MadCap.com.br é um blog pessoal. Um site onde pensamentos, fotografias, histórias, ilustrações ou qualquer outra coisa sem sentido é postada em uma forma cronológica. Só isso já explica tudo.
A Chapada Imperial é o parque ecológico (leia: cachoeiras, trilhas e animais silvestres) mais seguro e próximo do plano piloto de Brasilia. Organizado — quase que para gringo ver — tem guias e infra-estrutura acima da média da região. O Victor também acompanhou a expedição e lançou fotogramas em seu flickr.
Este é o Mini-circo Plim-Plim, o menor circo do mundo. Tem 4 personagens principais, meio picadeiro com espaço para bons 40 espectadores e ingresso à litro de diesel.
Segunda-feira reparei em uma pequena lona ao lado de um ônibus todo pintado, em plena esplanada. “Coisa estranha, muito pequeno para um circo”, pensei. Fui investigar para ver o que era e voilá! O menor circo do mundo, realmente!
O circo tem uma lona que abriga bem uns quarenta metros quadrados, encostado na lateral de um ônibus-residência onde o picadeiro escora-se como parede. Uma arquibancada para 25 pessoas mais 15 cadeiras completam toda a estrutura. Dentro do ônibus moram 7 pessoas: José Carlos (palhaço Plim-Plim) e sua mulher Lucicleide, suas duas filhas, Welinton (palhaço Trapizomba), Felipe (Caboclo de Lança — folclore do maracatu) e Daniel, o rapaz do maior peão do mundo.
O show do circo é um espetáculo diferenciado: uma mistura de talk-show com folclore pernambucano. Marionetes, fantoches, danças e músicas locais emboladas com piadas, palhaçadas, um pouco de humor inglês e muita expontaneidade.
A estratégia básica do circo é simples: Todo equipamento e estrutura externa cabem em cima do ônibus. Temporadas curtíssimas em cidades, coisa de 3 dias apenas. Ingressos à R$2. Uma galinha vale 4 entradas. Escambos por espetáculos. Mambembe puro.
O problema é que o ônibus, velho de guerra dos anos 70, está completamente acabado. Da parte mecânica, elétrica e habitável, tudo está em estado crítico. E aí que entra o sonho do Plim-Plim: ele quer levar o ônibus para o programa global do Luciano Huck, o Lata Velha. Sua força de vontade e persistência é tão grande que daqui uns meses tenho certeza que vou ver aquele ônibus velho chegando em Brasília com um grafismo e estrutura renovada. O plano dele é simples e efetívo: saiu de Carpina-PE, cidade-base e, pingando de cidade em cidade, pretende chegar em São Paulo ainda em janeiro para cutucar os organizadores.
Participamos do aniversário da filha do Plim-Plim, de 4 anos. Nasceu no circo. A festa contou com poetas, palhaçadas, músicas regionais, discursos e uma familiaridade que há tempos não via. Artistas desprendidos de quaisquer entraves, munidos apenas de alegria, sonhos e muita persistência.
O vídeo abaixo é uma amostra das atrações internacionais que fazem parte do circo. Daniel, que tem fluência em grego e inglês bretão, canta alguns sucessos:
As fotos a seguir estão divididas em duas apresentações: A minha, logo abaixo, e a do Victor — rapaz que continua acreditando na minha conversa fiada de boas locações fotográficas — na seqüência.
O Manual de auto-defesa para o intelectual obtuso brasileiro é uma releitura atualizada do primeiro guia — então publicado originalmente no finado blog em 20 de dezembro de 2002. Desde então, recebemos inúmeros telefonemas e cartas de angustiados intelectuais modernos.
O questionamento, todavia, é uníssono: como deve o indivíduo cult e up-to-dated proteger-se contra horda de hunos que tenta reduzir as dimensões do reino de seu ego e usurpar seu trono em reuniões sociais, happenings e até em redes sociais da teia global, pondo à prova a ciência desses vates a cada minuto?
