Arquivos do dia 09 de julho de 2007

CONTOS DO ICQ


segunda-feira, 9 de julho de 2007 | 2:54 pm

Dia desses avisaram: aquele cara que você doou sangue, morreu. “Doei duas vezes!” pensei com meus borbotões. Eu tinha um pinguinho de responsabilidade sobre ele. Um pouco de nada, mas ao mesmo tempo uma escusa de tudo.

ICQ véio de guerra

Tudo começou quando apareceu uma mulher desconhecida no ICQ, ainda no século passado. (Lembra que os desconhecidos eram apenas um número milionário, que apareciam piscando na mini-tela do icq? Pois então.) Ela era brasileira mas morava no Japão com o marido.

Aqui eram duas da tarde, lá duas da madrugada de amanhã.

Ela se apresentou, conversamos bastante sobre muitas coisas. Ela procurava um velho amigo que, segundo ela, morava na mesma cidade que eu. Ela me adicionou por um refinamento de pesquisas por cidades que o próprio programa permitia acessar. Ajudei-a: achei o nome do rapaz na lista telefônica impressa e passei para ela.

No outro dia ela apareceu no mesmo horário, dia aqui noite acolá. Feliz da vida, tinha conversado com um cara que havia dois ou três anos perdido contato.

Ela mostrou-me fotos do Japão, contou-me aventuras e desaventuras, falou com empolgação de quando conseguiu comprar uma picape lá na terra do sol. Ela era muito inteligente. Rápida, culta e encantadora.

Lobo em pele de cordeiro

Contou-me o porquê de reavivar a amizade antiga: eram amantes virtuais. Amantes virtuais das finadas redes BBS, o que os tornariam os primeiros amantes virtuais de que se tem notícia.

A cada dia que se passava, mais eu descobria segredos dela. Aquela janelinha do icq operava um desbunde de verdades-vivenciais que até eu me assustava. ela relatava desejos, falava das conversas com o rapaz da minha cidade, o descaso do marido, os yenes gastos em cartões para celulares 3g que eu nem tinha ideia do que era.

Uma mulher dinâmica demais. Passional, doidinha.

Problema que eu era gentil demais com ela na internet. Ela acabou se apaixonando por mim, o que me assustou de um jeito que eu parecia ter visto um esprito. Morava com o marido no Japão, reatara a comunicação com o amante virtual que ela sequer tinha visto uma foto dele (e vice-versa) e apaixonada por mim.

Ela contou-me que o carinha da minha cidade estava desempregado. Ele tinha conhecimentos específicos justamente da nova área que a empresa que eu trabalhava precisava.

Então uam sucessão de fatos doidos aconteceram: Consegui empregar ele em um tempo recorde de 3 dias. Ele me conheceu, eu o conheci. Ele era muito aquém daquele herói grego que ela me descrevia. (E ela descrevia sem sequer saber se ele era loiro ou moreno) Ele passou uma ficha minha, sei lá porquê, muito além do que eu era. Isso fez com que a doidinha achasse que eu era um gigante de proporções heróicas e matador de dragões formidável.

Aí ela mudou um pouco o foco. Ligava para mim. lá do outro lado do mundo. Ele ficou de lado, sem entender nada.

Ela falava de separar-se do marido e regressar para o Brasil. Queria porque queria trazer a picape nova em um conteiner. Queria me conhecer, queria vir para minha cidade, passar uns dias na minha casa, casar comigo.

Nesse ínterim todo, conheceu um rapaz árabe, aqui no Brasil também, via ICQ. Ela, na verdade procurava uma prima na internet.

Três dias depois veio a confissão: arrasada, apaixonara-se pelo árabe.

E você não imagina o quanto isso aliviou minha cabeça. E a dela também. A gente parou de conversar por uns tempos, até que recebo um bombástico email com um convite de casamento: Ela separou-se do marido no Japão, juntou as escovas de dentes com o árabe, engravidou, desmanchou o caso-amante com o cara aqui da empresa, comprou um apartamento no Itaim-bibi e planejava estudar informática. Ou psicologia.

Sobraram eu, o ex-marido e o carinha. Eu levei um bom tempo para mensurar o grau de loucura descompassada e multi-tarefa da doidinha.

O marido dela ficou lá pelo Japão mesmo.

