Arquivos do mês de julho de 2007

FIM DA FASE UM


segunda-feira, 30 de julho de 2007 | 2:31 pm

Acabou a fase um deste site. Cansei do passado. Deixemos o resto como deve realmente ser: esquecido.

Comecemos um novo mundo, agora.

Melhor escrito, aventurado.

divisor

Nossa bela época trasforma tudo em narrativa. A loucura evolui para um belo objeto de especulação formatado para cooperar com o sistema global de quantificação da natureza e, de repente, tocar em meus fones.

A tendência é enquadrar toda diferença em alguma categoria desviante e/ou pervertida e, assim, para todos os efeitos, aniquilá-la enquanto tal.

Segurança máxima.

Sem fuga.

BUSQUE SEU MEIO-EU


segunda-feira, 30 de julho de 2007 | 2:20 pm

Sabe aquele detalhe que procuramos em alguém? Pois é, numa busca sem rumo, muitas vezes sem saber ao certo que detalhe é esse que tanto procuramos, mas que temos a certeza, um único detalhe, por mais singelo e pequenino que seja, faz toda a diferença.

Às vezes é difícil encontrarmos alguém que preencha todos os requisitos que o nosso coração, muitas vezes tão exigente, procura em um parceiro ideal. Estamos em constante busca pelo "par perfeito" quando na verdade deveríamos buscar apenas alguém especial.

Em algum lugar você espera por mim, ainda não me conhece, no seu inconsciente você já me ama, assim como te amo, os intrincados caminhos do destino não nos favoreceram, ainda, mas agora uma porta se abre e eu espero ansiosa que você entre por ela, se assim não for, nossas vidas serão sempre pequenas, vazias, incompletas e viveremos os dias na eterna indiferença.

Bonito, né? Mas não fui eu quem escreveu isso aí.

O texto acima foi compilado, frase a frase, de uma infindável série de anúncios virtuais de relacionamentos, onde mulheres estão procurando homens em sites de classificados pessoais.

E sabe qual é o perfil do troglodita que 99% destas mulheres procuram?

Não?

Vou te ajudar. A listinha abaixo também foi compilada desses anúncios. Apenas risquei da brincadeira tudo que se repetia. E olha que foram mais de cem reclames! veja aí o que você, ogro ranhento e peludo, precisa para ser um Casanova:
Uma pessoa que tenha caráter, homem que respeita a mulher e principalmente, um homem atencioso, inteligente, sensível e fiel. Uma pessoa em que se pode confiar em todos os sentidos. Que tenha honestidade, sensibilidade, bom humor (essencial), paciência e romantismo.

Bonito, com um corpo todo em cima, mas isso não é o principal, pois nem sempre a embalagem mostra bem o produto!

Um homem que complete sua amada, uma pessoa que realmente saiba amar e ser amado. Ativo, franco, verdadeiro, especial, sincero, carinhoso e que não esteja querendo apenas uma aventura ou sexo. Alegre, simpático, que goste de cinema, teatro, jantar à luz de velas.

Sim, que queira um amor sincero, alegre, com fidelidade e amizade. Que goste de passear, ir ao cinema, se divertir com amigos, vídeo em casa com pipoca e guaraná, que goste de viajar, que ame a natureza, goste de coisas simples, que proporcionem prazer e conforto. Seja vaidoso, bem cheiroso, e de dentes lindos.

Sirva para amizades, namorar, passear, e que saiba o que deseja da vida, que goste de viver intensamente.

Alguém para andar de mãos dadas no parque, dividir o chocolate, abraçar, beijar, amar, goste de sair para dançar, mas também que saiba aproveitar os momentos a dois.

Seja intelectualmente estimulante, fisicamente interessante, desencanado, deixa que seu próprio corpo produza todas as drogas de que necessita (ou pelo menos tenta!), anda lendo outras coisas além de legenda de filme americano, vê filme em preto e branco, vai ao teatro e não é para ver ator (nem atriz!) global.

