Arquivos do dia 11 de julho de 2007

PROBLEMAS DA HUMANIDADE: #03 - MILAGRES


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 6:02 pm

Muita gente acha que milagres são as proezas impossíveis que hora ou outra acontecem. Santa chorando sangue, gente que góspe vidro do olho, o óme do rá, etê.

Que nada.

Milagres são as coisinhas boas da vida que dão certo dia-a-dia. Milagres são acertos que conspiram a favor, sempre que sua alma está sintonizada em você mesmo. O resto é balela.

Dica do dia: Se você espera ver impossibilidades existenciais para acreditar em algo, esqueça. Fé cega é uma das incertezas mais coerentes do mundo.

PROBLEMAS DA HUMANIDADE: #53 - PERDER AMIGOS


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 5:30 pm

Você pode até achar que é um problema só seu. Mas não é. Toda gente normal e sadia perde amigos. Pessoas bonitas e sensuais perdem amigos. Gente chatonilda perde amigos. Só não perdem amigos os politicos, os ricos abastados e os mecenas. Não perdem amigos as pessoas do Orkut, mesmo porque elas os têm catalogados todos.

Amigos são sazonais e fatídicos.

Não perdem amigos os sinceros, porque de amigos sinceros poucos homens são agraciados. Gente que fala “seje” perdem amigos com facilidade. Gente tacanha têm amigos tacanhas. Sacanas têm amigos sacanas. As meretrizes têm amigos e ponto.

Manter amigos não tem solução. Amigo é amigo e ponto. O resto (ou os ademazes, como disse o quase presidente Tancredo) São escapulários coleguistas que precisam de manuntenção constante, senão pifam. Pifam como a perda não-sentida.

DOS RECUERDOS DE MI ALMA


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 5:27 pm

Não, não era a vida imitando a arte ou a arte insinuando-se para sempre na minha infância. (E antes que você pergunte: minha infância durou até os 13 anos. Adolescência, dos 13 aos 14. Dos 14 em diante virei adulto.) E a vida, meu caro, simplesmente agiu como agiu, para lembrar de uma forma sazonal que eu perderia amigos de forma constante e ambígua. Para sempre.

Um que lembro: Playmobil era o nome dele. Guilherme, apelido. Coisa assim. Ruivinho sardento, nove anos de idade, olhos esbugalhados e azuis. Gostava de me seguir com uma monarque de placa de corrida. Daquela cabeça recoberta por uma peruca dos bonequinhos que o apelidara, saíam notas e pérolas verborrágicas que até hoje me arrancam um sorriso de canto de boca. Banana à muzzarela, por exemplo. O nanico gostava. Circo-circuito nos fuzílo. Biscleta. Mijão, o gato com incontinência urinária. Era dele.

Lembro-me claramente do dia em que ele estava confuso e inquieto. Iria mudar de cidade, para a capital. Perguntei se ele voltaria, ele deu certeza. Iriam de lotação qualquer para a rodoviária e de lá para longe. Pegaram as malas foram até o ponto da esquina. A lotação era a lenta da meia em meia hora, tempo necessário em que eu via nos olhos da mãe do pleimobiu algumas verdades incontestáveis: “A gente volta né mãe?” “Claro filho.” E o olhar estava mentindo! Que coisa!

A lotação chegou, embarcaram e o destino, assoviando, levou um amigo embora. Não foi o primeiro, muito menos será o último. Muitos amigos perdi e outros tantos irão para a cucuia.

Do Playmobil restou um expólio interessante: Mijão — o gato cinza escuro — de pelagem sedosa escura, olhos azuis e incontinente (que fugiu 4 dias depois atrás de gatas no cio); uma motinho branca com o tanque verde, dos playmobils; um cano velho e torto, de cobre, esverdeado nas pontas. Ele gostava do cano e nunca soube o real motivo. Talvez porque fossem verde as pontas.

E a lembrança de tudo isso que é a única coisa que sobrou.

VIVER DE VAZIOS


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 5:13 pm

Então ela não escreve.

Talvez por motivos de tempo ou subserviência, vá saber. O fato é que os outros falam diariamente das palavras. Da falta que fazem as palavras. Da maneira que as palavras tagarelam na tela e da boataria toda que se faz desnecessária e alheia. Um ato amargurado de publicação para que os outros leiam, engulam a sopa de letrinhas e pulem para outro diário ao lado.

