Apaixonado pela garota bonita de longos cabelos castanhos e brilhosos — de um brilho perfeito e que desnorteia qualquer intrépido homem desavisado — o menino sincero e ingênuo comprou um vidrão de perfume.
A história é longa e curta: lá na bancadinha lateral da igreja ele ouviu de solsaio a garota bonita do belo cabelo sedoso confessar à melhor amiga. Relatou a delícia dos aromas de flores, do espírito de liberdade que aquela fragrância lhe concedia.
E quer coisa melhor do que uma coisa que transmitisse tais coisas para ela? Lá foi o menino à luta. Encheu os picuás do pai. Ganhou mesada adiantada e prolabore, residuais por lavagens de carro e o naniquinho que faltava por uma cortada de grama.
Pronto, fizemos o menino encher os bolsos de dinheiros.
Dormiu, sonhou com a menina dos cabelos brilhosos saracoteando por flores alvas e de balanço lento. Aliás, o sonho inteiro estava em uma intensidade de sentimentos que qualquer coisa que tentasse interagir teria a velocidade reduzida por uma infinidade de sentimentos e carências vivenciais que aquele adolescente, jovenzinho outrora apenas um garoto, imaginava.
Amanheceu sábado, sem aula. Rumo ao comércio. Era perto do dia dos enamorados, coloquemos assim a data. Adentrou pela amadeirada porta da botica sóbria. “O espírito das flores, faz favor!” A linda atendente, carregada de cores, sombras, luzes e tudo mais que a maquiagem poderia corrigir e realçar, sorriu para ele. Virou-se e, lendo com os dedos as embalagens brancas de letrinhas doiradas, sussurrava um mántra delicioso de nomes e apelidos. Daria uma música, a ordem caótica que lêra aqueles nomes de fragrâncias. Mas só essa ordem. E ela não repetiria jamais, nem teria como. “Espirito das flores, tamanho único, embalagem para presente, senhor?” Sussurou com uma piscadéla na hora do ‘senhor’. “Claro! Mulher adora rasgá-las, não é, jovenzinha?” Ora, quem diria! Retrucando à altura! O que essas paixonites não fazem com um garoto desses?
E ele comprou a fragrância. Ah, menina dos cabelos sedosos e esvoaçantes, da voz aveludada e ritmada, allegro non molto… Agora mais um sentido o embriagava!
A compra, o presente, a sacolinha de fios crus e esverdeados.
Subiu no bonde da rua Quinze. Era hora de voltar para casa, criar um plano estratégico, riscar e rabiscar poemas e, quem sabe, escrever a poesia de sua vida para enebriar de sentimentos e amores a estonteante garota dos cabelos-mel.
“Ai caramba, é ela!”
Caramba! Ela está linda! O fedorento bonde eletro-pneumático está em movimento, sentido contrário aos passos leves e descompromissados dela. Anda garoto, faça alguma coisa! Ele ensaia um pequenino salto, sem impulso. a velocidade é desconfortante, até um tombo poderia sujá-lo todo. “Às favas com isso!” Era a expressão mais estranha e encorajadora que ele conhecia. Como um ‘Aeiou Silver!’ mas sem a retórica.
A sacolinha entreabriu, ele se atrapalhou com a instantaniedade dos fatos. Agarrou pela ponta dos dedos o corrimão e equilibrou a tamanca dos sapatos de couro no madeirame da soleira. É claro que aquela cena não deu certo, o garoto varou no ar, com uma expressão de incredulidade e medo, gritando um “Que merdaaaa!” homérico e engraçado, não fosse a tragicidade do fato até então. Frouxo, de costas no paralelepípedo irregular da subida da fonte e inerte por tamanha injeção de susto no corpo, percebeu-se rodeado de pessoas tentando ajudar.
Meninos não se machucam sério, são meio borrachentos. Apenas esfolões nos escanteios.
Levantou-se, conferiu os fundilhos com um rasgão, pegou sua sacolinha de espirito de flores e foi para casa. Abriu o pequenino sótão de casa. Guardou com cuidado aquela sacolinha. Imagina se os pais o descobrissem, seria muita conversa para tão pouco presente, pensava.
Ele ensaiou aquela entrega. Passou quarenta e duas vezes em frente à casa dela. Conversou com uma melancia, beijou uma laranja. De língua! Ganhou uma afta. Ora, preciava aprender a coisa, entenda.
Sábado de final de ano, quatro meses depois dos inúmeros ensaios, diligências e investidas de entrega, ele tocou a campainha.
Era ela, de cabelos lindos, quem atendeu a porta.
“Oi!”
“Presente para você.”
A dicotomia de sentimentos no momento era bem compreensível. De um lado, o menino que a conhecia com uma profundidade de correlações poéticas avassaladoras. Todos os detalhes do corpo dela tinham comparativos épicos.
Do outro lado, uma garota de cabelos belos e sedosos, tentando entender o que acontecia.
“Ai, o perfume que eu adoro! como você sabia?”
“Descobri.”
“Como é seu nome?”
“Garoto.”
“Obrigado, Garoto! Adorei! Feliz Natal!”
Ela deu um beijo em seu rosto, sorriu e entrou em casa. Ele virou-se e foi embora.
Nunca mais viram um ao outro. Nunca mais conversaram.
Aí você fala: “Que otário, ele.”
E ele te mostra o diário que escreveu, dois dias depois:
…() Quatro meses e agora não mais vejo apenas cabelos sedosos e de perfeito balançar. O rosto, alvo como a bruma que insiste em ludibriar as montanhas esverdeadas e que, com os raios de sol por penetrá-la, revelam-se na beleza de uma brancura perfeita. Lábios, na mais natural cor, carnudos e tenros como um beijo torpe de um morango gelado são doces e misteriosos ao mesmo tempo. É o que eu imagino e é o que eu quero que seja. Olhos esverdeados, grandes, perfeitos. Duas esmeraldas lapidadas e expostas em um beiral de loja de finas jóias. E inacessível para qualquer mortal. Um corpo delicado e frágil, curvas constantes como uma viagem despreocupada pela serrinha graciosa, com um clássico conversível. Mãos leves e perfeitas, voz aveludada e ritmada, allegro non molto. Ah, a voz eu já descrevera antes, não eram só os cabelos ()…