Arquivos do dia 10 de julho de 2007

MICRO CONTOS


terça-feira, 10 de julho de 2007 | 5:01 pm

O Homem solteirão e sozinho trabalha na sala 8233 da torre comercial número quatro. A sala féde cigarro e os móveis são da década passada. A porta permanece sempre aberta.

Ele baixou arquivos mp3. Descobriu o PCSpeakers. Ligou Vivaldi e deitou-se no chão. Sozinho. Queria meditar ou descansar. É que parecia uma coisa moderna.

Uma mulher passou pelo corredor. A música atraiu seu olhar. Ela o viu caído no chão. Entrou preocupada.

Salvou a vida dele, seja lá o que ela tenha dito.

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O matuto do quiosque de sorvetes multi-étnicos era ignorante.

Todos os dias lia a embalagem do preparado para não errar os sabores na máquina.

Continuava insistindo na mesma tonguice: “Tem de chocolate, morango e paumilha”.

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O matador de homens era de fino trato.

Não matava mulheres e crianças (viu isso no filme).

Tinha na escusa de consciência uma máxima intoxicante: “Eu faço os furos. Quem puxa o cabra pro andar de cima é Deus.”

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Ela tinha curiosidade em beijar outra garota.

Então ficaram frente a frente, olho no olho. Uma sabia exatamente o que a outra queria. O que sentia. Ela aproximou-se. Lábios trêmulos, olhar ora lascivo, ora medroso.

Pôs em xeque sua feminilidade heterogênica.

Aproximaram-se, lábio-a-lábio.

Beijo gelado, gosto de vidro.

Não gostou de beijar o espelho.

QUANDO O TEMPO TE PEGA DE JEITO


terça-feira, 10 de julho de 2007 | 4:56 pm

Existe uma coisinha muito interessante dentro das nossas memórias inesquecíveis: o reavivamento das lembranças. Hora ou outra uma visita, um passeio, um beijo, qualquer coisa boa aparece, do nada. E isso nutre um ciclo de continuidade de dados inesqueíveis. E, a cada relembrança, as coisas ruins somem e as boas enaltecem-se.

A menininha do primeiro beijo fica cada vez mais bonitinha.

O primeiro soco no nariz fica cada vez menos dolorido.

Mas tem umas lembranças que simplesmente somem. Talvez levada pela onda gigantesca de novos-dados instantâneos, ou por falta de fosfosol na cachóla, vá saber. Lembranças que até eram importantes, mas que não sobreviveram.

Faleceram intruncadas em uma rede complexa de memórias derradeiras sobrepostas por sentimentos novos e sensações disconexas.

Aí quando se tenta lembrar dessas, apenas a imagem de um recápe descolorido e pálido, asfaltado, encobrindo a hora vivencial, surge, como um aviso de que nada mais restou.

Muito rápido.

COMO O VELHO CHIANFFREDO FEZ


terça-feira, 10 de julho de 2007 | 2:19 pm

Chiaffredo Cippa Lippa Vacastelli era um italiano carcamano muito inteligente. Bonachão, adorava salchichas de todos os tamanhos, modelos e índoles. Sempre degustava rodelas de salaminhos chourizzos crus, os clássicos calibres 40, curtidos apenas em raízes diversas. Adorava as morcelhas gordurentas, apelidadas por ele de murxilhas. Lambusava-se de mostarda escura ao devorar wienerwurst. Abusava até da sobriedade galante ao mordiscar tirinhas de salsiccias napolitanas (escondidas no bolso do fraque) em valsas no baile dos veteranos.

E isso era uma coisa que incomodava Chiaffredo. Sempre que devorava tirinhas de salsiccias, seus dedos se engorduravam. E não havia outra escapatória senão limpar os dedos catinguentos e besuntados nas costas do vestido da dona Abbondanzia, uma coróla de costas largas e braçuda-polenteira que sempre valsaveava com o velho pelo salão.

É claro que ele se sentia culpado por ver a pobre Abbondanzia gastar suas minguadas liras em saponáceos desengraxantes. Decidiu fabricar uma versão de menor calibre das salsiccias que adorava trafegar em seus bolsos. Arquitetou toda a receita, remexendo proporções e testaviando a condimentação. Foram meses confinados na pequenina fiambreria de fundo de quintal, auxiliado pelo algoz magarefe do açougue do Gennaro.

Chiaffedo criara o Salameto Trançado Culebra. Uma obra-prima finamente inspirada nos exóticos e raros charutos cubanos culebra. Abriu uma fabriqueta muito movimentada: Salames, Salsiccias e Fiambreria Vacastela. E a fabriqueta tinha produção exclusiva e única dos trançados. Sem variações, sem produtos alternativos. E era sempre o mesmo sucesso.

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A sociedade local de Palermo mudou muito depois da “reinvenção do salami” como um jornaléco local noticiou. Chiaffredo não mais sujava as vestes de Abbondanzia; Abbondanzia não gastava mais em saponáceos desengraxantes; o magarefe do açougue do Gennaro tornou-se chefe de produção. O Próprio Gennaro contratou 4 carneadores a mais!

E os tablóides sensacionalistas engordaram os cofres ao descobrir os passos de fabricação da escandalizzacione salsichiatta!

Chiaffredo, o azzogueiro fatali — como ficou conhecido — utilizava-se de ingredientes e metodologias de fabricação dos salametos que deixaram a azzura nacionalista embasbacada: tripinhas de preás parmos, para ensacar de forma fina e precisa o conteúdo; carnes bovinas, caprinas, suínas, eqüinas (incluindo miolos desmiolados) maturadas em um misto de sangue de marreco com sangue de pequerruchos bambinos. O velho sangüinário trocava salametos por uma bombeadinha do sangue das crianças para vidrinhos numerados. Era pouquinha coisa, menos de 200ml, mas que já aditivava a receita sem escassez. E olha que os bambinos nem reclamavam mais das picadas venais! Outras escabrozidades menores nem repercuritam tanto quanto o uso do sangue infantil, mas que mereceram notinhas repudiantes: Asinhas de barejeiras verdes, falangetas amaciadas de galináceos, gotinhas de veneno de cobras víboras que retardavam a coagulação — e a fermentação dissecante — do sangue ensalamado; uma pitadinha minúscula de cianureto para amortecer a língua. Um tablóide sensacionalista até reportou a nano-dosagem de ácidos lisérgico, o que nunca fôra provado.

O velho Chiaffredo passou o resto da vida preso. Viveu na Penintenciaria Agrícola de Galleazzo, como chef de cuisine e mestre fiambreiro dos presídios regionais. E nunca mais se ouviu falar na fabriqueta Vacastela.

ENGODO


terça-feira, 10 de julho de 2007 | 12:57 pm

trabalho_2.jpgA razão da fotografia é o engodo. A verdade fotográfica é a falácia da irrealidade composta em uma qualificação plana e destituída.

A razão da fotografia é a obliteração inversa da simplicidade momentãnea: quanto mais beleza incontida no retrato, maior a distorção vivencial de carga.

Fotografia é um monumento velhaco: uma estagnação de sonhos que lambreca com uma doçura quase difamatória o eterno tactear dos monumentais mesóginos que permeiam o bom entendimento.

Fotografia é arte desprezível, é sorte. Fotografia é a degradação do memento mori, é a banalização do momento tal.

Nada mais, nada menos.

O SEGREDO DA FELICIDADE


terça-feira, 10 de julho de 2007 | 12:54 pm

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