Ela sente-se entranha. E quem não se sentiria? Acredita que não tem idéias fabulosas ou pior: acredita no furto da liberdade ponderada. Quiçá um assalto de inspiração. A idéia é faminta de inspiração. Andam juntas, fagocitam-se cantarolando qualquer modinha. Parece estranho, mas é saudável.

Sempre foi assim.

Quando os outros pressionam, a idéia encabula e a inspiração assopra-se para qualquer canto escuro. Nem olha para trás, nem percebe a lacuna que se formou entre o ato de criar e a esperança do concreto. Como a poesia não escrita que está na cabeça d´ela. O espaço entre o que poderia ter sido e o que nunca mais será.

Sobrou só a idéia.

Pequenina e tristonha, insiste em choramingar a solidão que a inspiração causa.

Ela a sufoca e diz que nao existe o vazio. Mentindo, é claro. Sorri, faz cara de descontraída e feliz.

Então ela não escreve, não fala e nem notícias dá.

Não é a falta de tempo, nem o trabalho. Não é a faculdade, não é a viagem de negócios. Tempo ela tem. Todo o tempo do mundo.

A verdade óbvia? De vazios ela não sabe viver. Escrever o nada? Não. É que do nada, nada há para ser dito.

Entende como?

AMIZADES


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 5:06 pm

Os humanos nascem sozinhos. Crescem sozinhos, mas vivem rodeados de pessoas, isso é claro. Incrivelmente sozinhas, como condicional óbvia. Aí a maioria das pessoas acham que a solidão é o “way of life”. Mesmo porque ‘conhecidos’ apenas são pessoas por aí, nada mais.

E aí começa toda a merda:

Com uma marretinha dourada lá vai o sozinho, perdido na consciência moral, construir uma muralha granítica em volta de si. Instransponível, alta, grossa. Até sentinelas nas guaritinhas a gente vê. Fazem da vida uma carreira militar armamentista. Os conhecidos podem ser inimigos ou espiões, melhor se precaver, por que não?

Então o serzinho consegue viver seguro. Uma segurança ingênua e solitária. Sem inimigos, sem espiões ou adversários.

Esse é o preço: eterna solidão.

Só que algumas pessoas (raras, deixo claro) pensam que a vida é uma coisinha mais engraçada. Vivem momentos e minutos e talvez a vida inteira megulhadas em paixões, amores e intensidades venais. Abrem-se para os inimigos — que na atual circunstância não são inimigos, mas sim parceiros ou maridos ou namorados, quem sabe até amantes. Preferem cair e levantar e cair novamente e erguer-se ao ponto mais alto de suas vidas, por um minutinho que seja, do que viver uma vida inteira seguros de si. E sozinhos.

A pessoa rara diria que isso é viver intensamente. O ser emuralhado chamaria de perca de tempo.

A ROTINA


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 1:45 pm

Agenda lotada de páginas branquelas esgotadas. E dessa agenda, grande parte dos compromissos de ontem, reescritos no amanhâ. E postergados e postergados. Isso é rotina.

E sabe por quê?

Porque nunca dá tempo! Não existem horas suficientes no dia, dias insuficientes dessas horas na semana. Nunca sobra tempo para que se faça o que se tem de fazer.

Isso é rotina. É o adiar para amanhã.

E indefinidamente faltará tempo para que se faça tudo o que se tem de fazer. A agenda com as folhas branquelas e lotadas carcomem os vãos livres vivenciais e a vida (a vida!) se vai adiada.

Os livros bons, adiados.

Os filmes velhos e legaizinhos em DVD pirata que você tem da Santa Efigênia? Infinitamente adiados.

Discos adiados.

Telefonemas adiados.

Trabalhos legais para depois mais.

E esperamos o tempo livre do final de semana para fazer isto, aquilo e não sei mais o quê. E nunca fazemos, porque quando chega o sábado já estamos cansados de todas as nossas metas e acabamos deixando um tanto de coisas para semana que vem, sabendo desde sempre que não as faremos, que nada sairá como o planejado.

E nem tudo é uma questão de prioridade.

O que acontece são meras coincidências perdidas no meio de um número interminável de outras coincidências, que até gostaríamos de viver, mas para as quais nunca teremos tempo.

Mesmo sabendo que poderíamos aproveitar diversas horas de nossas vidas construindo-as de uma maneira produtiva.

Por isso a preferência de nos render ao nada. Por vadiagem ou simplesmente por saber que, no final das contas, o que somos, o que temos e o que sabemos não fará, realmente, diferença alguma.