Acha que a manhã foi feita pra dormir, tem coragem de terminar um relacionamento ao invés de sumir, que procura o verdadeiro amor, que não seja fumante , que goste de esportes, viajem e principalmente que goste de muito carinho.

Não goste de futebol, cerveja e amigos, um homem que realmente saiba dar valor a uma mulher, que esteja disposto a amar de verdade, sem mentiras, que seja sincero e fiel, decidida e com objetivos definidos, curta desde uma boa “balada”, até as coisas tranqüilas e ótimas para se fazer a dois.

Basicamente é isso. Parece meio complicado à primeira vista, mas com alguns anos qualquer homem acaba domesticado assim.

Agora os três quesitos mais essenciais, importantes e que constam em todos os reclames pesquisados são: Inteligência, sinceridade e romantismo. Parece viadagem, mas é a realidade virtual.

VIDA REVISTA


segunda-feira, 30 de julho de 2007 | 1:51 pm

Avalio o que já fiz até hoje. Claro que me arrependo de inúmeras situações que poderiam ter mudado minha vida. Mas arrependeria-me de ter arrependido, pois algumas outras coisas não teriam existido. Foram frutos bons de situações ruins.

Foi o beijo que não dei, o beijo que dei. Palavras ásperas, profanadas com um orgulho bestial. Palavras doces, quando deveriam ser sutis e realistas. E-mails não respondidos, amores não correspondidos. O inóspito ignorado, o grito não dado, o sinal furado. O medo do futuro, a paciência do passado. A dor do “não” recebido em hora errada, a multa por velocidade.

Minha plenitude humana é baseada em retrospectivas e avaliações paramétricas da alma. E os fatos de maiores reflexões são os que aproximam a conturbada notoriedade de minha vivência, com a linha tênue da imaginação desejada! E assim vivo, revivo e reclamo constantemente.

FILOSOFIA BARATA


segunda-feira, 30 de julho de 2007 | 1:48 pm

Viajando um pouco na condição humana e na concepção metafísica do homem, hegemonismos e diferenças: o homem é um ser racional porque toma atitudes inteligentes, tem a capacidade de abstração e resgate de passado, condicionando o pensamento.

Tudo isso faz com que o homem tenha a condição adquirida de ser humano. Platão mostra a realidade material fundamentando a explicação além da natureza. Apresenta suas duas realidades, mundo físico versus mundo de idéias.

A essência humana é a razão.

O corpo humano é o cárcere da alma, a punição.

Paixão é tudo que ofusca a razão.

Por que há transcendência da alma pura do mundo de idéias, perfeito, original e pleno, para sua cópia imperfeita, o mundo físico limitado e imperfeito?

AH, DONA FIFI


sexta-feira, 27 de julho de 2007 | 12:46 pm

Feijão era catador de latas. Descendente de algum quilombo, estirpe negra, rapagão forte e alto.

Diariamente juntava uma carriola completa, a qual lhe rendia algumas lascas ao final do expediente. Com o tempo aprendeu a ficar amigo de donos de bares, os quais preferencialmente lhe davam latas já amassadas, facilitando o seu trabalho. Sabia até quais bares eram mais generosos, quais lhe serviam sobras graciosas de petiscos e afrescos diversos.

Sua labuta diária era rotineira. Sempre o mesmo trajeto, os mesmos barezinhos, a comida, generosamente granjeada. Uma vida bem pacata e morosa, por assim dizer.

Dona Fifi, uma ascendida social, residente de uma das finas coberturas que faziam contraste com a orla, interessara-se por Feijão. Todo dia observava o esbelto corpo delineado pelo braçal serviço. Sabia o horário em que aquela lenta carriola, carcomida pelo desgaste, religiosamente trafegava em frente ao seu caminho. Fifi, ansiosa, precisava parar aquele negrão. A cada dia que passava, maior e mais intensa era a sua vontade de possuir aquele conjunto!

