Arquivos do dia 15 de julho de 2007

VIDA DE PRESSA


domingo, 15 de julho de 2007 | 10:32 pm

Aquele homem ali tem na pressa a razão de viver. Morre de fome todos os dias. Fecha os olhos em atalhos de sentimentos ou respira à manivelas. Os olhos, os risos e a preguiça não convêm.

Ao homem que tem na pressa a razão de viver, boa-sorte.

Vive uma vida de merda.

VICISSITUDE II


domingo, 15 de julho de 2007 | 10:32 pm

A vida é sempre — normalmente — vicissitudinária e, quem percebe esta realidade dinâmica e maravilhosa não fica aborrecido. Vicissitude é dinamismo. Não existe nada equilibrado. A realidade não pára. Quando as coisas páram, cessa a vida, acabam as possibilidades. Vicissitude é possibilidade e quem percebe, como o menino do texto abaixo, pode sintonizá-la para desenvolver um mundo próprio. Quem sente medo do desequilíbrio tenta fugir da realidade. A fuga da vicissitude é fatal, mas quem a enfrenta, corrigindo sempre o itinerário, pode encontrar seu processo vital.

Vicissitude é simultaneidade. Só isso: uma palavra bonita e simultaneidade.

VICISSITUDE


domingo, 15 de julho de 2007 | 10:31 pm

Era um final de tarde qualquer em que o menino escrevia sua redação. Entregaria sem falta, dia seguinte, no grupo escolar. Esmerava-se em escrever com letra nédia, caligrafia impecável. Mas seu texto borrava! Também canhoto, quer o quê? É que tal capricho na hora de redigir tinha um motivo muito especial: a professora era graciosamente perfeita. Lábios carnudos, olhos verdes, grandes, brilhantes.

Ouvira dia desses no sermão da missa dominical a palavra vicissitude. Não prestou atenção no sermão em si, apenas na palavra, que circulou livremente por seus devaneios. Resolveu aplicá-la. Era a deixa para impressionar a bela professora!

Escreve daqui, rabisca de lá. Não tinha idéia do significado vicissitudeano. Sem dicionário em casa. Fragmenta a palavra: prefixo deve ser vida. Sufixo? Fácil: atitude. Pronto, vicissitude era adjetivo que enalteceria o ego da professora!

Escreveu, caprichou muito. Leu em voz alta, arrumou redundâncias. O discurso estaria impecável, leitura obrigatória à frente de todos na classe.

E o amanhã chegou, suas palavras pairaram majestosas fronte aos carismáticos e envolventes olhos verdes da professora. Ela leu silenciosamente. Seus olhos saltavam palavra a palavra, balbuciando imperceptivelmente. Ao terminar, esboçou um inédito sorriso, prontamente memorizado aos vastos sorrisos já colecionados. Ela docemente explicou ao menino que vicissitude não era um adjetivo grandioso, apenas contratempos ou problemas que ocorrem durante uma ação.

Apesar de surpreso com a nova significância, o menino estava feliz e pensativo. Sabia que a palavra que tanto gostava acabou tornando-se a própria ação. A contradição de um belo texto, com uma linda palavra causou o sorriso inédito. E para ele isso foi a melhor recompensa.

SPIRIT OF FLOWERS


domingo, 15 de julho de 2007 | 10:15 pm

Mais da mesma linha tênue que até então separava a pequenina verdade estratosférica: um amor irradia prazeres e sentimentalidades. Uma fragrância indelével assemelhava-se a mirra, acredito. A forte sincronia eterna ali firmou-se de uma cumplicidade quase silenciosa, percebida apenas por uma leveza na oscilação das suas pupilas. Suas pupilas magnificas de olhos verdes-castastanhos-verdes. Conversa de corpo e alma, amores-alegrias e batalhas. Batalhas? Sim, Sempre a eterna e verdadeira guerra de bem e mal, clarão e escurdez. Dois-em-um, guerra e inteligência. Duas almas, um sentido e apenas o amor que quase sempre percorre paralelo. Quase sempre. Porque fundir-se é um exercício de intensidade e razão-emoção.