Com isso em mente, o MadCap reedita gratuitamente para os seus associados e populares, uma espécie de instruções safas, em fasículos reescritos e modernizados. Aqui, o interessado poderá encontrar artifícios que o ajudarão a demarcar seu território, e a se destacar no mais hostis e inóspitos sarais vivenciais.
Sempre discorde em relação à apreciação da obra consagrada de qualquer autor, isto é, mostre sempre preferência por outra obra (de preferência menor, mais obscura), utilizando-se de adjetivos e expressões contumazes nesse tipo de crítica.
— “Laranja Mecânica” é, com certeza, sua obra-prima…
— Não acho, realmente. Prefiro “Dr. Strangelove”, um filme bem mais orgânico…
— Ah, “O Vermelho e o Negro”! Stendhal não poderia ter sido mais feliz!
— Já leu “Armance”? É uma obra muito mais visceral, de uma força dramática quase cruel…
Emita sempre opiniões definitivas, ou seja, transforme suas impressões em conceitos insofismáveis. Não dê qualquer motivo formal, a não ser sua subjetividade. Exagere, desmunheque se for preciso.
— O “OK Computer” é o álbum da década de noventa! Um marco na história da música moderna. É tudo na vida de uma pessoa!
— Glauber é Glauber!
Elogie figuras controversas ou idéias polêmicas, no intuito de mostrar que você tem uma personalidade forte e é um livre-pensador sem preconceitos (evite Hitler, por demais fácil). O lance é causar celeuma.
— Carlos, o Chacal foi o maior gênio do século XX: uma figura a servir de exemplo.
— A teoria de Malthus é esplêndida e seus conceitos, admiráveis.
Da mesma forma, diminua elegantemente a importância de artífices consagrados.
— Borges é repetitivo, seus textos são maçantes e de um estilo insuportavelmente barroco.
Cultive hábitos pouco ortodoxos e tente tornar-se conhecido através deles, transformando-os em uma “marca pessoal”. Ademais, eleja preferências obscuras, descartando-as ao primeiro sinal de conhecimento por parte das “massas”.
— Na segunda-feira gosto de ir à praia jogar paciência, acompanhado de uma garrafa de cidra Cereser.. É coisa minha mesmo…
— Tenho todos os discos da banda islandesa “Flying Pimp”…
— Sério? Eu amo essa banda também!
— Bem, na realidade não gosto muito, acho simplório. Esses discos são de uma fase minha que prefiro esquecer…
Nesse espírito, seja nebuloso e reticente em relação às fontes do seu acervo. Jamais revele informações que possam popularizar aquele “material exclusivo”.
— Cara, onde você conseguiu esse livro do Chomsky?
— Ah, ganhei de uma amiga aí, mas nem curto muito, e tal…
Mesmo que não conheça em absoluto o assunto tratado, insira filigranas pouco importantes, todavia curiosas, extraídas de resenhas, matérias de revista, programas de televisão, etc. Exercite a memória.
— … Isso fala mais ao pensamento de Nietzsche.
— Sim, sim. Podre-diabo, ficou louco ao ver um cavalo sendo morto em Turim, e assim permaneceu até o fim da vida…
— … e esse foi o real motivo geopolítico da detonação das bombas em Hiroshima e Nagasaki.
— De fato. Tudo isso culmina com o Enola Gay (que era o nome do avião) despejando o Little Boy(nome dado à bomba) sobre as cabeças daqueles infelizes, Ou então o BockScar (outro b-29) que evadiu-se com a Fat Man (a outra bomba) em queda…
Nunca, jamais, admita um erro. Sempre que isso acontecer e houver algum cretino para corrigí-lo, cite uma referência que não poderá ser checada no momento e afaste a responsabilidade do erro de si. É famoso o expediente do “Há controvérsias…”
— Com o início da guerra em 1935…
— Em 1940, você quer dizer.
