Arquivos do dia 18 de julho de 2007

SENTIMENTOS EMBARALHADOS


quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 1:41 pm

Hoje, como em todos os outros hojes e quaisquer ontens, nada mais de desatinos para me refugiar a alma.

Um dia mareado como os olhos que insistem em molhar um rosto ainda virgem e trôpego de palavras amarelecidas. Sentimentos meus ou mais meus, e a vã tentativa de apenas apagar o quadro em uma revirginidade de olhos recompostos.

Dia após dia.

Perfeito de uma nova visão, creio aqui. E creio ainda que esta luz e essa hora e este momento e todas as vidas que em perpétuos ufanismos pairam estejam neste meu ser.

Hoje estou sentimentando suas escolhas em azuis olhares que pousam assim, na face que a casaria com o homem onde sempre sonhara morar.

Hoje.

E a perfeição atônita as vezes confunde a realidade mais que perfeita com uma onda de sonhos. Sonhos que encaram de olhos vidrados o amanhã que, seja o que for, será outra coisa. Sempre outra coisa, sempre outros sonhos.

Olhos vidrados e sonhos recompostos.

FAMOSO TEMPO


quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 1:39 pm

Vez ou outra, por alguns raros e apoucados momentos, começamos a exercer uma simplicidade vã e nos tornamos celebridade incondicional. Sim, monumentos homéricos de perfeita convicção.

E é nesse momento estranho aos olhos alheios que se percebe o quão dificil é ser o que nos resta sempre em outros dias: nós mesmos.

Ah, mas hoje nublou o céu, esfriou a alma e corrompeu-se a alegria. Sim, dia de martírio. Chôva então!

Quer o que? Tem gente que sequer esboça alegria ao ter sonhado qualquer coisa.

CAPITULO FINAL DO LIVRO 2


quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 1:38 pm

Fotos em preto-e-branco na parede. Um garçom despreocupado com a vida. O dono do bar, fiel ao futebol no rádio de ondas médias, alheio à tudo.

Na pequenina mesa de madeira, bamba e gasta, um diálogo caloroso e intenso. ali a luz apoucada deixara uma penumbra esfarelenta de escuridão suja. Gente ociosa vagando pela calçada úmida. Pouca gente. Mais vento gelado de inverno mesmo, assoviando tristonho.

Entreolharam-se o casal da mesa bamba e gasta. O desespero de não saber interpretar olhares intensos deixou aqueles dois pares de olhos, assustados.

Uma leve brisa derruba um guardanapo. Abaixaram-se juntos. Mãos entrelaçadas sem querer. Olhares, agora na altura dos joelhos. O beijo era a única certeza aparente.

E beijaram-se oras! Embaixo de uma mesinha bamba de bar deserto, pode?

A noite era de domingo moroso: olhares, um beijo furtivo. Madrugada gelada. E tudo isso enquanto o mundo adormecia.

Ou fazia amor.

SLOWMOTION HYPERBOLE


quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 1:28 pm

Luz do carro cortada de supetão. Carro da esquerda freia rápido, tênis no meu pára-brisa, freio eu desesperado. Retrovisor projeta o horrível balançar de um corpo que flutua no ar. Lentamente gravando em minha memória.

Sim, um atropelamento. Na pista do meu lado. Não tenho medo, não tenho receio de ajudar. O carro branco sai uma mulher. Assustada, mãos no rosto. Ainda não acreditava.

Menino negro. Tamanho de 11, idade de 14. Sem os tênis. Calça rasgada, costas à mostra e camiseta na cabeça.

Ela, do carro branco? Vestida de branco, estudante de humanas. Tremendo.

Menino respira sangue. Cheiro violento de cola. Anestesiado.

Dezenas de carros páram, pessoas atônitas, imóveis novamente ao redor.

Duas baforadas, parou. Sem pulso, lanterninha do cheveiro nos olhos. Pupila dilatando-se. Olhar de suplício. Ela assusta-se com a inércia. Ouvidos escorrem vermelho. Cheiro de sangue e cola. Voláteis.

“Chamei a ambulância” o homem de terno falou.

Rosto inchado, hematomas, imóvel. Resgate rápido, ambulância e polícia. Classe quatro.

Preciso perguntar, quero a resposta que já sei.