E, às vezes, é bem melhor assim.

INSOLENTES, ELE E ELA.


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 1:01 pm

Ambientada hoje em dia, com quaisquer dois amores que vivem do amor, o ódio.

O arrependimento beijou na boca ele e ela. Fique claro que não é pelo tempo gasto em todos os ensaios de todas as coisas que disseram. E que mais tarde, invariavelmente, ele e ela tiveram de desdizer. Nem pelos versos complexos e belos que lidos e ouvidos e que jamais encontraram razão e entendimento. Não fôra pela primeira briga que socaram-se até dizer chega, tardes de sonhos e amores, nem das noites frias de aconchego na valetinha do braço.

Nada disso.

A solidão dele e dela vêm de uma coisinha simples e que de nada era certa: arrependimento do não feito:



  • Ele lembra do mundaréu de mensagens silenciosas, às vezes apenas uma respiração, na secretária eletrônica.


  • Ela jogou fora algumas cartas que ele escreveu. Pouco provável que tenha achado que era publicidade, vá saber. Sequer leu. Cartinhas transbordades de um sentimento lindo e intenso. Mal escritas e com uma letra garranchenta.


  • Ele, novamente. Nunca impôs vontade. Contrariava sempre o sentimento que era para ser eterno. E aí, por essa razão idiota, nunca foi.


  • Ela, arrependeu-se agora.


  • Ele, bebe a dor em goles etílicos.


Aí ele e ela arrependiam-se, mutuamente. Ele, por estar presente em algumas situações esdrúxulas na qual a presença não era exatamente uma necessidade. Ela, por sua vez, sentia que fôra ausente e alimentava a certeza de que a ausência — por mais que consentida — era cinza.

Ele arrependeu-se, não dos sonhos que teve, não pela bela música que ouviu, nem pelo poema manco que escreveu, Mas sim dos sorrisos lançados, dos beijos que deixou roubar, das palavrinhas mudas que de olhares se formaram, sempre.

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Ela sabia, desde o ínfimo instante em que seus olhares encontraram-se pela primeira vez, que haveria um adeus. Estranho isso.

Ele sabia que toda despedida definitiva estava presente em cada “até mais”, “tchau” e “eu te amo”.

Arrependia-se agora, ele por haver colocado à prova o próprio coração, ela por haver cometido tantas loucuras, ele por haver acreditado que um único momento seria capaz de transcender todos os limites impostos pelo tempo e pela distância.

Ela estava arrependida. E sofria ao perceber o crasso erro cometido pelo destino, ao ter colocado em seu caminho a pessoa certa, na hora errada.

Ele estava arrependido. Sofria por saber que, uma vez que foi assim, a hora certa nunca mais tornaria a abraçar aqueles dois babacas sentimentais.

— Fodi com meu amor, ela disse para o barzeiro.
— Amor é uma bosta, reclamou ele para ninguém.
— Compliquei um sentimento que é simples e delicado, balbuciou ela.
— Amor é uma bosta! Exclamou ele, sem acreditar na própria verdade.

EU TENHO UM ALTER EGO


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 12:57 pm

Meu alter ego é esbelto e elegante. Não tem residência fixa, é verdade. Faz exercícios físicos todo dia, anda, dorme até tarde e come tudo o que dá vontade. Meu alter ego não tem dinheiro, sobrevive de bicos como ghostwriter e viaja o mundo de carona.

O mundo!

Meu alter ego fala seis idiomas com uma fluência avassaladora: aprendeu um dialeto na Polinésia em apenas 8 meses.

Não tem muitas posses: uma mochila muito resistente mas velha, uma calça jeans desbotada, algumas camisetas brancas, um tênis verde musgo muito confortável e anti-derrapante e um canivete suíço original, com 27 funções, que ganhara de um finlandês em Antíqua. Tem um computador portátil que não funciona a bateria, tela monocromática e muito velho. É assim que meu alter-ego faz frila.

Tem um costume risca-de-giz que vale mil oitocentos e e oitenta e nove e noventa. Caro, muito caro. Carrega junto. E você não conseguiria imaginar as festas que meu alter ego conseguiu entrar com esse traje.

Meu alter ego não gosta de mim e fica tentando me dominar, mas eu sou mais forte que ele.

Mentira.

Eu sou fraco, muito fraco.

Meu alter ego terminou o curso superior mas procrastina a bendita colação de grau. Ele às vezes se aventura em algum palco, tem muito talento. Meu alter ego sabe desenhar e canta como ninguém. Meu alter ego — se quisesse — poderia ser bem sucedido como empresário, advogado, publicitário, médico, dono, patrão, spalla, mascate, pirata ou astronauta.

