MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.

Arquivos do dia 11 de julho de 2007

Problemas da humanidade: #03 – Milagres

11 de julho de 2007

Muita gente acha que milagres são as proezas impossíveis que hora ou outra acontecem. Santa chorando sangue, gente que góspe vidro do olho, o óme do rá, etê.

Que nada.

Milagres são as coisinhas boas da vida que dão certo dia-a-dia. Milagres são acertos que conspiram a favor, sempre que sua alma está sintonizada em você mesmo. O resto é balela.

Dica do dia: Se você espera ver impossibilidades existenciais para acreditar em algo, esqueça. Fé cega é uma das incertezas mais coerentes do mundo.

Problemas da humanidade: #53 – Perder amigos

11 de julho de 2007

Você pode até achar que é um problema só seu. Mas não é. Toda gente normal e sadia perde amigos. Pessoas bonitas e sensuais perdem amigos. Gente chatonilda perde amigos. Só não perdem amigos os politicos, os ricos abastados e os mecenas. Não perdem amigos as pessoas do Orkut, mesmo porque elas os têm catalogados todos.

Amigos são sazonais e fatídicos.

Não perdem amigos os sinceros, porque de amigos sinceros poucos homens são agraciados. Gente que fala “seje” perdem amigos com facilidade. Gente tacanha têm amigos tacanhas. Sacanas têm amigos sacanas. As meretrizes têm amigos e ponto.

Manter amigos não tem solução. Amigo é amigo e ponto. O resto (ou os ademazes, como disse o quase presidente Tancredo) São escapulários coleguistas que precisam de manuntenção constante, senão pifam. Pifam como a perda não-sentida.

Dos recuerdos de mi alma

11 de julho de 2007

Não, não era a vida imitando a arte ou a arte insinuando-se para sempre na minha infância. (E antes que você pergunte: minha infância durou até os 13 anos. Adolescência, dos 13 aos 14. Dos 14 em diante virei adulto.) E a vida, meu caro, simplesmente agiu como agiu, para lembrar de uma forma sazonal que eu perderia amigos de forma constante e ambígua. Para sempre.

Um que lembro: Playmobil era o nome dele. Guilherme, apelido. Coisa assim. Ruivinho sardento, nove anos de idade, olhos esbugalhados e azuis. Gostava de me seguir com uma monarque de placa de corrida. Daquela cabeça recoberta por uma peruca dos bonequinhos que o apelidara, saíam notas e pérolas verborrágicas que até hoje me arrancam um sorriso de canto de boca. Banana à muzzarela, por exemplo. O nanico gostava. Circo-circuito nos fuzílo. Biscleta. Mijão, o gato com incontinência urinária. Era dele.

Lembro-me claramente do dia em que ele estava confuso e inquieto. Iria mudar de cidade, para a capital. Perguntei se ele voltaria, ele deu certeza. Iriam de lotação qualquer para a rodoviária e de lá para longe. Pegaram as malas foram até o ponto da esquina. A lotação era a lenta da meia em meia hora, tempo necessário em que eu via nos olhos da mãe do pleimobiu algumas verdades incontestáveis: “A gente volta né mãe?” “Claro filho.” E o olhar estava mentindo! Que coisa!

A lotação chegou, embarcaram e o destino, assoviando, levou um amigo embora. Não foi o primeiro, muito menos será o último. Muitos amigos perdi e outros tantos irão para a cucuia.

Do Playmobil restou um expólio interessante: Mijão — o gato cinza escuro — de pelagem sedosa escura, olhos azuis e incontinente (que fugiu 4 dias depois atrás de gatas no cio); uma motinho branca com o tanque verde, dos playmobils; um cano velho e torto, de cobre, esverdeado nas pontas. Ele gostava do cano e nunca soube o real motivo. Talvez porque fossem verde as pontas.

E a lembrança de tudo isso que é a única coisa que sobrou.

Viver de vazios

11 de julho de 2007

Então ela não escreve.

