MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos do dia 24 de julho de 2007

Bingueiro

24 de julho de 2007

O homem de gravata que cantava as pedras do bingo era famoso naquela paróquia. Famoso em termos: ninguém o conhecia na sociedade, apenas no evento mensal.

As velhas beatas armavam a quermesse com gosto. Toda a comunidade vinha prestigiar. A programação nunca mudava: missa, torneio de futebol com um leitão para primeiro lugar, almoço e bingo. Os prêmios do sorteio eram sempre um fusca ano 71, uma moto velha e móveis do Albino, o marceneiro da região.

E o cantador de pedras de bingo tinha sempre uma tirada engraçada na hora do sorteio: pedra número 6 — Meia Dúzia! Pedra número 13 — Essa vai dar sorte! — Pedra 22 — dois patinhos na lagoa! Pedra 24 — Com essa o Arcebíades dança! Pedra 38 — o calibre do revórve do padre! Pedra 44 — o sapato da Dona Marica! Pedra 51 — Uma boa idéia! Pedra 33 — A idade de Cristo! Pedra 69 — Ai, ai, ai, não vou falar nada, né padre?

E a velharada se partia de rir. Lá pelas tantas algum batia cartela e acabava a brincadeira.

O que ninguém sabia era que aquela gravata do cantador de pedras de bingo era seda inglesa, o terno francês, sapatos de cromo alemão. Até o relógio, que brilhava como ouro, era de ouro. O cantador de pedras de bingo era um executivo muito rico. E que morava bem longe dali.

Mas desde a infância sonhava com o dia em que satirizaria os números das bolinhas sorteadas.

Confinante

24 de julho de 2007

Ele detestava a vizinhança; sabia que o escarneciam, que o imitavam, que lhe chamavam o contador de sonhos! — Pois também dele não haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade!

Vinham de carrinho! Boa!

Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar guardadinho, lá dentro. — Para uma ocasião! — pensava com humor, sacudindo o mouse velho e encardido. Mas também os amava. Detestava e amava, amor e ódio, vida e morte. Virtualidades e realidades difusas, ali, naquela página estranha e maldita que viciara muita gente incauta.

Chamavam-lhe auspicioso — mas era celerado mesmo.

A difusora do interior

24 de julho de 2007

A rádio era pequenina, mas a audiência, enorme. E isso porque o radialista era muito carismático. Dia desses, preparou-se para a previsão do tempo. Como sempre fazia, olhou o “galinho do tempo” que mudava de cor de acordo com a umidade, aferiu o termômetro de mercúrio vermelho que nunca se mexia e deu uma espiadinha pela janela:

— E você que vai sair de casa hoje, prepare o guarda-chuva e as galochas: dezoito graus, muita umidade no ar e chove torrencialmente na cidade! — Falava puxando os dois érres do “torrencialmente”, parecendo carro velho enroscando a marcha.

Deixou tocar uma música, preparou o café e o telefone tocou insistentemente.

Terminou a música, o radialista entrou:

— Ratificando minha gente: calorzinho lá fora, sol de rachar. A chuva era a Zulmira, lavando a janela.

Lá quando ela perceber

24 de julho de 2007

Quisera eu que ela soubesse o tanto que apetece aquele jeito desgraçado de ser. Ela nem deve desconfiar que é desejada. Não percebe que está sempre alimentando algo bom, algo maquiavélico e algo infeliz dentro de outrem. Miserável pessoa simplória que não percebe sentimento alheio. Ou sagaz quem sabe: consegue escarnir sentimento absorto em impessoalidades.

E nem sequer demonstra!

E lá quando ela perceber, restará fingir a indiferença, como retribuição.

Sentimentalidades

24 de julho de 2007

As vezes gostar não é suficiente. Gostar e gostar muito o é. E quem gosta e gosta muito na verdade apenas ama.

Quem apenas ama, sofre. O amor irremediavemente é a dor.

E quem sofre, gosta de amar. E ama a dor de gostar e gostar muito.

Simples, como amar.

Ou sofrer.

Domingo de chuva

24 de julho de 2007

Era domingo, pé-de-cachimbo. Chuva mansa, gotinhas leves, espalhadas e inconstantes. Almoço de familia, na casa do patriarca. Só para situar, a casa ficava em uma pacata rua onde acabava em descida um pequenino parque de brinquedos.

A criançada faz bagunça, corre-corre pelos corredores, o avô sorri da alegria de todos. A campainha toca. Alguém vai lá fora ver.

Era um menino, provavelmente da rua de baixo, ou umas duas ruas para lá. Pequenino, estava com um guarda-chuva. Trazia junto de si um cachorro à guia. Ambos estavam visivelmente tristes.

Ele contou, entre um soluço e outro, que aquele cachorro o acompanhara a vida toda. Era seu melhor amigo. Mas estava velho e doente. Seus pais não o querem, não têm como gastar com aquele pobre pestilento. O cachorro estava muito abatido, percebia-se claramente em seus olhos. Estavam indo de casa em casa pedir ajuda para o pequenino animal.

Aquilo cortou o coração de todos na casa. O tio mais velho conhecia um veterinário. A tia balzaca e solteira, encarregou-se de arrecadar dinheiro. O menino agradeceu, iria esperar lá no parquinho do final da rua.

Todos reuniram-se à mesa. Era uma bagunça só. Muito barulho, felicidade. Após a refeição, foram ver a quantas estavam o menino e o cachorro.

O guarda-chuva estava fechado. O pequeno animal, deitado no banco, imóvel. O menino, com as mãos na cara, escondido entre os joelhos recolhidos, em prantos.

O cachorro, provavelmente sem raça, sem credo e sem estirpe alguma, havia morrido. Podia ter sido velhice. Podia ter sido alguma doença. Mas o fato de ter sido melhor amigo daquele franzino moleque que chorava sua perda, simplesmente emocionou aquela rua inteira. Não era só o tio mais velho, não era só a tia balzaquiana. Era cada casa ali, cada morador daquela rua em que ele pediu alguma coisa, que compadecera com aquela tenra situação. Todos almoçaram bem, todos queriam ajudar.

Encontrar aquela criança, naquele banco, naquela situação em um dia de chuva realmente não foi nada fácil para os moradores da pacata rua.

Blogs

24 de julho de 2007

Tenho medo dos blogs. Antes eram serezinhos inofensivos, cativantes pela sua beleza estampada. Hoje, anos de fama transformaram o que dantes eram coisas belas em monstros dilacerantes sedentos de comentários.

Esmoleiros virtuais viciados em contadores girantes.

Enfim, perderam-se na selva da existência.

Resultados virtuais

24 de julho de 2007

Agora interessante mesmo são as peculiares situações que inexistiam antes do advento da internet. Saudades, amizades, amores, relacionamentos e cumplicidades com pessoas onde o único mínimo contato que os unem são os binários online / offline.

Virtualidades, assim dizendo.

E em algumas vezes, estas amizades, saudades, amores e relacionamentos são tão mais fortes, vivos e singelos, que acabam valendo-se muito mais do que alguns laços reais, físicos e próximos.

A internet é, sem dúvida alguma, um desinibidor social.