Arquivos do dia 19 de julho de 2007

O TEXTO APOUCADO — A CRONICA ESTREGUETA


quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 11:16 am

A escrita que se apresenta neste blog segue caminho clássico. Não gosto de tomá-lo como simples diário pessoal, mas textos assim seguem com aprazível fluência nas palavras.

Pessoalidades sempre inibem-me em vorazes palavras, é verdade.

Mas hoje é diferente.

Falemos das crônicas absortas que insistem em não apresentar-se de modo preferível neste espaço destinado justamente para isso.

O que acontece é que ainda sofro de um intrínseco vínculo de sentimentos ao escrever. E ultimamente meus sentimentos estão embaralhados. Aliás, embaralhados e mostrando-se de uma forma muito mais explícita que o normal. E aí, quando vejo que o que escrevi era pura emoção incontida, ou apago tudo por birra, ou mando para ela.

Aliás, alguns belíssimos textos, para ela. A atenção, confesso, para ela.

E assim, apesar de tanto tentar, escrevo e escrevo muito. Ou imagino e imagino muito. Mas enquanto essas idéias não decantarem só um pouquinho, continuarei embaralhando e presenteando-a com essas sentimentalidades que ainda não conseguiria postar aqui.

O MENINO DO COLONO


quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 11:12 am

O menino do colono era polaquinho de olho azul. Pele sardenta e andava de pé no chão. Dia desses encontrou um estranho à beira do lago de águas claras. O estranho estava cutucando um galho de cedro vermelho. Chegou mais perto, curioso que era. Viu, das mãos do homem o galho de cedro vermelho tornar-se uma escultura minúscula de cervo, com a ajuda de um pequenino canivete. Acompanhou em silêncio a escultura.

Ao terminar, os olhos do menino do colono brilharam.

O estranho viu que era dele a escultura. Presenteou-o com o delicado e diminuto cervo. O menino sacou de um de seus bolsos uma pequenina pedra branca, calcárea e retribuiu. Foi embora correndo, feliz.

E os dois não trocaram sequer uma palavra.

Nem precisou.

SANCTI BENEDICTI


quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 11:10 am

O padre bonachão estava por finalizar sua missa. Adorava rezar cantadinho. Antes da benção final, sentou todos os presentes, dirigiu-se ao púlpito. “Vamos aos avisos da paróquia.” Folheou o livrinho, silêncio de todos. Folheou e folheou, voltou algumas páginas, forçou os olhos já cansados. “A paróquia avisa que não temos avisos hoje.”

O MUNDO QUE TE ESPIA


quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 11:08 am

O mundo que te espia enquanto dormes é um mundo único. Funciona como um pequenino relógio, tiquetaqueando tuas batidas. Bate em teu compasso, um mundo só teu, mas que eu queria estar capitaneando. Teu mundo único é perfeito, faz-me confundir o certo e a certeza de estar em seu mundo.

O mundo que te espia enquando dormes é um mundo de sonhos perfeitos. Sonhos que te sonham em campanas, te observam janela afora.

É o teu mundo, mundo que lágrimo em palavras e sonhos.

ESTREPITO SUSCITAR — O LIRIO ASSIM


quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 11:04 am

Um pequenino orvalho vibrou na pétala solícita. Outros, ao verem arguto brilhar em movimentos, tornaram-se a vibrar felizes. Orvalhos felizes, vibrantes, brilhantes!

A flor, sentindo cócegas em seu pestilo, espirrou.

Os orvalhos tornaram-se perdigotos.

SINFONIA


quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 11:02 am

Aqui estou, coração teu e mais alguém. Brumo o orvalho e sereno a sensação dos olhos que agora acostumam-se com a claridez do sorriso seu.

E só seu.