LOUCO DAS PAINEIRAS


domingo, 15 de julho de 2007 | 10:12 pm

O poeta louco apenas fitava velhas paineiras tortas fronte a fonte seca de um rio volúvel. Não tinha a filosofia nem a perspicácia de um pensador. E as paineiras tortas fronte a fonte apenas as eram… paineiras! Não as chamava de utopias nem ideias sentimentalistas.

O poeta louco sabia que aquelas paineiras vistas por lindos olhos azuis de uma mulher aquém não seriam nunca, paineiras. O “nunca” é o que se vê quando a lucidez tormenta o louco das paineiras tortas, rôtas paineiras.

O MUNDO A CADA MINUTO


domingo, 15 de julho de 2007 | 10:07 pm

Mudei. Nada do que era familiar em um mundo de desatinos e incoerências fazem a vida ziguezaguear por laços e escapes. Cansa-me tudo isso e o que é mais interessante: dessa cafonice de tentar sempre embasar minha coragem por desafios, não cedo mais. Não cedo mesmo, acredite.

De nada adianta repousar as mãos em um colo adornado das belas pérolas. Não é mais conhecido e isso pode machucar em primeiro plano. Mas é assim para sempre e o sempre não cede mudanças.

Vê, pois, que passam meus breves anos e eu caminho por uma vereda pela qual não voltarei. E entenda que eu não quero voltar. Porque voltar seria ceder a minha vida ao que nego agora por natureza.

Mesmo porque anjos carregados de um ímpeto de racionalidade extrema rondeiam esses novos caminhos e com sabres resplandecentes mo festejam cada passo acertado.

Anjos não cedem a erros, acredite.

O HOMEM DO BISTROT AO ENTARDECER DE QUINTA QUALQUER.


domingo, 15 de julho de 2007 | 10:03 pm

Na viela que beira o riacho de pedras escuras do vilarinho que agora resido há uma pequena livraria que denominei de “casamata cultural”. Escura talvez pela natureza literária dos romances alemães que povoam aquelas prateleiras prumadas à esquadro, tem um feitio decente e preços justos (não que sejam bons) para a cultura que a cerca. Na sobreloja do meio andar acima encontro uma casa de cafés, bistrô de internet, mesas literárias e rodas livres de poetas desmedidos da infante milícia cultural.

Sempre vazio às tardes de dia de semana, apenas a mulher dos olhos brilhosos e o careca (face desinteressada de um apago) do terno surrado o frequentam. E eu ali a observar tudo.

O careca quase nada me interessava. Era franzino, pouco alto pouco baixo, o típico sumidouro masculino. Do seu recostado no balcão, uma das pernas no sopé do banqueto outra esticada, punha-se a ler um livro clássico, páginas fedorentas de uma velharia invejável. Fumava um tabaco qualquer e bebericava café-pelado-de-grão.

A mulher dos cilios longos e olhos brilhantes dos reflexos amadeirados do abajur fazia periódicas anotações manuscritas. Supus um diário pessoal, desses que raras mulheres escrevem passagens importantes e cruciais. Ela escrevia com a alma, e isso era claro na feição do rosto e movimentos labiais de um sussurro imperceptivel. E a vontade de ler aquelas páginas me fez vê-la melhor a cada dia no bistrô. Na verdade notei que um certo ar de inteligência influenciava as diversas expressões da bela mulher. Meu Deus! Eu estava obcecado por aquelas pequeninas nuances detalhistas que nem ela devia notar!

Do careca sabia pouca coisa: ele estava ali como contrabalanço de uma beleza feminina perfeita.

Dela? Ah, quase nada, acredita? O barzeiro não a conhecia muito bem. Tinha até medo da moçoila!

Já o bistrô da internet punha-se à nossa disposição com uma maravilhosa máquina computacional que combinava perfeitamente com o lugar: velha, lenta e embolorada. E nela escrevo este diário virtual há algum tempo.

Acontece que publiquei algumas palavras, entreguei a chave com a calota para o barzeiro, sentei-me à mesa costumaz. Não percebi a tela do computador. Deixei este diário aberto na janela! O barzeiro desceu para a livraria. Sem teclado não pude desligá-lo. E reiniciar o computador? Nada! a máquina ficava trancafiada no bauzinho abaixo do monitor. Nem fonte de energia eu consegui achar! Era minha vida exposta na tela. Algum tempo depois a mulher tomou a chaveta com calota, ligou o teclado da banheira digital e começou a rolar pelas páginas do diário. Qual! Ficou bem alguns minutos lendo! Postou um comentário. E a dicotomia dos sentimentos os quais meus pulsantes pensamentos abrigam entraram em um belíssimo confronto. Era a voz trêmula da inexperiência do leve esperar versus a baça e morimbunda vontade do “é meu”.

