Arquivos do dia 16 de julho de 2007

DAS PRATELEIRAS DO VELHO PORAO EMPOEIRADO


segunda-feira, 16 de julho de 2007 | 2:14 pm

Não, não esqueço a melancolia dos atos vagos e mecânicos e inertes vascolejando velhos lembretes e lembretes ruidosos. Lembra? Era até o album de cromos. Ah, os cromos, como eram difíceis de retirar o auto-colante! E colava-os em seu caderno. Adorava te ver colando cromos, ornamentando-os em volta com hidrocores e amores, traços incontidos, por vezes tímidos. Por que não?

O porão era de porta estreita. Emperrada desde sempre aquela entrada do porão. Briquedos velhos.

E aquele porão mostrou-me onde guardar as velhas e boas lembranças.

Melancolia da vida, ó, segura em uma mão trôpega e senil as lembranças não tão boas. Se boas fossem, não estariam em um porão. Ah, o porão que agora mostra-me claramente que lembranças chinfrins ainda não se descartam. Guardemo-as por dó. Descartar seria amainar a vida com novos disparates.

Aquele velho porão de porta torta, emperrada de sentimentos. Aqui. Aí.

Porão velho da portinha branca no canto do seu coração, e eu o quero vasculhar.

ESCRITA CANHOTA


segunda-feira, 16 de julho de 2007 | 2:02 pm

O menino canhoto vive na literatura que o cerca. Adora palavras inconstantes, permeia capítulos de livros e só o faz pela mania estranha de falar de escrita nativa e não da literatura em si.

O menino canhoto adora a escrita e suas inconstâncias. Esta adoração lhe dá mordomia como o lampejo de escrever possibilidades únicas de histórias fantásticas e realistas. O menino usa algumas palavras velhas de sua vastidão vocabulárica, mortas em poeirentas páginas de rusgados dicionários imaginários. Verbetes frios, cadavéricos e com toques fúnebres de um desuso eterno.

O menino canhoto acredita que as palavras — assim como as pessoas — podem ser amadas mesmo depois de mortas. E esta escrita torta, repleta de escapes e nuances imperfeitas combinam com os ares abstratos e assim o seduzem. Palavras instigadoras que ora afagam, outrora afogam o âmago da eloquência canhota.

O menino canhoto às vezes perde a noção do realismo e obcessivo, talvez por medo ou pavor da incapacidade, exagera no método. É um medo tolo, podes tu falar. Mas de medos tolos o menino canhoto apura a mão e o gesto, relacionando sempre alguns milimetros à frente d’alma pensamentos esparsos à tempos alheios.

O menino canhoto não sabe, mas essa vida atroz de querer escrever o que não é, vai acabar enlouquecendo-o.

BUSCA-AMORES


segunda-feira, 16 de julho de 2007 | 1:58 pm

Sabe porque muita gente procura o amor e não acha nunca?

Porque amor não é sentimento para se procurar, oras bolas! Amor é estado d’alma, é simples resposta de um viver imensamente superior.

E esse viver significa que não é necessário estudar, achar um emprego legal, estabilizar tudo para aí sim catar o amor pelas ventas. É aquela velha desculpa de arrumar um amor para ser feliz, quando, na verdade, o amor é apenas um resultado disso.

E amar significa resplandecer-se em em uma felicidade de vida. Nada mais que isso.

DEVANEIOS — BILAC


segunda-feira, 16 de julho de 2007 | 1:51 pm

Aos doze anos recebi a agoniante missão da belíssima professora de literatura: fazer um trabalho sobre o Parnasianismo.

É claro que como todo bom aluno apaixonado pelos belíssimos olhos amendoados daquela esvoaçante russa erradicada, o trabalho deveria ser perfeito. Aprofundei-me aos devaneios poéticos-literários, conheci Parnaso, o deus mitológico. Soube de relance que a poesia parnasiana devia pintar objetivamente as coisas, sem demonstrar a emoção, o que era feito caracteristico do romantismo.

Dificil era a leitura de Olavo Bilac. Desvendar as complicadas expressões de Raimundo Correia então! E noites afora biografias, poemas, enciclopédias de literatura caiam em minhas leituras. Emprestei de uma tia o livreto de normas para apresentação de trabalhos técnicos e científicos. Aprendi com a ABNT a defender uma tese e como seguir uma linha de pensamento lógico.

Ao final de duas semanas, a obra estava pronta: Serigrafia com o auxilio do pai gráfico de um colega uma caricatura colorida de Bilac na capa do trabalho. Redigi cuidadosamente as 14 páginas introdutórias burocráticas, dentro das normas.

E o dia tão esperado chegou. Vi colegas que apresentariam trabalhos sobre barroco, romantismo e arcadismo com míseras páginas grampeadas porcamente. Assisti pacientemente a apresentação dos tolos que sequer sabiam o que falavam. Apenas liam textos insossos e decorados.

A vez de apresentar encheu-me de ansiendade. Deixei a proposição do teorema ao colo da belíssima professora. O volume era de se impressionar: mais de cem páginas compunham a obra que apresentava uma chamativa e bem elaborada capa semi-transparente, caricaturada.

Quinze minutos destinados ao parnasianismo. A professora, incrédula, folheava o trabalho, sem prestar atenção ao descurso sólido. Interrompera, queria saber o que significava aquela frase estranha na dedicatoria do livro:

“Aos beócios humanos que não entendem a imane arte mordaz.”

Sorri, é claro! Disse-lhe que era referencial aos colegas de classe que passariam a vida rindo, sem nunca entender o que se passara.

A professora sorriu. Sabia o que significava. E o meu escarnecedor sorriso fez perceber que naquele ambiente o conhecimento havia sobrepujado toda a horda de colegas infinitamente inferiores ao conhecimento adquirido. E de lá para cá cada vez mais alguns textos meus vêm supridos de um trágico - mas glorioso vício - de enxertar doces devaneios tolos por tudo que se escreve.

FUCKN’ROCKSTAR


segunda-feira, 16 de julho de 2007 | 1:45 pm

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