Dia desses, chamou seus seguranças. Explicou-lhes o que deveriam fazer. Sem pestanejar, agarraram Feijão. É claro que os dois homens de terno, formados em alguma escola de segurança, renderam prontamente o gari que, sem pestanejar, foi levado junto de sua carriola à imensa garagem, entre luxuosos carros. Atônito e sem saber o que dizer, Feijão paciente esperava no que aquilo daria. Seqüestro, óbvio que não era. Tentava lembrar se havia flertado com alguma moçoila da região. Sabia que isso era perigoso. Não estava, no momento, devendo dinheiro à ninguém. Suas apostas no bicho eram religiosamente pagas em dia. Estava perdido, não sabia realmente o que acontecia ali.

Dona Fifi surge dentre os carros. Encara Feijão. Saca uma luva de pelica branca, nova. Com certo esforço consegue virar a carriola, despejando as inúmeras latas amassadas, ao chão. Começa vagarosamente a retirar o anel de alumínio de uma lata. Joga-a em um canto, o anel em uma caixa. E assim repetidamente foi, durante algumas horas. No final havia separado mais de cinco mil anéis prateados. Soltou Feijão, que sem nada entender, juntou as latinhas e foi embora.

Dona Fifi queria trocar os anéis de alumínio por uma computador.

AS BARONESAS


sexta-feira, 27 de julho de 2007 | 12:38 pm

Barão ganhou o apelido pelo duvidoso gosto em manter um bigodão fio-de-arame, com voltinha e tudo mais. E o que realmente fez a sua fama era a diversidade de mulheres as quais lhe acompanhavam. Mulheres sempre impecáveis, bonitas, de uma finesse e educação invejável.

Barão era figurinha carimbada em todo o tipo de evento, convescote ou festa. Com um jeito bonachão, seu sorriso era cativante. Sua presença, obrigatória: seus disparates, aterradores e únicos.

O que intrigava todos seus amigos era o fato de, um sujeitinho pequeno, feio e com um bigode encardido e carcomido pelo cigarro, pudesse fazer par com belas damas. E olha que vez passada até houve diálogo em francês com uma de suas divas. É claro que a curiosidade aflorava toda vez que o galanteador passava. Mas a hombridade e os culhões impediam todos de lhe perguntar o segredo da fama. Insinuações apenas o faziam soltar uma deliciosa gargalhada. Mas falar das mulheres, nunca.

E não era dinheiro, nem fama, tampouco a beleza. O barão era simples, funcionário de um armazém de secos e molhados. Poucos conheciam sua intimidade.

Vez passada não me contive e perguntei o seguredo das “baronesas”. Surpreendeu-me na resposta, após a já esperada gargalhada homérica. Ele simplesmente sanou a já desconfiada asserção: na zona. Sim, barão era costumaz freqüentador de casas de burlesco. Apesar do irônico comentário, que fez com que ninguém acreditasse na resposta, ele foi sincero. As mulheres o conheciam, e conheciam também a sua fama de arroz-de-festa. Elas brigavam para escoltá-lo. E Barão divertia-se. As putas divertiam-se. A finesse das raparigas advinham da excentricidade dos bons pagadores de serviços. A casa era fina.

E o Barão sussurrou, algum tempo depois, só para mim:

– Puta que não cobra, quer gozar.

Barão estava certo. Sempre de bom humor, sempre com mulheres espetaculares. Muito mais jovem que muito jovem gagá. Feliz na sua essência de ser.

A VARIANTE AMARELA


sexta-feira, 27 de julho de 2007 | 12:25 pm

Augustão era um pacato cidadão rural. Descendente de Alemães, tinha a pele avermelhada do sol, o que atenuava seu vasto bigodão loiro. Havia adquirido com muito gosto uma Variant amarela novinha. Como todo bom colono, instalara franjinhas no teto, bolinhas massageadoras no banco e trocou a bola do câmbio por uma de caranguejo, a do seu signo. Diariamente levava verduras para a cidade, subindo a serra vagarosamente. Acompanhado de sua esposa, Augustão fazia de seu estimado carro, sua forma de incrementar as vendas de suas verduras.

