Arquivos do dia 12 de julho de 2007

O ANSELMO


quinta-feira, 12 de julho de 2007 | 5:22 pm

Ali na rua quinta que sobe do porto, casa do Zé, das janelas grandes e caiadas de um branco de doer os olhos estava o Anselmo, flho mais velho.

Sempre foi perrengueiro e meio vagabundo esse filho mais velho do Zé. As janelas grandes e caiadas eram vagarosas, como as lentas horas de calor daquela enseada de mulatos curtidos do sal.

Aí passa na frente do Anselmo um carro estrangeiro e vermelho. Desses de abaixar o telhado e deixar a cachôpa para fora. Lento e de ronco barulhento. A rua quinta do porto, essa da casa do Zé, tem um calçamento irregular e torto, como tudo ali ao redor.

Passa o carro, Anselmo o desdenha. Anselmo o inveja, Anselmo o deseja. “Ah, um carro desses, hein anselmo?” fala para si mesmo e pensa em quantas meninas poderia carregar ali. “Mas você é vagabundo mesmo, hein Anselmo! Não faz nada o dia inteiro. Não trabalha nem ajuda teu pai. Só curtindo a carraspana.”

O carro vai, Anselmo acompanha em pensamento.

No carro o homem fita aquele Anselmo estático e sonolento. Pensou na beleza que seria ter uma vida desregrada e livre. Mas o celular vibrou no bolso e o despertou do pensamento viciante.

FUTURO QUALQUER


quinta-feira, 12 de julho de 2007 | 5:17 pm

Os dois meninos sardentos de cabelos polaquinhos de uma etnia lá-de-não-sei-onde eram filhos de pescadores de uma praia outrora desabitada por pândegos aristocratas da barriga cervejenta.

A praia era bela, e isso por si só a condenara. Casas filméricas de ricos turistas a tomaram. O iate clube roubou um náco da faixa de areia e, o que eram bóias de isopor com lona preta vagabunda, agora gabavam-se sinetes florescentes com sensor de presença. Ah, aquelas poucas baleeiras, saveiros e a escuna do Zé Lelé… Deram lugar aos 210, 290, 320.

Enfim, a praínha da comunidade de “Nossa Senhora do Rocio Pesto” virou “Resort Iatch Club Rocco & Summer Village”.

A vida teve a sua sorte-revés
Os dois meninos sardentos de cabelos sarará de uma etnia de-lá-sei-onde vendiam trançados de peixes de folhas de coqueiros amarrados em bambuzinhos. Coisa simples, garantiam patacas poucas e boas para doces na banca do Tino.

Mas o barangandan deles não eram os doces do Tino. Nem peixinhos. O ó era o lambrusco-lusco-fusco. Sabia que os dois montaram uma jangadinha de garrafa pet para visitar lanchas que ancoradas pairavam as noites solitas?

Era batata: escurecia e lá estavam os dois futricando porões, gabinas e cozinhas completas dos barcões chiques de panças importadas.

A incursão era tão inusitada e atrevida que rolava até fornadas de pão de queijo e vitaminas de frutas de fruteira nas noites dos dois serelepes. E não teve um oceânico qualquer que não fôra visitado pelos dois sorrateiros.

E veio o tempo que pula
Aí acabou que os dois cresceram, um virou cozinheiro de bistrô petit-gatô, outro piloteiro de avoadeira para pescadores menos abonados.

Não teve final feliz a estória. Talvez porque era real demais a oportunidade prevista. Talvez porque viver de mascates não enriquecesse ninguém ali. Apenas valeu alimentar-se de passados cada vez maiores e mais distantes. Heróicos, talvez, vai saber o que cada um contará para seus filhotes.

MESAS


quinta-feira, 12 de julho de 2007 | 5:08 pm

Na mesa 21, um casal discute ruidosamente. Na mesa 04, um homem azedão, desses que nem sombra tem — tamanho azedume disposto — bebe um café amargo e fuma cigarro sem filtro. Mesa 22: duas mulheres belíssimas beijam-se copiosamente. Tanto tanto que nem a mesa 21, aquela do casal brabento, percebeu. Ah, mesa 37, no outro canto do salão: dois adolescentes, de origem duvidosa, enlouquecem com a mesa 22. O garção era anão e a garçonete, Craudete (assim com r). O bar era um restaurante e o restaurante morreu. A estrutura era a brega-sem-saída: dois vagões da refêsa, com pinos-de-centro embaixo dos peneus. Da placa velha e mal-feita, o chamariz chinfrim: Broa boa, bifão no queijo um real. Abre às vinte e uma, fecha sempre quando dá briga. Ou quando alvorada de alvíssaras alegra o antúrio seco, vai saber.

E na mesa 02, aquele mesmo escritor tongão que ainda acha que vai conseguir inspiração em um barzinho podre que diz-se restaurante, que na verdade é um-dois vagão da refêsa. E nada mais que isso.

DESGRACEIRA


quinta-feira, 12 de julho de 2007 | 5:06 pm

Eram três guris. Um polaquinho e dois sararás. Achavam-se — como qualquer menino de época — invencíveis. Zombeteiros, aporrinhavam os caboclos da vila de baixo, um distrito de 300 gentes.