E então ela acessou o diário virtual no dia seguinte. Fitei de canto de olho. Gravou o nome, qual! E não sei realmente o porquê, mas desse dia em diante nossos olhares cruzaram-se de leve e cumprimentamo-nos com sorrisos leves. Quinta-feira qualquer entramos os três juntos na casamata cultural. Eu, o careca e a mulher dos olhos brilhantes. Conversamos algumas coisas usuais, afinal era um interlóquio coletivo. O coiso sentou-se no balcão, como sempre fez. Eu na mesinha usual e ela perto da janela, com o diário que escrevia sempre sussurrando.

Mais computador, mais textos, e-mails, firulas fúteis. A mulher sentou-se ao meu lado. Perguntou se eu escrevia. E respondi que sim, fazer o que? Ela retrucou sobre o escrever para não morrer. Falei do diário que mantinha, ela disse desconfiar muito que era meu. Elogiou as palavras, fotos. Palpitou minha imaginação fértil. E ela não sabia que daquelas palavras a realidade do meu passado extático infiltrava-se sem pestanejar!

De tardes e tardes no bistrô-café nossas fronteiras intercalaram a realidade de alguns atos. Já sabia o nome dela, o que me era um avanço. Disparates e retrucas eram o óbvio para ver que eu resistia à ela e ela — quem diria! – resistia a mim!

A cidade nos era a vida e de alguns momentos percebíamos claramente que nossas almas eram complementares. Sim parece conversa de boi velho, sei bem disso. Mas quem senão dois perfeitos um-para-o-outro compadeceriam assim?

Assim a conheci, vilarejo pequeno do rio de águas límpidas em pedregosas escuras. Viela beirante com pequenas lojas entroncadinhas. Livraria do alemão de dedos longos e bigode queimado de cachimbo. Um bistrô “quem diria” e o amor ali, sentado na cadeira de perto da janela, só matutando a melhor estratégia de nos atacar pelos flancos. E atacou.

Mas uma coisa confesso e adoro pensar nisso:

Eu nem sequer consegui ler um parágrafo do diário da mulher dos olhos brilhantes e cílios longos.

HOMEM SIMPLES


domingo, 15 de julho de 2007 | 9:08 pm

De simplório, o homem cafajeste podia rir sempre. Não que a vida lhe fosse felicidade desmedida, isso não era mesmo. A vida dura o golpeava a cada instante, mas ele apresentava a falsa felicidade de não a pensar. Vivia a vida com a liberdade que imaginava. Nada de doutrinas, porque é assim que o homem moderno crê a liberdade. Felicidade cada homem moderno constrói de vicíos, medos e sonhos.

E assim o simplório tinha a vida: para contar a felicidade das chapuletadas constantes e poucos mimos exteriorizados.

Pensar na vida é apenas decompor o imaginário incerto. É a própria vida quem indica mandatórios de um certo rigor de idéias certeiras. Basta apenas um tempo para si. Basta apenas conhecer as suas relações imaginárias de bem e mal. Pecado e perdão. Graça e desgraça. Coisinhas ínfimas na mão do simplório, mas de validade espiritual imensa. É que as coisas são assim, não há como escapar.

E quer saber mesmo? O homem simplório sofre e sofre muito. Ah, se soubesse um pouquinho apenas do que lhe espia. Mas não, finge que o mundo é apenas essas crendices e disparates sociais. E pior: reza a bem-aventurança de que amor é a resposta de um algo lógico e racional.

Ah, homem, não te posso mudar, bem sei. Mas de idéias somos levados, não é mesmo?