O carinha? Conquistou o emprego na empresa. Ele não tinha família, pouquíssimos amigos. Reavivou um mundaréu de conceitos e sempre achou que eu o colocara na empresa. Ele confessou-me uma vez que o caso com a doidinha era uma coisa que ele não sabia como tinha acontecido, terminado, acontecido e terminado de novo. Sabia pouquíssimo da mulher, para ser sincero. Acreditava piamente que ela masturbava-se nas tele-conversas.

Tempos atrás ele adoeceu, fui lá doar sangue para ele. Duas vezes. Eram dessas doenças estranhas que pegam um ou outro de vez em quando. Viveu uma sucessão de fatos irreais e talvez nem tenha percebido.

Faleceu sem nunca ter visto uma foto da amante.

SEGREDOS PLENOS


segunda-feira, 9 de julho de 2007 | 2:48 pm

Eu era amigo de um radialista muito frustrado. Ele trabalhava em uma rádio católica e interiorana. Imagina você o perrengue que o infeliz passava: seis da manhã e seis da noite, ave-maria cantada. Inserção de músicas do padre Zequinha nos picos de audiência? Deu brecha, pimba! Disk-sucesso com pelo menos uma participação fake pedindo uma música religiosa: o sotaque italiano de padre importado era infalível, fazer o quê. Tinha também censura pesada em músicas de roqueiros encapetados, mas isso era coisa de praxe.

E por aí seguia-se, dia-a-dia, a peleia radiotransmitida.

O playback da rádio ainda era baseado nos rolões e nos clássicos LP´s. Nada de mp3 e programas automáticos, subentenda-se. Isso significava uma coisa bem interessante: a editoração era em tempo real, com um disk jockey ativo o tempo todo.

E esse meu amigo infeliz era o cara que pegava muitos turnos infelizes da madrugada solitária e friorenta. E pelo fato de ser solitária, sempre que ele podia, convidava um ou outro amigo para tomar uma cerveja lá no estúdio (“Venha aqui, mas passa ali no Popi´s e cata umas béras!”). Era uma forma de quebrar o nosso tédio.

O interessante da rádio é que a discoteca continha álbuns muito bizarros para uma rádio católica: Desde Danzig, Manoar e Gwar, até os clássicos Black Sabbath e velharias encapetadas.

“Quer ver um segredo mortal dos profissionais de radiodifusão jamais revelado?” Perguntou-me com um olhar amedrontador e lunático?

Não esperou minha resposta: “Siga-me.” Ele andava como um lider de alguma seita misteriosa e encafifada nos cafundós daquele estoicismo magistral. Adentramos na discoteca. Ele pegou o primeiro disco da primeira coluna da primeira prateleira. Legião Urbana. Estava fora da ordem alfabética. Fora da ordem de importância, Fora da ordem das ++ (mais-mais). Sobrepujava até a redenção dos discos religiosos. Acima de tudo e de todos, para resumir bem.

Retornamos ao estúdio, ele paciente, esperava o outro disco terminar. Rodou o rolão de reclames, posicionou o LP na picape, Entrou ao vivo: ” Madalena, da vila Pequena pediu, cá tocamos: Faroeste Caboclo. Com vocês Legião!”

Ele desceu a agulha, cortou o áudio do mic, levantou-se, acendeu um cigarro, enrolou uma revista embaixo do braço e declarou, na maior naturalidade e com uma cara de superioridade monumental que só um momento tal e qual permitiria: “A melhor música para uma radialista cagar sem ser incomodado. Oito minutos de paz no trono.”

LISTRAS EMAGRECEM


segunda-feira, 9 de julho de 2007 | 2:38 pm

pernadepal.jpg

JOSIAS, O PROPEDEUTA AMOROSO


segunda-feira, 9 de julho de 2007 | 2:36 pm

Era assim que eu assinava uma coluna de relacionamentos amorosos no jornal O Plausível, da cidade de Itaiacóca, em 1968. O anonimato causado pelo pseudônimo imponente era deveras significativo, uma vez que eu sempre recebia e-mails, telex, mimeografias e cantadas calorentas por cartinhas.

As mulheres me achavam charmoso. Elas exacerbavam o tipico complexo do radialista de voz de barítono galeão. E olha que nunca ninguém descobriu minha real identidade ou viu minha foto. Talvez fosse uma forma de proteger a carência afetiva delas, sei lá.