— Não, 1935 mesmo. Essa é a data considerada pelo historiador Eric Hobsbawm como o início do período beligerante e…
Adote uma atitude “sex sucks”. Demonstre dar pouco valor ao amor carnal e execre a pornografia. Se tiver de tomar alguma posição, tenda sempre a um homossexualismo velado, atitude considerada cool nos meios acadêmicos. Vale associar a essa imagem um ar deprimido, constituindo a modalidade “gay triste”, igualmente apreciada. Cite, sempre que possível, Oscar Wilde.
Nunca se refira aos seus ídolos pelos dois nomes, o que torna a citação algo forçada. Prefira uma suposta intimidade e aproximação geradas pelo uso do apelido ou apenas um dos nomes artísticos (amiúde o primeiro, no caso de personalidades nacionais, e o segundo para o pessoal de fora). Assim temos: o Chico, o Caetano, o Raul, o Glauber e a Gal; e o Warhol, o Whitman, o Kipling, etc.
— A Clarice (Lispector) mostra profundas influências do Joyce (, James)
Sempre que possível, cite o nome das obras em sua língua original. Você não precisa dominar o idioma, apenas pergunte a alguém que o faça e treine bastante em casa. Coringas de bom grado: L’Etranger (O Estrangeiro), Der Prozess (O Processo), Preštupleine ï Nakåzanie (Crime e Castigo), Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray)
Seja pós-moderno. Comece por preferir coisas atuais aos clássicos embolorados. Sempre que possível escolha as versões novas ou revisitadas, também chamadas releituras (decorar esse termo), de obras antigas.
— É claro que prefiro a versão minimalista de Hamlet do Peter Brook! A do Shakespeare é deveras naïve…
O bom intelectual está sempre à frente. Tudo seu é mais e melhor. Assim, opta sempre por movimentos e expressões artísticas precedidos por “neo-” e “pós-”. Não importa o quão recente seja o ‘oba-oba’, o simples uso dessa técnica propicia sua superação imediata e a colocação no plano do passado antiqüíssimo. Mais: use termos superlativos antes do nome, o que tende a aumentar o hermetismo e, de quebra, melhorar a sonoridade.
— …superior a De Kooning?
— Sim, falo da descoberta do neo-expressionismo e a transvanguarda na década de 80.
— Não sei se considero isso pós-moderno…
— O quê?! O hiper-realismo desses filmes suscita ambivalências ultra-passionais.
Você não tem que necessariamente gostar das coisas que idolatra publicamente. Como já foi explanado nos tópicos iniciais, suas preferências devem ser guiadas por fatores como obscuridade, capacidade de gerar polêmica, efeito dramático, etc. Não havendo, igualmente, necessidade de entender as obras por completo…Para ser franco, você não precisa nem conhecer essas coisas!
— “Finnegan’s wake” é meu livro de cabeceira…
— Gostas de música atonal?
— Se gosto? Ouço Stockhausen diariamente enquanto escrevo minhas resenhas para o jornal…
Compareça aos seletos círculos culturais. Mas não faça amizades íntimas (nunca empreste livros), vá apenas para sondar, sacar o que o “pessoal” anda lendo e fazendo. Mantenha sempre o ar circunspecto e o laconismo dos grandes gênios. Compareça também (mesmo sem ser convidado) às rodas de artistas. Mantenha a quietude até ser solicitada, por educação, sua opinião a respeito do trabalho do grupo. Nesse momento, não hesite em ser cruel e pedante nas críticas. Continue firmemente até ser expulso ou vaiado.
Tenha sempre à manga empreendimentos fictícios com os quais esteja supostamente envolvido. Use-os quando não estiver fazendo nada de especial (o que não é raro), para mostrar-se sempre na ativa. Apresente-se comumente com o cenho franzido, como se tivesse alguma preocupação insuportável; saque sempre seu bloquinho de notas e escreva qualquer coisa nele.
— Está ocupado no momento?
— Nada demais, estou trabalhando de freela* pra uma editora holandesa que quer publicar uma biografia sobre Eckhout.
— Que está escrevendo aí?