No começo do verão, sua produção de legumes bateu recorde. Vez ou outra precisava de duas viagens por dia para escoar todas as leguminosas, tamanho o fluxo vegetal. É claro que com esta fartura, Augustão pôde comprar um toca-fitas para a Variant, o que na época era capricho dos valiosos e velozes SP2.

E em uma dessas idas e vindas da cidade ao campo, Augustão, com toda a sua pompa, trafegava feliz por sua rota habitual. Dona Fifi, sua mulher, feliz por estar passeando, cantarolava baixinho a música do rádio. Neste sutil e raro momento, uma mosquinha-da-banana que estava no veículo, zanzou e entrou de forma estranha no ouvido direito de Augustão. Desesperado pelo zunir das asinhas, mas sem perder a calma, retirou do contato a chave, desligando o carro, que continuou em movimento, para assim catucar a intrusa entrincheirada.

É claro que o voltante travou, o freio acabou e o carro saiu da pista. O que se sucedeu foi inacreditável: A desgovernada perua invadiu o pasto vizinho à estrada, descida da serra.

Augustão, pedindo calma à dona Fifi, que com todas as suas forças agarrara-se ao console do painel e no putaoqueospariu, tentava em vão controlar a bendita Variant. A chave já havia caído metros atrás, no meio da balaiada. Com o volante travado, nada podia ser feito. O carro atravessou um pasto, recolheu as vacas na mangueira, passeou por mais umas plantações e estacionou em frente à casa do compadre Guilhermino. Por incrível que pareça, Nada acontecera de grave. Augustão, com toda sua pompa inatingível, desceu do carro, abriu o porta-malas e retirou duas cabeças de alface.

- Presente compadre Guilhermino. Estava descendo a serra e resolvi cortar caminho.

A MULHER DO VIZINHO


sexta-feira, 27 de julho de 2007 | 12:19 pm

O Baltazar mora em um daqueles condomínios fechados onde cada um constrói a sua casa como mais lhe apetece. E como o estilo é americano, as casas não têm muros ou separações aparentes. Solteiro, simples, mas de carreira invejável, mora sozinho e desfruta das singelas sutilezas de uma vida a sós.

E o vizinho de Baltazar tem um mulher muito gostosa.

Ela sempre toma sol na piscina da casa do Baltazar. O marido, na estranheza de ser, nunca quis contruir uma para ela. E a cena sempre se repetia: Baltazar acordava, abria as cortinas de seu quarto e lá estava aquele monumento, tostando ao sol matinal.

É claro que as peças de banho ínfimas que ela usava tinham um descarado propósito provocativo. Sempre que ela se abaixava, fosse para pegar alguma revista, um creme, insinuava as maliciosas formas dos seios redondamente perfeitos. Passava branzeador de uma forma suave e insensata, apetecendo até olhos mais frígidos.

Baltazar surtava. Só não atacava aquela beldade pelo mínimo respeito que ainda restava ao seu vizinho.

Domingão desses, Baltazar curtia uma ressaca homérica. Deitado no chão, ao lado da piscina, resmungava baixinho, enquanto sua cabeça latejava, evaporando ao sol o álcool sorvido.

A vizinha surgiu do nada, sentou-se ao seu lado. Perguntara-lhe se poderia besuntá-lo de bronzeador. Ali, meu amigo, toda a relutância em não atacá-la fora água abaixo hora que ela encostou-lhe a mão com o óleo.

Os dois entregaram-se aos prazeres mundanos e carnais de uma forma espetacular. A vida de bon-vivant que Baltazar levava fez com que a mulher explodisse em um gozo intenso e imoral. Ficou bem evidente que ela estava há tempos na seca.

Baltazar ganhou a deliciosa vizinha. A Vizinha ganhou um amante insaciável. E o corno do vizinho continua a arrumar o computador do Baltazar de graça. Acha que assim não precisará construir uma piscina para sua tarada mulher. Tão cedo.