Meu alter ego daria um ótimo professor, se quisesse.

Meu alter ego poderia ficar famoso, poderia ganhar o Nobel de literatura, se quisesse.

Meu alter ego poderia viver de arte, se quisesse.

Meu alter ego ganharia leôes em Cannes e kikitos em Gramado, se quisesse.

Mas ele é louco, apaixonado, independente, desvairado, intenso, insaciável, amicíssimo, afável, bondoso, enérgico às vezes e não se preocupa com costumes cotidianos.

E prefere viver de vida.

Incrível, não?

FALLIN’


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 12:53 pm

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O AMIGO ALI


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 12:44 pm

Eu tenho um amigo muito inteligente.

Conversamos muito, muito mesmo. Sei que ele mora em uma cidade grande, mas não a minha. Não sei com o que ele trabalha ao certo, é verdade. Ele é apelido. O nome real não conheço. Culto e elegante, vivido e despretensioso. Pratica a arte da amizade clássica, leve e sem cobranças. Ele tem defeitos; conhece minhas falhas. E nada disso importa para ele ou para mim.

É o que muita gente rotularia de “virtual”. Alguém, que na prática, não existe. Tal e qual esquizos.

De vez em quando desaparece por uns tempos. Não deixa vestígios de onde está. E, mesmo assim, com essa conectividade fragilíssima de apenas um fio transparente de contato virtual, alimento as esperanças de que ele nunca desapareça.

Meio estranho e ilógico.

“Poderia você perguntar-lhe o nome completo, quiçá algum telefone!” Diria alguém aqui ou acolá.

Mas eu não quero. Amizades inteligentes — assim como amores voluptuosos — terminam em histórias completas. Ou em mentirinhas homéricas de um desfecho inédito, vá saber.

BIOGRAFIA


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 12:38 pm

Muita gente que circula por este blog não me conhece.

Conhecer, no sentido pessoal e físico, digo.

Náo sabem quem eu sou, de onde vim, o que me leva a escrever tanta coisa insistente. E isso é um problema sério, de verdade!

Escrevi, há uns 5 anos atrás, uma biografia. E escrever biografia é um erro estúpido, percebi depois: tudo muda, idéias transpõem movimentos e a visão deturpada de um passado biográfico fraco e vazio amadurecem na vontade (e velocidade) de jogar tudo fora e criar uma nova vida.

Esse blog é uma auto-biografia de pensamentos, apenas.

Um eu, estranho ao mundo, quem sabe. Mas nada real, nada retrato. Não condiz com a minha explícita.

Por isso reescrevo algumas cronologias de vida — novamente — rebatendo o passado. Ei-la:

Sou de 78. Era novinho há cinco anos atrás. Hoje vejo que o tempo é um cão sarnento implacável. Nasci no interior do Paraná. Cresci pelo mundão, estacionei em Curitiba. Migrei para Brasilia. Continuo brasileiro, alemão, polaco, italiano, chinês e japonês. Tenho olhos que eram castanhos escuros, hoje esverdearam e estão em cores transitórias e esquisitas. E não tenho idéia do porquê.

Sou escorpiano e, ao contrário do passado, pouco me importa isso. Continuo viciado em internet, continuo com o som de carro barulhento e ainda quero ter um Porsche, apesar da impossibilidade real.

Da velha linha de ocupações mil que me eram orgulho (design, literatura, mecânica, computadores, mulheres que me intrigam, esportes radicais não convencionais, montanha, cyberspace, terra/lama/barro, molhar-se na chuva, blablabla), esqueça isso: bobagens. Fiz tudo tantas vezes que não são mais importantes. Hoje a vida tem um pouquinho mais de sentido e algumas prioridades existenciais ganharam muita importância. Antes era eu um revoltado com religiões e dogmas inúteis. Hoje, conheço realmente um significado pleno de fé, crenças e Deus. Era medo ou preguiça, vai saber.

Continuo com os quase dois metros e isso não quer dizer nada. Continuo não torcendo para time algum. Canhoto para sempre. Música? Época de jazz, alguma coisa eletrônica inteligente. Perdi totalmente o pique dos heavymetais, hardcores e gritarias. Coisa da idade.

Namorei por 5 semanas corridas ou um ano picotado. Casei. E com isso aprendi algumas coisas perfeitas e inimagináveis que um dia qualquer (quiçá uma nova biografia) contarei.