— Nada, não…coisas minhas (guardando o bloquinho). Uma idéia que tive pra colocar no meu ensaio sobre os erros conceituais de Leibniz…
(*) “freela” é corruptela do anglicismo “freelancer”
Durante sessões de cinema, teatro ou recitais, mantenha atenção constante, ar meditativo e posição corporal adequada. Nunca ria de situações constrangedoras (principalmente do teatro). Guarde o riso para as piadas mais sofisticadas, quando a maioria dos expectadores se mantém calada. Não esqueça do cenho franzido!
Escolha uma dessas posições ao sentar:
Ângulo agudo entre o plano do corpo e o plano das pernas (sinal de interesse), polegar da mão direita sob o mento, indicador sobre os lábios.A mão esquerda repousa sobre coxa esquerda.
Pernas cruzadas. A cabeça repousa sobre os dedos da mão direita em L (indicador sobre a lateral da face direita e polegar sob a maxila inferior). Braço esquerdo sobre descanso da cadeira.
Em sites de redes sociais modernas, onde seu ego será moldado de acordo com gostos e normas pessoais, a forma de expressão mais segura e redomática é a da imposição pelo desconhecido.
Campos pessoais íntimos são ignorados.
Você não terá sentimentos.
Descritivos como “Quem sou eu:” deve, por obrigação, suprimir qualquer informação relevante sobre você. Jogue com aspectos importantes em campos delicados: “Filhos: vários. (Varie: ‘alguns’, ‘não tenho idéia’)”. Ignore “Idioma:”, uma vez que não existe peso social algum. Seja cínico na “Religião:” Nada de “tenho um lado espiritual independente de religiões”. “Humor:”, seco e rude. “Visão politica:” pede extremismo.
Atenção aos campos em que os hunos te trucidarão: Livros, cinema, culinária, programas de TV e música. Escreva títulos no idioma original, sempre que puder, conforme a cláusula “11″ deste manual.
Curingas para filmes de cinema: Sommaren med Monika, Ansiktet, Persona, Sason I em spegel, Satyricon, Saló, Pierrot le Fou, Tristana, L’age d’or, A idade da Terra, Terra em Transe, Barravento, Habla con ella, Hiroshima Mon Amour, Citzen Kane; Aurora; Deus e o Diabo na Terra do Sol; Amarcord; Acossado; Vidas Secas; Cinema Paradiso; Monella; Volver; Koyanisqatsy; Trois Couleurs: Rouge, Bleu, Blanc; Metrópolis.
Curingas para livros: Grande Gatsby (Fitzgerald); Demian (Hesse); 1984 (Orwell); No Caminho de Swann, Em busca do tempo perdido (ambos de Proust); Crime e Castigo, Os Irmaos Karamazov, O Idiota (ambos de Dostoiévski); O vermelho e o negro (Stendhal); Marcas da alma (Gafni); A montanha mágica (Mann); Tempos interessantes (Hobsbawn); O segredo das colinas eternas (Cahil); A aldeia aérea, Três russos e três ingleses (Verne); A Ideologia Alemã (Marx & Engels); Huckleberry Finn, Tom Sawyer, O Príncipe e o Mendigo (ambos de Twain); O Cão dos Baskervilles (Doyle); O Desespero Humano (Kierkegaard); As fores do mal (Baudelaire); Grandes Esperanças (Dickens); Histórias Extraordinárias (Allan Poe); A Letra Escarlate (Hawthorne); O Lobo do Mar (London); Memorial de Aires (Assis); Miséria da Filosofia (Marx); O Morro dos Ventos Uivantes (Brontë); Matafísica do Amor (Schopenhauer); Noite na Taverna (Azevedo); Orgulho e Preconceito (Austen); Para Além do Bem e do Mal (Nietzsche); Primo Basílio (Queiros); Sonetos (Bocage); Tartufo (Molière); A Utopia (More).
