Sou psicólogo, conselheiro e amigo do peito nas madrugadas. Só nas madrugadas. Abro meu escritório remoto sem fio toda meia-noite, quando as camas estão começando a esquentar e o pior, estão somente com uma pessoa solitária e amargurada.
E não muito raramente toca o celular. É uma amiga triste, que não acha razão de estar naquele estado. Outrora, amiga que brigou com namorado. E o escritório, digo telefone, não pára.
Madrugadas atrás a realidade plagiou a ficção Verrissimoniana. Telefone tocou, atendi. A voz aveludada, macia e suave, inconfundível. Conversamos sobre como a vida era injusta, como os homens são canalhas, como as mulheres são facilmente ludibriáveis. Papo dor-de-cotovelo mesmo. Ela queixava-se, eu dava razão. Massagem no ego para um bom resto de sono na madrugada da moça.
Este é o meu lado canalha, diga-se de passagem.
O interessante da história foi quando ela perguntou-me o que faria hoje. Rally, respondi. Alguns segundos de silêncio, outra pergunta: “Quem está falando?”
A voz dela era perfeitamente passável pela voz de uma amissícima. Por suposto a minha também. Problema que ela não era ela, se é que você me entende.
Toda a tranquilidade que moldei e remoldei no ego da moçoila foi ralo abaixo. Desligamos polidamente.
Madrugada passada ela ligou de novo. Disse que, apesar do engano, até que a conversa foi tenra e lisongeira. E conversamos mais.
Enganos do destino. Engamos acertados, diga-se de passagem.