Concluí uma faculdade de publicidade. Fui empresário por 6 meses, de papel passado e tudo mais. Da minha vida profissional náo falo nada, mesmo porque chefes lêem blogs, sabia?

Não gosto de fumaça de cigarro. Náo gosto de drogas alguma. Nem de drogados. (coisa do auto-retrato do fracasso e tal, qualquer dia o tio conta) Não gosto de bebidas. Nem o social mais, acredita? (exime-se disso o bom vinho degustado em almoço de domingo. Isso náo é beber, é apreciar, fique claro.)

Continuo a perder amigos e isso é uma coisa normal. Convivo com perdas e ganhos desde que terminei a prê-escola e isso não me assusta nem um pouco. “Evolução-descontinua-e=paralela” é como chamo isso.

São essas coisinhas aí em cima que definem uma pequenina base do que sou. Mais do que isso e vossa senhoria entediaria consideravelmente. Afinal de contas, ninguém quer mesmo conhecer gente. Já ouvi de amizades próximas que eu aparentava ser um arrogante e babaca em primeira vista. Outros, que sou um amorzinho, carismático e afável.

E sabe do mais interessante de tudo?

Continuo babaca, arrogante e um amor de pessoa. É estilo-de-vida essa imprevisíbilidade toda, sabe como?

RECADINHO PARA ELA


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 12:28 pm

O rapaz-de-boa-índole terminou uma amizade de três meses e quatro dias com a moça-petulante-melancólica. Ele era inteligente na vida, burraldo no amor. Ela, espinafrada e gostosa. Não namoraram, é verdade.

Ele queria porque queria.

Ela acreditava na polivalência afetiva, na dinâmica de relacionamentos imediatos. O “fica-fica”, em termos genéricos.

Como muita gente boa que conheço, esses dois aí.

Acontece que dia desses ele acordou cedo, sentou-se à escrivaninha, escreveu, escreveu e escreveu. Deixou um bilhete entrelaçado nas cordas da guitarra da cor-de-rosa que, estacionada no pedestal-quase-altar, tornou-se símbolo máximo de adoração da moça-petulante. Foi embora para sempre e ela ali, dormindo sem saber de nada.

“Eu te conheço até que bem, apesar de nunca conversarmos sobre a vida que circula ao seu redor.” Começava a pequenina carta. Gelou a espinha da espinafrada: ela já imaginava algum desfecho assim, credo!

“E por te conhecer, deixo pequeninos conselhos verdadeiros e doídos (do-í-dos, hiato. Minha letra é feia e você pode achar que são conselhos doidos).

A verdade sempre dói, a crítica nunca é bem vista, blablabla, esse papo todo que você já conhece:

— Você tinha que dizer umas verdades para a moça petulante que se diz sua amiga, quem sabe até dar umas bofetadas na cara dela, com a mão bem aberta, pra marcar os cinco dedos e acabar logo com essa amizade de mentira.

— Você também tinha que abrir o jogo com aquele carinha, falar o que você sente, parar de esconder dele essas coisas erradas que você teima em fazer.

— E devia aproveitar pra contar a verdade àquele outro, que tem uma costeleta maior que a outra. Vai lá, diz pra ele que você não é nada disso que ele pensa que você é, diz pra ele que você é normal, que a sua rotina é um saco, que você não tem coragem de sair da casa da sua mãe por causa da comida, da roupa lavada, da guitarra rosa que “vai te levar para o estrelato” e essas coisas.

— Aliás, pare de meninice. Ficar, ficar e ficar. Bah, cresça um pouco! Os homens só te querem porque você é gostosa.

— E já que é pra entrar num lance de sinceridade, conta logo pros seus pais que você fuma escondida e que está de rolo com um cara grisalho, desquitado e rico, um roqueiro falido de costeletas desparelhas e um carinha que você não sabe o nome! Quatro Três ao mesmo tempo.

Essa vida que você vive debaixo dos holofotes é uma farsa. Já faz tempo que você se perdeu no meio de tanta filosofia, de tanta parafernália psicológica, de tanto sentimento sem sentido; e agora você fica tentando enganar esse público enorme que te aplaude e não percebe que só está enganando a si mesma.

Porque a gente sabe. Não só eu, a turminha inteira da facul, o grupinho do bar do éder.

