MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos do dia 15 de julho de 2007

Vida de pressa

15 de julho de 2007

Aquele homem ali tem na pressa a razão de viver. Morre de fome todos os dias. Fecha os olhos em atalhos de sentimentos ou respira à manivelas. Os olhos, os risos e a preguiça não convêm.

Ao homem que tem na pressa a razão de viver, boa-sorte.

Vive uma vida de merda.

Vicissitude II

15 de julho de 2007

A vida é sempre — normalmente — vicissitudinária e, quem percebe esta realidade dinâmica e maravilhosa não fica aborrecido. Vicissitude é dinamismo. Não existe nada equilibrado. A realidade não pára. Quando as coisas páram, cessa a vida, acabam as possibilidades. Vicissitude é possibilidade e quem percebe, como o menino do texto abaixo, pode sintonizá-la para desenvolver um mundo próprio. Quem sente medo do desequilíbrio tenta fugir da realidade. A fuga da vicissitude é fatal, mas quem a enfrenta, corrigindo sempre o itinerário, pode encontrar seu processo vital.

Vicissitude é simultaneidade. Só isso: uma palavra bonita e simultaneidade.

Vicissitude

15 de julho de 2007

Era um final de tarde qualquer em que o menino escrevia sua redação. Entregaria sem falta, dia seguinte, no grupo escolar. Esmerava-se em escrever com letra nédia, caligrafia impecável. Mas seu texto borrava! Também canhoto, quer o quê? É que tal capricho na hora de redigir tinha um motivo muito especial: a professora era graciosamente perfeita. Lábios carnudos, olhos verdes, grandes, brilhantes.

Ouvira dia desses no sermão da missa dominical a palavra vicissitude. Não prestou atenção no sermão em si, apenas na palavra, que circulou livremente por seus devaneios. Resolveu aplicá-la. Era a deixa para impressionar a bela professora!

Escreve daqui, rabisca de lá. Não tinha idéia do significado vicissitudeano. Sem dicionário em casa. Fragmenta a palavra: prefixo deve ser vida. Sufixo? Fácil: atitude. Pronto, vicissitude era adjetivo que enalteceria o ego da professora!

Escreveu, caprichou muito. Leu em voz alta, arrumou redundâncias. O discurso estaria impecável, leitura obrigatória à frente de todos na classe.

E o amanhã chegou, suas palavras pairaram majestosas fronte aos carismáticos e envolventes olhos verdes da professora. Ela leu silenciosamente. Seus olhos saltavam palavra a palavra, balbuciando imperceptivelmente. Ao terminar, esboçou um inédito sorriso, prontamente memorizado aos vastos sorrisos já colecionados. Ela docemente explicou ao menino que vicissitude não era um adjetivo grandioso, apenas contratempos ou problemas que ocorrem durante uma ação.

Apesar de surpreso com a nova significância, o menino estava feliz e pensativo. Sabia que a palavra que tanto gostava acabou tornando-se a própria ação. A contradição de um belo texto, com uma linda palavra causou o sorriso inédito. E para ele isso foi a melhor recompensa.

Spirit of Flowers

15 de julho de 2007

Mais da mesma linha tênue que até então separava a pequenina verdade estratosférica: um amor irradia prazeres e sentimentalidades. Uma fragrância indelével assemelhava-se a mirra, acredito. A forte sincronia eterna ali firmou-se de uma cumplicidade quase silenciosa, percebida apenas por uma leveza na oscilação das suas pupilas. Suas pupilas magnificas de olhos verdes-castastanhos-verdes. Conversa de corpo e alma, amores-alegrias e batalhas. Batalhas? Sim, Sempre a eterna e verdadeira guerra de bem e mal, clarão e escurdez. Dois-em-um, guerra e inteligência. Duas almas, um sentido e apenas o amor que quase sempre percorre paralelo. Quase sempre. Porque fundir-se é um exercício de intensidade e razão-emoção.