Apresentamos aqui mais uma mãozinha para os cultivados leitores destas esquivas linhas. São títulos que podem ser utilizados indiscriminadamente, para um sem-número de resenhas, críticas, ensaios, artigos, notas, diatribes, apologias e correlatos, em cadernos culturais, revistas alternativas, suplementos especiais et cetera:
“Vestígios do real” “A inovação do improviso” “O canibalismo da consagração” “Relações Vacilantes” “Elogio da pureza” “A geografia do sublime” “A outra luz da realidade” “Registros do efêmero” “A arte na crise” “Além da forma” “A fagocitação efêmera” “O sincronismo dúbio” “Predator autófago” “Síncope elitista” “Profícuo mentalizador” “Vanguardista” “A celebração da…” “Dicotomia de valores” “Vã conceitualista” “Beligerante”
Outrossim, e mais à mão, o escritor mais prático pode valer-se da combinação aleatória da pequena tabela que se segue:
Chegou a hora camarada! E graças ao seu esforço e seu sucesso profissional, pela primeira vez na vida você viajará de avião. Fantástico! No entanto, imprima este guia anti-jequice e siga rigorosamente todos os passos para não pagar de caipira ao alçar vôo pela primeira vez!
Uma metade minha anda feliz. Com sapatos que brilham e refletem a vida em uma angular distorcida. Longe de mim e feliz.
Outra metade, contemporiza de um lado. Bebe um vermute e fuma cigarrilha de folha de parreira.
A terceira metade, essa sim, insiste na regra dos terços: não toma partido; não se mete nessa de bipolaridade existencial. Insiste que comiseração e auto-piedade não vão servir de ajuda. Culpa a felicidade — tal e qual uma borboleta filha da puta — que sempre se evade de quem a busca com assombro.
E por mais que esse terço realista espere e saiba do vôo errôneo do inseto, ela não pousará no seu ombro.
Dia de circo é sempre diferente. Pelo menos quando você consegue acompanhar a rotina e o dia-a-dia dos artistas fora do palco. Um ensaio fotográfico pelo circo Castelli e pelo circo Íncaros, temporariamente apresentando-se juntos.
Quarta feira, 18h. Duas horas antes do único espetáculo do dia. Nada de camarins de espelhos carregados de lâmpadas. Nenhuma cerimônia de preparação e concentração total. Ninguém correndo para cima ou para baixo na eterna falta de tempo mundana.
O que você encontra em um circo às 18h são pessoas tranquilas e alegres. “Que horas vocês começam a se arrumar?” “Ah, o espetáculo é só as oito. Sete e meia a gente começa.”
Sobrou tempo para um passeio por todos os traillers dos artistas. “Mas vocês vão tirar foto para quê” “Apenas por hobby, sem compromisso.” E assim todos se espantavam com nosso projeto despretensioso de fotografia.
Quer saber o que foi mais interessante nessa incursão toda? A timidez que cercou todos que mirávamos as lentes. Artistas no palco, pessoas comuns fora. Palhaço Barriquinha, o anão-inventor que trabalhou com o Palhaço Carequinha e que tem 12 filhos — todos trabalhando ou morando no circo — desconfia. “Mas eu me arrumo aqui na escadinha do trailler…” E ele senta com um espelho retrovisor de carro em uma das mãos, tinta à óleo de bisnaga na outra mão.
Conhecemos malabaristas, trapezistas, contorcionistas, mágicos. Um mundo novo em cada conversa, uma realidade em cada sorriso, a tristeza em cada desabafo.
“Oito horas! vamos lá!” E todo mundo começou um ritual único e pessoal de transformação dos maiores artistas da terra, naquele espaço.
Alguns ensaiam nos bastidores enquanto o locutor dá o ritmo do show. Outros gritavam: “Ei, minha apresentação, depois conversamos!” E lá descambavam picadeiro adentro.
O show acabou, o público foi embora e alguns continuavam no picadeiro, treinando e ensaiando.