A gente sabe que você já fez um aborto; A gente sabe que você já tentou suicídio e que já tem passagem na polícia; A gente sabe que uma vez você gastou o salário de um mês inteiro em uma bolsa francesa; A gente conhece bem todos os seus pequenos e grandes defeitos. Todo mundo conhece, todo mundo sabe.

Então pára de se esconder atrás dessa maquiagem, pára de pensar que você pode se livrar de todos os seus erros toda vez que muda a cor do cabelo. Você vai ser sempre assim, vai ser sempre você, não importa onde, nem como e nem quando.

Desiste logo desse disfarce idiota.

Tira essa roupa e admite — de uma vez por todas — que quando está nua, você deixa de existir.”



(suspirou)



— Balela! — retrucou ao jogar a carta, já em bolinha-de-papel, no canto escuro do quarto.

O DIARIO DO MENINO APAIXONADO


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 12:07 pm

Apaixonado pela garota bonita de longos cabelos castanhos e brilhosos — de um brilho perfeito e que desnorteia qualquer intrépido homem desavisado — o menino sincero e ingênuo comprou um vidrão de perfume.

A história é longa e curta: lá na bancadinha lateral da igreja ele ouviu de solsaio a garota bonita do belo cabelo sedoso confessar à melhor amiga. Relatou a delícia dos aromas de flores, do espírito de liberdade que aquela fragrância lhe concedia.

E quer coisa melhor do que uma coisa que transmitisse tais coisas para ela? Lá foi o menino à luta. Encheu os picuás do pai. Ganhou mesada adiantada e prolabore, residuais por lavagens de carro e o naniquinho que faltava por uma cortada de grama.

Pronto, fizemos o menino encher os bolsos de dinheiros.

Dormiu, sonhou com a menina dos cabelos brilhosos saracoteando por flores alvas e de balanço lento. Aliás, o sonho inteiro estava em uma intensidade de sentimentos que qualquer coisa que tentasse interagir teria a velocidade reduzida por uma infinidade de sentimentos e carências vivenciais que aquele adolescente, jovenzinho outrora apenas um garoto, imaginava.

Amanheceu sábado, sem aula. Rumo ao comércio. Era perto do dia dos enamorados, coloquemos assim a data. Adentrou pela amadeirada porta da botica sóbria. “O espírito das flores, faz favor!” A linda atendente, carregada de cores, sombras, luzes e tudo mais que a maquiagem poderia corrigir e realçar, sorriu para ele. Virou-se e, lendo com os dedos as embalagens brancas de letrinhas doiradas, sussurrava um mántra delicioso de nomes e apelidos. Daria uma música, a ordem caótica que lêra aqueles nomes de fragrâncias. Mas só essa ordem. E ela não repetiria jamais, nem teria como. “Espirito das flores, tamanho único, embalagem para presente, senhor?” Sussurou com uma piscadéla na hora do ’senhor’. “Claro! Mulher adora rasgá-las, não é, jovenzinha?” Ora, quem diria! Retrucando à altura! O que essas paixonites não fazem com um garoto desses?

E ele comprou a fragrância. Ah, menina dos cabelos sedosos e esvoaçantes, da voz aveludada e ritmada, allegro non molto… Agora mais um sentido o embriagava!

A compra, o presente, a sacolinha de fios crus e esverdeados.

Subiu no bonde da rua Quinze. Era hora de voltar para casa, criar um plano estratégico, riscar e rabiscar poemas e, quem sabe, escrever a poesia de sua vida para enebriar de sentimentos e amores a estonteante garota dos cabelos-mel.

“Ai caramba, é ela!”

Caramba! Ela está linda! O fedorento bonde eletro-pneumático está em movimento, sentido contrário aos passos leves e descompromissados dela. Anda garoto, faça alguma coisa! Ele ensaia um pequenino salto, sem impulso. a velocidade é desconfortante, até um tombo poderia sujá-lo todo. “Às favas com isso!” Era a expressão mais estranha e encorajadora que ele conhecia. Como um ‘Aeiou Silver!’ mas sem a retórica.

A sacolinha entreabriu, ele se atrapalhou com a instantaniedade dos fatos. Agarrou pela ponta dos dedos o corrimão e equilibrou a tamanca dos sapatos de couro no madeirame da soleira. É claro que aquela cena não deu certo, o garoto varou no ar, com uma expressão de incredulidade e medo, gritando um “Que merdaaaa!” homérico e engraçado, não fosse a tragicidade do fato até então. Frouxo, de costas no paralelepípedo irregular da subida da fonte e inerte por tamanha injeção de susto no corpo, percebeu-se rodeado de pessoas tentando ajudar.

