:12 pm
Na verdade, hora que tocou a música foi que percebeu-se, realmente, que tudo acabara.
Era uma música leve, calma — triste por sinal. O breve devaneio de música “nossa” foi engolido por uma melancolia triste e insensata. E quanto mais e mais a música se repetia, mais a sensação de que perdia aquela mulher de olhos profundos e brilhosos tomava força de uma dor fisica inexplicável.
E nada poderia sequer nos separar. Tínhamos até uma música própria, nada poderia.
Aquele apartamento cheio de pratos bonitos, uma decoração impecável, seu gosto por chocolates e sua gatinha de estimação. Gata louca, ela sempre dizia. E ainda dizia que era fascinada por canhoto. Gostava de ver soluções práticas
gauches para cotidianos destros.
E tudo isso acaba por ser irreal demais. É claro que a música na lembrança deu, por um certo momento, a ilusão de que nada realmente acabara. Ela continuaria a chamar aquela gata de louca.
Mas aí o saxofone em si bemol melancólico selou qualquer outra idéia vazia. Talvez aquela última fitada mostrara um brilho nos olhos daquela mulher. Talvez estivessem apenas úmidos.
Mas era mais provável que a umidade estivesse, na verdade, nos olhos dele.

Aquela música que tocava remetia ao último namoro. Era a “nossa” música.
É claro que ao escutá-la instantaneamente veio à tona aquele romance muito bem vivido, momentos em que escutavam e riam junto. E relembrar momentos com uma música simplesmente é terrível.
Terrivel porque também a tristeza que se sucedeu daquele relacionamento foi angustiante.
E a música que era “nossa” e deixava feliz, também deixava triste. E infeliz.
A música acabou. Estava sem fazer nada, inerte na cadeira.

E a música tocou novamente e novamente lembranças felizes. E a música ficou no
repeat. E novas lembranças de lembranças novas misturavam-se a voz daquele que embalava “nossos” sonhos. E a tristeza, a infelicidade e as boas lembranças misturavam-se, mas não conseguiram tomar razão desta vez.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 12:06 pm
Muzumbo era um negro grande e forte. Calado, na maioria das vezes, preferia sempre escutar e observar. Diálogos, só imprescidíveis. Roupas impecáveis, muito ouro nos acessórios e um escritório na área nobre comercial. Assim era o Muzumbo, visto por todos.
Silva, do Silva & Associados — um escritório de advocacia que fazia divisa com a sala de Muzumbo — encontrou-se no elevador com a secretária do negão. Começou um diálogo lugar-comum meteorológico. É claro que o advogado, ávido em suas curiosidades, perguntou-lhe qual era o “ramo” daquele escritório, uma vez que não tinha placa alguma na porta. A secretária disse-lhe que o patrão era proxeneta, trabalhava com intermediação e rendas percentuais.
É claro que o advogado ficou mergulhado em suas controvérsias ignóbeis: não sabia o que era um proxeneta.
Voltou, pesquisou o dicionário e descobriu o que seu vizinho aprontava: era um gigolô! Devia ser um notívago dissoluto, bicho-solto, desprezível de quaisquer veleidades de um verdadeiro apego.
Silva era diferente: trazia seu nome na sua empresa, era um homem direito e regrado, tinha princípios, fidelíssimo à sua esposa.
Dia desses Muzumbo bateu-lhe à porta. Precisava resolver algumas pendengas jurídicas. Silva, ávido e sagaz, perguntou para Muzumbo com o que trabalhava. O negrão apurou ser proxeneta, senhorio do sexo descompromissado. Silva negou a ajuda, “feria a consciência e os bons costumes”.
O negrão levantou-se, apoiou as duas mão na mesa de vidro do advogado e prostrou-se mais à frente, quase colando a cara com a de Silva:
— Pago em dinheiro e na hora que o senhor quiser.
Silva, que estava em vias de falência, percebeu que aquele confronto de costumes morais havia cessado na hora. Fecharam negócio.
Muzumbo cuidava dos encargos com suas senhorinhas. Silva livrava Muzumbo das encrencas, com negociatas sociais e propostas que o negão nem imaginava.
