MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos do dia 11 de julho de 2007

O amigo ali

11 de julho de 2007

Eu tenho um amigo muito inteligente.

Conversamos muito, muito mesmo. Sei que ele mora em uma cidade grande, mas não a minha. Não sei com o que ele trabalha ao certo, é verdade. Ele é apelido. O nome real não conheço. Culto e elegante, vivido e despretensioso. Pratica a arte da amizade clássica, leve e sem cobranças. Ele tem defeitos; conhece minhas falhas. E nada disso importa para ele ou para mim.

É o que muita gente rotularia de “virtual”. Alguém, que na prática, não existe. Tal e qual esquizos.

De vez em quando desaparece por uns tempos. Não deixa vestígios de onde está. E, mesmo assim, com essa conectividade fragilíssima de apenas um fio transparente de contato virtual, alimento as esperanças de que ele nunca desapareça.

Meio estranho e ilógico.

“Poderia você perguntar-lhe o nome completo, quiçá algum telefone!” Diria alguém aqui ou acolá.

Mas eu não quero. Amizades inteligentes — assim como amores voluptuosos — terminam em histórias completas. Ou em mentirinhas homéricas de um desfecho inédito, vá saber.

Biografia

11 de julho de 2007

Muita gente que circula por este blog não me conhece.

Conhecer, no sentido pessoal e físico, digo.

Náo sabem quem eu sou, de onde vim, o que me leva a escrever tanta coisa insistente. E isso é um problema sério, de verdade!

Escrevi, há uns 5 anos atrás, uma biografia. E escrever biografia é um erro estúpido, percebi depois: tudo muda, idéias transpõem movimentos e a visão deturpada de um passado biográfico fraco e vazio amadurecem na vontade (e velocidade) de jogar tudo fora e criar uma nova vida.

Esse blog é uma auto-biografia de pensamentos, apenas.

Um eu, estranho ao mundo, quem sabe. Mas nada real, nada retrato. Não condiz com a minha explícita.

Por isso reescrevo algumas cronologias de vida — novamente — rebatendo o passado. Ei-la:

Sou de 78. Era novinho há cinco anos atrás. Hoje vejo que o tempo é um cão sarnento implacável. Nasci no interior do Paraná. Cresci pelo mundão, estacionei em Curitiba. Migrei para Brasilia. Continuo brasileiro, alemão, polaco, italiano, chinês e japonês. Tenho olhos que eram castanhos escuros, hoje esverdearam e estão em cores transitórias e esquisitas. E não tenho idéia do porquê.

Sou escorpiano e, ao contrário do passado, pouco me importa isso. Continuo viciado em internet, continuo com o som de carro barulhento e ainda quero ter um Porsche, apesar da impossibilidade real.

Da velha linha de ocupações mil que me eram orgulho (design, literatura, mecânica, computadores, mulheres que me intrigam, esportes radicais não convencionais, montanha, cyberspace, terra/lama/barro, molhar-se na chuva, blablabla), esqueça isso: bobagens. Fiz tudo tantas vezes que não são mais importantes. Hoje a vida tem um pouquinho mais de sentido e algumas prioridades existenciais ganharam muita importância. Antes era eu um revoltado com religiões e dogmas inúteis. Hoje, conheço realmente um significado pleno de fé, crenças e Deus. Era medo ou preguiça, vai saber.

Continuo com os quase dois metros e isso não quer dizer nada. Continuo não torcendo para time algum. Canhoto para sempre. Música? Época de jazz, alguma coisa eletrônica inteligente. Perdi totalmente o pique dos heavymetais, hardcores e gritarias. Coisa da idade.

Namorei por 5 semanas corridas ou um ano picotado. Casei. E com isso aprendi algumas coisas perfeitas e inimagináveis que um dia qualquer (quiçá uma nova biografia) contarei.

Concluí uma faculdade de publicidade. Fui empresário por 6 meses, de papel passado e tudo mais. Da minha vida profissional náo falo nada, mesmo porque chefes lêem blogs, sabia?

Não gosto de fumaça de cigarro. Náo gosto de drogas alguma. Nem de drogados. (coisa do auto-retrato do fracasso e tal, qualquer dia o tio conta) Não gosto de bebidas. Nem o social mais, acredita? (exime-se disso o bom vinho degustado em almoço de domingo. Isso náo é beber, é apreciar, fique claro.)