Voltamos domingo, com as fotos reveladas. Olhares de surpresa em cada olhar que se reconhecia. “Dá essa para mim?” “Quero um álbum desses inteiro!” “Pô, quero essas fotos!”.
Aprendemos algumas coisas básicas nisso tudo: Muita gente não gosta de fotos em preto-e-branco. Outras, não entendem ângulos diferentes do usual. Talvez seja a simplicidade deles, que exija isso da vida, vai saber.
Passamos a tarde inteira por lá. O espetáculo, com três sessões corridas pedia maquiagens mais pesadas e solidificadas. Conseguimos conquistar a confiança, as conversas fluíram melhor, todo mundo conversou abertamente conosco. Entrávamos e saíamos da tenda, entre apresentaçõs com uma liberdade sem igual. As crianças nos perseguiam, faziam macaquices para sair nas fotos. Tudo com uma naturalidade impressionante.
As fotos a seguir estão divididas em duas apresentações: A minha, logo abaixo, e a do Victor — rapaz que acredita na minha conversa fiada de boas locações fotográficas — na seqüência.
Olha só que ironia existencialista esta que me encontro: tenho um blog e desenvolvi uma repulsa por escrever pessoalidades do meu cotidiano. E olha que isso não é coisa nova! Desde do malogrado Opio eu sentia dificuldades no relato singular da minha primeira pessoa.
A diferença é que tudo aqui virou ensaios corriqueiros sobre sentimentalismos. Se estou triste, já aparece um texto sobre a menina neo-malthusiana que encontrou uma dracma em um finord holandês. Se estou alegre, uma ilustração antiga sobre a procrastinação do amor-não-revelado do amigo do R.Valentino surge.
Bom, uma coisa que tive que aprender a gostar, muito à contragosto: Feed RSS. Ô desgraça isso! Ninguém mais acessa mais esta página. Por um lado é bom pacas, pois economiza banda. Por outro, ruim pra cacete: dos quatro leitores que deixavam comentários, os quatro sumiram. Esqueceram que existe feedback literal.
Bom, novembro foi meio parado nos posts, mas não no site. Acompanhe comigo uma coisa: ali na barra esquerda, temos 3 belíssimos papéis de parede. Nah, não é isso. Ali no Yadda Yadda, apareceu um monte de links. “Publicidade” e algumas décadas. É isso que está comendo 97,3% do meu tempo livre capitalista. Um projeto sobre campanhas publicitárias antigas. Um pouco melhor estruturado e direto. Mais uns dias e tudo estará pronto.
O MadCap foi indicado ao 5º Prêmio Spoiler de Cinema e Blogs nas categorias de Melhor Direção de Arte & Templates e Melhor Edição de Imagens & Som. Vão lá e votem no MadCap, nas enquetes da barra laranja!
E assim meu mundo vai saracoteando atrás das barangas de calçada da internet. Aguardem mais, do front.
Encontrei uma carta das bordas ibéricas listradas dentro de um velho livro de cabotagem basca.
A letra forte, carrancuda e cheia de tensão nas ascendentes era de Florita Nuñes Cabezapretta, uma jovem dama compostela canhota. Adressava à Giancarlo V. Sólo e lacrada à sinete. Bem na infeliz época em que ele resolveu percorrer a malograda trilha de Santiago, e que voltou em uma desacerbada carreira, não querendo comentar nada.
O que aconteceu na época não foi nada agradável, pelo que li na missiva. A história é bem lógica e calculada e, se eu não conhecece meu irmão, diria se tratar de uma cena tragicômica perfeitamente inventada.
É claro que peguei Giancarlo pelos gargumilhos e ele se rendeu de bom grado “Já se passaram quase 20 anos, camarada. Pois vou te contar o que se sucedeu”.
Era uma noite qualquer de esbórnia em uma dessas pequeninas cidades de rota peregrina, Giancarlo acabou se engraçando com uma catalã muito inquieta. Tudo começou na taberna da pequena albergaria da qual seus pais eram donos. Ela era uma espécie de relações-públicas do estabelecimento, o que focou a atenção imediata de Giancarlo. Embalados por uma sangria pra lá de enebriante, os dois caíram em desejos carnais na sala particular da charutaria do pai da moçoila, ali mesmo, em cima do carpete floral em frente da lareira flamejante.