O bom de tudo isso era que eu, na ingenuidade da leiguisse psicológica, conseguia solidificar (ou destruir por completo) relacionamentos amorosos cheios de dúvidas e precipitações vivenciais. Escrevia opiniões solidárias, citava dicas românticas para ogros pézudos e demonstrava a complexidade do amor em traições desmedidas.

Sim, eu desafiava os apaixonados!

Mostrava que a paixão cegava, que o amor sufocava. Salvo raras situações onde o casalzinho era realmente feito um para o outro, todos os relacionamentos descambavam para a baixaria.

Muita gente escrevia para mim, dizendo que apostara tudo em um amor fatídico, com alguns detalhezinhos que ignoravam e achavam que não implicaria em nada, mas que crescera como um tumor maligno e cancerizava a base real do relacionamento.

Pequeninos detalhes, ínfimas pelotinhas vítreas que de tão pequerruchas e desapercebidas, nem coçavam a ostra. E acabaram por virar pérolas carrancudas.

Aí descobri a medonha síndrome do desespero de gente que tentava moldar a personalidade para uma relação que não daria certo de jeito maneira.

E essa síndrome fez Josias — o propedeuta amoroso — especializar-se em saber se um relacionamento que estava começando teria — ou não – a durabilidade necessária para se tornar amor propriamente dito.

Tudo primoroso e direto. Faca-na-bóta mesmo.

Dia 13 de junho de 1969, segunda-feira, a Junta Comercial de Itaiacóca pressionou o editor-chefe para desmascarar, demitir e escarnecer Josias, um maldito propedeuta que arruinou a venda de presentes, flores e contraceptivos da comarca Itaiacoquiense.

Desde então migrei minha carteira de conhecimentos para este site, unica instituição que aceitou-me de bom grado. Um site mecenas por assim dizer. E sempre que posso, exercito o vai-não-vai dos relacionamentos.

Agora sem o brilhantismo vil de outrora.

ESCRITORES MENTIROSOS E MALDITOS


segunda-feira, 9 de julho de 2007 | 11:40 am

Sabe qual é o problema de todo bom escritor? Eles são mentirosos. Fabricam mundinhos tórpes e egocêntricos, moram em lugares que não existem e conversam com pessoas imaginárias.

(Como a internet, por assim pensar.)

O mais estranho de tudo é que esses mentirosos profissionais (escritores malditos) têm a mais perfeita e idônea noção da verdade que escondem. Conhecem-a como mais ninguém a poderia conhecer!

Destrincham toda a realidade vivencial e a remontam como bem entendem. Criam uma meia-verdade. Ocultam o que não interessa. Enaltecem o que realmente não aconteceu e, pior de tudo, jogam pimentas e cores no que nunca existiu — ou deveria existir — de facto

Criam utopias que se contradizem!

E nesse momento a verdade acaba se tornando a a coisa mais importante do mundo naquele texto. Mesmo que não apareça. A melhor coisa na alma encravada do assunto, o segredo bestial, a ferida que unge e atormenta o escritor.

Eles enterram-se com uma verdade miudinha, só deles.

E é essa verdade que pinica as ancas deles, até o fim.

ENSAIO DA VIDA CORRIQUEIRA


segunda-feira, 9 de julho de 2007 | 11:37 am

(carta situada em um canto qualquer da cabeça de uma pessoa por aí, quase famosa, que posterga a realidade e a inspiração, por puro comodismo existencial. É para você, alter-ego.)


Prezado,

Eu sei que a morosidade faz parte da sua fama fétida. Todo artista tem seu momento de recesso, a fuga do mundo e a clausura no limbo do anonimato, não é?

Tenho apenas medo da sua potência fulminante. Prepotência, talvez. Você é uma pessoa forte e teimosa, tem nos pequenos momentos de ódio a catapulta certa para o vôo-acima.

É sempre assim: uma revanche de querer ter o poder sobre os pés, a razão e o controle.

Como você gosta de controlar! Doma o impraticável, racionaliza a sensação de loucura e intensidade!

Isso não te faz bem.