É claro que o varão do ébano sempre tentava Silva a participar de suas esbórnias. Apesar de bebericar alguns brandies no escritório de Mozumbo, Silva sempre resistia às solicitações, com um estoicismo sem vacilações. Forjara-se assim uma amizade, feita de respeito pelas diferenças: Muzumbo, um mulherengo nato, em eterno toque-e-foge pelas labaredas do sentimento; Silva, uma figura temperada pela solenidade do seu elo amoroso e fidelidade aplicada.
E esse era o contraste fabuloso que governava a vida dos rapagões: uma conformidade de duas áreas totalmente opostas, com um diferente ponto de vista sobre amor, paixão, sexo e prazer.
Tempo passou, Muzumbo acabou casando com uma mulatinha que tirara da vida fácil. Silva, do Silva & Associados, separou-se de sua mulher e agregou, em seu “Associados”, a lucrativa alcunha oculta de proxeneta.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 12:00 pm
O telefone tocou e ele não atendeu. Tocou novamente. Sabia quem era, sabia o porquê daquela ligação. Na terceira vez, atendeu com uma voz fria. Ela queria vê-lo, queria conversar. Ele apenas respondia suas questões.
Ela estava carente. Carente e tarada — mais precisamente. E sua súplica quase o convencera.
Ceder uma visita à ela seria voltar-se contra seus princípios. Ceder seu corpo novamente para aquela mulher seria amargurar sua vida já amargurada.
Negou. Venceu-a com sua lábia descabida. Simulou um mal-estar, desconversou-a. Despediram-se.
Ela percebeu que ele não era mais tolo, usável e fútil. Ele percebeu que estava ficando forte. Estava ficando, não era ainda.
Se fosse forte não lamentaria, pensativo e impaciente. Sua vontade de possuí-la ainda o carcomia por dentro. Mas por hoje a batalha havia se encerrado.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 11:10 am
A mulherzinha era ciumenta e possessiva. Desconfiava da mulherenguice do seu marido. Chamou a amiga, tramaram um plano: ela daria em cima do canalha.
É claro que para aquela mulher, seu conjuge era culpado, até que se provasse o contrário.
Dia desses ele estava sozinho em casa. Era tarde da noite, calor insuportável, futebol na televisão. Ele estava tomando uma cerveja. A campainha tocou, era a amiga gostosona da sua esposa.
Ela entrou, ele fechou a porta. Ela insinuou, ele se fez de desentendido. Sentaram-se no sofá. Ela pousou a mão sutilmente na coxa do homem. Ele a olhou, beijaram-se vorazmente.
— Canalha! Sua mulher tinha razão! — Disse ela, interrompendo
bruscamente o beijo.
— Razão? — Ele retrucou, na esquiva, tentando entender.
— Ela tinha razão… Seu beijo é quente! Vem cá que vou arrancar sua roupa.
A amiga e o mulherengo viraram amantes.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 11:08 am
O Tatanha era o cara mais criativo daquela rua estreita e pacata. Sempre inventava alguma coisa diferente e original.
Era canhoto. Sua professora dava reguadas nas mãos quando ele usava a esquerda para escrever. No segundo grau aprendeu que o lado esquerdo do cerebro comandava o lado direito do corpo. Ele escrevia com a mão invertida, sabia escrever de cabeça para baixo e ainda por cima sabia falar o alfabeto de tras para frente.
Tatanha era um cara de trás para frente.
Um dia sentiu uma pontada no abdomen. Doía muito, foi ver o doutor Correia. Era apendicite. Correram para o hospital. Doutor Correia era experiente, não mais do que meia hora para lhe abstrair a dor.
Incisão pequenina na barriga, dedos lá para dentro vasculhando. Nada de achar o apêndice. Aumenta a incisão, vasculha mas pra lá, vasculha mais pra cá e nada. E dá-lhe aumento de corte. O rasgo já estava com quase um palmo. Doutor Correia olhou por um instante ali dentro e percebeu: Tatanha tinha o ventre virado.