A MENTIRA DESREGRADA


quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 11:00 am

Quando pequeno, minhas aventuras batiam pé com Munchausen, o barão. Todas as histórias fantásticas que eu contava pareciam tão irreais ou ficcionais que logo achavam que era mentira desregrada. As histórias eram reais. Meu mundo infantil foi tão absurdamente rico que, se eu contasse tudo que aconteceu realmente, ninguém acreditaria.

De fato eram histórias apimentadas com um pouco de imaginação. E pense comigo: como um menino que tinha mania de morder braços alheios prenderia a atenção de adultos ao narrar alguma coisa? Criando aditivos forçosamente interessantes em historietas comuns. Só assim me levariam a sério.

Eu adorava escutar as histórias dos adultos. Tudo para desconstruí-los e remontá-los, como em uma nova e diferente aventura. Meu avô era quem mais histörias novas contava.

— Pare de mentir moleque, isso é feio!
— Deixa ele… criança que mente tem futuro brilhante!

Ora ora, ledo engano.

FORMIGAS EM CONSERVA


quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 10:50 am

“Formigas tem formol em sua composição química, sabia?” Assim começou a pequenina aula de ciências. O fato é que formigas possuem uma grande quantidade de formol em seus abdomenes, principalmente formigas aladas chamadas “aleluias”, que do nada aparecem voando por aí e do nada somem. As formiguinhas aladas utilizam o formol de seu corpo como combustível para asas.

E o que mais intriga é que a formiga tem seu nome originado de uma fusão do seu corpo com seu combustivel. Aldo Severiano (in Bothanicæ ab incunabulis, 1943) explica que o botânico Oswaldo Schoröeder, maravilhado com tanajuras e saúvas brasileiras ao estudar gramíneas, chamou-as de formiga, usando o prefixo “formi” da palavra formol mais o sufixo “iga” de barriga, assim sendo, “barriga de formol“.

Poderia ser formabdômene, mas o nome seria muito feio.

ESCREVER PARA QUE?


quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 10:47 am

“E por que você escreve tanto no seu weblog? Quer virar escritor?” Foi assim a pergunta. “Escrever para não morrer” a resposta.

Não quero virar escritor, jamais. Escritor não “se vira”, escritor nasce com as palavras. Também não quero ser fotógrafo profissional, não quero ganhar dinheiro com esculturas, assim como não quero ser um desenhista de sites. Minha profissão é outra.

Agora muito me surpreende a maneira como todos vêem blogueiros como futuros escritores lançados no cruel mercado literário.

Apenas conto lorotas.

Escrevo para não morrer.

Não morrer esse pingo de mundo criado na minha cabeça cheia de minhocas abiloladas.

E se eu não quero ser escritor, apenas escrevo para viver para escrever. Rilke disse: “Se você acredita que é capaz de viver sem escrever, não escreva.” E isso tinha que aparecer na página inicial de qualquer sistemas de blogs.

VIVER DE HOJES


quinta-feira, 19 de julho de 2007 | 10:42 am

Viver é conseguir mudar dia-a-dia os sentimentos que apenas postergam a existência de qualquer minh’alma. É ser um outro e este mudar como queira. Sentimentos de um passado ontem, de uma realidade agórica e de um futuro pertinente e insensato.

Não viver é destruir o passado em patacoadas e desatinos. É iniciar invariavelmente todo dia o desejo de não se ausentar. Apenas estar aqui é ter a complacência de uma virilidade marginal, uma toque no âmago do que realmente somos. 

Nesta noite, tempo qualquer, a vida incendeia-se como um nada. É na escuridão de um sono incontido e agonia insone que aparece a necessidade da sua luz. E essa sua luz quem sabe nunca existiu, essa noite nunca aconteceu, a agonia sufocada em tormentas apenas arraigou-se de tédio compulsivo. Quem sabe eu não tenha existido, sou apenas consciência vã, sua apenas lembrança.

Amanhã, ah o amanhã! Será qualquer outra coisa sem sentido. A intocada vida amanhã encarregar-se-á de recompor a estafada mente em novos torpes desvarios.