DESEJOS


domingo, 15 de julho de 2007 | 9:06 pm

Desenho circulos com os dedos. Círculos que se cruzam em um vidro embaçado de chuva e que apenas revelam o minguado coração desencontrado. A tarde me é insone e nem de amores em corações embaçados consigo viver. Não, não imagino que exista o amor. Não há de existir nada no amor, quem sabe nem exista paixão, que é, em mim, mais acreditável. Existe aquilo de desejo e química e atratividades insípidas. Amor é conversa de poeta desacreditado.

E poeta desacreditado quis ser.

Das minhas carências a inventei, mulher perfeita para mim. Assim a imaginei, de olhos grandes — para que, de relance, alcance sua alma. Cabelo escuro, que fosse muitos e dessa multidão me esgueirasse para um descanso escondido do mundo. Cílios curvados e longos, para que de piscadas constantes escutasse uma borboleta imaginária batendo asas perto de meu ouvido. Dentes afiados, o que há de mal em mordidas? É tão bom!

E assim assegurei minha perfeição de uma mulher perfeita e impossível.

Continuei. Quem não continuaria! Não tenha nojo de bichos estranhos, mulher perfeita. Não quero careta quando uma aranha cai em mim e eu a pego com as mãos. Coma tampinha de caneta, eu como. Não que seja saudável, mas que não odeie quando faço. Da minha mulher perfeita — e o quanto mais perfeita ficava, mais impossível era existir — imaginei simplicidade. Nada de soberba, nada de indelicadezas. Complexidade atônita que a contraste com a indiferença de futilidades quaisquer. Inteligente ao extremo, por supuesto.

Linhas de pescoço e colo delineadas à compasso. E delinear um colo à compasso é impossível, acredite. Falemos então de corpo. Curvas perfeitas, Nada de sobrar ou faltar, sem deleites. E deste imaginativo a leveza de algumas penugens em pontos estratégicos (penugens, não posso chamar de pêlos aquelas delicadíssimas segmentações capilares). Perfume atrás da orelha. Perfume na linha do queixo, perfume em pescoço delineado à curvas francesas de um compasso. E perfume natural que é impossível explicar. E não quero explicar, ninguém entenderia.

Quer mais, continuo.

Acreditar em Deus, sem fanatismos por favor, e por favor, sem o ceticismo horrível dos ateus desregrados. Ateu é um crente covarde e disso o mundo purula. Viu, mais impossível que isso não tem. Ah, agora as pérolas! Bolo de chocolate besuntado de requeijão cremoso. Sim, minha mulher perfeita teria de gostar da minha culinária chucra. Gato de armazém, que se deixe levar por um afago. Deixe fazer massagem inventada, durma escorada em mim, sim, assim.

Como disse, não que exista o amor, amor seria ter uma mulher com esses predicados de prenda figurada em idéias e ela existir mesmo. Perceba que meus sonhos eram explicitos da impossibilidade real.

Então conheci uma mulher.

Com ela descobri o andar ao sol de segunda-feira em tempo de veranico, correr a borda do morro pequeno, subir e subir por arbustos e árvores “Aqui tem macaco, aqui tem lagartixa”, vegetação explicada de folhas vernizadas para não sucumbirem ao sal marinho. Ah! Então, era praia onde estava eu e a mulher que reunia qualidades inéditas às minhas impossibilidades imaginativas. Subir mais e, sem o fôlego que nos é necessário vez ou outra, arquejar perante uma vastidão de mar azul bravio para assim sentar na pedra qualquer. Ah! mar azul, olha essa mulher para assim ela erguer a cabeça ao vento gentil de uma brisa e os cabelos dançarem a valsinha que até hoje não sai da minha cabeça.

Não, não que uma valsa tocou, aí eu seria doidivanas assumido. Apenas cantarolei dentro de minhas idéias de mulher impossível o balangar daqueles cabelos de leve ondulação dançante.

Esvoaçante.

E do céu esperar as nuvens de lá para cá, sem rumo e horas perdidas no que um dia de segunda-feira qualquer o mundo a sibilar rodeios de palavras tortas. Voltar, afinal, era apenas bivaque furtivo e de mãos dadas saltitar de emoções incontidas.

Ah, é teimoso o narrador, impossível ela, não era o que estávamos proseando?

Embarcar, e era uma ilha, esqueci de contar. Encontrar a estrada da volta e, ao som da música deliciosa que adoro e ela canta porque gosta, encontrar finalmente na desordem das minhas idéias o que é, de súbito, uma forma de amor.