“O que vai ser, oficial?”
“Clinicamente morto. Mas a gente não diz isso para ninguém.”
“É o hospital quem diz…”
“Afirmativo”

BO, burocracia, trânsito rapidamente dissipa-se. Acabou. Eu, a moça de branco, que tremia, e a vida, enconstados no carro:


“Efêmera a vida.”
“Ele morreu, não é?”
“Sim”
“Nunca vi alguém morrer.”
“Medicina?”
“Sim, segundo período.”

divisor

Voltando e no rádio os versinhos honestos: “…sometimes you win, sometimes you lose…n i wait for you…” A vida é efêmera e realista.

divisor

Não era o radinho. Era eu cantando. Nem existe música com aquela letra. Fiquei com medo de ser “eu” o realista demais.

divisor

A vida está estranha novamente. A gente encontra a luz e ela, depois, apaga-se em palavras presas. Luz que estatela-se em versos e rimas. Palavras doces que perdem o brilho. E ainda fechamos os olhos. E mais a procura de luz (encontro sempre) e mais os versos a tragam. Versos de vida, lágrimas esfaceladas pela luz (ou falta dela). Luzes dispersas. Talvez uma escuridão tenra e sorrateira, que continua sempre a repetir, sem sentimentos ou rodeios: “Vem, seu lar é aqui”.

MENOS, DEMAIS, EU.


quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 1:23 pm

Esse descaso me faz abandonar muitos dias bons no cais da melancolia.

Aquelas pessoas rôtas não me conhecem mais. Não conseguem mais distinguir qual o meu real significado de vivência. Existi em um mundo ignorado que apenas me mostrou que o ignorado era eu no mundo. Lentos e lentos mundos desconexos em pensamentos que ainda assim não me deixaram despedir do caixeiro ou daquela rica donzela do café das quatro.

Era tudo falso. Não existiu a tal moça. O café era mentira. E a minha vida ignorada nem sequer estava ali.

E isso não foi criado à toa. As letras não vagam sozinhas.

Calderon de la Barca diz:

“que farão pelo que ignoro
se pelo que sei me enterram”.

DUAS VIDAS


quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 1:19 pm

Tinha eu a facilidade e o talento congénito de reunir amizades sórdidas. Isso cansou. E nunca mais tive amigos, não que me faltassem esses extraordiários reis e rainhas da adulação babarosa.

É que os parcos padrões de amizade que eu originara aqui fôra mesmo um lapso de meus sonhos e utopias.

E os resquícios disso não são mais amigos. Não os tenho mais.

A minha falha constante e o gozo da voluptuosidade mostra-me algumas vezes a consideração que de tudo serei grato: o que dantes eram decididamente poucos e bons amigos, hoje considero irmãos.

Posso enclausurar-me com essa descrição, mas irmãos é o que são.

divisor

Não veio de graça. A vida que aqui vivi e essas pequeninas esculpturas de detalhes e relacionamentos passageiros caem-me como rotos afrescos memorais.

Foram momentos vis que me fizeram esquecer alguns propósitos interessantes da vida, a perda de algumas direções, o gozo da plenitude de emergir (ou afundar) em emoções descompassadas. Um gozo de não perceber que apenas meus reais desejos indeléveis povoassem sentimentos.

Sonolência desanimada de uma vida nova. Sonolência desanimada de querer viver a espiritualidade de uma bonança superior, não apenas se entregar, assim vagamente à libertinagem implícita naquele meu olhar de cachorro louco.

Não sei ainda se fôra uma soberania enclausurada de viver. Quem sabe? Quem sabe apenas minha alma esbatida em cores amenas de um amor não sentido.

ENSAIO DISPERSO


quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 12:59 pm

Ainda está impregnado a sonolência implícita do meu olhar moribundo, não?

Inconsistente por uma brumosa e triste realidade de espirito é a cidade que te carcome em um tédio prazeiroso e inquieto, sofrível, consciente. Uma rotina quotidiana esplendorosa e hipersensível que te desatina dia-a-dia.

É o descompasso ínfimo que margeia tua vida.

Trágico isso. Trágico atentar à tua sensação de perfeição marginal. Trágico não te atentar. Quem sabe?

Vejo que algumas pequenas coisas nítidas te confortam. Sensações que te orgulham. E te orgulhar dessas palavras tempestuosas é o mesmo que respirar essa grandeza própria e furtiva. E você ainda treme! Não sabe se esse orgulho é resquício de timidez audaciosa. Porque te conheço, e sei que tuas pequeninas gafes amorísticas são rescaldos de um fogo insandecido que te acomedeu. Queimada em vão. apenas essas sardas te provam. E povoam.