Talvez por motivos de tempo ou subserviência, vá saber. O fato é que os outros falam diariamente das palavras. Da falta que fazem as palavras. Da maneira que as palavras tagarelam na tela e da boataria toda que se faz desnecessária e alheia. Um ato amargurado de publicação para que os outros leiam, engulam a sopa de letrinhas e pulem para outro diário ao lado.

Ela sente-se entranha. E quem não se sentiria? Acredita que não tem idéias fabulosas ou pior: acredita no furto da liberdade ponderada. Quiçá um assalto de inspiração. A idéia é faminta de inspiração. Andam juntas, fagocitam-se cantarolando qualquer modinha. Parece estranho, mas é saudável.

Sempre foi assim.

Quando os outros pressionam, a idéia encabula e a inspiração assopra-se para qualquer canto escuro. Nem olha para trás, nem percebe a lacuna que se formou entre o ato de criar e a esperança do concreto. Como a poesia não escrita que está na cabeça d´ela. O espaço entre o que poderia ter sido e o que nunca mais será.

Sobrou só a idéia.

Pequenina e tristonha, insiste em choramingar a solidão que a inspiração causa.

Ela a sufoca e diz que nao existe o vazio. Mentindo, é claro. Sorri, faz cara de descontraída e feliz.

Então ela não escreve, não fala e nem notícias dá.

Não é a falta de tempo, nem o trabalho. Não é a faculdade, não é a viagem de negócios. Tempo ela tem. Todo o tempo do mundo.

A verdade óbvia? De vazios ela não sabe viver. Escrever o nada? Não. É que do nada, nada há para ser dito.

Entende como?

Amizades

11 de julho de 2007

Os humanos nascem sozinhos. Crescem sozinhos, mas vivem rodeados de pessoas, isso é claro. Incrivelmente sozinhas, como condicional óbvia. Aí a maioria das pessoas acham que a solidão é o “way of life”. Mesmo porque ‘conhecidos’ apenas são pessoas por aí, nada mais.

E aí começa toda a merda:

Com uma marretinha dourada lá vai o sozinho, perdido na consciência moral, construir uma muralha granítica em volta de si. Instransponível, alta, grossa. Até sentinelas nas guaritinhas a gente vê. Fazem da vida uma carreira militar armamentista. Os conhecidos podem ser inimigos ou espiões, melhor se precaver, por que não?

Então o serzinho consegue viver seguro. Uma segurança ingênua e solitária. Sem inimigos, sem espiões ou adversários.

Esse é o preço: eterna solidão.

Só que algumas pessoas (raras, deixo claro) pensam que a vida é uma coisinha mais engraçada. Vivem momentos e minutos e talvez a vida inteira megulhadas em paixões, amores e intensidades venais. Abrem-se para os inimigos — que na atual circunstância não são inimigos, mas sim parceiros ou maridos ou namorados, quem sabe até amantes. Preferem cair e levantar e cair novamente e erguer-se ao ponto mais alto de suas vidas, por um minutinho que seja, do que viver uma vida inteira seguros de si. E sozinhos.

A pessoa rara diria que isso é viver intensamente. O ser emuralhado chamaria de perca de tempo.

A rotina

11 de julho de 2007

Agenda lotada de páginas branquelas esgotadas. E dessa agenda, grande parte dos compromissos de ontem, reescritos no amanhâ. E postergados e postergados. Isso é rotina.

E sabe por quê?

Porque nunca dá tempo! Não existem horas suficientes no dia, dias insuficientes dessas horas na semana. Nunca sobra tempo para que se faça o que se tem de fazer.

Isso é rotina. É o adiar para amanhã.

E indefinidamente faltará tempo para que se faça tudo o que se tem de fazer. A agenda com as folhas branquelas e lotadas carcomem os vãos livres vivenciais e a vida (a vida!) se vai adiada.

Os livros bons, adiados.

Os filmes velhos e legaizinhos em DVD pirata que você tem da Santa Efigênia? Infinitamente adiados.

