sábado, 23 de junho de 2007 | 3:27 pm
Desfile oficial de 7 de setembro de 2006, em Brasilia, dia da independência do Brasil.
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sábado, 23 de junho de 2007 | 9:58 am
É dela. É dela o perfume adocicado que achincalhou meus inocentes devaneios como uma música clássica, allegro non troppo, palpitando em minhas ventas.
Estávamos ambos parados, na praça central. Minha casa era a terceira, amarela das portas brancas. A praça sempre foi minha, por direito. E por vontade pessoal, o que não exime meus achismos inúteis. Ela fitava algumas crianças a brincar. Seu olhar era vago e gostoso. Deveria estar esperando alguém. Eu simplesmente observava aquela mulher. Culpa do vendo, fique claro: contrário à ela, favorável à mim, trouxe-me as frutadas notas adocicadas ao meu narigão.
Ela se aproximou, perguntou as horas. Oi, tudo bem? Respondi. Ela sorriu. Um sorriso daqueles significava um “tudo bem” todos os dias, acredite. Só podia ser. E você, como vai? Ah, se ela deixasse eu dizer a verdade, falaria a plenos pulmões o que aquele sorriso momentâneo representava para mim. Mas era apenas uma saudação casual, um simples pedido de horas de uma desconhecida, apesar de vir precedida de um sorriso e de uma leveza descomunal.
Disse as horas. Emendei um elogio fajuto ao extremo: disse que seu sorriso era bonito, que seu cabelo dançava deliciosamente com a brisa gelada, que seus olhos eram magnificos-intrigantes. Enquanto conversávamos, um jazz leve tocava em minha cabeça. Ah, isso é um dom! Quiçá com um volume tão alto que ela até poderia ouvir. Sorriu e agradeceu-me as sentimentalidades.
Ana Claudia, ela disse. Percebi que ela perdeu fôlego ao sussurrar seu nome. Um olhar
Quando escutei seu nome, tudo girou em uma velocidade estonteante. Eram fatos antigos, lembranças, adolescência e descobertas. Rápido, rápido. Aquela mulher à minha frente fôra uma antiga namorada de colégio. Não pode ser!
Disse-lhe meu nome. Sua expressão também a deixou surpresa. Crescemos, sumimos daquela cidade, cada um construiu um pequeno começo de futuro. Éramos apenas adolescentes. Eu amei aquela mulher no passado. Ah não, era o primeiro amor inesquecível!
Eu toquei em seu rosto. Ela acariciou a minha minguada e escanholada barba. Entendeu e me abraçou. Eu precisava dela mais do que tudo. Não, precisei, não preciso mais. Ah sentimentalidades! Confundem-me e gargalham. Aproximamo-nos, olhamo-nos olhos nos olhos. Por um longo espaço temporal.
Afastou-se. A música em minha cabeça parou. Disse estar casada, teve uma filha “aquela com roupa rosa”. Despediu-se. Eu disse que entendia e que iria embora, com um compromisso inventado de imediato. Era a razão, como sempre.
Aquele abraço deixou resquícios de um doce perfume maravilhoso. Fez-me crescer um fino sorriso pelo rosto.
No caminho desconexo ao compromisso imaginário, entendi como a vida prega-nos peças. Minha vida mudou naquele momento. Coisa boba, pensei. Mas logo notei que troco a roupagem dos meus sentimentos a cada encontro ou desencontro vivencial. Imagina quantos desavisados — sortudos — que se apaixonam subitamente por uma mesma pessoa, duas vezes, existem nesse mundo? Blasfemo a sorte. Sorte? Nunca existiu. Isso são pequeninos milagres vivenciais que recebemos diariamente, e que nunca percebemos ao certo, que de fato, existem.
Cantarolei a música que tocava no rádio do carro. Era o único final feliz encontrado.