TYPEWRITER


quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 12:55 pm

            Estou 
         mais velho.
       E isso significa 
     obviamente  que  os 
    mesmos  pensamentos 
   à todos me é comum: 
   devo estar mais 
   paciente, ter 
    progredido  e  a 
     cultura  me  atraiu. 
       Estar   mais   velho 
         me remeteu ao passado 
           um   tanto  longíquo 
            de que antes  eu era 
            poeta   e   romântico 
           incurável e que minha 
         vida  estaria  fadada 
       ao amor  incontido  e 
     infinito. E estar mais 
    velho me percebeu que 
   perdi um pouco da 
  prática poética 
  incandecida que 
   metricamente me 
    aliviava o amor. 
      Há  muito  amor
       naquelas  poesias, 
          incontestável isso!
            Mas aquelas métricas
              absortas  extraviei 
               e nem dei par de que 
                 isso  era  a única 
                   contextualização 
                     amorística  que 
                       tive. E o qual 
                         sentimento o 
                          substituiu, se 
                         é que substituiu? 
                        Ainda é  a conversa 
                       de que sou o proclame 
                     explícito de minh'alma, 
                   a quantificação de um 
                 eu grandioso  e 
               explêndido. É o
             mero discurso 
           de de um outro 
         alheio   que 
        a mim foi,  um 
        fragmento interior 
         de vida pura.  Com 
          a   idade,   aquele 
           retrógrado sentimento 
            de   nunca   saber  o 
              que    é   realmente 
                perdeu-se    e   não 
                  me deixou triste não. 
                     São  fragmentos  que 
                       nem sequer percebem-me 
                           como  dono,  tamanha 
                              distância comeu  as 
                                beiradas — o que me 
                                 amedronta. Outras 
                                 genialidades que 
                                nem quero ter
                               sido eu 
                            o autor.


CAIU


quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 12:52 pm

É noite fria. Como uma garoa de noite qualquer, que sorrateira vem, e no prazer de ver o pequenino fogo murmurar centelhas esfumaçadas, lacrimeja o mundo que a viu.

É noite fria, solidão descarada.

Perdas sensíveis, o carinho carcomendo a vida e o sorriso de um medo que apenas o contempla mansamente. Novamente a história da fogueira que sucumbe à fina garoa.

Nem era fogueira. Nem era garoa de noite qualquer.

Apenas um soluço esparso e uma dor de coração aflito.

CONTIDO VIVER


quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 12:49 pm




A vida é uma corrida irriquieta e furtiva. E a velocidade dessa corrida irriquieta trafega sempre na iminência de momentos únicos. A delícia de aproveitar esses momentos está justamente em conseguir suprir de medo contínuo a certeza da imunidade.



O INDISCRETO REINADO PECULIAR


quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 12:38 pm

Lá no Reino-de-Não-Sei-Onde existia um rei muito excêntrico. Ele adorava suas posses, prezava pelo poder absolutista e ainda por cima detinha um peculiar harém de 128 mulheres ruivas. Sua vida era muito tranqüila. Matou todos os inimigos que atravessaram sua frente. Tinha uma agenda cultural elitista e bailes nunca faltaram em sua corte.

Agora uma coisa que era segredo muito bem guardado era a fonte de juventude de sua majestade, o rei do Reino-de-Não-Sei-Onde.

Todo dia o majestático rei — de posse de seu cálice de ouro maciço — visitava suas ninfas ruivas. Olhava nos olhos de cada uma, por minutos. Um olhar forte e intenso que inusitadamente vertiam algumas lágrimas, colhidas no cálice.

Ninfa-a-ninfa, tete-a-tete. Aquele rei enchia meia taça de lágrimas de mulheres ruivas em pouquiíssimos quartos de horas.

E essa era sua fonte de juventude, um ritual de inigualável prazer, a degustação das lágrimas das suas ruivas.

Tempo se passou e o rei morreu. As lágrimas eram elixir da juventude, não proviam uma vida eterna, oras!

Velando seu corpo no grandioso salão das abóbodas doiradas, as 128 mulheres.

Estavam chorando.

DESATINO


quarta-feira, 18 de julho de 2007 | 12:36 pm

Adoro falar de paixonites e efervescências amorísticas.

Ainda que refreado pela violência das palavras apaixonantes, gosto de me deixar levar por oratórias melodramáticas desses devaneios ilusórios.

Palavras apaixonantes são assim, do nada, escritas sem pensar.

Palavras apaixonantes soam desconexas. E qual amor é preciso e linear?