Meninos não se machucam sério, são meio borrachentos. Apenas esfolões nos escanteios.

Levantou-se, conferiu os fundilhos com um rasgão, pegou sua sacolinha de espirito de flores e foi para casa. Abriu o pequenino sótão de casa. Guardou com cuidado aquela sacolinha. Imagina se os pais o descobrissem, seria muita conversa para tão pouco presente, pensava.

Ele ensaiou aquela entrega. Passou quarenta e duas vezes em frente à casa dela. Conversou com uma melancia, beijou uma laranja. De língua! Ganhou uma afta. Ora, preciava aprender a coisa, entenda.

Sábado de final de ano, quatro meses depois dos inúmeros ensaios, diligências e investidas de entrega, ele tocou a campainha.

Era ela, de cabelos lindos, quem atendeu a porta.

“Oi!”

“Presente para você.”

A dicotomia de sentimentos no momento era bem compreensível. De um lado, o menino que a conhecia com uma profundidade de correlações poéticas avassaladoras. Todos os detalhes do corpo dela tinham comparativos épicos.

Do outro lado, uma garota de cabelos belos e sedosos, tentando entender o que acontecia.

“Ai, o perfume que eu adoro! como você sabia?”

“Descobri.”

“Como é seu nome?”

“Garoto.”

“Obrigado, Garoto! Adorei! Feliz Natal!”

Ela deu um beijo em seu rosto, sorriu e entrou em casa. Ele virou-se e foi embora.

Nunca mais viram um ao outro. Nunca mais conversaram.

Aí você fala: “Que otário, ele.”

E ele te mostra o diário que escreveu, dois dias depois:



…() Quatro meses e agora não mais vejo apenas cabelos sedosos e de perfeito balançar. O rosto, alvo como a bruma que insiste em ludibriar as montanhas esverdeadas e que, com os raios de sol por penetrá-la, revelam-se na beleza de uma brancura perfeita. Lábios, na mais natural cor, carnudos e tenros como um beijo torpe de um morango gelado são doces e misteriosos ao mesmo tempo. É o que eu imagino e é o que eu quero que seja. Olhos esverdeados, grandes, perfeitos. Duas esmeraldas lapidadas e expostas em um beiral de loja de finas jóias. E inacessível para qualquer mortal. Um corpo delicado e frágil, curvas constantes como uma viagem despreocupada pela serrinha graciosa, com um clássico conversível. Mãos leves e perfeitas, voz aveludada e ritmada, allegro non molto. Ah, a voz eu já descrevera antes, não eram só os cabelos ()…


PENSANDO EM VOZ ALTA


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 11:38 am

Dez anos. Esse é o tempo que passou das minhas últimas aventuras desvairadas. O tempo, ingrato, corre sem parcimônias. E a vida, que deveria ser intensa e cheia de novidades avassaladoras, insiste em manter alguma folga entre uma emoção e outra.

A vida é assim, cheia de nhéco-nhéco.

Uma hora, correria desenfreada.

Outra, calmaria aterrorizante.

Dez anos. Há dez anos não pulo de cima de uma cachoeira. Há dez anos não saio com amigos e mochilas nas costas. (Aliás, nem eles!)

Não é falta de tempo. Não é falta de amigos. E não é a falta da mochila que inibe. É a vida, que envelheceu dez anos. Ficou adulta, essa vadia velha.

Mas a acomodação incomoda a vida velha, vadia. Só esperar. Ela se desespera. E vira uma vida serelepe e peralta, cheia de vontadisses e meninices.

Espero.

PEQUENO CONTO DO ASSAZ-SAGAZ


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 11:26 am

Na cidade velha, em um catre mequetréfe, descendo as vias escuras do porão do bar do Nêgo, tem um velho quismeqüique que bate a lata no chão. Grita uma zombaria funesta, sem eira nem beira.

Chama mulata de mulata, viado de baitôla e criança de pestelhôca.

Dia desses Orlindo jogou moeda na lata. Tomou-lhe a pataca nas ventas. “Minha lata é pra comida, lazarento!”

O velho era chato de todo tempo. Sem graça até. Não mereceria mais do que 2 linhas de crédito em túmbalo.