Discos adiados.

Telefonemas adiados.

Trabalhos legais para depois mais.

E esperamos o tempo livre do final de semana para fazer isto, aquilo e não sei mais o quê. E nunca fazemos, porque quando chega o sábado já estamos cansados de todas as nossas metas e acabamos deixando um tanto de coisas para semana que vem, sabendo desde sempre que não as faremos, que nada sairá como o planejado.

E nem tudo é uma questão de prioridade.

O que acontece são meras coincidências perdidas no meio de um número interminável de outras coincidências, que até gostaríamos de viver, mas para as quais nunca teremos tempo.

Mesmo sabendo que poderíamos aproveitar diversas horas de nossas vidas construindo-as de uma maneira produtiva.

Por isso a preferência de nos render ao nada. Por vadiagem ou simplesmente por saber que, no final das contas, o que somos, o que temos e o que sabemos não fará, realmente, diferença alguma.

E, às vezes, é bem melhor assim.

Insolentes, ele e ela.

11 de julho de 2007

Ambientada hoje em dia, com quaisquer dois amores que vivem do amor, o ódio.

O arrependimento beijou na boca ele e ela. Fique claro que não é pelo tempo gasto em todos os ensaios de todas as coisas que disseram. E que mais tarde, invariavelmente, ele e ela tiveram de desdizer. Nem pelos versos complexos e belos que lidos e ouvidos e que jamais encontraram razão e entendimento. Não fôra pela primeira briga que socaram-se até dizer chega, tardes de sonhos e amores, nem das noites frias de aconchego na valetinha do braço.

Nada disso.

A solidão dele e dela vêm de uma coisinha simples e que de nada era certa: arrependimento do não feito:

  • Ele lembra do mundaréu de mensagens silenciosas, às vezes apenas uma respiração, na secretária eletrônica.
  • Ela jogou fora algumas cartas que ele escreveu. Pouco provável que tenha achado que era publicidade, vá saber. Sequer leu. Cartinhas transbordades de um sentimento lindo e intenso. Mal escritas e com uma letra garranchenta.
  • Ele, novamente. Nunca impôs vontade. Contrariava sempre o sentimento que era para ser eterno. E aí, por essa razão idiota, nunca foi.
  • Ela, arrependeu-se agora.
  • Ele, bebe a dor em goles etílicos.

Aí ele e ela arrependiam-se, mutuamente. Ele, por estar presente em algumas situações esdrúxulas na qual a presença não era exatamente uma necessidade. Ela, por sua vez, sentia que fôra ausente e alimentava a certeza de que a ausência — por mais que consentida — era cinza.

Ele arrependeu-se, não dos sonhos que teve, não pela bela música que ouviu, nem pelo poema manco que escreveu, Mas sim dos sorrisos lançados, dos beijos que deixou roubar, das palavrinhas mudas que de olhares se formaram, sempre.

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Ela sabia, desde o ínfimo instante em que seus olhares encontraram-se pela primeira vez, que haveria um adeus. Estranho isso.

Ele sabia que toda despedida definitiva estava presente em cada “até mais”, “tchau” e “eu te amo”.

Arrependia-se agora, ele por haver colocado à prova o próprio coração, ela por haver cometido tantas loucuras, ele por haver acreditado que um único momento seria capaz de transcender todos os limites impostos pelo tempo e pela distância.

Ela estava arrependida. E sofria ao perceber o crasso erro cometido pelo destino, ao ter colocado em seu caminho a pessoa certa, na hora errada.

Ele estava arrependido. Sofria por saber que, uma vez que foi assim, a hora certa nunca mais tornaria a abraçar aqueles dois babacas sentimentais.

— Fodi com meu amor, ela disse para o barzeiro.
— Amor é uma bosta, reclamou ele para ninguém.
— Compliquei um sentimento que é simples e delicado, balbuciou ela.
— Amor é uma bosta! Exclamou ele, sem acreditar na própria verdade.

Fallin´

11 de julho de 2007

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