Perto dali a BR-zero-alguma-coisa passava rente. Tinha rio com poço fundo, ponte de altura boa. E era ali que os três guris ganhavam dinheiro. Pulavam da murada, juntavam as mãos cruzadas no peito e os pés em forma de punção, para estourar a água.

No dia três do mês quatro do ano cinco, o polaquinho pulou meio torto e bateu a cachôpa na água. Sabe que o tonguinho morreu? O pior é que sempre pulavam em formato de gente morrida, lembra? Braços cruzados, zóio bem fechado para não cair a bola pra fora. Ca força que ele caiu, ficou boiando que parecia gente morta.

E era.

Foi a morte que ficou na história da vila de baixo, daquelas que o vô conta pra netaiada e serve de regulador doidológico para amainar os ânimos da criançada sem limites. Sobraram os dois sararás. Foram puxar saco de batata. Perderam a coragem e a invencibilidade.

Ou os cuião, whatever.

ASSOMBROSIDADES


quinta-feira, 12 de julho de 2007 | 5:01 pm

Todos têm fantasmas atormentadores. Lá na fazendinha onde o Arcebides é peão com requintes de capataz, visagens. Na água-fria, lobisóme e a noiva de branco que morreu de a cavalo. Tem o piazinho que subiu na árvore, caiu do galho e quebrou a espinhéla. Tem escravo torto que morreu queimado no barbaquá e vem chiar na olaria toda lua cheia. São medos irrefutáveis. Nunca ninguém viu. Mas conhece gente que viu ou gente que conhece gente que viu. Fantasmas fantasmas. Fantasmas que assustam de verdade.

Aqui na cidade grande, onde o fedor no ar é de bosta e o chão é bem mais duro, têm fantasmas. E dos grandes. Assombrosos, medonhos e meticulosos. Fantasma de dar medo. Medo de assalto, da cornisse. Medo medonho de ser atropelado, perder o emprego, não pagar as contas. Medo do Fantasma de Canterville, das instituições, da internet. Medo da amizade de aparência, medo de perder a compostura, briga de gangue, assalto (opa essa eu já falei). Então é medo de tiro no meio dos cornos, do carro que bate na sua porta de carro à 321cáeme. Medo da vizinha te esfaquear, do síndico ligar para reclamar do som alto. Medo de ter aids, medo da camisinha estoirar. Medo de beber até cair, boa-noite cinderela. Medo de ser atropelada e descobrirem que sua calcinha está rasgada, com furos ou uma freiadéla. Medo da morte (mas esse é pra todos).

Sentiu a diferença? Você escolhe seu fantasma. Ele escolhe seu dilema e te olha de canto de olho. Ignora, mas é teu amiguinho.

MENTIRA PENSADA


quinta-feira, 12 de julho de 2007 | 4:30 pm

VII
A sensação de asfixia era iminente. Dos olhos sujos de um visgo gelado apenas se podia sondar lampejos de um ato enengrescido. A dor da perda era consciente. O medo da morte — um tanto quanto espaventado – naquela volúpia de iniqüidades era o que lhe salvara, ironicamente.

VIII
Levantou-se, ainda semi-imóvel e limitado pela tensão-gel que, lambrequenta em torno de si, o tecia. Tentou entender o que lhe puxara dantes para a gosma inssossa. Mas como o seu corpo, os pensamentos também lhe foram emergidos em polvorosa podridão. (…)

XII
(…) Estava horrorizado e sentia um pavor molesto. Chegou a ponto de esganiçar um ódio transparente contra si, lamuriando (ou penando com chibatas da auto-flagelação) o arrependimento que de nada servia. (…)

IX
A luzinha branca, bem coisinha de conto de fadas, ainda o perseguia. Fosse uma consciência vestida de branco, fosse um fiapo limpo de bondade adquirida, era o que ainda o tolerava. E tolerar, ali, à margem do abismo de melecas insossas e verdulentas era o subterfúgio, era o esquivo da morte anunciada. Incomodava. (…)

XIV
Cansou de fugir. Com pés fadigosos e abrasados da rota tortuosa de fuga, olhou firme para a luzinha. Ofegante resmungou: “Que queres de mim?”. A luz sorriu. Da atenção prestada, trouxe às trevas que o envolvia a claridez da paz que tanto almejava e sequer conhecia. Ele entendeu bem o recado. “O que quero? Responda agora você!”

EPÍLOGO
Daí pra frente, nem contando em mil palavras o que aconteceu convenceria você.

A VELHA CIDADE (E O VELHO)


quinta-feira, 12 de julho de 2007 | 4:23 pm

cestlamerd.jpg
O velho, cheio de preocupações, era vencido: chovia, ele resfriava. Um resfriado qualquer, ele gripava. Fazia calor, ele brotoejava. Tosse? Quase perdia os tubérculos.

Era bonachão, mas depressivo-sintomático-problemático. Vivia o lado triste da vida.

Sabe aquelas pessoas pessimistas, as do copo meio vazio?

Pois bem, esse velho infeliz.

Belo dia ele entendeu que a cidade havia envelhecido com ele. Xuringavam as rugas como as dele. Entortavam as colunas dos prédios como a coluna bico-apapagaiada dele.

A cidade acinzentou, mofou os cantos e encardiu.

— Cidade tórpe — resmungava. Não soube viver com dignidade. (Como se ele vivesse.) Entre parênteses.