ZP


sexta-feira, 27 de julho de 2007 | 11:32 am

Zé Palminha era louco.

Formado em filosofia, Zé Palminha adotava, desde os áureos tempos de faculdade a singela ideologia diogenesiana. Diógenes, para quem não sabe, fazia tão pouco caso dos confortos dessa vida, que optou por morar em uma grande tina de barro, em um templo de Atenas. Seu ascetismo ostensivo e a indiferença pela crítica alheia ficaram associados à doutrina cínica. ZP assim como Diógenes, era conhecido como cão. Cão porque fazia festa quando lhe davam alguma coisa, rosnava para quem o rejeitasse, cravava os dentes nos crápulas.

E ZP era muito inteligente. Guardava carros em uma pacata rua comercial. Já fora visto com gerentes, diretores, donos de empresas. Ele palpitava, aconselhava e não muito raro dava broncas homéricas nestes homens. E mesmo assim às vezes precisavam marcar hora para poder conversar em paz com o louco. O apelido “Palminha” advinha de sua mania compulsiva de andar batendo palmas. E isso ninguém sabia o porquê.

Com um cabelão rasta, roupas marrons de sujeira e uma barbicha engraçada, faraônica e mal cortada, Zé Palminha era constantemente intimado à almoços informais no quilo do Fernandes, um português bonachão de bigodes majestosos. Era interessante a cena: Alguns homens impecáveis, com suas alvas camisas engomadas, divertindo-se às pampas com um maltrapilho escondido atrás de um prato de saladas diversas. Sim ZP era vegetariano.

Dia desses um importantíssimo advogado de uma dessas empresas da rua de ZP saiu do carro, esbravejando em seu pequenino celular. ZP, que não tinha nada para fazer, acompanhava com os olhos, sentado no muro da esquina, o impaciente homem, que esperava uma brecha entre os carros para poder atravessar a rua. Ele esbravejava ao celular, queria lembrar o nome daquela abordagem psíquica em que se estuda alguma coisa de percepção visual, pensamentos, raciocínio e solução de problemas.

- Gestalt! - Grita Zé Palminha.

O advogado virou rapidamente e meteu-lhe um tiro nas ventas de ZP. Estava assutado, achou que ZP gritou “assalto”.

E o imcompreensível cínico diogenesiano morrera. Pela espada, que fora mais forte que a pena.

OCCHI TRISTI


sexta-feira, 27 de julho de 2007 | 11:19 am

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O PIAZINHO DOS DEDOS A MAIS


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:52 pm

O Xiru era um ranhentinho órfão de pai e mãe, indigente na vida. Morava em uma cidadezinha do interior, chegou ali de carona de uma capital qualquer. O que chamava a atenção nele era o polidactilismo. Seis dedos em cada mão. Ele era muito sagaz. E agressivo.

A vida passou, Xiru cresceu. Virou aviãozinho. Tinha um canela-seca, escafote brilhava no olho. Carregava uma farinha para lá, uns boca-de-ferro pra cá. Deu brecha, rodou com os gambé. Já era conhecido, miliano. O deléga foi fichar, a folha só tinha 5 lugares para digitais de cada mão.

Cortou-lhe os sextos dedos, sem titubear. Xiru era um homem normal, “agora arrumado para a vida” o delegado falou. Não chorou, não gritou e nem fez cara feia. Apenas jurou, em pensamentos, arrancar-lhe os culhões e enfiar-lhe goéla abaixo.

EM UM PONTO QUALQUER


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:49 pm

Aquele terraço de um prédio passado era infinitamente grande. Edifício majestoso, com um imenso e inútil terraço. Ali cabia, eu, meus amigos e nossas conversas regadas a um bom jazz. Blues outras vezes.

O prédio era quase que uma super-república de estudantes. Nossa missão no mundo naquela época era estudar muito, tomar todas, arrumar mulheres devassassas e principalmente burlar a lei.