Uma forma de amor perfeito.

VIVER SOZINHO


domingo, 15 de julho de 2007 | 9:01 pm

Percebi claramente que estive impregnado de angústias e desilusões. Viver sozinho era horrível e isso me tornava uma pessoa insegura. Compatilhei minha vida com mulheres e estas mulheres assim me tomaram. Relacionamentos que vivi surgiram errantes e deturpados por uma sede de lamentações murmuriosas das minhas necessidades de presença conjunta.

Resolvi viver como poetas e loucos.

Solidão me afagou a alma e beijou minha testa carinhosamente. Ora, solidão, quem diria que em seu fél de insensatez eu encontraria a inspiração da escrita sentimental e intimista?

Nas longas noites de solidão que seguiram acreditei — na razão de viver — uma completa busca espiritual. Vida que outrora fôra textos reflexivos, poesias melancólicas e desenhos furtivos de uma alma que respirava sem horizontes, mas com paciência e constância intensa.

Viver em solidão não gratificava-me com boa-noite em uma penumbra de névoa espessa fustigada de sorriso qualquer. Abraços devassos de um frio sonolento e esquivo de prazeres mútuos. Intrincava-me sempre as profundezas de um amor que certeiro desacreditei. Amor que fecharia portas para sempre. Caso não o olhasse nos olhos novamente.

Mas olhei-o.

XVIII - LIVREIRO E O AMOR


domingo, 15 de julho de 2007 | 11:44 am

Das caminhadas leves à orla mansa, o livrólogo consegue capturar nas retinas, que suplicam óculos de grau, uma vastidão de tonalidades amarelas-azuladas de um pôr-de-sol preguiçoso. Todo pôr-de-sol exala a preguiça de um vascolejo estelar. Bem coisa astrônomica. Dessas estrelas tímidas o mundo o lembra, livreiro, da mulher que o espera pertinaz: a beleza de seus olhos refletem luzes e sentimentos. Não queria se gabar do momento, mas era não-lógico obstinar algumas linhas sobre a reflexão não-linear de sentimentalidades que os brilhosos olhos negros de diva o refletiam.

Ah livreiro! Esta era a sua amabilidade inconformada: comparar as vivências casuais com as confrontas sentimentalidades que de sua pretendente o sorriam dia inteiro. A paz da maré? Hum… deixa-me ver: cara de anjo ao acordar! O ar de inverno que enevôa a orla? Facil: perfume natural que do lado do seu colo é de perfeito sentido.

E tudo isso — o livreiro a conhecia como o mundo — era a visão exata do efêmero momento em que tudo se é tido, um momento intrinseco entre o tudo e nada, emplacado de tonalidades de tempo e sentimento, névoas e brumas, o certo e o beijo.

A saudade desse momento é tida como extinta. Os momentos se encaixam em posterioridades que ainda o livreiro ousa prever, como menino serelepe de imaginação incontida. Sim, vôos de braços abertos em proas de navios. Pescar com as mãos aqueles polvos grudentos, quem não faria isso?

Mas é o pôr-do-sol que o livreiro fita em uma orla esmairecida por calmaria inconstante. O sol se acaba em uma montanha de lívidas paineras que filtram a entristecida claridão amarela. Há no ar a melancolidade do encontro das entrelas e lunas e tudo mais que a noite o reserva, não tenha dúvidas. Silêncio do dia e alvoroço da noite, Calar de sol, diria o gajo do bigode-de-arame.

E o livreiro pensa um pouquinho mais, agora nem é orla nem sentimentos, apenas alma e coração. Sentimentos, inquietações de certezas e medos incertos. Ainda reluta em acreditar, mas comove-se ao saber da certeza venal de seus sonhos. A mulhe, que o espera na ternura de um aconchego substancial o é sonho, entende como?

Das certezas, e isso o acostumou em prosas deliciosas, presenteado foi de uma mulher perfeita. Existe felicidade maior? E é toda a presença de um Deus verdadeiro que o povoou de alegria que se transborda essa inquietação explicita de surtos alegrísticos de emoções que o incendeiam o coração.

E lá vai o livreiro assoviando um minueto qualquer, provavelmente Bach. E a rua o acolhe prazenteira.