É claro que esse papo de ventre virado era conversa que sua avó contava, o doutor nunca levou a sério. Mas Tatanha realmente tinha todos os órgãos invertidos: coração que apontava para a direita, figado para a esquerda, baço para a direita, apêndice na direita. Doutor Correia cortou-lhe o outro lado e lá estava o apêndice inchcado, pronto para ser extraído.
Dias depois, em uma consulta, Correia contou para Tatanha sobre a sua inexplicável inversão do ventre virado. Depois disso, Tatanha ficou louco, não queria ser errado na vida, não queria ser gauche, não queria ser o sinistro.
Suicidou-se. Desferiu um tiro nas ventas. Mas dessa vez usou a mão direita.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 10:58 am
Levou bem umas duas ou três semanas para que eu desse um bom dia para aquela mulher. E mais uns dias para que finalmente sentássemos juntos na mesma mesinha do pequeno café que ficava na entrada do prédio onde trabalhávamos. Conversamos sobre assuntos dispersos. Ela era mais velha. Contava histórias de sua infância no interior, das traquinagens que aprontara quando criança.
E aquelas idas matinais ao café estavam reamente alegrando minha labuta diária. Toda manhã conversávamos sobre alguma coisa do passado. Ríamos juntos, quando lhe contava dos desastrosos desafetos amorosos que minha adolescência me causou. Acabamos nos conhecendo de uma maneira perigosa e interessante: pelo passado. Não sabia o que aquela mulher era. Não sabia com o que trabalhava, se tinha família. Apenas desvendava aos poucos — assim ela também — o que se passou e o que estaria por vir.
Era um jogo interessante. O passado já estava acabando. Em suas histórias, ela já estava formada e construindo carreira. Eu, ainda terminava o colegial.
E o não tão distante passado acabara por se tornar mais sério. Não ríamos mais das histórias. Eram fatos que deixavam a gente a pensar e refletir.
Ela contou-me de quando conhecera seu marido, como teve uma filha. Eu contei como consegui um emprego em uma grande agência, dos países que visitei, das alegrias e tristezas com minhas namoradas — que ficaram no passado.
Mas houve uma manhã de segunda, chuvosa e fria, em que ela chorou. Seu pai havia falecido na sexta. E foi neste dia em que nos abraçamos. Pela primeira vez. O passado já acabara, já conhecia aquela mulher de uma maneira diferente e ideal. A conhecia no presente. Um abraço longo, fraterno, no manifesto do afeto que de nos completava.
Seguiram outros abraços. Quando comprei meu primeiro apartamento. Quando ela foi promovida. Quando voltei de férias, após quinze dias longe dali. Quando ela voltou da viagem de negócios.
Dia desses ela ligou-me à tarde. Queria conversar no café.
Encontramo-nos. Ela estava ansiosa. Contou-me que amava seu marido, amava seus filhos. E que iria mudar-se para a França. Seu marido iria trabalhar em uma multi-nacional por lá. Ela arranjou um emprego na filial da sua empresa naquele país. Deu-me um beijo sem precedentes. Abraçamo-nos com uma força e paixão tal que até hoje sinto arrepios em relembrar. Deixou uma caixinha embrulhada em papel fino, em cima da nossa mesinha: era para quando eu sentisse saudades dela.
Ontem estava eu sentado naquela mesa que testemunhou nosso passado. Não trocamos e-mails, telefones, nada. Não sei mais dela nem ela de mim. Pensei vê-la ao longe, senti saudades daquela mulher. Abri a caixinha. Tinham algumas dezenas de fotos. Eram fotos do sistema de segurança do café, fotos de nossa mesa, fotos em que sorríamos, conversávamos ao embalo de uma chícara de café. Fotos em preto e branco. Fotos da gente se abraçando. Datadas.
Olhei para o Alfredo, dono do café. Ele apenas sorriu. Cúmplice da mulher que verdadeiramente se apaixonou por mim. E eu, platonicamente, por ela.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 10:43 am
A Catifunda insistiu muito para que seu pai fosse à missa. Era sua primeira comunhão, queria a presença do paizão por lá. O velho, por conveniência social se entregou ao desejo sem muita briga e aceitou o convite. Era agnóstico, acreditava em Deus, mas não engolia de jeito nenhum princípios religiosos.