E sempre que começava a escurecer, lá estava, contemplando o pôr-do-sol, de cadeira de praia, toda a rapaziada. Que programa! A gente podia sempre contar um com o outro, e isso só acontecia porque havia irmandade na ação. Éramos muito desmedidos, não calculávamos as ações e suas consequências.

E sempre tinha coisa diferente acontecendo. Era época do explosão de vendas de aparelhos telefônicos celulares. Com um papel alumínio, alguns códigos malucos digitados e um fio ligando o telefone ao aparelho de som, podíamos rastrear e escutar conversas telefônicas. E em sua maioria, homens conhecendo mulheres de programas.

Outras vezes, lunetas e voyeurismo para vizinhas incautas saindo do banho.

Ríamos muito, de tudo. E bastava apenas um gesto, um som. O humor, do nada passava por cima da gente, e ríamos como retardados. As estrelas eram mais brilhantes, os aviões gigantes passavam mais perto, ali no 25° andar, o nosso andar, nosso terraço.

Tinha vez que gastávamos as economias com fogos de artifício. E quando levávamos algumas amigas loucas para dançarem a noite inteira? Ficávamos vendo, observando seus movimentos, suas expressões. Problema é que ríamos mais do que flertávamos. E isso atrapalhava em muito.

E o terraço se perdeu, um dia. Um de nós passou em um vestibular em outra cidade. Foi embora. E ali a razão do tempo sobre nossas vidas estava se mostrando. A imortalidade, imoralidade e infinidade do terraço definhava em seus últimos risos.

E não houve uma última vez em que nos encontramos lá em cima. Simplesmente ao mesmo tempo, vivendo cada dia de terraço como se fosse o último, nunca mais apaercemos. E isso não foi combinado. Assim crescemos. A vida colocou responsabilidades, as amizades inconseqüentes dispersaram-se. E toda a risada ficou para trás, toda a cumplicidade, o prazer das coisas ilícitas, a fragilidade da intimidade de uma boa e verdadeira amizade, para trás, uma lembrança.

Não houve despedidas. Cada um rumou para seu destino, cada um arrumou sua namorada, seu tom sério. Um morreu, deixando somente bons momentos. Outro, sumiu para a europa. Ficou aquele terraço vazio. Cheio de histórias, verdades e segredos que ninguém contaria melhor do que aqueles sete desocupados do bloco B.

POESIA


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:37 pm

A melhor e mais emocionante poesia que já escrevi na minha breve vida foi em um guardanapo. Caneta tinteira, curvas descendentes de cada letra feita propositadamente com traço mais lento. O sorver do papel fez com que as letras ficassem com um inconfundível estilo retrô, abauladas nas curvas, delgadas nas serifas.

O texto, de levantar a penugem da nuca.

A combinação de desejos, aspirações e devaneios em versos fez a moçoila sair da inércia de sua cômoda rodinha de amigas de um barzinho qualquer para olhar dentro dos meus olhos lascivos. E aquela noite foi extraordinária.

Olhares lascivos por palavras perfeitas ensinaram-me uma coisa vital: anote o telefone da mulher. Se você não for vê-la nunca mais, que pelo menos ela lhe dite o que foi escrito. É cretino isso, eu sei, mas pelo menos vocês saberiam o que me fez ganhar um beijo.

FALANDO DE AMOR (VAI SE FODER!)


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:33 pm

Uma amiga pediu para eu falar para ela o que era o amor. Sei que devem existir milhares de textos sobre este assunto. Gente que amou e falou bem, gente que amou e se quebrou, gente que nem sequer teve uma amostra grátis do amor.

Resolvi mudar um pouco o conceito, só para ver a buia que ia dar.

Amor, antes de tudo, é a sobra da paixão. A paixão faz a gente ficar com cara de tongo.

Depois que a enxurrada da paixão passa, sobra a essência do amor. E o amor nada mais é do que agir com a emoção. E quando você ama, você ofusca a razão, distanciando-se da pureza de Platão.

O amor entorpece a alma.