O que conta foi o baião que o cunhépe cantou dia desses:



Tem massa de mandioca, batata assada, tem ovo cru.
Banana, laranja e manga, batata-doce, queijo e caju.
Cenoura, jabuticaba, guiné, galinha, pato e peru.
Tem bode, carneiro e porco, e se duvidar inté cururu.
Tem maxixe, cebola verde, tomate, couve e chuchu.
Almoço feito na corda, pirão mexido que nem angu.
Tem súvete de jaú, caldo de cana e mandacaru.
Se te pego minha fofinha, te descabelo, trubufu!


Uma balzaca corpulenta, de sorriso estrábico e olhos esbugalhados sorriu. Sabia que era para ela o disparate.

COMO ERA E COMO FICOU


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 11:23 am

Existiam dois velhos simpáticos na minha cabeça. Um era senil e realista, cheio de manias simplórias e vícios bestiais. Coisas simples, como tomar banho de chinelos de dedos para não levar choque ou cobrir espelhos para não chamar raio em dia de tempestade.

O outro velho era engraçado. Mergulhado em mentiras e desatinos, sentia-se muito bem e à vontade para contar lorótas mirabolantes. Gostava de relatar histórias e feitos que vivera, com realismo de detalhes perfeito. Mesmo não as tendo vividas. Todos gostavam dele. E no fundo, sabiam que era apenas um pobre e doente velho contador de histórias. E que já não conhecia mais o passado vivido.

Dia desses o velho senil e realista morreu. Ninguém deu muita bola para a coisa. Ele tinha poucos amigos e nenhuma família. Era ele quem administrava as peculiaridades de comprometimentos e constâncias agendadas.

Hoje cedo, o velho mentiroso engraçado morreu. Foi um choque, ninguém esperava. Na verdade ele já estava velho, todos esperavam, mas não queriam. E o querer era como um escudo onde a camuflagem da fragilidade da vida se mantinha intacta e sem vínculos com a realidade.

Enterro simples, com cruzinha de madeira. E mais nada.

Agora sobram duas cadeiras vazias.

E no final das contas, esses dois velhos tocavam este blog. Um tinha os culhões de mentir descaradamente. Outro, doutrinava a constância verbal nos escritos. E pagava a hospedagem. Entendeu como ficou tudo? Morreu o realista, o blog perdeu a periodicidade. Morreu o mentiroso, o blog deixou de ser mágico e sensacional.

Restaram-me dois seres, ambos corpulentos, rejeitados outrora para a função, um de cara angulada e dentes separados. Outro, um sujeito que gosta de girar uma moeda pelos dedos.

Um, alcoviteiro; outro, copidesque.

O alcoviteiro — quem diria! — mora na alcova de um velho lupanar de idéias rôtas. Um fodido sem futuro. Mas cheio de galanteio. Algoz e viral.

O copidesque é um sonhador. E, por sonhar tanto, esqueceu-se da realidade insensata.

Dois trôpegos tortos e imbecis. Gentalha de uma sociedade cheirosa à lavanda. Sobrevivem de imagens onde azulejos são encardidos e verdes, canos rangem as paredes e cachorros lambem os sacos. Comandam macacos. Redigem insones e atordoados. Ilustram figuretas vencidas.

Escritores de blogues, agora, como queira.

FOTO VELHA


quarta-feira, 11 de julho de 2007 | 11:13 am

foto.jpgSabe a foto ao lado? Foi tirada mais ou menos em 1968. Sou eu. Uniforme da seleção brasileira, camiseta do Rivelino. Tri-campeonato mundial de futebol, taça Rimet.

Não que eu seja dessa época.

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Vê o esparadrapo na testa? A mão na cabeça? Aconteceu depois que eu passei no Agenor´s.

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Agenor´s Cabelos e Sorvetes era, como o nome já denunciava, uma barbearia e sorveteria bem freqüentada pela sociedade local.

Cortava cabelo, vendia sorvetes de massa. Tudo em uma época que não existia vigilância sanitária ou pudor gastronômico. No bolso do jaléco branco, a tesoura afiada, a tesoura de mascar cabelo, toda serrilhadinha, a escova de tirar pelos e uma colher metálica de pegar bolas de sorvetes.

E apesar dos mimos de sorvetes, era o terror das crianças: Adorava o corte piniquinho, deixava todas com aparência de indiozinho.

Cegueta, com uma catarata infeliz, Agenor tinha dois pequenos cães, que dormiam aos pés da majestosa cadeira-trono Ferrante. Eles tinham uma razão bem especial para espreitar ali. Hora ou outra eram acordados no susto, com um grito agudo: mais um pedacinho de orelha caía ao chão.