Como combinado, Cacilda adentrou à igreja, com um belíssimo vestido branco rendado, escoltada de pai e mãe. Era cidade de interior, noite sem lua e igreja isolada na vastidão dos campos alhures. Seu sonho estava se realizando! Os três se acomodaram nos bancos. O pai colocou suas botinas no genuflexório. Catifunda o reprovou com severidade. Ele emburrou e cruzou os braços. A cerimônia estava por começar. A mocinha foi à frente junto aos outros catequizandos.
O bispo era peripatético, italiano e falador. Suas histórias intermináveis deixaram o pai da moça completamente entediado. O calor que estava dentro daquela igrejinha, no meio do nada também contribuiu, em partes, para que o velho dormisse em plena cerimônia.
E não é que acabou a luz na igreja? A escuridão com que tomou aquela cena foi de deixar todos em um completo e profundo silêncio. O bispo pediu a todos que cantassem, junto dele, a hosana nas alturas, enquanto a luz não voltasse.
E assim todos cantarolavam, baixinho, embalados pelo escuridão total. A cena era envolvente e harmoniosa. O coro reverberava pelas paredes, aquelas plavras eram enebriantes.
Acontece que o pai de Cacilda começou a roncar. Sua mulher, tentando acalmar a coisa, tascou-lhe um safanão na sua cabeça, que o fez acordar assustado.
Ele não percebera que a luz se apagara, estava completamente perdido: “Caramba! Morri” Pensou de imediato. Arregalou os olhos mas não conseguia ver nada. Só escutava o coro da hosana. “Isso deve ser o purgatório, não vejo nada mesmo com os olhos abertos!” Estava incerto de sua fé-cega.
Uma voz ao longe, vociferou:
— Você pecador, reflita nesta escuridão sobre seus pecados. Abra seu coração à Deus.
Óbvio que era o bispo que falara aquilo no intuito de distrair o povo naquela escuridão. Mas como o pai da menina estava completamente perdido e percebendo-se sozinho no purgatório, começou a falar de seus pecados. Eram intrigas passadas, galinhas roubadas, mulheres profanas, brigas de bar. E quanto mais falava, mais lembrava. Quando terminara de contar o despudorado fato de cobiçar e bulir com a mulher do vizinho, a luz voltou a incandescer as lâmpadas da igreja. Todos estavam rubrorizados com as palavras.
Depois disso o pai da Catifunda deixou de ser agnóstico. Ficou com raiva da igreja e virou ateu.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 10:38 am
A vida é efêmera. A morte é fácil. Complicado é o tudo que fica para trás.
Morrer é acabar por sermos outros, totalmente.
E é por isso que o suicídio é uma atitude biltre e covarde; é entregarmo-nos totalmente à vida.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 10:37 am
Ele não sabe bem o porquê de estar de joelhos naquela travessa estreita. O chão úmido reflete algumas luzes difusas das vitrines de roupas cafonas. Uma atraente garota caminha em direção oposta. Não desvia o olhar em nenhum momento. Ela tem um sorriso gostoso, seus dentes são alinhados, não têm pontas os seus caninos.
Os olhos pesam, a respiração dificulta. Pensamentos claustrofobicos e presos. Não sabe que tem de morrer agora. Não sabe nem se isso é morte ou fraqueza.
As luzes das vitrines apagam-se, uma a uma. Uma pesada e negra nuvem encobre a lua. Os poucos e fracos postes apagam-se. Silêncio. Inércia. Estabilidade. Escuridão.
Morrera de joelhos, e nunca soube ao certo se sucumbira ao chão úmido e gelado da noite de ópio por um desatino daquela mulher de negro.
quarta-feira, 25 de julho de 2007 | 10:27 am
Uma vez li Chateaubriand, que enganara não só eu como muitos, pelo simples fato de não se situar emocionalmente na citação. Dizia o Chatô, inspirado explicitamente em René:
Amarem-o cansava-o — on le fatigait en l’aimant.
E assim, perigosamente, podemos morrer se apenas amarmos.