E o amor tem validade. Não é eterno, e o que sobra é amizade, respeito e intimidade. E quanto mais você conhece a sua pessoa amada, mais o seu amor - que antes era paixão - transforma-se em amizade. E amizade é um sentimento que transcende qualquer outra forma de relacionamento entre duas pessoas. Alguns cientistas até dataram a validade do amor - 7 anos. É a deadline dos coraçõezinhos e das ações e reações químicas em seu corpo.

Acredito que o amor esgota. Meu primeiro amor deixou marcas que nunca irão sarar. Meu segundo, mais marcas, só que amenas. O terceiro, marquinhas. E isso não tem nada a ver com intensidade do relacionamento. Ambos foram relativamente extasiantes.

Um amor, para ser eterno, só precisa de duas coisinhas: ser platônico, para sempre viver a paixão no imáginário perfeito e ser cultuado. Fora disso, a razão vai imperar, cedo ou tarde.

TATETO, O ATENTADO


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:32 pm

O Tateto não tinha nada para fazer. Resolveu visitar o Cabeção, que tinha Odissey e cartucho do Didi na serra pelada.

Apertou a campainha, ninguém atendeu. Pulou o muro e bateu na porta. Ninguém atendeu. Fez meia-volta, ia na casa de outro amigo. Ao pular o muro para fora, achou a chave da casa que o Cabeção sempre escondia embaixo de um tijolo.

Não deu outra: pegou a chave, entrou na casa e começou. Virou todos os quadros de cabeça para baixo, colocou todas as cúpulas de abajures de trás pra frente. Deixou as estatuetas de enfeite de cara para a parede. Ligou o rádio em uma AM de igreja sensacionalista.

Fechou a porta, devolveu a chave embaixo do tijolo e foi embora.

A mãe do Cabeção chegou em casa e surtou. Encontrara abóboras em cima das camas, padres exorcisando capetas no rádio, quadros de cabeça para baixo. Até a estatueta do São Jorge, imponente, olhando para a parede. Chamou Dona Filandrinha, a benzedeira. E benzedeira boa que era, assustou a mãe do Cabeção: disse que era obra de alguma entidade.

E o Tateto, atentado que era, nunca contou para ninguém.

MOROSIDADE E POESIA


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:27 pm

Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer comentários e imagens as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha idéia de os achar belos.

Só não lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos, o não ser doido para que pudesse afastar da alma de todos os que me cercam.

Eu nao me queixo pelo mundo. Não sou pessimista. Sou apenas triste.

MUSICALIDADE


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:26 pm

Uma das pessoas que mais admiro neste mundo é o Nhô Guépe, José ou simplesmente Seu Zé. Um polacão vivido, sagaz e sentimental.

Desde que me lembro, já conhecia aquele sujeito. Ele ficara amigo de meu pai nos áureos tempos de juventude. Acho até que foi minha mãe quem o apresentou. E aprendi com ele a subir em ameixeiras, o que rendeu-me umas das mais fantásticas fotos que tenho de minha infância.

E sabe que o Nhô Guépe é uma daquelas pessoas carismáticas? Ri quando está feliz, chora quando está triste. Nem que seja escondido.

E você não consegue ficar indiferente com suas traquinagens. Ele é poliglota, fala dialetos longíquos, direto dos neologismos que perfeitamente assimilam-se com algum idioma que já se tenha falado em algum lugar da Terra. Assim mesmo, inventa palavras e dá uma risada gostosa, com cara de malandragem mesmo. Mistura seu polaquês puxado em italiano e com um pouquinho da engasgação alemã.

O homem dá inveja ao professor pardal: sabe consertar rádio velho valvulado. Sabe consertar rádio novo transistorizado. Sabe consertar disc-man, guarda-chuva, televisão, radiola, aspirador, video-cassete, microondas, motor de carro velho e brinquedos.

Mas o mimo de suas peripécias é a fabricação de violinos. São verdadeiras obras de arte!