Continuo a perder amigos e isso é uma coisa normal. Convivo com perdas e ganhos desde que terminei a prê-escola e isso não me assusta nem um pouco. “Evolução-descontinua-e=paralela” é como chamo isso.

São essas coisinhas aí em cima que definem uma pequenina base do que sou. Mais do que isso e vossa senhoria entediaria consideravelmente. Afinal de contas, ninguém quer mesmo conhecer gente. Já ouvi de amizades próximas que eu aparentava ser um arrogante e babaca em primeira vista. Outros, que sou um amorzinho, carismático e afável.

E sabe do mais interessante de tudo?

Continuo babaca, arrogante e um amor de pessoa. É estilo-de-vida essa imprevisíbilidade toda, sabe como?

Recadinho para ela

11 de julho de 2007

O rapaz-de-boa-índole terminou uma amizade de três meses e quatro dias com a moça-petulante-melancólica. Ele era inteligente na vida, burraldo no amor. Ela, espinafrada e gostosa. Não namoraram, é verdade.

Ele queria porque queria.

Ela acreditava na polivalência afetiva, na dinâmica de relacionamentos imediatos. O “fica-fica”, em termos genéricos.

Como muita gente boa que conheço, esses dois aí.

Acontece que dia desses ele acordou cedo, sentou-se à escrivaninha, escreveu, escreveu e escreveu. Deixou um bilhete entrelaçado nas cordas da guitarra da cor-de-rosa que, estacionada no pedestal-quase-altar, tornou-se símbolo máximo de adoração da moça-petulante. Foi embora para sempre e ela ali, dormindo sem saber de nada.

“Eu te conheço até que bem, apesar de nunca conversarmos sobre a vida que circula ao seu redor.” Começava a pequenina carta. Gelou a espinha da espinafrada: ela já imaginava algum desfecho assim, credo!

“E por te conhecer, deixo pequeninos conselhos verdadeiros e doídos (do-í-dos, hiato. Minha letra é feia e você pode achar que são conselhos doidos).

A verdade sempre dói, a crítica nunca é bem vista, blablabla, esse papo todo que você já conhece:

— Você tinha que dizer umas verdades para a moça petulante que se diz sua amiga, quem sabe até dar umas bofetadas na cara dela, com a mão bem aberta, pra marcar os cinco dedos e acabar logo com essa amizade de mentira.

— Você também tinha que abrir o jogo com aquele carinha, falar o que você sente, parar de esconder dele essas coisas erradas que você teima em fazer.

— E devia aproveitar pra contar a verdade àquele outro, que tem uma costeleta maior que a outra. Vai lá, diz pra ele que você não é nada disso que ele pensa que você é, diz pra ele que você é normal, que a sua rotina é um saco, que você não tem coragem de sair da casa da sua mãe por causa da comida, da roupa lavada, da guitarra rosa que “vai te levar para o estrelato” e essas coisas.

— Aliás, pare de meninice. Ficar, ficar e ficar. Bah, cresça um pouco! Os homens só te querem porque você é gostosa.

— E já que é pra entrar num lance de sinceridade, conta logo pros seus pais que você fuma escondida e que está de rolo com um cara grisalho, desquitado e rico, um roqueiro falido de costeletas desparelhas e um carinha que você não sabe o nome! Quatro Três ao mesmo tempo.

Essa vida que você vive debaixo dos holofotes é uma farsa. Já faz tempo que você se perdeu no meio de tanta filosofia, de tanta parafernália psicológica, de tanto sentimento sem sentido; e agora você fica tentando enganar esse público enorme que te aplaude e não percebe que só está enganando a si mesma.

Porque a gente sabe. Não só eu, a turminha inteira da facul, o grupinho do bar do éder.

A gente sabe que você já fez um aborto; A gente sabe que você já tentou suicídio e que já tem passagem na polícia; A gente sabe que uma vez você gastou o salário de um mês inteiro em uma bolsa francesa; A gente conhece bem todos os seus pequenos e grandes defeitos. Todo mundo conhece, todo mundo sabe.

Então pára de se esconder atrás dessa maquiagem, pára de pensar que você pode se livrar de todos os seus erros toda vez que muda a cor do cabelo. Você vai ser sempre assim, vai ser sempre você, não importa onde, nem como e nem quando.