Louco das Paineiras

15 de julho de 2007

O poeta louco apenas fitava velhas paineiras tortas fronte a fonte seca de um rio volúvel. Não tinha a filosofia nem a perspicácia de um pensador. E as paineiras tortas fronte a fonte apenas as eram… paineiras! Não as chamava de utopias nem ideias sentimentalistas.

O poeta louco sabia que aquelas paineiras vistas por lindos olhos azuis de uma mulher aquém não seriam nunca, paineiras. O “nunca” é o que se vê quando a lucidez tormenta o louco das paineiras tortas, rôtas paineiras.

O mundo a cada minuto

15 de julho de 2007

Mudei. Nada do que era familiar em um mundo de desatinos e incoerências fazem a vida ziguezaguear por laços e escapes. Cansa-me tudo isso e o que é mais interessante: dessa cafonice de tentar sempre embasar minha coragem por desafios, não cedo mais. Não cedo mesmo, acredite.

De nada adianta repousar as mãos em um colo adornado das belas pérolas. Não é mais conhecido e isso pode machucar em primeiro plano. Mas é assim para sempre e o sempre não cede mudanças.

Vê, pois, que passam meus breves anos e eu caminho por uma vereda pela qual não voltarei. E entenda que eu não quero voltar. Porque voltar seria ceder a minha vida ao que nego agora por natureza.

Mesmo porque anjos carregados de um ímpeto de racionalidade extrema rondeiam esses novos caminhos e com sabres resplandecentes mo festejam cada passo acertado.

Anjos não cedem a erros, acredite.

O homem do bistrot ao entardecer de quinta qualquer.

15 de julho de 2007

Na viela que beira o riacho de pedras escuras do vilarinho que agora resido há uma pequena livraria que denominei de “casamata cultural”. Escura talvez pela natureza literária dos romances alemães que povoam aquelas prateleiras prumadas à esquadro, tem um feitio decente e preços justos (não que sejam bons) para a cultura que a cerca. Na sobreloja do meio andar acima encontro uma casa de cafés, bistrô de internet, mesas literárias e rodas livres de poetas desmedidos da infante milícia cultural.

Sempre vazio às tardes de dia de semana, apenas a mulher dos olhos brilhosos e o careca (face desinteressada de um apago) do terno surrado o frequentam. E eu ali a observar tudo.

O careca quase nada me interessava. Era franzino, pouco alto pouco baixo, o típico sumidouro masculino. Do seu recostado no balcão, uma das pernas no sopé do banqueto outra esticada, punha-se a ler um livro clássico, páginas fedorentas de uma velharia invejável. Fumava um tabaco qualquer e bebericava café-pelado-de-grão.

A mulher dos cilios longos e olhos brilhantes dos reflexos amadeirados do abajur fazia periódicas anotações manuscritas. Supus um diário pessoal, desses que raras mulheres escrevem passagens importantes e cruciais. Ela escrevia com a alma, e isso era claro na feição do rosto e movimentos labiais de um sussurro imperceptivel. E a vontade de ler aquelas páginas me fez vê-la melhor a cada dia no bistrô. Na verdade notei que um certo ar de inteligência influenciava as diversas expressões da bela mulher. Meu Deus! Eu estava obcecado por aquelas pequeninas nuances detalhistas que nem ela devia notar!

Do careca sabia pouca coisa: ele estava ali como contrabalanço de uma beleza feminina perfeita.

Dela? Ah, quase nada, acredita? O barzeiro não a conhecia muito bem. Tinha até medo da moçoila!

Já o bistrô da internet punha-se à nossa disposição com uma maravilhosa máquina computacional que combinava perfeitamente com o lugar: velha, lenta e embolorada. E nela escrevo este diário virtual há algum tempo.