Não segure esse instinto criativo que sepulta ideias maravilhosas, dia-a-dia. Não reprima a pureza da si. Não perca a oportunidade de te satisfazer, de remontar seus sonhos derrubados por um vendaval de imprevistos sem importância.

Você era um cara que tinha apenas um terno risca de giz que custou muito. Tinha um computador portátil, fazia seus frilas para pagar algumas coisas. Era mochileiro, encrenqueiro, improvisador e bom vivant.

Viajava! Vivia o que muitos apenas sonhavam. O que muitos apenas sonhavam e jamais teriam um décimo da sua coragem para realizar!

Aliás, nem contar seus sonhos, você conta. Você ainda sonha? Não parece. Aquela pessoa que conheci, anos atrás, está se escondendo na propria sombra.

Mas acredito nesse resquício de gente, neste sopro de vida que ainda reluta em se debater na rotina salobre que sua alma se meteu.

Até acho que você ficou adulto de vez! Odeio adultos e você sabe muito bem disso!

Ainda faz brincadeiras?

Faz pessoas sorrirem com suas piadinhas de humor galeão britânico?

Imita cachorro com maestria? Buzina de fuque?

Não parece.

Deus? Ainda têm crença? Pior que perder criatividade é perder fé. E você sabe muito bem que quem alimenta a criatividade é a fé. E que a fé vem da curiosidade quase-infantil-quase-de-gato que circula por sua cachóla.

Se quiser, te ajudo.

Se não quiser, suma de vez. E não olhe pra trás, que te dou estilingada de mamona.


FELICIDADE E LIBERDADE


segunda-feira, 9 de julho de 2007 | 11:30 am

Duas coisas importantíssimas que você precisa saber sobre felicidade e liberdade.

A liberdade sufoca; a felicidade, deprime.

E o pior: ninguém, em um estado normal e consciente de vida, está preparado para ser feliz e livre.

A liberdade é deveras incrível para pessoas normais.

A felicidade? Ah, a felicidade! Esta é sádica como ninguém.

Depois conversamos sobre isso.

ALEA JACTA SEPARACTUM EST


segunda-feira, 9 de julho de 2007 | 11:29 am

Bom, a coisa funciona mais ou menos assim: tudo está certo, a vida perambula alvissareira pelas rajadas de emoções que cruzam nossos destinos. Até o momento fatídico em que se erra o passo. Pisa em falso, A virada de pé que estrala e dói de imediato.

Aí meu caro, a sucessão de factos obscuros e mais improváveis que a sua mente civilizada e viril possa imaginar, acontece:

- O disparate no bilhetinho escrito e dobrado dentro do bolso do paletó.
- A foto no e-mail.
- O telefonema no horário mais esdrúxulo e errado possível.

Como não ceder?

Como tentar esconder?

O sentimento é horrível, e isso não tem nem como protestar. É uma contradição de sentimentos que se seguem, uma angústia e a falsa ilusão de que tudo terminará de uma maneira rápida e indolor.

O soluço no final da noite. A decisão de sair. A última olhada para casa, a última ré para sair da garagem de canto.

As coisas que vivemos! As viagens que fizemos, os segredos que só nós tinhamos em comum? Não tem mais como recuperar. Aí Você olha para alguns detalhes incríveis, lembra de fatos engraçados, do “Topo qualquer coisa contigo!” das peculiaridades. As crises. Os furos. Até os piripaques eram engraçados. Engraçados porque no final a gente sabia que era coisa momentânea e com um pouquinho de sacrifício o mundo ja estaria reconstruído.

Só que relembrar essas coisas felizes é constrastar com a realiade. O desgaste, O despreparo. A insegurança. Deméritos impraticáveis e insustentáveis.

A gente evolui, e isso não tem como deixar de perceber.

Agora não evoluir junto é minar a própria existência.

Não que seja um defeito. Eu te conheço como ninguém.

Mas a vida segue em frente.

Você não será a primeira. Muito menos a última. Entenda que eu gostei de ti, mas não amei.

E tenha em mente que — apesar da cretinice e insensatez — a separação definitiva sempre é a melhor coisa que poderia ter acontecido.

Alimentemos as lembranças: atenue os momentos ruins; enalteça as boas coisas.

Assim teremos um bom passado para relembrar.

Só isso.

BUSCA INEXPRESSIVA


segunda-feira, 9 de julho de 2007 | 11:22 am