Desiste logo desse disfarce idiota.

Tira essa roupa e admite — de uma vez por todas — que quando está nua, você deixa de existir.”

(suspirou)

— Balela! — retrucou ao jogar a carta, já em bolinha-de-papel, no canto escuro do quarto.

O diário do menino apaixonado

11 de julho de 2007

Apaixonado pela garota bonita de longos cabelos castanhos e brilhosos — de um brilho perfeito e que desnorteia qualquer intrépido homem desavisado — o menino sincero e ingênuo comprou um vidrão de perfume.

A história é longa e curta: lá na bancadinha lateral da igreja ele ouviu de solsaio a garota bonita do belo cabelo sedoso confessar à melhor amiga. Relatou a delícia dos aromas de flores, do espírito de liberdade que aquela fragrância lhe concedia.

E quer coisa melhor do que uma coisa que transmitisse tais coisas para ela? Lá foi o menino à luta. Encheu os picuás do pai. Ganhou mesada adiantada e prolabore, residuais por lavagens de carro e o naniquinho que faltava por uma cortada de grama.

Pronto, fizemos o menino encher os bolsos de dinheiros.

Dormiu, sonhou com a menina dos cabelos brilhosos saracoteando por flores alvas e de balanço lento. Aliás, o sonho inteiro estava em uma intensidade de sentimentos que qualquer coisa que tentasse interagir teria a velocidade reduzida por uma infinidade de sentimentos e carências vivenciais que aquele adolescente, jovenzinho outrora apenas um garoto, imaginava.

Amanheceu sábado, sem aula. Rumo ao comércio. Era perto do dia dos enamorados, coloquemos assim a data. Adentrou pela amadeirada porta da botica sóbria. “O espírito das flores, faz favor!” A linda atendente, carregada de cores, sombras, luzes e tudo mais que a maquiagem poderia corrigir e realçar, sorriu para ele. Virou-se e, lendo com os dedos as embalagens brancas de letrinhas doiradas, sussurrava um mántra delicioso de nomes e apelidos. Daria uma música, a ordem caótica que lêra aqueles nomes de fragrâncias. Mas só essa ordem. E ela não repetiria jamais, nem teria como. “Espirito das flores, tamanho único, embalagem para presente, senhor?” Sussurou com uma piscadéla na hora do ‘senhor’. “Claro! Mulher adora rasgá-las, não é, jovenzinha?” Ora, quem diria! Retrucando à altura! O que essas paixonites não fazem com um garoto desses?

E ele comprou a fragrância. Ah, menina dos cabelos sedosos e esvoaçantes, da voz aveludada e ritmada, allegro non molto… Agora mais um sentido o embriagava!

A compra, o presente, a sacolinha de fios crus e esverdeados.

Subiu no bonde da rua Quinze. Era hora de voltar para casa, criar um plano estratégico, riscar e rabiscar poemas e, quem sabe, escrever a poesia de sua vida para enebriar de sentimentos e amores a estonteante garota dos cabelos-mel.

“Ai caramba, é ela!”

Caramba! Ela está linda! O fedorento bonde eletro-pneumático está em movimento, sentido contrário aos passos leves e descompromissados dela. Anda garoto, faça alguma coisa! Ele ensaia um pequenino salto, sem impulso. a velocidade é desconfortante, até um tombo poderia sujá-lo todo. “Às favas com isso!” Era a expressão mais estranha e encorajadora que ele conhecia. Como um ‘Aeiou Silver!’ mas sem a retórica.

A sacolinha entreabriu, ele se atrapalhou com a instantaniedade dos fatos. Agarrou pela ponta dos dedos o corrimão e equilibrou a tamanca dos sapatos de couro no madeirame da soleira. É claro que aquela cena não deu certo, o garoto varou no ar, com uma expressão de incredulidade e medo, gritando um “Que merdaaaa!” homérico e engraçado, não fosse a tragicidade do fato até então. Frouxo, de costas no paralelepípedo irregular da subida da fonte e inerte por tamanha injeção de susto no corpo, percebeu-se rodeado de pessoas tentando ajudar.

Meninos não se machucam sério, são meio borrachentos. Apenas esfolões nos escanteios.