Acontece que publiquei algumas palavras, entreguei a chave com a calota para o barzeiro, sentei-me à mesa costumaz. Não percebi a tela do computador. Deixei este diário aberto na janela! O barzeiro desceu para a livraria. Sem teclado não pude desligá-lo. E reiniciar o computador? Nada! a máquina ficava trancafiada no bauzinho abaixo do monitor. Nem fonte de energia eu consegui achar! Era minha vida exposta na tela. Algum tempo depois a mulher tomou a chaveta com calota, ligou o teclado da banheira digital e começou a rolar pelas páginas do diário. Qual! Ficou bem alguns minutos lendo! Postou um comentário. E a dicotomia dos sentimentos os quais meus pulsantes pensamentos abrigam entraram em um belíssimo confronto. Era a voz trêmula da inexperiência do leve esperar versus a baça e morimbunda vontade do “é meu”.

E então ela acessou o diário virtual no dia seguinte. Fitei de canto de olho. Gravou o nome, qual! E não sei realmente o porquê, mas desse dia em diante nossos olhares cruzaram-se de leve e cumprimentamo-nos com sorrisos leves. Quinta-feira qualquer entramos os três juntos na casamata cultural. Eu, o careca e a mulher dos olhos brilhantes. Conversamos algumas coisas usuais, afinal era um interlóquio coletivo. O coiso sentou-se no balcão, como sempre fez. Eu na mesinha usual e ela perto da janela, com o diário que escrevia sempre sussurrando.

Mais computador, mais textos, e-mails, firulas fúteis. A mulher sentou-se ao meu lado. Perguntou se eu escrevia. E respondi que sim, fazer o que? Ela retrucou sobre o escrever para não morrer. Falei do diário que mantinha, ela disse desconfiar muito que era meu. Elogiou as palavras, fotos. Palpitou minha imaginação fértil. E ela não sabia que daquelas palavras a realidade do meu passado extático infiltrava-se sem pestanejar!

De tardes e tardes no bistrô-café nossas fronteiras intercalaram a realidade de alguns atos. Já sabia o nome dela, o que me era um avanço. Disparates e retrucas eram o óbvio para ver que eu resistia à ela e ela — quem diria! – resistia a mim!

A cidade nos era a vida e de alguns momentos percebíamos claramente que nossas almas eram complementares. Sim parece conversa de boi velho, sei bem disso. Mas quem senão dois perfeitos um-para-o-outro compadeceriam assim?

Assim a conheci, vilarejo pequeno do rio de águas límpidas em pedregosas escuras. Viela beirante com pequenas lojas entroncadinhas. Livraria do alemão de dedos longos e bigode queimado de cachimbo. Um bistrô “quem diria” e o amor ali, sentado na cadeira de perto da janela, só matutando a melhor estratégia de nos atacar pelos flancos. E atacou.

Mas uma coisa confesso e adoro pensar nisso:

Eu nem sequer consegui ler um parágrafo do diário da mulher dos olhos brilhantes e cílios longos.

Homem simples

15 de julho de 2007

De simplório, o homem cafajeste podia rir sempre. Não que a vida lhe fosse felicidade desmedida, isso não era mesmo. A vida dura o golpeava a cada instante, mas ele apresentava a falsa felicidade de não a pensar. Vivia a vida com a liberdade que imaginava. Nada de doutrinas, porque é assim que o homem moderno crê a liberdade. Felicidade cada homem moderno constrói de vicíos, medos e sonhos.

E assim o simplório tinha a vida: para contar a felicidade das chapuletadas constantes e poucos mimos exteriorizados.

Pensar na vida é apenas decompor o imaginário incerto. É a própria vida quem indica mandatórios de um certo rigor de idéias certeiras. Basta apenas um tempo para si. Basta apenas conhecer as suas relações imaginárias de bem e mal. Pecado e perdão. Graça e desgraça. Coisinhas ínfimas na mão do simplório, mas de validade espiritual imensa. É que as coisas são assim, não há como escapar.

E quer saber mesmo? O homem simplório sofre e sofre muito. Ah, se soubesse um pouquinho apenas do que lhe espia. Mas não, finge que o mundo é apenas essas crendices e disparates sociais. E pior: reza a bem-aventurança de que amor é a resposta de um algo lógico e racional.

Ah, homem, não te posso mudar, bem sei. Mas de idéias somos levados, não é mesmo?