Esculpe cravilhas, afina a madeira pela batida dos nós dos dedos. Trabalha com paciência em cada peça. Dedica toda sua arte aos instrumentos. E sabe tocar. Lança sonoras valsinhas polonesas, clássicos de cordas. Tudo em um impecável instrumento. Ele vende cada um por um salário mínimo. Foi a forma de sempre acompanhar a inflação e não preocupar a cachóla com variações cambiais, desvaloriações do dolar et al. E o que é UM salário? Unzinho. Já vendeu para freiras, italianos turistas, músicos da sinfônica do Paraná. Decoradores que nunca tirarão um acorde da peça.

Gosto muito dele. Ele sabe o que é ser companheiro. E seus amigos gostam muito dele.

Ah, o Zé é meu avô materno.

AMOR CONFUSO


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:15 pm

O amor e paixão não se confundem. O amor possui uma temporalidade mais longa, enquanto que a paixão é imediata. A paixão diz respeito a objetos parciais, como um jeito, um cheiro, um par de pernas. O sujeito apaixonado se expande, e com isso invade o terreno daquele que é objeto de sua paixão. O sentido de alteridade se vê comprometido com a experiência, já que o “eu” e o “outro” se confundem. Nós não temos ciúmes; é ele, este sentimento, que nos tem.

A RUA, DESERTA.


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 2:01 pm

A rua estava deserta.

De paralelepípedos desgastados e polidos, dividindo a cena com majestosos prédios residenciais, uma iluminação amarelada e algumas árvores pingadas. Aquela rua era monótona e simples.

Noite escura, nevoeiro fino, quase garoa. O silêncio fôra quebrado por um melodioso som, esparso, delicado como uma flauta. Toda a atenção de todos os prédios estava voltada para aquela música. Um homem alto, cabelos grisalhos, bigode e costeletonas, passeava despreocupadamente pelo meio da rua. Sua melodia era perfeitamente assoviada. O timbre e a potência de seu assovio era impressionante: ecoava pelas paredes de concreto, despertando a atenção de todos!

E vinham pessoas às janelas. Aquele homem não sabia, mas havia quebrado a velha e cansada rotina daquela rua. Passos despreocupados. A expressão surpreendente no rosto de cada um que prostrava-se para ver o homem passar era a prova definitiva de que aquele gesto havia transcendido a frígida barreira da morosidade.

Ele caminhou até o final da rua. Entrou na padaria. Todos esperavam nas janelas, ansiosos.

O homem saiu em silêncio. Aquele vácuo infinito torturava a todos.

Ele não assoviou nada. Simplesmente começou a cantarolar uma opereta em italiano. Era passos lentos, despreocupados. Sua voz era enebriante. A potência daquele som ecoava pelas paredes de concreto. Ao chegar perto da esquina, alguém começou a aplaudir. Segundos depois, todos que estavam às janelas batiam palmas. O momento era de arrepiar. O homem, parado na esquina estava assustado com o inusitado fato.

Ele não sabia, mas tinha transformado aquele mágico momento em uma das mais singelas lembranças de uma noite extática daquelas pessoas.

ESTAR ALI


quinta-feira, 26 de julho de 2007 | 1:51 pm

A tarde estava quente. O vento, lento e preguiçoso. Sua mente voava livre, acompanhava o suave balançar das paineiras de ilusões e alusões.

Aquele jovem solitário gostaria de estar ali com um alguém que deixasse seu coração em paz. Viver em paz e principalmente viver aquele momento para todo o sempre, sem a volatilidade e medo de perdê-lo no dia seguinte. Só assim a efemeridade do tempo passaria mais devagar, como aquela tarde insossa.

E um alguém naquele momento poderia ser um compartilhamento pleno de silêncio. Dividir a delícia do calmo vento. E o melhor de tudo era não estar nem um pouco preocupado com assuntos sérios, palavras condizentes, decisões arrepiantes.

Um alguém que o deixasse à vontade.

Um alguém que o cuidasse.

Uma namorada, quem sabe.