Levantou-se, conferiu os fundilhos com um rasgão, pegou sua sacolinha de espirito de flores e foi para casa. Abriu o pequenino sótão de casa. Guardou com cuidado aquela sacolinha. Imagina se os pais o descobrissem, seria muita conversa para tão pouco presente, pensava.

Ele ensaiou aquela entrega. Passou quarenta e duas vezes em frente à casa dela. Conversou com uma melancia, beijou uma laranja. De língua! Ganhou uma afta. Ora, preciava aprender a coisa, entenda.

Sábado de final de ano, quatro meses depois dos inúmeros ensaios, diligências e investidas de entrega, ele tocou a campainha.

Era ela, de cabelos lindos, quem atendeu a porta.

“Oi!”

“Presente para você.”

A dicotomia de sentimentos no momento era bem compreensível. De um lado, o menino que a conhecia com uma profundidade de correlações poéticas avassaladoras. Todos os detalhes do corpo dela tinham comparativos épicos.

Do outro lado, uma garota de cabelos belos e sedosos, tentando entender o que acontecia.

“Ai, o perfume que eu adoro! como você sabia?”

“Descobri.”

“Como é seu nome?”

“Garoto.”

“Obrigado, Garoto! Adorei! Feliz Natal!”

Ela deu um beijo em seu rosto, sorriu e entrou em casa. Ele virou-se e foi embora.

Nunca mais viram um ao outro. Nunca mais conversaram.

Aí você fala: “Que otário, ele.”

E ele te mostra o diário que escreveu, dois dias depois:

…() Quatro meses e agora não mais vejo apenas cabelos sedosos e de perfeito balançar. O rosto, alvo como a bruma que insiste em ludibriar as montanhas esverdeadas e que, com os raios de sol por penetrá-la, revelam-se na beleza de uma brancura perfeita. Lábios, na mais natural cor, carnudos e tenros como um beijo torpe de um morango gelado são doces e misteriosos ao mesmo tempo. É o que eu imagino e é o que eu quero que seja. Olhos esverdeados, grandes, perfeitos. Duas esmeraldas lapidadas e expostas em um beiral de loja de finas jóias. E inacessível para qualquer mortal. Um corpo delicado e frágil, curvas constantes como uma viagem despreocupada pela serrinha graciosa, com um clássico conversível. Mãos leves e perfeitas, voz aveludada e ritmada, allegro non molto. Ah, a voz eu já descrevera antes, não eram só os cabelos ()…

Pensando em voz alta

11 de julho de 2007

Dez anos. Esse é o tempo que passou das minhas últimas aventuras desvairadas. O tempo, ingrato, corre sem parcimônias. E a vida, que deveria ser intensa e cheia de novidades avassaladoras, insiste em manter alguma folga entre uma emoção e outra.

A vida é assim, cheia de nhéco-nhéco.

Uma hora, correria desenfreada.

Outra, calmaria aterrorizante.

Dez anos. Há dez anos não pulo de cima de uma cachoeira. Há dez anos não saio com amigos e mochilas nas costas. (Aliás, nem eles!)

Não é falta de tempo. Não é falta de amigos. E não é a falta da mochila que inibe. É a vida, que envelheceu dez anos. Ficou adulta, essa vadia velha.

Mas a acomodação incomoda a vida velha, vadia. Só esperar. Ela se desespera. E vira uma vida serelepe e peralta, cheia de vontadisses e meninices.

Espero.

Pequeno conto do assaz-sagaz

11 de julho de 2007

Na cidade velha, em um catre mequetréfe, descendo as vias escuras do porão do bar do Nêgo, tem um velho quismeqüique que bate a lata no chão. Grita uma zombaria funesta, sem eira nem beira.

Chama mulata de mulata, viado de baitôla e criança de pestelhôca.

Dia desses Orlindo jogou moeda na lata. Tomou-lhe a pataca nas ventas. “Minha lata é pra comida, lazarento!”

O velho era chato de todo tempo. Sem graça até. Não mereceria mais do que 2 linhas de crédito em túmbalo.

O que conta foi o baião que o cunhépe cantou dia desses:

Tem massa de mandioca, batata assada, tem ovo cru.
Banana, laranja e manga, batata-doce, queijo e caju.
Cenoura, jabuticaba, guiné, galinha, pato e peru.
Tem bode, carneiro e porco, e se duvidar inté cururu.
Tem maxixe, cebola verde, tomate, couve e chuchu.
Almoço feito na corda, pirão mexido que nem angu.
Tem súvete de jaú, caldo de cana e mandacaru.
Se te pego minha fofinha, te descabelo, trubufu!