A fogosa libertina era escandalosa demais e, apesar da despreocupação do casalzinho, o patriarca desconfiado veio conferir a fuzarca no recinto, encontrando a filha descabelada das bochechas rubras e Giancarlo, polaco queimado, que de súbito prostou-se em guarda-defesa como um jaguar que salta assustado.
O velho colerizou na hora: puxou da chapeleira um florete desembanhado e pôs a honra perdida da guria na ponta da esgrima. Mesmo em tensão absorta, Giancarlo de nada reagiu. Pelado em frente a lareira, e apenas segurando a calçolona da moça em frente de suas vergonhas, não achava alternativa viável para o entendimento. O homem não demorou nem meio segundo e fez zunir aquela lâmina brilhosa pela guarda do flertista. Giancarlo deu mais um pulo, agora para trás do sofá e saiu em disparada para a adega. Foi o tempo de encontrar algumas garrafas de prosseccos e chapagnes. Não titubeou, agarrou una bottela de Taittinger-Millésime’63, chacoalhou ao extremo, arrancou-lhe os anilhos metálicos de rolha, fez mira de assalto e espocou o projétil. O petardo foi tão bem feito que o rolhame pegou de cheio o olho direito do velho, prostrando-o de joelhos, com o florete caído, as duas mãos nos olhos e urros de dor.
A peleja cessou em um quarto de minuto, tempo de Giancarlo calçar as botas, pegar sua mochileta de peregrino, seu cajado de raíz de nogueira, de roubar um beijo lascivo da donzela que chorava pranto lavado.
Sumiu na escuridão em trote de fuga, pelado, de botas e mochila.
A tal carta alcança-o em Viscarret. Nota-se que à Giancarlo fôra atribuída a má índole dos mouros cruzadistas, aqui descrita como franjs – do persa, “cruzado” ou “levantino”.
(…) E te odio porque és como los franjies, incógnito impúdico y lascivo, que cohabita con las mujeres, sin distinción de estado ni edad, efectuando el coito, o concúbito, con ellas sin importarles que sean viejas repelentes o jóvenes bellisimas, y sin conceder ningún valor al hecho de que sean solteras, casadas o viudas; (…)
Apesar de toda a ira história postulada na carta, Florita desnuda seu coração por segundos, finalizando a redação com uma ponta de esperanças.
(…) Un día, todavía espero para encontrarle, ojos en los ojos. Ver otra vez la cara del hombre que deflorated me con una energía persuasiva genuina y con un ecstasy de la pasión que hasta hoy nunca percibí en otrorem.
Regards de Florita.
E assim descubro que não sou o único abilolado na família.
O bonobo (Pan paniscus) é um chimpanzé muito espertão. Famoso por sua inversabilidade dinâmica de valores, este esguio primata caracteriza-se por manter uma complexa cadeia social aparente.
Apesar da vida silvícola intensa, o bonobo faz questão de trajar rebuscadas griffs — incluindo-se nessa lombarda os acessórios, bengos e traquitanas tecno-piscapiscantes de próxima geração, direto da feira de importados.
De cabeça escaraminholada, poucos tufos capilares e um pescoço curtinho e encorpado, ternos cortados dão os melhores caimentos. Alguns, mesmo assim, preferem modismos estrangeiros e referências rappers yankees, dos bonets de abas retas e mal-assentados e camisetines de ligas esportivas ádvenas.
A peculiaridade maior dos bonobos do cerrado é justamente a ironia social: quanto mais escalonado na margem da ostentação física e situacional, maior é seu grau de pobreza material no ecótone-comum.
Tudo perfeitamente percebivel nos shopping-centers, onde os disparates são mais sutis e os olhares-cruzados, esnobes-fuzilantes.