Uma balzaca corpulenta, de sorriso estrábico e olhos esbugalhados sorriu. Sabia que era para ela o disparate.

Como era e como ficou

11 de julho de 2007

Existiam dois velhos simpáticos na minha cabeça. Um era senil e realista, cheio de manias simplórias e vícios bestiais. Coisas simples, como tomar banho de chinelos de dedos para não levar choque ou cobrir espelhos para não chamar raio em dia de tempestade.

O outro velho era engraçado. Mergulhado em mentiras e desatinos, sentia-se muito bem e à vontade para contar lorótas mirabolantes. Gostava de relatar histórias e feitos que vivera, com realismo de detalhes perfeito. Mesmo não as tendo vividas. Todos gostavam dele. E no fundo, sabiam que era apenas um pobre e doente velho contador de histórias. E que já não conhecia mais o passado vivido.

Dia desses o velho senil e realista morreu. Ninguém deu muita bola para a coisa. Ele tinha poucos amigos e nenhuma família. Era ele quem administrava as peculiaridades de comprometimentos e constâncias agendadas.

Hoje cedo, o velho mentiroso engraçado morreu. Foi um choque, ninguém esperava. Na verdade ele já estava velho, todos esperavam, mas não queriam. E o querer era como um escudo onde a camuflagem da fragilidade da vida se mantinha intacta e sem vínculos com a realidade.

Enterro simples, com cruzinha de madeira. E mais nada.

Agora sobram duas cadeiras vazias.

E no final das contas, esses dois velhos tocavam este blog. Um tinha os culhões de mentir descaradamente. Outro, doutrinava a constância verbal nos escritos. E pagava a hospedagem. Entendeu como ficou tudo? Morreu o realista, o blog perdeu a periodicidade. Morreu o mentiroso, o blog deixou de ser mágico e sensacional.

Restaram-me dois seres, ambos corpulentos, rejeitados outrora para a função, um de cara angulada e dentes separados. Outro, um sujeito que gosta de girar uma moeda pelos dedos.

Um, alcoviteiro; outro, copidesque.

O alcoviteiro — quem diria! — mora na alcova de um velho lupanar de idéias rôtas. Um fodido sem futuro. Mas cheio de galanteio. Algoz e viral.

O copidesque é um sonhador. E, por sonhar tanto, esqueceu-se da realidade insensata.

Dois trôpegos tortos e imbecis. Gentalha de uma sociedade cheirosa à lavanda. Sobrevivem de imagens onde azulejos são encardidos e verdes, canos rangem as paredes e cachorros lambem os sacos. Comandam macacos. Redigem insones e atordoados. Ilustram figuretas vencidas.

Escritores de blogues, agora, como queira.

Foto velha

11 de julho de 2007

foto.jpgSabe a foto ao lado? Foi tirada mais ou menos em 1968. Sou eu. Uniforme da seleção brasileira, camiseta do Rivelino. Tri-campeonato mundial de futebol, taça Rimet.

Não que eu seja dessa época.

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Vê o esparadrapo na testa? A mão na cabeça? Aconteceu depois que eu passei no Agenor´s.

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Agenor´s Cabelos e Sorvetes era, como o nome já denunciava, uma barbearia e sorveteria bem freqüentada pela sociedade local.

Cortava cabelo, vendia sorvetes de massa. Tudo em uma época que não existia vigilância sanitária ou pudor gastronômico. No bolso do jaléco branco, a tesoura afiada, a tesoura de mascar cabelo, toda serrilhadinha, a escova de tirar pelos e uma colher metálica de pegar bolas de sorvetes.

E apesar dos mimos de sorvetes, era o terror das crianças: Adorava o corte piniquinho, deixava todas com aparência de indiozinho.

Cegueta, com uma catarata infeliz, Agenor tinha dois pequenos cães, que dormiam aos pés da majestosa cadeira-trono Ferrante. Eles tinham uma razão bem especial para espreitar ali. Hora ou outra eram acordados no susto, com um grito agudo: mais um pedacinho de orelha caía ao chão.